quinta-feira, 3 de abril de 2014

«Se o ciclo do livro está uma baralhada, a parte final é uma tourada»




Texto escrito para leitura no V Encontro Livreiro, em Setúbal, o que aconteceu no passado domingo, dia 30 de Março, foi já considerado aqui como uma «divertida e irreverente paródia, uma metáfora inteligente sobre o momento presente.» Passemos à leitura, se bem que nos falte agora a voz e o saber dizer do Joaquim, o Livreiro de Sines, para a transformar num momento único, de uma beleza irrepetível, que apenas quem esteve na Culsete pôde testemunhar e sentir. 


Por isso mesmo e pelo título que dou a esta breve intervenção, não me apetece falar de livros, nem de livrarias, nem de grandes grupos, concorrência desleal, supermercados, bombas de combustíveis, máquinas de livros… nada disso. 

Estou farto dessa conversa que, sem acção precisa e coordenada, só leva a um lado — a banalização do entorpecimento. 

Por isso mesmo, e porque estamos aqui, informalmente, mais uma vez, a confraternizar, deixo para outros as coisas sérias e tomo a liberdade de ocupar um pouco deste nosso tempo de forma lúdica. Talvez, assim, limpemos as cabeças para baralhar e dar de novo. 

Ora, lá, onde a minha mãe me deu à luz (no século em que nasci chamava-se parir…) nascidos em terra de tradições tauromáquicas, desde crianças que nos habituámos a aguardar ansiosamente o mês de Setembro para participar nas Festas anuais. Do seu programa ainda hoje constam, em confortável maioria, os espectáculos com toiros bravos. Para além das touradas, várias largadas de toiros nas ruas e praças, ao uso de Pamplona, rezam os cartazes. 

Directos ao assunto, falemos, então, das touradas e do seu cerimonial. 

Praça cheia, colorida, povo e mais povo. A gente ilustre em lugares de destaque. Barreira de sombra, para onde confluem olhares. O povaréu ao sol, lugares mais baratos. A banda de música convidada dá alma à tarde. Cinco horas — cinco en punto de la tarde — hora importada para o início da função. 

O público existe. O público aguarda. Está sedento de espectáculo. Seja qual for o cartaz, a mole humana vagueia, mais ao sabor da moda. Mesmo que haja pouco dinheiro, guardou-se algum para a festa. Se o cartaz é anunciado na televisão, melhor ainda. Já é bom antes de ser! 

Abre-se a porta larga — cerimónia de cortesias. Primeira oportunidade de apreciar as casacas dos cavaleiros – traje de luces, gente nobre, ou parecida com isso; a destreza dos cavalos, bem amestrados, dançando ao som do passo-doble. Na sombra da parelha, os peões de brega, subalternos, apeados, não variando muito de vestimentas. Já as dos moços de forcado, com ligeiras diferenças, são sempre iguais. Parentes pobres da afición, quantas vezes com as jaquetas esgaçadas, mas altivos e orgulhosos da sua posição independente no cartel, sem cachet, quantas vezes a terem de financiar a actividade, sempre a actuar pelo amor à camisola. 

Toca a música a compasso, os cavalos acompanham em passo artístico cadenciado. Acenam, acenam, que os cavalos acenam sempre! Ainda mais se forem vaidosos, que é assim que os donos os querem. 

Recolhidas as apresentações, a expectativa cresce. Pára a música até que o corneta anuncie a primeira lide. Surge, pela porta larga, o primeiro cavaleiro, agora já com outra montada. Dá voltas à arena, reconhece terrenos. Posiciona-se no lado oposto frente à porta dos curros. 

O corneta entra novamente em acção. É tradicional falhar uma ou outra nota daquele sinal que os aficionados sabem de cor. 

Porta dos curros aberta, sai a besta a soprar. O cavalo volteia, o cavaleiro condu-lo em busca de posição de cite. 

-Toiro, toiro! Eh toir’ liiiind’! 

Corre daqui, foge para acolá, posiciona-se mais além. O toiro desconfia. Decide-se, corre em busca do vulto provocador. O cavalo faz nova habilidade, contorce-se no cruzamento, o cavaleiro espeta o primeiro ferro. 

Seguem-se outros. Primeiro a série de compridos, depois, a de curtos. 

Entretanto, já os peões de brega voltearam os capotes rosa, em tentativas de posicionar o boi para a faena. Se têm dificuldade em conseguir ou abusam dos floreados, a turba assobia. O povo quer ver brilhar o artista. 

Toca a corneta para sair. O cavaleiro finge que sim. Mas, enchendo, ufano, o peito, cabeça para trás, saca do tricórnio, acena triunfal ao público que não regateia aplausos. Volteia, simula a saída e pede mais um ao director da corrida. Perante a concordância deste, rompe a praça num urro. E vai sair um curtíssimo. É o cravo, corolário da exibição. 

Sai o cavaleiro, toca para a entrada do grupo de forcados. Em pose e movimentos estudados, saltam a trincheira a um tempo, ajeitam os barretes, compõem a cinta. 

O público anseia pela porrada. São homem e toiro frente a frente, sem artefactos. Há quem defenda que é a parte nobre da tourada. 

Alinham-se os moços em fila. Destaca-se um – é o que vai à cara. Pega de caras, portanto. Seguem-se os ajudas — com título, o primeiro e o segundo. Os restantes, anónimos, excepto o último – o rabejador, que aguenta o que resta da fúria do bicho, até que os colegas se coloquem a salvo de ocasional investida. 

- Hu! Hu! Ehhhhhh toiro! Toiro, toiro, tooooooiro! 

Há gritos que se repetem, há coreografias próprias. 

Depois de vários cites e de uma dança de gato e de rato, a besta resolve-se a arrancar, num tropel doido, em direcção ao vulto provocador. O da cara recua em passinhos apressados para que o embate seja amolecido. Dá-se o choque. O homem, cara à banda, agarra-se à barbela do bicho; o primeiro e o segundo ajudas saltam para cima do estranho duo; os outros seguem as pisadas e, de repente, é um enxame de homens a imobilizar o animal. Resta o rabejador, com uma mão já agarrada à cauda, a outra em busca de terra para que não escorregue quando ficar sozinho a dar conta da bizarma. 

A pega de caras é uma operação de trabalho conjunto, solidário. Se os moços não estiverem todos em consonância, a coisa falha. 

Mesmo assim, nem sempre a pega corre de feição. Por vezes o toiro não colabora. Caem forcados, há quem saia ferido, há quem nunca mais possa pegar toiros. Há quem morra. Mas o espectáculo tem de continuar e as hipóteses de sucesso têm conta curta. 

Novo toque do inteligente – o tal homem da corneta que, por acaso, é uma trompete. Desiludidos, saem os moços da arena. Menos dois. Um par fica para a cernelha, última oportunidade de pegar o toiro, antes que as chocas entrem para o varrer de novo para os curros. A colaboração, agora, tem de ser ainda maior. Não há mais ajudas. Estudando os movimentos do bicho preto, de repente desatam numa correria e pegam o animal de lado. Já está. 

Salva de palmas, música no ar. Nas bancadas, gritos por queijadas e cervejas. - Olh’ó gelaaaaado f’squinh’! 

Enquanto os moços de arena vão alisando a terra com rodos, o cavaleiro já saltou para o recinto para a volta de honra. Sempre atrás de si, os peões de brega vão apanhando bonés e flores que o público arremessa e, subservientes, lá vão entregando ao artista. Este, chama o forcado da cara para o acompanhar. Assentindo, mais um salto acrobático sobre a trincheira, aí está o garboso. 

São agora dois os homens a recolher os louros da lide. O faustoso cavaleiro emproado na sua casaca e a modesta dignidade do forcado, lado a lado… a apanhar bonés! 


E tudo isto para nada! Vieram os fundamentalistas das ligas de defesa dos animais e acabaram com a fiesta

À falta de projector, fomos forçados a eliminar as ilustrações. Mas não faz mal. Toda a gente conhece as imagens, basta nomeá-las e logo o leitor/ouvinte as encaixará no devido lugar: 

1 - Nas bancadas, o público; 

2 - O traje de luces que ofusca e, bastas vezes, engana; 

3 - Os seus peões de brega – normalmente entregues a esta função para retardar o momento do fim; 

4 - os moços de forcado, armados da sua independência, agrupados, enfrentando o animal; 

5 - finalmente, o animal, a besta cornuda que uns espicaçam com farpas, de forma desigual, de cima dos seus cavalos amestrados e, outros, têm de pegar pelos cornos, solidariamente, para que tenham sucesso. 

Ah! Nunca esquecer, nunca, aquela figura sinistra, que é o Director da corrida – é que é ele quem manda tocar a corneta! 


Joaquim Gonçalves | A das Artes (Sines)

(Foto da escultura: Joaquim Gonçalves | Santarém, frente ao tribunal).


2 comentários:

  1. Estava desejosa de chegar ao fim do texto para ver como seria a estocada final! Foi de Mestre!
    Parabéns!
    Rematemos com o estribilho da Tourada do F. Tordo: lárálálálá....etc...etc....

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  2. És um mestre da palavra , da escrita, do pensar, em suma: és um mestre na arte de "mestrar" ou mostrar? já me sinto baralhada, no meio de tanta tourada ou??? toirada? com acordo ou sem?será que agora é...cem? parabéns Joaquim Gonçalves.

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