domingo, 12 de abril de 2015

Ainda o VI ENCONTRO LIVREIRO: Tempos Interessantes

Como já dissemos, Nuno Fonseca, numa das suas intervenções no VI E.L., fez a leitura de um texto expressamente escrito para aí ser lido, tendo a sua leitura reforçado o debate. É esse texto que hoje publicamos.

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Tempos Interessantes
Intervenção no 6º Encontro Livreiro, lida perante os meus pares, durante as conversas da tarde, num momento em que, por motivos de acaso e estro, se discutia a realidade do fenómeno do livro electrónico e os seus efeitos no sector do livro.
Por vezes, e talvez em grau maior do que com muita gente, pergunto-me sobre o futuro, sobre como virá a ser aquilo que ainda não se transformou. Este exercício especulativo não precisa de ficar restricto aos domínios ficcionais ou do academismo criativo. Por vezes pode e deve ser tentado por todos nós.
A primeira coisa que devemos ter em mente é que não se pode pensar o futuro sem conhecer uma parte significativa do passado e sem ter uma visão sólida do presente. Neste momento, há cerca de 20 anos que temos internet. Mais concretamente, os livros digitais também circulam desde o seu início, e o seu percurso, nos últimos anos, tem sido notório. Por outro lado, há 6 anos que foi feita uma tipografia portátil para venda directa de modelos livres de livros ao consumidor (a famosa expresso book machine). É verdade que este aparelho parece ter caído no esquecimento, mas relembremos que também o livro digital passou por muitos anos de relativa obscuridade até atingir o estado presente. Pode ser que o seu advento seja igualmente lento e que ainda venha a ter um papel importante no negócio dos livros.
A questão não é muito diferente da do papel da gasolina Vs. electricidade no mundo dos transportes (salvaguardando as devidas diferenças) - e todos sabemos que apesar de todas as razões e argumentos, continuaremos num sistema baseado em combustíveis fósseis durante muito tempo, porque essa é a vontade dos principais agentes do sector.
Hoje não há gente disposta a abrir mão do livro físico, e a desconfiança e não aposta no livro electrónico são realidades com que vivemos. Isto é algo que afecta em maior ou menor grau todos os agentes do sector do livro. Curiosamente, são os dois intervenientes menos valorizados no sistema actual que mais tem beneficiado e investido nele: os autores e os leitores. Nas relações que se estabelecem entre os vários actores desta peça, autores e leitores, por razões diferentes, são hoje os menos valorizados e mais abusados dentro do sistema da edição física. O mundo virtual possibilitou não só uma certa democratização dos meios de produção em causa, como também da distribuição do livro (e de outros produtos conexos) e da informação em geral. De repente, os autores deixaram de ser obrigados a um interlocutor/mediador privilegiado na sua relação com os leitores e o mundo (e vice-versa). Os leitores passaram a ter formas de ligação e influência sobre a produção e os meios literários. Veja-se por exemplo o papel da Crítica literária e a sua completa irrelevância no que toca ao seu valor promocional para as editoras, principalmente se comparada com a disseminação de opiniões/comentários/exposições nos blogues e redes sociais.
Aos poucos, estes intervenientes que eram eminentemente passivos dentro do velho sistema, passaram a ter um papel muito mais activo e em certos aspectos, mais eficaz. Mas, e está aqui o paradoxo, o que tem sucedido simultaneamente é um retrocesso claro em certos aspectos dos seus papéis, que reverteram claramente para características antigas. Neste sentido, o papel do autor contemporâneo alterou-se atavicamente para modelos de há quase 150 anos: ter dinheiro e /ou posição social são cada vez mais condições normais para se poder exercer com sucesso e relevância uma carreira de escrita; e também se observa que o empenho individual e sem apoios de outros agentes na promoção de si e da sua obra voltou a encontrar sede no actual sistema, pois é cada vez maior o desinvestimento na promoção e no marketing dos autores, e cada vez maior a necessidade de chamar os leitores para participar nesta mudança.
Mas se abro os olhos perante isto é principalmente para relembrar que tudo irá evoluir. O sector do livro é essencialmente sui generis por causa das diferentes evoluções temporais dos seus elementos. No sector do livro anda-se a destempo, a vários tempos, por vezes até a contratempo, mas o sentido é sempre o da mudança e o da valorização, má ou boa, do presente. O futuro parece cada vez mais condicionado pela evolução da natureza da informação e já não tanto pela sua disseminação. Daí estes pequenos sobressaltos que temos assistido em torno do livro digital e do papel das redes sociais no meio.  Os dados financeiros ou mercantis, macro ou micro culturais, sobre os livros, circulam cada vez mais de forma massificada, tendendo para formas públicas. Tanto autores como leitores têm sido os principais fomentadores destas pulsões, enquanto os restantes intervenientes tendem a contrariá-los. E no entanto, o caminho faz-se. Penso que a livre e pública informação de todos os dados referentes ao livro é um caminho inevitável e que todos devem ponderar.
Pode-se discorrer muito sobre tudo isto que o futuro continuará a ser filho apenas de si próprio, mas como pais no presente, temos o dever de olhar em volta, identificar estas tendências e ponderar sobre elas. Se por um lado, os intervenientes e instituições do sector apresentam estas pulsões antagónicas, por outro a verdade é que vivemos uma espécie de época de ouro, moderna e massificada, no que toca ao livro - nunca houve tanto livro em circulação, nem tantos autores, nem tantos leitores, editores, livreiros, nem tanta gente envolvida nos seus processos; se pensarmos nas possibilidades de uma distribuição democratizada, fora de mãos especulativas e gestionárias - e os meios aí estão à vista; se pensarmos, mais à frente ainda, num mundo onde o virtual, o simulacro, tende para invadir o real colonizando-o, passando a fazer parte do dia-a-dia… então acho que as próximas décadas ameaçam vir a ser, no mais profundo significado chinês, muito interessantes.
Nuno Fonseca
2015.03.29

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