domingo, 10 de maio de 2015

PALAVRA-PASSE: COOPERAÇÃO Andreia de Azevedo Moreira

Do VI ENCONTRO LIVREIRO continuam a chegar-nos ecos, dos mais canónicos aos mais inesperados. ANDREIA DE AZEVEDO MOREIRA, que desde o II Encontro não perde pitada do que se passa, enviou-nos um texto onde o surpreendente e o inusitado convivem com reflexões e opiniões saídas do VI Encontro. Eis que acontece aquilo de que não estávamos à espera: o ENCONTRO LIVREIRO serve de mote a uma FICÇÃO que dá o salto da realidade para uma atmosfera quase surreal. No meio de uma sequência de peripécias por vezes delirantes é referido muito do que foi este VI ENCONTRO LIVREIRO. Desejamos que aprecie a prosa da Andreia e o seu amor aos livros e à leitura. 
E.L.

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Nota prévia: Qualquer semelhança com a realidade não é coincidência. Trata-se de adaptação do que ouvi e experienciei no VI Encontro Livreiro, na Culsete, a 29 de Março de 2015 e nos dois encontros anteriores. Reflecte, igualmente, a percepção do que tenho testemunhado desde que ganhei a consciência do meu amor aos livros. Perdoem-me, por favor, a malandrice e qualquer omissão e/ou imprecisão que tenha cometido com esta ficção. Reforço: TRATA-SE DE FICÇÃO. Escrita em desacordo com o AO90.
A.A.M.

 
PALAVRA-PASSE: COOPERAÇÃO
Passaram cem dias desde que nos barricámos na Culsete. A temperatura aumentou. Os dias terminam luminosos mais tarde, onde outrora era escuridão. Perdemos, momentaneamente, o contacto com o Luís Guerra e com o Joaquim Gonçalves. Chegou-nos informação segura que, tal como nós, estão em luta noutras paragens livreiras. O tempo urge. O país está tomado pelos espectáculos “DUCHE-REALIDADE”. Enfiam pessoas em polibans. Desnudam-nas a troco de dinheiro. Uns banhos saem mais caros do que outros. A nudez é similar. Os telespectadores também se encontram despidos em casa. Têm frio, todavia, não o notam. Há manobras de hipnose subliminar durante as emissões. Basta ligar o aparelho e passar os olhos pelo écran luminoso, para se ficar agarrado. Assistimos incrédulos ao que aconteceu a vizinhos, familiares, amigos e amantes. Os olhos esvaziaram-se-lhes. As acções embruteceram condicionadas a comandos simples, emitidos por vozes estridentes que a Descultura selecciona para apresentar os programas. Não conhecemos quem se esconde por detrás da entidade. Ela sabe quem somos, o que acresce dificuldade à nossa demanda. Volta e meia envia homens munidos de câmaras, na tentativa de nos seduzir. Eles dizem-nos que o País merece assistir, a partir de dentro da Livraria, aos acontecimentos. Querem saber o que sentimos.
«Como é que se sente?»
«Como é que sente o que se passa?»
«O que é que sente?»
«Sente?»
É-nos solicitado à exaustão que expressemos sentimentos. Quanto mais viscerais, melhor. Não cedemos. Não somos parvos. Temos noção de que andam atrás destas estantes para as substituírem por mobiliário moderno, puffs, atapetarem a casa com cores garridas e pendurarem espelhos que nos acicatem a vaidade. Querem-nos confortáveis e que esqueçamos o que nos trouxe aqui, a 29 de Março de 2015. Era Domingo.
O Encontro estava marcado para as 15h00. É costume haver 30 minutos de espera, antes do início do debate. É o momento do abençoado moscatel, da banda sonora dos artistas voluntários e das trouxas de Azeitão para aqueles que não se contêm antes do lanche. Nesses minutos preparatórios evitamos a conversa. Deleitamo-nos com os mimos que a Fátima Medeiros, fazedora do encontro, nos prepara e vagueamos procurando o volume que nos acicata, naquele momento específico. Não há como preservar o sector se deixarmos de ouvir o chamamento. Soaram as 15h30. Iniciou-se o VI Encontro Livreiro.
Foi, então, entregue o Diploma Livreiro da Esperança ao Luís Alves. Reconheceu-se o herdeiro de quem muito fez: Luís Alves Dias. Exaltou-se a sua resistência, a persistência, o combate à censura. A coragem. É preciso muita para manter uma livraria aberta, no presente. E muito amor. Sobretudo, amor.
Necessitamos de dinheiro para estarmos na sociedade dita activa, para pagar contas. As vendas chegam mal para as das livrarias que a custo mantêm de portas abertas, quanto mais para um ordenado. Pensei: é justo que não possam receber um salário pelo que labutam? Não será. O que os move? Dinheiro não é com certeza.
Luís Alves esclarece que aos doze anos já o pai trabalhava ao balcão de uma livraria. Cresceu no meio dos livros, num amor amadurecido durante toda a sua existência. Passou-o nos genes aos filhos que continuam  ao leme do seu legado.
A Rosa Azevedo leu a missiva que o Luís Guerra nos fez chegar. Ficámos comovidos com as suas palavras de não desistente. O reencontro poderá tardar, sendo certo que se dará. Sentimos saudades. Que se acolham novos actores e se aceitem novos mundos, mas que não se fique a nossa devoção e gratidão à literatura, aos livros, às livrarias e aos livreiros. As palavras dele aninharam-se no nosso pensamento e aí ficaram. Partimos para as intervenções dos restantes de alma acrescentada, como acontece quando interagimos com os altruístas.
O que nos liga uns aos outros? Os afectos. O que fará renascer este mundo que hoje observamos vulnerável? Os afectos em movimento. Este, em especial, feito de cumplicidades em que nos encaramos como companheiros. Anónimos têm-nos trazido provisões. Os nossos escritores estão à porta da Culsete há 100 dias, como nós. Empunham cartazes do Pedro Vieira e do José Teófilo Duarte. Revezam-se. Partilham as suas ideias, trocam livros, leituras, conhecimento. O António Lobo Antunes também deu um salto a Setúbal e decidiu ficar até agora. Estendeu as mãos à Lídia Jorge, ao Gonçalo M. Tavares, à Patrícia Reis, à Helena Vasconcelos, ao Rui Zink, à Inês Pedrosa, ao Paulo Kellerman, à Inês Fonseca Santos, ao Paulo Moreiras, à Filipa Melo, à Filipa Leal, ao Pedro Guilherme Moreira, ao Paulo M. Morais, à Beatriz Hierro Lopes, ao Amadeu Baptista, ao Mário de Carvalho, à Andrea Zamorano, à Cristina Carvalho, ao Afonso Cruz, à Maria Teresa Horta, ao José Luís Peixoto, à Carla Pais, ao Gonçalo Naves, ao Alexandre Honrado, ao Possidónio Cachapa, ao Carlos Alberto Machado, ao António Mota, à Ana Maria Magalhães, à Isabel Alçada, à Maria Saraiva de Menezes, ao Mário Cláudio, ao Tiago R. Santos, à Dulce Maria Cardoso, ao António Manuel Venda, ao Valério Romão, à Catarina Barros, ao Nuno Costa Santos. São incontáveis os que se juntaram. Daqui não os consigo ver todos. Que me perdoem os que não alcanço, agora. Nomear é injusto. Há murmúrios em coro:
«As livrarias independentes não podem morrer.»
«As livrarias independentes não vão acabar.»
«As livrarias independentes são casas para quem ama os livros.»
O Fernando Dacosta, a Ana Wiesenberger e a Maria Clementina acenam-lhes emocionados. São os seus representantes cá dentro.
«É isto!» - Entusiasma-se o Nuno Seabra Lopes. - «A Acção!»
Ouvimos a reflexão que nos escreveu. A sua intervenção deu o mote ao encontro e foi pedra basilar para as conversas que se seguiram.
Penso com ele: A esperança anima-nos, contudo, não pode ser o que nos resta. Temos de ir além da palavra simples acolhida no peito, sem que as mãos reajam.
Sou leitora. Encaixo-me nas gentes do livro. Estou consciente de que todos somos importantes: escritores, leitores, livreiros, editores, dinamizadores culturais, bibliotecários. Órgãos num organismo-vivo. Pulsante. Liguei para casa. Relembrei-os do meu amor e disse que voltaria, assim me fosse possível. Os meus filhos choraram. Por vezes perguntam:
«Já salvaste os livros, mamã?»
Respondo que tento ajudar com o que me está a alcance. Peço desculpa. É, também, por eles que me barrico. Pela biblioteca que deixo e desejo aumentada até ao tecto, fomentando a continuidade das livrarias independentes às quais me afeiçoei. Carrego mais duas obras que espero poder acrescentar, caso esta revolução não me leve. Um de contos da Sophia, outro do D.H. Lawrence.
«É preciso nascer de novo.»
O título do livro do José Felicidade Alves, evocado por Fátima Medeiros e Luís Alves, perdura. Concordamos. Tem de haver abertura para ouvir. Reforçou o Nuno Seabra Lopes. Prosseguiu:
«Apresentemos publicamente as nossas iniciativas numa partilha em que criamos uma referencialidade, que possa ser um gerador de ideias. Um motor das nossas acções. Caminhemos para a concretização, mais do que para a idealização.»
«Muito bem!» - Gritámos o nosso entusiasmo.
Pela primeira vez encarei o digital sem o considerar “o inimigo”. Escutei o Nuno Fonseca discorrer sobre o facto de que quem é leitor há-de sê-lo para sempre e há-de ler sempre, seja qual for o formato. Não elegerá, necessariamente, um em detrimento do outro. Brinca com as incursões na literatura, à socapa, depois da hora de deitar. Relembra-nos a luz própria dos dispositivos electrónicos que facilita a leitura debaixo dos lençóis. O papel não será substituído. Como nos são insubstituíveis pais, avós, irmãos, amigos. A cada pessoa o seu lugar. A cada meio de leitura um modo de acolher a literatura, o conhecimento, a cultura, os conteúdos. Não esqueçamos a oralidade. Assim nos chegaram as histórias primordiais.
A Caroline Tyssen defendeu o que testemunha. Tanto os seus netos, como as crianças que visitam a Galileu, em Cascais, preferem o papel. Podem mexer nos livros, percorrer as lombadas nas estantes, jogar à brincadeira de os retirar e tornar a pôr entre os pares. O livro-objecto é estimulante. «O livro em papel não vai desaparecer.» - Está certa. Estamos todos. Repetimos o mantra, crentes.
É a extinção das livrarias independentes que tentamos travar. Concluímos que a competição é forte e, muitas vezes, desleal. Temos de pôr em prática estratégias que as coloquem, inequivocamente, nos mapas dos mundos novos. O Nuno Seabra Lopes apresentou-nos um par de ideias concretas. Recebemo-las atentos. A Fátima Medeiros ponderou algumas como novas abordagens para as Livrarias. Não se fecha às possibilidades que novos actores possam facultar à casa que fez nascer, há mais de 40 anos, com o seu Livreiro Velho Manuel. Foram os criadores destas reuniões anuais, continuadas na Culsete, hoje, graças à vontade da Fátima. Concebemos, então, que da troca de ideias entre indivíduos que dispõem de meios díspares e necessidades complementares, poderão surgir as sinergias necessárias para revitalizar estes redutos. Hoje, a tecnologia permite a cooperação entre pessoas em pontos longínquos do planeta. Usemo-la positivamente.
«Livros, nas livrarias!» - Clamaram, em uníssono, o José Gonçalves, o José Francisco e o Gonçalo Mira, três fortes presenças nos Encontros Livreiros, lembrando o Joaquim Gonçalves.
«Isto não fica assim!»
Uma espécie de furor percorre-nos, em simultâneo. A senha foi proferida. Acabaram as delongas. Sabemos o que fazer. A Rosa Azevedo retira o livro que acciona o balcão da Culsete. Tudo estremece. Os livros mais soltos caem das estantes. O Hugo Xavier ajuda o Pedro Bernardo a levantar-se. Caíra de Ipad na mão. Havia acabado de nos revelar o novo projecto de ambos, que animou os presentes por motivos diversos. Foi apanhado desprevenido pelo tremor das fundações. Há um mecanismo de suporte no prédio que permite que se mantenha de pé, com menos um bom bocado. A Rosa Azevedo confirma connosco: «Preparados?» Os nossos olhares são concordância. À volta do local sobre o qual planamos está o cordão humano. 
«ISTO NÃO FICA ASSIM!»
«ISTO NÃO FICA ASSIM!»
«ISTO NÃO FICA ASSIM!»
Os soldados da Descultura cercam-nos. Colocam uma quantidade inenarrável de assentos fofos e coloridos, perto dos manifestantes. Empurram-nos. Primeiro brandos, depois veementes. Alguns caem e sentam-se para, de imediato, se levantarem. Estamos orgulhosos. Nenhum de nós se sente confortável. Ninguém aceita acomodar-se e ser espectador do fim.
Não nos calam cá em cima. Não os amordaçam lá em baixo. O cordão de gente é tão longo que nos comunicam, via rádio, ter chegado a Sines, a Coimbra, a Leiria, ao Porto, a Faro, a Vila Real, a Guimarães. Ao ser referido o nome da sua cidade, o Duarte Pereira da Snob emociona-se. Avistamos, contentes, o Miguel de Carvalho da Alfarrabista do Adro de Baixo, a Carla Simões e a Alexandra Vieira da Arquivo Bens Culturais e o Ricardo Ribeiro da Sr.-Teste. É desta. Não tenho medo com a Rosa Azevedo e a Fátima de Medeiros nos comandos. O destino é o VII Encontro antecipado em 264 dias. O estado da arte impeliu-nos a fazê-lo. Todas as livrarias independentes do país foram accionadas revelando o que, até então, não passava de suspeitas. As livrarias voam. Salvam-nos. Porém, tal como os super-heróis, necessitam de quem lhes cuide da humanidade e queira bem, apesar das fragilidades inerentes.
O VII Encontro Livreiro deu-se no meio do Oceano Pacífico. Mais de duas dezenas de livrarias portuguesas sobrevoaram o bote salva-vidas de Pi Patel e aterraram na ilha de Robinson Crusoe. Em terra corria, há muito, o boato da nossa chegada. Os ilhéus simularam o cordão humano que deixámos em Portugal. Por todos os Continentes havia réplicas das mãos dadas. Umas por solidariedade, outras por identificação. Descemos das livrarias. Houve quem não tivesse querido continuar. Saltaram quando o voo ainda era raso. Outros afazeres, outras prioridades, outros amores. Ninguém os criticou. Precisamos de vontade para resistir a todos os contratempos e de capacidade de adaptação. Avisto o Luís Guerra. Corro para ele num abraço. Depois, juntamo-nos ao colectivo. Nesta ilha não há líderes ou chefes, nem há isolamento. O oceano é menor do que a nossa força. Temos livros no lugar das mãos.
Carcavelos, 10 de Maio de 2015.
Andreia Azevedo Moreira
(Escreleitora)