sábado, 5 de abril de 2014

Lutamos para manter vivos, no interior, espaços de encontro com os livros, com os autores, espaços de debate em torno da literatura e da cultura em geral...


E de Trás-os-Montes e Alto Douro continua a vir um exemplo que nos dá alento e muita esperança. De uma região onde já se realizaram três Encontros Livreiros regionais, veio uma delegação composta pelos livreiros Vírgínia do Carmo, da Poética (Macedo de Cavaleiros), e António Alberto Alves, da Traga-Mundos (Vila Real). Em representação das suas livrarias e também das gentes do livro que participaram recentemente no III Encontro Livreiro de TMAD, falaram-nos das suas experiências e leram o texto que agora publicamos.


Antes de mais, louvar a iniciativa… 

Numa altura em que, perante tanta informação desarrumada e desalinhada da realidade, temos paradoxalmente, cada vez mais, uma sociedade “desinformada” e alheada da verdade das coisas que regem efectivamente a sua vida, é importante que se criem movimentos destinados, precisamente, ao esclarecimento, e que incentivem o crescimento de uma outra visão mais genuína das coisas. É urgente uma espécie de “iluminismo” que desperte as mentes distraídas para outros critérios que não os que insistem em servir-nos em pratos dourados promocionais. Como se hoje em dia tudo pudesse ser objecto de promoção e vender-se em saldo. Nós acreditamos que nem tudo. E acreditamos que há valores para além dos economicistas a serem preservados. Por isso lutamos pela manutenção deste conceito de livraria “tradicional”, um conceito que pode até deixar na boca um estranho travo a conservadorismo quando se verbaliza, mas acreditem, nós, os que estamos aqui hoje vindos de Trás-os-Montes, somos tudo menos conservadores. Devereis entender porquê. Lutamos para manter vivos, no interior, espaços de encontro com os livros, com os autores, espaços de debate em torno da literatura e da cultura em geral, quando este país insiste na imagem falsa e oca de que só no litoral acontecem as coisas importantes a esse nível. Arriscamos a nossa sobrevivência - e acreditem…. arriscamos mesmo… - em função de algo que encaramos quase como um missão. Não baixamos os braços… lutamos e lutamos…. procuramos caminhos de sustentabilidade, alternativas que nos permitam persistir na materialização do sonho sem perder o sentido prático da vida. 

Daí que encaremos este nosso cruzar de percursos com o Encontro Livreiro como muito feliz. Foi uma oportunidade para coisas que só podem fazer-nos crescer: sinergias, partilha de experiências, conhecimento de outras realidades e respectivas aprendizagens. E é isso que estamos também a tentar reproduzir à nossa escala regional. 

Nesse sentido a Traga Mundos, que teve o primeiro contacto com o Encontro Livreiro e a generosa iniciativa de o fazer chegar aos restantes, promoveu um primeiro encontro em Vila Real, em Março de 2013. Nessa altura foi feito um esforço no sentido de chamar a participar o máximo de livrarias possível. Foi a primeira oportunidade de debate em tornos das preocupações comuns e das sinergias possíveis para uma melhor estratégia de afirmação das livrarias ditas “tradicionais”. Ficou clara a vontade de encontrar pontos de convergência, nomeadamente ao nível “da partilha de novidades editoriais de cada concelho, da cooperação na apresentação de livros de autores na região e da permuta de informação sobre eventos que cada uma realiza na sua região.” 

Em Junho de 2013 novo encontro teve lugar na Poética, em Macedo de Cavaleiros, para pensar e repensar estratégias para o futuro. Voltou a insistir-se no reforço das sinergias entre as livrarias com o propósito de dar mais voz mas também de encontrar formas alternativas e concertadas de viabilização económica deste sector numa dimensão regional. 

E por fim um terceiro encontro reuniu-nos em Bragança, na Livraria Rosa d’Ouro, num evento aberto a toda a comunidade em que a excelente organização daquela livraria brigantina congregou, para além dos sete livreiros presentes, a saber, Casimiro Fernandes & Família, da Rosa d’Ouro, e Carlos Prada de Oliveira, da Livraria Benquerença, de Bragança; Virgínia do Carmo, da Poética – livros, arte e eventos, de Macedo de Cavaleiros; António Alberto Alves, da Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisa do Douro, e Alfredo Branco, da Livraria Papelaria Branco, de Vila Real; Ari Oliveira, da Papelaria Dinis, de Valpaços; e Augusto Dias, da Livraria Aguiarense, de Vila Pouca de Aguiar, congregou também, dizíamos, editores, autores, professores, bibliotecários, jornalistas e, sobretudo, muitos LEITORES, numa “partilha de momentos de conversas e afectos, ideias e louvores, poesia e leituras, inquietações e sonhos”. 

Na sequência deste encontro inclusivo teve uma reunião mais restrita em que os livreiros mais uma vez se centraram nos objectivos e na estratégia futura no sentido de dar um impulso maior a este movimento. 

Da partilha de ideias, algumas das quais sublinhadas pelos contributos que foram sendo dados por todos os participantes (não livreiros) no período anterior do Encontro, emergiram as várias propostas, sugestões e compromissos: 

— o reforço dos objectivos assumidos aquando do II Encontro, e ainda não plenamente cumpridos, a saber, a partilha de informação relativa a novidades editoriais e actividades em agenda, e organização conjunta de eventos; ficou claro que já alguma já foi feita a este nível, nomeadamente com a vinda do autor Miguel Carvalho a três destas livrarias, mas mais há para ser pensado e feito; 

— a possibilidade de realização conjunta de uma “feira” do livro; 

— um maior envolvimento dos próprios leitores neste movimento, tendo sido colocada a hipótese dos leitores virem a ser o tema central do próximo encontro livreiro de TMAD, num abordagem a estudar; 

— empreender esforços no sentido da projecção dos autores nascidos na nossa região para lá das fronteiras da mesma em articulação e colaboração com as editoras dos respectivos autores; 

— a cooperação na divulgação dos autores locais, de cada concelho; 

— realização, em Agosto de uma montra de autores transmontanos simultânea em todas as livrarias da região que venham a aderir à iniciativa, em articulação com os respectivas editoras. 

Este foi um encontro motivador na medida em que deixou clara uma premissa que continuará a ser uma das bases de argumentação desta nossa causa: as livrarias “tradicionais” têm um papel insubstituível na aproximação das comunidades à cultura e aos livros, e também na divulgação e promoção das pequenas editoras e dos seus autores. 

Virgínia do Carmo | António Alberto Alves
(em representação do Encontro Livreiro de TMAD)

V Encontro Livreiro, Livraria Culsete, Setúbal, 30 de Março de 2014

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