quinta-feira, 23 de abril de 2015

23 de ABRIL–DIA MUNDIAL DO LIVRO

 

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Hoje é 23 de Abril, dia escolhido pela UNESCO para celebrar o livro.
Visite uma livraria, uma biblioteca pública ou regresse à sua biblioteca pessoal.

domingo, 12 de abril de 2015

Ainda o VI ENCONTRO LIVREIRO: Tempos Interessantes

Como já dissemos, Nuno Fonseca, numa das suas intervenções no VI E.L., fez a leitura de um texto expressamente escrito para aí ser lido, tendo a sua leitura reforçado o debate. É esse texto que hoje publicamos.

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Tempos Interessantes
Intervenção no 6º Encontro Livreiro, lida perante os meus pares, durante as conversas da tarde, num momento em que, por motivos de acaso e estro, se discutia a realidade do fenómeno do livro electrónico e os seus efeitos no sector do livro.
Por vezes, e talvez em grau maior do que com muita gente, pergunto-me sobre o futuro, sobre como virá a ser aquilo que ainda não se transformou. Este exercício especulativo não precisa de ficar restricto aos domínios ficcionais ou do academismo criativo. Por vezes pode e deve ser tentado por todos nós.
A primeira coisa que devemos ter em mente é que não se pode pensar o futuro sem conhecer uma parte significativa do passado e sem ter uma visão sólida do presente. Neste momento, há cerca de 20 anos que temos internet. Mais concretamente, os livros digitais também circulam desde o seu início, e o seu percurso, nos últimos anos, tem sido notório. Por outro lado, há 6 anos que foi feita uma tipografia portátil para venda directa de modelos livres de livros ao consumidor (a famosa expresso book machine). É verdade que este aparelho parece ter caído no esquecimento, mas relembremos que também o livro digital passou por muitos anos de relativa obscuridade até atingir o estado presente. Pode ser que o seu advento seja igualmente lento e que ainda venha a ter um papel importante no negócio dos livros.
A questão não é muito diferente da do papel da gasolina Vs. electricidade no mundo dos transportes (salvaguardando as devidas diferenças) - e todos sabemos que apesar de todas as razões e argumentos, continuaremos num sistema baseado em combustíveis fósseis durante muito tempo, porque essa é a vontade dos principais agentes do sector.
Hoje não há gente disposta a abrir mão do livro físico, e a desconfiança e não aposta no livro electrónico são realidades com que vivemos. Isto é algo que afecta em maior ou menor grau todos os agentes do sector do livro. Curiosamente, são os dois intervenientes menos valorizados no sistema actual que mais tem beneficiado e investido nele: os autores e os leitores. Nas relações que se estabelecem entre os vários actores desta peça, autores e leitores, por razões diferentes, são hoje os menos valorizados e mais abusados dentro do sistema da edição física. O mundo virtual possibilitou não só uma certa democratização dos meios de produção em causa, como também da distribuição do livro (e de outros produtos conexos) e da informação em geral. De repente, os autores deixaram de ser obrigados a um interlocutor/mediador privilegiado na sua relação com os leitores e o mundo (e vice-versa). Os leitores passaram a ter formas de ligação e influência sobre a produção e os meios literários. Veja-se por exemplo o papel da Crítica literária e a sua completa irrelevância no que toca ao seu valor promocional para as editoras, principalmente se comparada com a disseminação de opiniões/comentários/exposições nos blogues e redes sociais.
Aos poucos, estes intervenientes que eram eminentemente passivos dentro do velho sistema, passaram a ter um papel muito mais activo e em certos aspectos, mais eficaz. Mas, e está aqui o paradoxo, o que tem sucedido simultaneamente é um retrocesso claro em certos aspectos dos seus papéis, que reverteram claramente para características antigas. Neste sentido, o papel do autor contemporâneo alterou-se atavicamente para modelos de há quase 150 anos: ter dinheiro e /ou posição social são cada vez mais condições normais para se poder exercer com sucesso e relevância uma carreira de escrita; e também se observa que o empenho individual e sem apoios de outros agentes na promoção de si e da sua obra voltou a encontrar sede no actual sistema, pois é cada vez maior o desinvestimento na promoção e no marketing dos autores, e cada vez maior a necessidade de chamar os leitores para participar nesta mudança.
Mas se abro os olhos perante isto é principalmente para relembrar que tudo irá evoluir. O sector do livro é essencialmente sui generis por causa das diferentes evoluções temporais dos seus elementos. No sector do livro anda-se a destempo, a vários tempos, por vezes até a contratempo, mas o sentido é sempre o da mudança e o da valorização, má ou boa, do presente. O futuro parece cada vez mais condicionado pela evolução da natureza da informação e já não tanto pela sua disseminação. Daí estes pequenos sobressaltos que temos assistido em torno do livro digital e do papel das redes sociais no meio.  Os dados financeiros ou mercantis, macro ou micro culturais, sobre os livros, circulam cada vez mais de forma massificada, tendendo para formas públicas. Tanto autores como leitores têm sido os principais fomentadores destas pulsões, enquanto os restantes intervenientes tendem a contrariá-los. E no entanto, o caminho faz-se. Penso que a livre e pública informação de todos os dados referentes ao livro é um caminho inevitável e que todos devem ponderar.
Pode-se discorrer muito sobre tudo isto que o futuro continuará a ser filho apenas de si próprio, mas como pais no presente, temos o dever de olhar em volta, identificar estas tendências e ponderar sobre elas. Se por um lado, os intervenientes e instituições do sector apresentam estas pulsões antagónicas, por outro a verdade é que vivemos uma espécie de época de ouro, moderna e massificada, no que toca ao livro - nunca houve tanto livro em circulação, nem tantos autores, nem tantos leitores, editores, livreiros, nem tanta gente envolvida nos seus processos; se pensarmos nas possibilidades de uma distribuição democratizada, fora de mãos especulativas e gestionárias - e os meios aí estão à vista; se pensarmos, mais à frente ainda, num mundo onde o virtual, o simulacro, tende para invadir o real colonizando-o, passando a fazer parte do dia-a-dia… então acho que as próximas décadas ameaçam vir a ser, no mais profundo significado chinês, muito interessantes.
Nuno Fonseca
2015.03.29

terça-feira, 7 de abril de 2015

NOVOS MUNDOS, NOVOS ATORES: A ALTERAÇÃO RADICAL NO MUNDO DO LIVRO / PALAVRAS QUE VOS DEIXO


Continuando a viver o clima do VI ENCONTRO LIVREIRO, publicamos agora o texto do VI ENCONTRO, da autoria de Nuno Seabra Lopes, que despoletou o debate riquíssimo que se seguiu à sua leitura. Obrigado Nuno por tão importante contributo!

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NOVOS MUNDOS, NOVOS ATORES: A ALTERAÇÃO RADICAL NO MUNDO DO LIVRO

Não é recente o tema dos novos atores. Nem nova é a reação de achar que, tal como para os autores, será demasiada a importância que se atribuiu à «categoria». Nem é tanto pelo culto da juventude, mas mais o sebastiânico culto da promessa, do jovem que irá fazer o que os outros, já instalados, não foram capazes de fazer: a esperança como substituto da ação; algo demasiado habitual por cá.
Mas não venho cá para me lamentar.
Bem sabemos que, durante muito tempo, o novo representava o mais bem formado e capacitado, e que − no tempo em que o mercado ainda o permitia − muitas vezes a experiência era também sinónimo de acomodação, de perda de criatividade e de outros crimes capitais; mas, quando à experiência se alia o conhecimento, a criatividade e tantas outras coisas, é somente sinal de fazer melhor, de ter memória e respeito pelo que já resultou e tempo passado a aprender o que os outros ensinaram – ninguém sabe tudo; permanência é também existência de arquitetura de conhecimentos com base em amizades e afinidades, algo essencial num mundo que funciona cada vez mais em rede.
Por isso não gosto de falar de novos ou de novidades, sejam elas livreiras ou profissionais. Prefiro falar de pessoas, de capacidades, de inteligência, de vontade de mudar e de abertura para ouvir, independentemente da idade ou da permanência neste mercado.
Um pequeno parêntesis para dizer que é bem mais fácil ser-se novo − uma página em branco com tudo para ganhar − mas difícil, e melhor, é termos a nossa própria experiência como limites e perceber diariamente formas de nos ultrapassarmos.
Mas, este sim um facto irreversível, este mundo é novo.
Venho hoje com um propósito: o de fazer com que estas palavras de arranque não estabeleçam só o mote para este encontro, mas também proponham uma ação para o futuro.
Começo então por dizer que algo no título desta apresentação está tremendamente bem (e não fui eu a dar o título): “novos mundos”, no plural. Deixamos há uns tempos agora de falar do mundo do livro para falarmos de um sistema de mundos não do livro, mas dos conteúdos para a leitura, cujo suporte primordial é ainda o livro. Temos hoje planetas a morrer ou que permanecem iguais mas outros novos e em ebulição vulcânica, só para manter a metáfora.
Deixando de eufemismos: vivemos ainda entre um batalhão de licenciados indiferenciados para a profissão − há mais de uma década com salários baixos − debruçado num balcão livreiro, e entre editoriais especializados que já perceberam que daqui a 20 anos estarão no mesmo lugar ou despedidos. Todos os anos ainda surgem os mesmos casais que sonham com projetos culturais e miúdos com dois anos de fraca experiência a julgar saber tudo o que precisam para vingar.
Mas à parte desse “negócio habitual”, e fora da tradicional cadeia de produção do livro, as coisas mudaram radicalmente, em particular na cadeia da comunicação, ou seja, na forma essencial de dar a conhecer e convencer os leitores a comprarem os livros.
Se o final da corrida muda, isso altera o essencial, pois uma livraria já não tem de se limitar ao que produz por cá, nem um editor ao que se vende aqui. O mercado já não tem de ser a tragédia «daquilo que é». Foi na comunicação e comercialização que se deu o principal da revolução digital, aquele que pulverizou fronteiras – exceto culturais e linguísticas −, e o que gera fenómenos tremendos e destrói projetos históricos antes sustentados – jornais, revistas. Mas este facto é irrecusável: temos hoje muito mais gente e valor no negócio, em particular se compararmos com mercados restritos como o do Portugal livreiro; outro facto: não estamos preparados e vemos esse dinheiro a escoar por tantos novos sítios diferentes. Exemplo, o advento do leitor-autor tão típico do mundo digital, que leva primeiros leitores e não leitores para o âmbito da escrita vanity e fomentam negócios de serviços editoriais como a Chiado. Apesar de tudo não nos devemos aborrecer com estes fenómenos que, apesar do posicionamento mais do que dúbio, atraem a prazo para o mundo do livro pessoas que antes estariam de fora.
Regressando ao tema e evitando o jargão da economia, gestão e marketing (a minha primeira versão deste texto...), relembro que, se antes um leitor queria um livro de História de Portugal, lia num jornal a crítica e ia a uma livraria, onde na estante respectiva, encontrava o livro de referência que necessitava. Hoje a mesma pessoa já não irá não direcionado da mesma forma na necessidade, ele irá fazer uma busca por factos na Internet e irá ser condicionado nas respostas não por quem quer promover e vender livros, mas pelos sites e motores que querem promover vendas cruzadas e publicidade. Ou seja, será distraído com informação genérica (como as explicação wikipédia do que procuramos), direcionado para blogs e sites que promovem não a categoria mas um produto específico ou um tema. Ou seja, a Internet não nos ajuda a encontrar o produto certo ou de referência, mas abre-nos tremendamente o leque de opções sobre o tema, desvia e condiciona as opções por relevância comercial de outros negócios ou outra. Assim, as pessoas não só encontram hoje livros diferentes como também os consomem de forma muito diferente, relacionando e referenciando livros não com outros livros, mas com posts, comentários de facebook, sites, séries, documentários e outras fontes de informação diferenciadas, alterando a percepção do que lemos e o caminho de leitura a seguir.
Por já não precisarmos deixámos de seguir as categorias de forma canónica e agora passamos a procurar informação na Internet sobre os factos que nos interessam. Exemplo: «Morte de Maria Antonieta / croissants»; em vez de termos de lá chegar por: «História da França / Revolução Francesa». A busca de informação é hoje mais específica e já não incide sobre as categorias – única forma que antes tínhamos para lá chegar, mas sobre os factos.
Assim, onde antes poderíamos ser levados a comprar um livro, hoje podemos ficar por um site de informação genérica que está a gerar riqueza seja pela publicidade, seja pela venda de outros produtos como aplicações, espetáculos, músicas, revistas, etc. Já não procuramos livros numa livraria, mas numa mega-store digital que nos está a vender tudo de tudo. Os inputs de oferta misturam-se, apresentam-se como um delta do Nilo onde podemos ir dar à bela e terrível histórica da biblioteca de Alexandria como a uma oferta de férias no gigantesco porto naval de Port Saïd, junto ao canal do Suez.
O mais importante a reter nisto é que se retêm clientes constantemente nesta «loja», e faz-se negócio. Tudo pode ser vendido em toda a parte e os conteúdos pertencentes aos livros estão em toda a parte. Tal como a Amazon já vende detergentes e bolachas, os textos dos livros estão hoje repartidos e adaptados em artigos, posts, guiões, vídeos, postais, filmes, músicas, etc. Podemos chegar à mesma informação – a diversos níveis – com diferentes percursos mais ou menos satisfatórios. E são tudo meios de gerar riqueza com o mesmo negócio, i.e., vender a quem quer saber a informação ou distração por conteúdos de que necessita, apesar dos resultados diferentes.
Hoje quase todos estamos envolvidos neste sistema e existe infinitamente mais valor a circular, neste espaço onde parte das fronteiras ruiu. Se a forma como se conhece e se chega ao livro mudou, e isso significa uma alteração radical do processo, vemos então a mudança de conceitos de base onde, por exemplo, os nichos deixam de ser descritos pelas categorias padrão (história de Portugal) ou pelos segmentos tradicionais (professores universitários com mais de 45 anos), mas sim perfilados por construções coerentes de tipologias de negócio – pardon my french − (ou seja segmentar por público interessado em genealogia europeia, que usa o Ancestry.com frequentando um ecossistema digital fechado onde poderemos inserir uma loja ou comunicação com impacto total).
Independentemente da dimensão do nicho, o segredo reside na capacidade de recriar um circuito de negócio com base na ligação de pontos existentes e funcionais (para acesso de informação, encaminhamento de clientes, processo de venda e retorno).
E é isso que temos de radicalmente novo nestes tempos; são essas as novas pessoas que constituem este ecossistema e que trazem a novidade. O mercado já não é um percurso único e difícil, que passa pelo que dá ou pelo acesso a boa localização, por exemplo, mas sim pela seleção das pedras onde iremos assentar o nosso negócio.
Uma livraria local – em Setúbal, Chaves ou Portalegre – não tem de ser só uma livraria local a vender por proximidade livros que, mais cedo ou mais tarde, um Continente ou uma Bertrand poderá fornecer com mais força, condições e marca. A livraria em Chaves pode ser também a livraria especializada em território, património e natureza da Europa, que existe online e que congrega e fornece não só para todo o país como para o portefólio de produtos de qualidade que represente, trabalhando para faculdades e institutos nacionais e internacionais, apoiando ações locais espalhadas e algumas dinâmicas empresariais como casas de turismo rural ou empresas de animação cultural que levam caminhantes a fazer treking ou escalada e que podem sugerir a venda de livros de rotas, monografias sobre esse território ou outros livros.
E este é só um mísero exemplo do que hoje é possível fazer.
É importante pensar nesta nova forma de se trabalhar em rede de gerar negócio de forma transversal. O que para nós é fácil, para outro pode ser impossível e gerador de riqueza, e hoje é possível colocar os dois em diálogo. O mundo de sinergias empresariais permite cruzar hoje campos inimagináveis e, quando se está aberto a colaborar, descobrem-se mercados e caminhos que não tínhamos pensado. Por isso, olhemos para estes os «novos» não como os novos que estamos habituados mas como os novos que são para este negócio e apresentemo-nos também como novos a eles, abertos a ideias e com vontade de trabalhar e de ajudar.
Por tudo isso, venho propor um acrescento a este espaço de diálogo.
Vejo esta iniciativa não só como um espaço de conversa, mas também como uma possibilidade para gerar ideias, algo que já antes tem acontecido. Proponho assim criar neste âmbito um espaço para a apresentação pública de ideias e novos projetos. Se cada interessado apresentar o que faz, e o que procura, pode ser que haja alguém do outro lado que possa ter a solução. Pode ser que uma nova editora de livros náuticos encontre a livraria que se quer especializar no tema, ou conheça alguém associado a uma empresa de venda de velas que está interessada em fazer um livro para eles. Pessoalmente, seria um motivo de interesse adicional.
Obrigado pela atenção.
Setúbal, 29/03/2015, VI Encontro Livreiro
Nuno Seabra Lopes


Depois deste texto tão inspirador e que nos lança para novos projetos e desafios, transcrevemos agora a mensagem que Luís Filipe Guerra, impossibilitado de comparecer no VI E.L., enviou e que foi lida por Rosa Azevedo. Lamentamos que Luís Guerra, connosco desde o I E.L., não tenha podido envolver-se mais este ano. Esperamos que seja um afastamento temporário e que rapidamente possamos voltar a contar com a sua preciosa colaboração e envolvimento nos próximos Encontros.

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PALAVRAS QUE VOS DEIXO
Sou um orgulhoso fundador do movimento das gentes do livro que dá pelo nome de Encontro Livreiro. Recordo hoje os nomes do pequeno núcleo inicial: Manuel Pereira Medeiros, Luís Guerra, Fernando Bento Gomes, Cristina Rodriguez, Artur Guerra, Gonçalo Mira, Nuno Fonseca, Joaquim Gonçalves, Dina Silva, Adelino Almeida Abrantes, José Augusto Soares Pereira, António Almeida, Fátima Ribeiro de Medeiros, Hélia Filipa da Cruz Sampaio, Nuno Miguel Ribeiro de Medeiros, João Manuel Rodriguez Guerra, José Teófilo Duarte, Francisco Abreu, José Gonçalves (ausente por motivos de saúde, participou na preparação e na divulgação).
O Encontro Livreiro nasceu na livraria Culsete, em Setúbal, no dia 28 de Março de 2010, mas tem andado por aí e gosta de deixar sementes que deem rebentos que possam dar novas sementes, que possam dar rebentos que possam dar novas sementes... e assim sucessivamente. Os primeiros rebentos nasceram em Trás-os-Montes – onde cresceram e se multiplicaram em Vila Real (Traga-Mundos), Macedo de Cavaleiros (Poética), Bragança (Rosa D’Ouro) e, no domingo passado, em Valpaços (Livraria Dinis) – e no Porto, onde brotaram num jardim feito de livros, a Lello do livreiro Antero Braga, a mui antiga e bela livraria da invicta e do mundo. Da equipa de “resistentes” a Norte, quero ainda destacar Dina Ferreira (Poetria), um exemplo de visão e de persistência de uma livreira que ama os livros, a poesia, o teatro.
Acompanhei muito de perto o seu crescimento até bem próximo dos cinco anos, que ontem se cumpriram. Parabéns a você! E lembro, com alguma nostalgia, o brinde inicial (vão lá ver ao Isto Não Fica Assim!). E lembro ainda, feliz, os meses da gravidez e da esperança, os primeiros dias, as primeiras noites, os primeiros meses e anos, os primeiros e trémulos passos, primeiro a necessitar do amparo de uma ou mais mãos, adquirindo aos poucos cada vez mais autonomia.
É um movimento que não gosta de chefes nem de líderes e que desde o início se quis o mais informal e livre possível. Mas, para funcionar e avançar, foi recorrendo a uma “comissão executiva” oficiosa constituída por Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro Medeiros (Culsete – Setúbal), Joaquim Gonçalves (A das Artes – Sines), António Alberto Alves (Traga-Mundos – Vila Real), Sara Figueiredo Costa (Cadeirão Voltaire), Rosa Azevedo (Estórias com Livros) e eu próprio. Claro que no início este núcleo era ainda mais reduzido. Convém referir que alguns destes elementos foram sendo cooptados à medida que chegavam ao Encontro Livreiro e que há outros amigos, que me desculparão por não os nomear, que sempre estiveram muito próximos.
Por razões de ordem muito pessoal, em Novembro passado – por ocasião do Dia da Livraria e do Livreiro, “rebento” que nasceu da relação entre o Encontro Livreiro e a Fundação José Saramago e da vontade do seu director, o meu amigo Sérgio Letria, mas que precisa de um maior envolvimento dos livreiros, o que não se conseguiu satisfatoriamente até à edição de 2014 – decidi que era chegado o momento de me afastar. Nessa altura comuniquei a minha decisão à Fátima, desde sempre a livreira da Culsete mas agora a solo depois da partida do Livreiro Velho, e pedi-lhe o grande favor de a transmitir aos restantes amigos. Ao mesmo tempo, entreguei-lhe as “chaves” do blogue «Isto Não Fica Assim!» e da página do Encontro Livreiro no facebook, que tomei a liberdade de criar logo a seguir ao I Encontro e onde podem encontrar os textos, as imagens, a história deste inédito movimento das gentes do livro.
Deixem-me que refira uma das iniciativas que mais acarinhei, a atribuição do diploma Livreiros da Esperança, e que recorde aqui os nomes dos livreiros já homenageados: Jorge Figueira de Sousa (Esperança – Funchal), Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira (Galileu – Cascais), Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro Medeiros (Culsete – Setúbal), Antero Braga (Lello – Porto) e ainda o Livreiro da Esperança de 2015, Luís Alves Dias (Ler – Lisboa), nome que já tinha sido referido em conversas com a Fátima anteriores à minha saída e ao seu falecimento em 23 de Janeiro deste ano e que depois vi confirmado no Isto Não Fica Assim! Um abraço, bem rijo e amigo, ao filho, o livreiro-editor-livreiro Luís Alves.
Se me permitem, quero também deixar uma palavra em memória e em homenagem à vida de um outro livreiro que nos deixou no mesmo mês de Janeiro deste ano, António André (Lácio – Lisboa), a quem me ligam boas recordações e que, no meu modesto entender, mereceria um maior reconhecimento público. Sabem, por exemplo, que nos deixou um livro de poemas intitulado Entrevero? Sei da sua existência mas confesso que não o tenho nem o li ainda. Se alguém me fizer chegar um exemplar ficarei muito agradecido. Pagando, claro! Mas o seu poema maior, e esse tive o privilégio de o ler repetidas vezes, chamou-se “Lácio, Campo Grande, 111”! Que agora se continua a “ler devagar”, na voz do José Pinho e do Pedro Oliveira. Boas leituras, que devagar se vai ao longe!
E por falar em livreiros e em livrarias, no último encontro lancei um apelo que parece ter caído em saco roto: para quando a criação de um movimento próprio de livrarias independentes? E neste conceito cabem livrarias com décadas de experiência e outras, novas e novíssimas e com novos modelos, que estão a nascer ou a dar os primeiros passos. Continuo a achar que faz sentido, que faz falta, que é urgente, muitíssimo urgente. Pelo país fora há (ainda há) mais de duas dezenas de livrarias que podiam animar e dar corpo a um movimento que comece por criar uma “rota de livrarias independentes” que funcionem a partir de uma grande cumplicidade entre si, mas também – e isto parece-me fundamental – que crie uma cumplicidade nova entre autores, editores, livreiros e leitores. E, se o meu grande amigo Joaquim Gonçalves me permite, ele que o criou e dinamizou e que, quase sempre sozinho, tem vindo a desmascarar manhas e artimanhas de vários Golias, sugiro um nome para este movimento: “Livros, é nas Livrarias!”.
Meus caros amigos livreiros, não fiquem a observar na bancada ou atrás do balcão. Não esperem que outros resolvam os vossos problemas. Não se olhem como concorrentes, que não são. Conversem, conheçam-se, troquem ideias, definam objectivos comuns, promovam iniciativas próprias que circulem pelas vossas livrarias, de norte a sul. Livreiros do meu país, uni-vos!
Não posso deixar de mencionar e de registar os nomes de Pedro Vieira, José Teófilo Duarte e Manuel Rosa pela preciosa e desinteressada colaboração na criação dos cartazes e dos diplomas.
Desejo ao Encontro Livreiro aquilo que desejo a cada um dos meus três filhos, todos já na maioridade: que continue o seu caminho, agora sem a minha presença e zelo diários, e sem os constrangimentos que mesmo o amor de um “pai” e de uma “mãe” acabam por implicar. Evitando a rotina e a repetição de procedimentos e de vícios, e possibilitando novas escolhas, novos caminhos, novos objectivos, novos intervenientes, novos actores.
Tenho a consciência de ter dado o máximo – como gosto, aliás, quando me envolvo nas coisas – e de ter feito o melhor que pude e que sabia. Saí antes que viesse a sentir que isto fica assim. Cabe às gentes do livro fazer com que, afinal, isto não fique assim.
São estas as palavras que vos deixo. Obrigado pela vossa compreensão e, o que para mim é o mais importante, pela vossa amizade.
Envolvo todos (e vejo agora os rostos e os olhares, um a um) com um abraço apertado dado a cada um de vocês.
Até sempre!

Luís Guerra
Margem Sul, 29 de Março de 2015

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O VI ENCONTRO LIVREIRO FOI ASSIM

 

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Passada uma semana sobre o VI ENCONTRO LIVREIRO, vamos começar a apresentar a partir de hoje algumas fotos, o texto do Encontro, da autoria de Nuno Seabra Lopes, e outros depoimentos que ajudaram a construir o Encontro e a enriquecer o debate.
Diga-se desde já que este VI Encontro correu muito bem. Ao final da tarde somávamos propostas concretas e muito válidas e ainda trouxemos connosco várias opiniões que nos ajudarão a repensar as questões da leitura e do livro.

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Enquanto esperavam que o E.L. começasse, a Clementina e o Fernando não resistiram e começaram a ler. Como nós gostamos disso!

Iniciámos o VI E.L. entregando com muito prazer o diploma Livreiros da Esperança 2015 a Luís Alves Dias, na pessoa do seu filho, Luís Alves, editor e atual gerente da Livraria Ler, que assegura a continuidade do projeto livreiro iniciado pelo nosso homenageado. Luís Alves agradeceu a homenagem, evocou o pai e recordou alguns momentos passados na livraria ao lado dele. Foi, como sempre, um momento de diferentes emoções.

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Aproveitamos para agradecer publicamente a José Teófilo Duarte a feitura do diploma, belissimamente concebido e que muito agradou a todos, em especial ao destinatário. Aproveitamos ainda para voltar a agradecer a Pedro Vieira a elaboração do cartaz de promoção do Encontro, que oferecemos a todos os participantes, transformado em marcador de livros.

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Passou-se de seguida à segunda parte do Encontro Livreiro. Nuno Seabra Lopes leu o seu texto (será publicado amanhã neste blogue) e imediatamente se iniciou o debate, vivo e espontâneo e muito participado, tendo um dos presentes, Nuno Fonseca, trazido também um texto sobre o tema proposto que, em devido tempo,leu aos presentes.

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Quanto aos participantes, vieram de muitos lados, prontos a ouvir e a dialogar. Sendo o Encontro Livreiro um movimento feito por pessoas, a partir delas, das suas ideias e da sua vontade se constroem os nossos percursos. Sabendo nós que sem pessoas o E.L. não existiria, foi com alegria que voltámos a encontrar participantes que aparecem desde o primeiro, o segundo, o terceiro Encontros. São a sua base, o seu corpo, a sua continuidade.

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Tivemos o prazer de voltar a receber, como acontece desde 2013, ano em que foi a Livreira da Esperança, Caroline Tyssen, atenta, entusiasta e irreverente como sempre.

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Várias pessoas apareceram pela primeira vez, aumentando, assim, o nosso movimento. De leitores a escritores, de livreiros a editores, passando por bibliotecários, de diversa gente dos livros se constituiu o grupo dos novos deste VI Encontro Livreiro. Gostaríamos de destacar alguns desses novos participantes, pela sua simbologia: Duarte Pereira (Livraria Snob, Guimarães), Fernando Dacosta (escritor), José António Calixto (bibliotecário), Pedro Bernardo (editor). A diversidade continua a ser uma constante entre os participantes do E.L.

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Já o VI E.L.ia a mais de meio quando Hugo Xavier e Pedro Bernardo tomaram a palavra para nos falarem de uma nova proposta editorial que se abrirá a várias parcerias, sendo uma delas com as livrarias. Desde já saudamos essa iniciativa. Sobre essa apresentação contamos dar-vos elementos daqui a alguns dias.

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Ainda houve tempo para beberricar o Moscatel de Setúbal e provar algumas das especialidades da doçaria regional. Os persistentes lá foram uma vez mais jantar choco frito.

Em 2016 cá estaremos de novo. Estamos já a desenhar o VII ENCONTRO LIVREIRO.