A apresentar mensagens correspondentes à consulta o livro e a leitura ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta o livro e a leitura ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 10 de novembro de 2015

DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO 2015


DIADALIVRARIAEDOLIVREIRO (3)

O dia 30 de novembro está à porta e traz-nos o sempre renovado desejo de indicarmos a todos o caminho de uma livraria. Não especialmente para esse dia em particular, mas para todos os dias.
Todos os dias são dias de viajar pelas estantes, de trocar dois dedos de conversa com livreiras e livreiros, de ver novidades, de redescobrir os clássicos.
Todos os dias são dias para sacudir algum pó de capas e encadernações, de meter mãos por cantos que parecem arcas de tesouros, de sentir o cheiro dos livros novos e o dos livros menos novos.
O 30 de novembro é um dia especial, é o DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO. É também o dia do leitor que visita as livrarias. É, pois, um dia de festa: festa da livraria, festa da livreira e do livreiro, festa do leitor.
Mais do que nunca é importante que os leitores conscientes do papel cultural da livraria passem a frequentá-la por necessidade, por desejo, sim, mas também por militância cultural, para ajudarem a despertar outras consciências, para marcarem hábitos de comportamento. Não basta dizer que as livrarias não podem morrer, que são muito importantes para a sociedade, que os seus livreiros não podem desistir, pois contribuem para fazer a diferença cultural na sua cidade. Há que passar das palavras à ação, marcando uma posição: eu frequento as livrarias independentes porque as considero indispensáveis, porque reconheço o seu papel, porque não quero que elas desapareçam.
Vamos comemorar mais um DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO no próximo 30 DE NOVEMBRO. Visite a sua livraria independente. Ela terá certamente várias surpresas à sua espera.
Passe esta informação aos seus amigos. Combine com eles uma ida à livraria. Estaremos todos à vossa espera.
O Encontro Livreiro divulga também o cartaz do DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO 2015, enviando um grande obrigado ao seu autor, o nosso prestigiado José Teófilo Duarte. O seu traço único e a sua criatividade sempre ao lado do livro e da leitura. Obrigado, Zé Teófilo!

domingo, 10 de maio de 2015

PALAVRA-PASSE: COOPERAÇÃO Andreia de Azevedo Moreira

Do VI ENCONTRO LIVREIRO continuam a chegar-nos ecos, dos mais canónicos aos mais inesperados. ANDREIA DE AZEVEDO MOREIRA, que desde o II Encontro não perde pitada do que se passa, enviou-nos um texto onde o surpreendente e o inusitado convivem com reflexões e opiniões saídas do VI Encontro. Eis que acontece aquilo de que não estávamos à espera: o ENCONTRO LIVREIRO serve de mote a uma FICÇÃO que dá o salto da realidade para uma atmosfera quase surreal. No meio de uma sequência de peripécias por vezes delirantes é referido muito do que foi este VI ENCONTRO LIVREIRO. Desejamos que aprecie a prosa da Andreia e o seu amor aos livros e à leitura. 
E.L.

image

Nota prévia: Qualquer semelhança com a realidade não é coincidência. Trata-se de adaptação do que ouvi e experienciei no VI Encontro Livreiro, na Culsete, a 29 de Março de 2015 e nos dois encontros anteriores. Reflecte, igualmente, a percepção do que tenho testemunhado desde que ganhei a consciência do meu amor aos livros. Perdoem-me, por favor, a malandrice e qualquer omissão e/ou imprecisão que tenha cometido com esta ficção. Reforço: TRATA-SE DE FICÇÃO. Escrita em desacordo com o AO90.
A.A.M.

 
PALAVRA-PASSE: COOPERAÇÃO
Passaram cem dias desde que nos barricámos na Culsete. A temperatura aumentou. Os dias terminam luminosos mais tarde, onde outrora era escuridão. Perdemos, momentaneamente, o contacto com o Luís Guerra e com o Joaquim Gonçalves. Chegou-nos informação segura que, tal como nós, estão em luta noutras paragens livreiras. O tempo urge. O país está tomado pelos espectáculos “DUCHE-REALIDADE”. Enfiam pessoas em polibans. Desnudam-nas a troco de dinheiro. Uns banhos saem mais caros do que outros. A nudez é similar. Os telespectadores também se encontram despidos em casa. Têm frio, todavia, não o notam. Há manobras de hipnose subliminar durante as emissões. Basta ligar o aparelho e passar os olhos pelo écran luminoso, para se ficar agarrado. Assistimos incrédulos ao que aconteceu a vizinhos, familiares, amigos e amantes. Os olhos esvaziaram-se-lhes. As acções embruteceram condicionadas a comandos simples, emitidos por vozes estridentes que a Descultura selecciona para apresentar os programas. Não conhecemos quem se esconde por detrás da entidade. Ela sabe quem somos, o que acresce dificuldade à nossa demanda. Volta e meia envia homens munidos de câmaras, na tentativa de nos seduzir. Eles dizem-nos que o País merece assistir, a partir de dentro da Livraria, aos acontecimentos. Querem saber o que sentimos.
«Como é que se sente?»
«Como é que sente o que se passa?»
«O que é que sente?»
«Sente?»
É-nos solicitado à exaustão que expressemos sentimentos. Quanto mais viscerais, melhor. Não cedemos. Não somos parvos. Temos noção de que andam atrás destas estantes para as substituírem por mobiliário moderno, puffs, atapetarem a casa com cores garridas e pendurarem espelhos que nos acicatem a vaidade. Querem-nos confortáveis e que esqueçamos o que nos trouxe aqui, a 29 de Março de 2015. Era Domingo.
O Encontro estava marcado para as 15h00. É costume haver 30 minutos de espera, antes do início do debate. É o momento do abençoado moscatel, da banda sonora dos artistas voluntários e das trouxas de Azeitão para aqueles que não se contêm antes do lanche. Nesses minutos preparatórios evitamos a conversa. Deleitamo-nos com os mimos que a Fátima Medeiros, fazedora do encontro, nos prepara e vagueamos procurando o volume que nos acicata, naquele momento específico. Não há como preservar o sector se deixarmos de ouvir o chamamento. Soaram as 15h30. Iniciou-se o VI Encontro Livreiro.
Foi, então, entregue o Diploma Livreiro da Esperança ao Luís Alves. Reconheceu-se o herdeiro de quem muito fez: Luís Alves Dias. Exaltou-se a sua resistência, a persistência, o combate à censura. A coragem. É preciso muita para manter uma livraria aberta, no presente. E muito amor. Sobretudo, amor.
Necessitamos de dinheiro para estarmos na sociedade dita activa, para pagar contas. As vendas chegam mal para as das livrarias que a custo mantêm de portas abertas, quanto mais para um ordenado. Pensei: é justo que não possam receber um salário pelo que labutam? Não será. O que os move? Dinheiro não é com certeza.
Luís Alves esclarece que aos doze anos já o pai trabalhava ao balcão de uma livraria. Cresceu no meio dos livros, num amor amadurecido durante toda a sua existência. Passou-o nos genes aos filhos que continuam  ao leme do seu legado.
A Rosa Azevedo leu a missiva que o Luís Guerra nos fez chegar. Ficámos comovidos com as suas palavras de não desistente. O reencontro poderá tardar, sendo certo que se dará. Sentimos saudades. Que se acolham novos actores e se aceitem novos mundos, mas que não se fique a nossa devoção e gratidão à literatura, aos livros, às livrarias e aos livreiros. As palavras dele aninharam-se no nosso pensamento e aí ficaram. Partimos para as intervenções dos restantes de alma acrescentada, como acontece quando interagimos com os altruístas.
O que nos liga uns aos outros? Os afectos. O que fará renascer este mundo que hoje observamos vulnerável? Os afectos em movimento. Este, em especial, feito de cumplicidades em que nos encaramos como companheiros. Anónimos têm-nos trazido provisões. Os nossos escritores estão à porta da Culsete há 100 dias, como nós. Empunham cartazes do Pedro Vieira e do José Teófilo Duarte. Revezam-se. Partilham as suas ideias, trocam livros, leituras, conhecimento. O António Lobo Antunes também deu um salto a Setúbal e decidiu ficar até agora. Estendeu as mãos à Lídia Jorge, ao Gonçalo M. Tavares, à Patrícia Reis, à Helena Vasconcelos, ao Rui Zink, à Inês Pedrosa, ao Paulo Kellerman, à Inês Fonseca Santos, ao Paulo Moreiras, à Filipa Melo, à Filipa Leal, ao Pedro Guilherme Moreira, ao Paulo M. Morais, à Beatriz Hierro Lopes, ao Amadeu Baptista, ao Mário de Carvalho, à Andrea Zamorano, à Cristina Carvalho, ao Afonso Cruz, à Maria Teresa Horta, ao José Luís Peixoto, à Carla Pais, ao Gonçalo Naves, ao Alexandre Honrado, ao Possidónio Cachapa, ao Carlos Alberto Machado, ao António Mota, à Ana Maria Magalhães, à Isabel Alçada, à Maria Saraiva de Menezes, ao Mário Cláudio, ao Tiago R. Santos, à Dulce Maria Cardoso, ao António Manuel Venda, ao Valério Romão, à Catarina Barros, ao Nuno Costa Santos. São incontáveis os que se juntaram. Daqui não os consigo ver todos. Que me perdoem os que não alcanço, agora. Nomear é injusto. Há murmúrios em coro:
«As livrarias independentes não podem morrer.»
«As livrarias independentes não vão acabar.»
«As livrarias independentes são casas para quem ama os livros.»
O Fernando Dacosta, a Ana Wiesenberger e a Maria Clementina acenam-lhes emocionados. São os seus representantes cá dentro.
«É isto!» - Entusiasma-se o Nuno Seabra Lopes. - «A Acção!»
Ouvimos a reflexão que nos escreveu. A sua intervenção deu o mote ao encontro e foi pedra basilar para as conversas que se seguiram.
Penso com ele: A esperança anima-nos, contudo, não pode ser o que nos resta. Temos de ir além da palavra simples acolhida no peito, sem que as mãos reajam.
Sou leitora. Encaixo-me nas gentes do livro. Estou consciente de que todos somos importantes: escritores, leitores, livreiros, editores, dinamizadores culturais, bibliotecários. Órgãos num organismo-vivo. Pulsante. Liguei para casa. Relembrei-os do meu amor e disse que voltaria, assim me fosse possível. Os meus filhos choraram. Por vezes perguntam:
«Já salvaste os livros, mamã?»
Respondo que tento ajudar com o que me está a alcance. Peço desculpa. É, também, por eles que me barrico. Pela biblioteca que deixo e desejo aumentada até ao tecto, fomentando a continuidade das livrarias independentes às quais me afeiçoei. Carrego mais duas obras que espero poder acrescentar, caso esta revolução não me leve. Um de contos da Sophia, outro do D.H. Lawrence.
«É preciso nascer de novo.»
O título do livro do José Felicidade Alves, evocado por Fátima Medeiros e Luís Alves, perdura. Concordamos. Tem de haver abertura para ouvir. Reforçou o Nuno Seabra Lopes. Prosseguiu:
«Apresentemos publicamente as nossas iniciativas numa partilha em que criamos uma referencialidade, que possa ser um gerador de ideias. Um motor das nossas acções. Caminhemos para a concretização, mais do que para a idealização.»
«Muito bem!» - Gritámos o nosso entusiasmo.
Pela primeira vez encarei o digital sem o considerar “o inimigo”. Escutei o Nuno Fonseca discorrer sobre o facto de que quem é leitor há-de sê-lo para sempre e há-de ler sempre, seja qual for o formato. Não elegerá, necessariamente, um em detrimento do outro. Brinca com as incursões na literatura, à socapa, depois da hora de deitar. Relembra-nos a luz própria dos dispositivos electrónicos que facilita a leitura debaixo dos lençóis. O papel não será substituído. Como nos são insubstituíveis pais, avós, irmãos, amigos. A cada pessoa o seu lugar. A cada meio de leitura um modo de acolher a literatura, o conhecimento, a cultura, os conteúdos. Não esqueçamos a oralidade. Assim nos chegaram as histórias primordiais.
A Caroline Tyssen defendeu o que testemunha. Tanto os seus netos, como as crianças que visitam a Galileu, em Cascais, preferem o papel. Podem mexer nos livros, percorrer as lombadas nas estantes, jogar à brincadeira de os retirar e tornar a pôr entre os pares. O livro-objecto é estimulante. «O livro em papel não vai desaparecer.» - Está certa. Estamos todos. Repetimos o mantra, crentes.
É a extinção das livrarias independentes que tentamos travar. Concluímos que a competição é forte e, muitas vezes, desleal. Temos de pôr em prática estratégias que as coloquem, inequivocamente, nos mapas dos mundos novos. O Nuno Seabra Lopes apresentou-nos um par de ideias concretas. Recebemo-las atentos. A Fátima Medeiros ponderou algumas como novas abordagens para as Livrarias. Não se fecha às possibilidades que novos actores possam facultar à casa que fez nascer, há mais de 40 anos, com o seu Livreiro Velho Manuel. Foram os criadores destas reuniões anuais, continuadas na Culsete, hoje, graças à vontade da Fátima. Concebemos, então, que da troca de ideias entre indivíduos que dispõem de meios díspares e necessidades complementares, poderão surgir as sinergias necessárias para revitalizar estes redutos. Hoje, a tecnologia permite a cooperação entre pessoas em pontos longínquos do planeta. Usemo-la positivamente.
«Livros, nas livrarias!» - Clamaram, em uníssono, o José Gonçalves, o José Francisco e o Gonçalo Mira, três fortes presenças nos Encontros Livreiros, lembrando o Joaquim Gonçalves.
«Isto não fica assim!»
Uma espécie de furor percorre-nos, em simultâneo. A senha foi proferida. Acabaram as delongas. Sabemos o que fazer. A Rosa Azevedo retira o livro que acciona o balcão da Culsete. Tudo estremece. Os livros mais soltos caem das estantes. O Hugo Xavier ajuda o Pedro Bernardo a levantar-se. Caíra de Ipad na mão. Havia acabado de nos revelar o novo projecto de ambos, que animou os presentes por motivos diversos. Foi apanhado desprevenido pelo tremor das fundações. Há um mecanismo de suporte no prédio que permite que se mantenha de pé, com menos um bom bocado. A Rosa Azevedo confirma connosco: «Preparados?» Os nossos olhares são concordância. À volta do local sobre o qual planamos está o cordão humano. 
«ISTO NÃO FICA ASSIM!»
«ISTO NÃO FICA ASSIM!»
«ISTO NÃO FICA ASSIM!»
Os soldados da Descultura cercam-nos. Colocam uma quantidade inenarrável de assentos fofos e coloridos, perto dos manifestantes. Empurram-nos. Primeiro brandos, depois veementes. Alguns caem e sentam-se para, de imediato, se levantarem. Estamos orgulhosos. Nenhum de nós se sente confortável. Ninguém aceita acomodar-se e ser espectador do fim.
Não nos calam cá em cima. Não os amordaçam lá em baixo. O cordão de gente é tão longo que nos comunicam, via rádio, ter chegado a Sines, a Coimbra, a Leiria, ao Porto, a Faro, a Vila Real, a Guimarães. Ao ser referido o nome da sua cidade, o Duarte Pereira da Snob emociona-se. Avistamos, contentes, o Miguel de Carvalho da Alfarrabista do Adro de Baixo, a Carla Simões e a Alexandra Vieira da Arquivo Bens Culturais e o Ricardo Ribeiro da Sr.-Teste. É desta. Não tenho medo com a Rosa Azevedo e a Fátima de Medeiros nos comandos. O destino é o VII Encontro antecipado em 264 dias. O estado da arte impeliu-nos a fazê-lo. Todas as livrarias independentes do país foram accionadas revelando o que, até então, não passava de suspeitas. As livrarias voam. Salvam-nos. Porém, tal como os super-heróis, necessitam de quem lhes cuide da humanidade e queira bem, apesar das fragilidades inerentes.
O VII Encontro Livreiro deu-se no meio do Oceano Pacífico. Mais de duas dezenas de livrarias portuguesas sobrevoaram o bote salva-vidas de Pi Patel e aterraram na ilha de Robinson Crusoe. Em terra corria, há muito, o boato da nossa chegada. Os ilhéus simularam o cordão humano que deixámos em Portugal. Por todos os Continentes havia réplicas das mãos dadas. Umas por solidariedade, outras por identificação. Descemos das livrarias. Houve quem não tivesse querido continuar. Saltaram quando o voo ainda era raso. Outros afazeres, outras prioridades, outros amores. Ninguém os criticou. Precisamos de vontade para resistir a todos os contratempos e de capacidade de adaptação. Avisto o Luís Guerra. Corro para ele num abraço. Depois, juntamo-nos ao colectivo. Nesta ilha não há líderes ou chefes, nem há isolamento. O oceano é menor do que a nossa força. Temos livros no lugar das mãos.
Carcavelos, 10 de Maio de 2015.
Andreia Azevedo Moreira
(Escreleitora)

domingo, 12 de abril de 2015

Ainda o VI ENCONTRO LIVREIRO: Tempos Interessantes

Como já dissemos, Nuno Fonseca, numa das suas intervenções no VI E.L., fez a leitura de um texto expressamente escrito para aí ser lido, tendo a sua leitura reforçado o debate. É esse texto que hoje publicamos.

image
Tempos Interessantes
Intervenção no 6º Encontro Livreiro, lida perante os meus pares, durante as conversas da tarde, num momento em que, por motivos de acaso e estro, se discutia a realidade do fenómeno do livro electrónico e os seus efeitos no sector do livro.
Por vezes, e talvez em grau maior do que com muita gente, pergunto-me sobre o futuro, sobre como virá a ser aquilo que ainda não se transformou. Este exercício especulativo não precisa de ficar restricto aos domínios ficcionais ou do academismo criativo. Por vezes pode e deve ser tentado por todos nós.
A primeira coisa que devemos ter em mente é que não se pode pensar o futuro sem conhecer uma parte significativa do passado e sem ter uma visão sólida do presente. Neste momento, há cerca de 20 anos que temos internet. Mais concretamente, os livros digitais também circulam desde o seu início, e o seu percurso, nos últimos anos, tem sido notório. Por outro lado, há 6 anos que foi feita uma tipografia portátil para venda directa de modelos livres de livros ao consumidor (a famosa expresso book machine). É verdade que este aparelho parece ter caído no esquecimento, mas relembremos que também o livro digital passou por muitos anos de relativa obscuridade até atingir o estado presente. Pode ser que o seu advento seja igualmente lento e que ainda venha a ter um papel importante no negócio dos livros.
A questão não é muito diferente da do papel da gasolina Vs. electricidade no mundo dos transportes (salvaguardando as devidas diferenças) - e todos sabemos que apesar de todas as razões e argumentos, continuaremos num sistema baseado em combustíveis fósseis durante muito tempo, porque essa é a vontade dos principais agentes do sector.
Hoje não há gente disposta a abrir mão do livro físico, e a desconfiança e não aposta no livro electrónico são realidades com que vivemos. Isto é algo que afecta em maior ou menor grau todos os agentes do sector do livro. Curiosamente, são os dois intervenientes menos valorizados no sistema actual que mais tem beneficiado e investido nele: os autores e os leitores. Nas relações que se estabelecem entre os vários actores desta peça, autores e leitores, por razões diferentes, são hoje os menos valorizados e mais abusados dentro do sistema da edição física. O mundo virtual possibilitou não só uma certa democratização dos meios de produção em causa, como também da distribuição do livro (e de outros produtos conexos) e da informação em geral. De repente, os autores deixaram de ser obrigados a um interlocutor/mediador privilegiado na sua relação com os leitores e o mundo (e vice-versa). Os leitores passaram a ter formas de ligação e influência sobre a produção e os meios literários. Veja-se por exemplo o papel da Crítica literária e a sua completa irrelevância no que toca ao seu valor promocional para as editoras, principalmente se comparada com a disseminação de opiniões/comentários/exposições nos blogues e redes sociais.
Aos poucos, estes intervenientes que eram eminentemente passivos dentro do velho sistema, passaram a ter um papel muito mais activo e em certos aspectos, mais eficaz. Mas, e está aqui o paradoxo, o que tem sucedido simultaneamente é um retrocesso claro em certos aspectos dos seus papéis, que reverteram claramente para características antigas. Neste sentido, o papel do autor contemporâneo alterou-se atavicamente para modelos de há quase 150 anos: ter dinheiro e /ou posição social são cada vez mais condições normais para se poder exercer com sucesso e relevância uma carreira de escrita; e também se observa que o empenho individual e sem apoios de outros agentes na promoção de si e da sua obra voltou a encontrar sede no actual sistema, pois é cada vez maior o desinvestimento na promoção e no marketing dos autores, e cada vez maior a necessidade de chamar os leitores para participar nesta mudança.
Mas se abro os olhos perante isto é principalmente para relembrar que tudo irá evoluir. O sector do livro é essencialmente sui generis por causa das diferentes evoluções temporais dos seus elementos. No sector do livro anda-se a destempo, a vários tempos, por vezes até a contratempo, mas o sentido é sempre o da mudança e o da valorização, má ou boa, do presente. O futuro parece cada vez mais condicionado pela evolução da natureza da informação e já não tanto pela sua disseminação. Daí estes pequenos sobressaltos que temos assistido em torno do livro digital e do papel das redes sociais no meio.  Os dados financeiros ou mercantis, macro ou micro culturais, sobre os livros, circulam cada vez mais de forma massificada, tendendo para formas públicas. Tanto autores como leitores têm sido os principais fomentadores destas pulsões, enquanto os restantes intervenientes tendem a contrariá-los. E no entanto, o caminho faz-se. Penso que a livre e pública informação de todos os dados referentes ao livro é um caminho inevitável e que todos devem ponderar.
Pode-se discorrer muito sobre tudo isto que o futuro continuará a ser filho apenas de si próprio, mas como pais no presente, temos o dever de olhar em volta, identificar estas tendências e ponderar sobre elas. Se por um lado, os intervenientes e instituições do sector apresentam estas pulsões antagónicas, por outro a verdade é que vivemos uma espécie de época de ouro, moderna e massificada, no que toca ao livro - nunca houve tanto livro em circulação, nem tantos autores, nem tantos leitores, editores, livreiros, nem tanta gente envolvida nos seus processos; se pensarmos nas possibilidades de uma distribuição democratizada, fora de mãos especulativas e gestionárias - e os meios aí estão à vista; se pensarmos, mais à frente ainda, num mundo onde o virtual, o simulacro, tende para invadir o real colonizando-o, passando a fazer parte do dia-a-dia… então acho que as próximas décadas ameaçam vir a ser, no mais profundo significado chinês, muito interessantes.
Nuno Fonseca
2015.03.29

terça-feira, 7 de abril de 2015

NOVOS MUNDOS, NOVOS ATORES: A ALTERAÇÃO RADICAL NO MUNDO DO LIVRO / PALAVRAS QUE VOS DEIXO


Continuando a viver o clima do VI ENCONTRO LIVREIRO, publicamos agora o texto do VI ENCONTRO, da autoria de Nuno Seabra Lopes, que despoletou o debate riquíssimo que se seguiu à sua leitura. Obrigado Nuno por tão importante contributo!

image



NOVOS MUNDOS, NOVOS ATORES: A ALTERAÇÃO RADICAL NO MUNDO DO LIVRO

Não é recente o tema dos novos atores. Nem nova é a reação de achar que, tal como para os autores, será demasiada a importância que se atribuiu à «categoria». Nem é tanto pelo culto da juventude, mas mais o sebastiânico culto da promessa, do jovem que irá fazer o que os outros, já instalados, não foram capazes de fazer: a esperança como substituto da ação; algo demasiado habitual por cá.
Mas não venho cá para me lamentar.
Bem sabemos que, durante muito tempo, o novo representava o mais bem formado e capacitado, e que − no tempo em que o mercado ainda o permitia − muitas vezes a experiência era também sinónimo de acomodação, de perda de criatividade e de outros crimes capitais; mas, quando à experiência se alia o conhecimento, a criatividade e tantas outras coisas, é somente sinal de fazer melhor, de ter memória e respeito pelo que já resultou e tempo passado a aprender o que os outros ensinaram – ninguém sabe tudo; permanência é também existência de arquitetura de conhecimentos com base em amizades e afinidades, algo essencial num mundo que funciona cada vez mais em rede.
Por isso não gosto de falar de novos ou de novidades, sejam elas livreiras ou profissionais. Prefiro falar de pessoas, de capacidades, de inteligência, de vontade de mudar e de abertura para ouvir, independentemente da idade ou da permanência neste mercado.
Um pequeno parêntesis para dizer que é bem mais fácil ser-se novo − uma página em branco com tudo para ganhar − mas difícil, e melhor, é termos a nossa própria experiência como limites e perceber diariamente formas de nos ultrapassarmos.
Mas, este sim um facto irreversível, este mundo é novo.
Venho hoje com um propósito: o de fazer com que estas palavras de arranque não estabeleçam só o mote para este encontro, mas também proponham uma ação para o futuro.
Começo então por dizer que algo no título desta apresentação está tremendamente bem (e não fui eu a dar o título): “novos mundos”, no plural. Deixamos há uns tempos agora de falar do mundo do livro para falarmos de um sistema de mundos não do livro, mas dos conteúdos para a leitura, cujo suporte primordial é ainda o livro. Temos hoje planetas a morrer ou que permanecem iguais mas outros novos e em ebulição vulcânica, só para manter a metáfora.
Deixando de eufemismos: vivemos ainda entre um batalhão de licenciados indiferenciados para a profissão − há mais de uma década com salários baixos − debruçado num balcão livreiro, e entre editoriais especializados que já perceberam que daqui a 20 anos estarão no mesmo lugar ou despedidos. Todos os anos ainda surgem os mesmos casais que sonham com projetos culturais e miúdos com dois anos de fraca experiência a julgar saber tudo o que precisam para vingar.
Mas à parte desse “negócio habitual”, e fora da tradicional cadeia de produção do livro, as coisas mudaram radicalmente, em particular na cadeia da comunicação, ou seja, na forma essencial de dar a conhecer e convencer os leitores a comprarem os livros.
Se o final da corrida muda, isso altera o essencial, pois uma livraria já não tem de se limitar ao que produz por cá, nem um editor ao que se vende aqui. O mercado já não tem de ser a tragédia «daquilo que é». Foi na comunicação e comercialização que se deu o principal da revolução digital, aquele que pulverizou fronteiras – exceto culturais e linguísticas −, e o que gera fenómenos tremendos e destrói projetos históricos antes sustentados – jornais, revistas. Mas este facto é irrecusável: temos hoje muito mais gente e valor no negócio, em particular se compararmos com mercados restritos como o do Portugal livreiro; outro facto: não estamos preparados e vemos esse dinheiro a escoar por tantos novos sítios diferentes. Exemplo, o advento do leitor-autor tão típico do mundo digital, que leva primeiros leitores e não leitores para o âmbito da escrita vanity e fomentam negócios de serviços editoriais como a Chiado. Apesar de tudo não nos devemos aborrecer com estes fenómenos que, apesar do posicionamento mais do que dúbio, atraem a prazo para o mundo do livro pessoas que antes estariam de fora.
Regressando ao tema e evitando o jargão da economia, gestão e marketing (a minha primeira versão deste texto...), relembro que, se antes um leitor queria um livro de História de Portugal, lia num jornal a crítica e ia a uma livraria, onde na estante respectiva, encontrava o livro de referência que necessitava. Hoje a mesma pessoa já não irá não direcionado da mesma forma na necessidade, ele irá fazer uma busca por factos na Internet e irá ser condicionado nas respostas não por quem quer promover e vender livros, mas pelos sites e motores que querem promover vendas cruzadas e publicidade. Ou seja, será distraído com informação genérica (como as explicação wikipédia do que procuramos), direcionado para blogs e sites que promovem não a categoria mas um produto específico ou um tema. Ou seja, a Internet não nos ajuda a encontrar o produto certo ou de referência, mas abre-nos tremendamente o leque de opções sobre o tema, desvia e condiciona as opções por relevância comercial de outros negócios ou outra. Assim, as pessoas não só encontram hoje livros diferentes como também os consomem de forma muito diferente, relacionando e referenciando livros não com outros livros, mas com posts, comentários de facebook, sites, séries, documentários e outras fontes de informação diferenciadas, alterando a percepção do que lemos e o caminho de leitura a seguir.
Por já não precisarmos deixámos de seguir as categorias de forma canónica e agora passamos a procurar informação na Internet sobre os factos que nos interessam. Exemplo: «Morte de Maria Antonieta / croissants»; em vez de termos de lá chegar por: «História da França / Revolução Francesa». A busca de informação é hoje mais específica e já não incide sobre as categorias – única forma que antes tínhamos para lá chegar, mas sobre os factos.
Assim, onde antes poderíamos ser levados a comprar um livro, hoje podemos ficar por um site de informação genérica que está a gerar riqueza seja pela publicidade, seja pela venda de outros produtos como aplicações, espetáculos, músicas, revistas, etc. Já não procuramos livros numa livraria, mas numa mega-store digital que nos está a vender tudo de tudo. Os inputs de oferta misturam-se, apresentam-se como um delta do Nilo onde podemos ir dar à bela e terrível histórica da biblioteca de Alexandria como a uma oferta de férias no gigantesco porto naval de Port Saïd, junto ao canal do Suez.
O mais importante a reter nisto é que se retêm clientes constantemente nesta «loja», e faz-se negócio. Tudo pode ser vendido em toda a parte e os conteúdos pertencentes aos livros estão em toda a parte. Tal como a Amazon já vende detergentes e bolachas, os textos dos livros estão hoje repartidos e adaptados em artigos, posts, guiões, vídeos, postais, filmes, músicas, etc. Podemos chegar à mesma informação – a diversos níveis – com diferentes percursos mais ou menos satisfatórios. E são tudo meios de gerar riqueza com o mesmo negócio, i.e., vender a quem quer saber a informação ou distração por conteúdos de que necessita, apesar dos resultados diferentes.
Hoje quase todos estamos envolvidos neste sistema e existe infinitamente mais valor a circular, neste espaço onde parte das fronteiras ruiu. Se a forma como se conhece e se chega ao livro mudou, e isso significa uma alteração radical do processo, vemos então a mudança de conceitos de base onde, por exemplo, os nichos deixam de ser descritos pelas categorias padrão (história de Portugal) ou pelos segmentos tradicionais (professores universitários com mais de 45 anos), mas sim perfilados por construções coerentes de tipologias de negócio – pardon my french − (ou seja segmentar por público interessado em genealogia europeia, que usa o Ancestry.com frequentando um ecossistema digital fechado onde poderemos inserir uma loja ou comunicação com impacto total).
Independentemente da dimensão do nicho, o segredo reside na capacidade de recriar um circuito de negócio com base na ligação de pontos existentes e funcionais (para acesso de informação, encaminhamento de clientes, processo de venda e retorno).
E é isso que temos de radicalmente novo nestes tempos; são essas as novas pessoas que constituem este ecossistema e que trazem a novidade. O mercado já não é um percurso único e difícil, que passa pelo que dá ou pelo acesso a boa localização, por exemplo, mas sim pela seleção das pedras onde iremos assentar o nosso negócio.
Uma livraria local – em Setúbal, Chaves ou Portalegre – não tem de ser só uma livraria local a vender por proximidade livros que, mais cedo ou mais tarde, um Continente ou uma Bertrand poderá fornecer com mais força, condições e marca. A livraria em Chaves pode ser também a livraria especializada em território, património e natureza da Europa, que existe online e que congrega e fornece não só para todo o país como para o portefólio de produtos de qualidade que represente, trabalhando para faculdades e institutos nacionais e internacionais, apoiando ações locais espalhadas e algumas dinâmicas empresariais como casas de turismo rural ou empresas de animação cultural que levam caminhantes a fazer treking ou escalada e que podem sugerir a venda de livros de rotas, monografias sobre esse território ou outros livros.
E este é só um mísero exemplo do que hoje é possível fazer.
É importante pensar nesta nova forma de se trabalhar em rede de gerar negócio de forma transversal. O que para nós é fácil, para outro pode ser impossível e gerador de riqueza, e hoje é possível colocar os dois em diálogo. O mundo de sinergias empresariais permite cruzar hoje campos inimagináveis e, quando se está aberto a colaborar, descobrem-se mercados e caminhos que não tínhamos pensado. Por isso, olhemos para estes os «novos» não como os novos que estamos habituados mas como os novos que são para este negócio e apresentemo-nos também como novos a eles, abertos a ideias e com vontade de trabalhar e de ajudar.
Por tudo isso, venho propor um acrescento a este espaço de diálogo.
Vejo esta iniciativa não só como um espaço de conversa, mas também como uma possibilidade para gerar ideias, algo que já antes tem acontecido. Proponho assim criar neste âmbito um espaço para a apresentação pública de ideias e novos projetos. Se cada interessado apresentar o que faz, e o que procura, pode ser que haja alguém do outro lado que possa ter a solução. Pode ser que uma nova editora de livros náuticos encontre a livraria que se quer especializar no tema, ou conheça alguém associado a uma empresa de venda de velas que está interessada em fazer um livro para eles. Pessoalmente, seria um motivo de interesse adicional.
Obrigado pela atenção.
Setúbal, 29/03/2015, VI Encontro Livreiro
Nuno Seabra Lopes


Depois deste texto tão inspirador e que nos lança para novos projetos e desafios, transcrevemos agora a mensagem que Luís Filipe Guerra, impossibilitado de comparecer no VI E.L., enviou e que foi lida por Rosa Azevedo. Lamentamos que Luís Guerra, connosco desde o I E.L., não tenha podido envolver-se mais este ano. Esperamos que seja um afastamento temporário e que rapidamente possamos voltar a contar com a sua preciosa colaboração e envolvimento nos próximos Encontros.

image

PALAVRAS QUE VOS DEIXO
Sou um orgulhoso fundador do movimento das gentes do livro que dá pelo nome de Encontro Livreiro. Recordo hoje os nomes do pequeno núcleo inicial: Manuel Pereira Medeiros, Luís Guerra, Fernando Bento Gomes, Cristina Rodriguez, Artur Guerra, Gonçalo Mira, Nuno Fonseca, Joaquim Gonçalves, Dina Silva, Adelino Almeida Abrantes, José Augusto Soares Pereira, António Almeida, Fátima Ribeiro de Medeiros, Hélia Filipa da Cruz Sampaio, Nuno Miguel Ribeiro de Medeiros, João Manuel Rodriguez Guerra, José Teófilo Duarte, Francisco Abreu, José Gonçalves (ausente por motivos de saúde, participou na preparação e na divulgação).
O Encontro Livreiro nasceu na livraria Culsete, em Setúbal, no dia 28 de Março de 2010, mas tem andado por aí e gosta de deixar sementes que deem rebentos que possam dar novas sementes, que possam dar rebentos que possam dar novas sementes... e assim sucessivamente. Os primeiros rebentos nasceram em Trás-os-Montes – onde cresceram e se multiplicaram em Vila Real (Traga-Mundos), Macedo de Cavaleiros (Poética), Bragança (Rosa D’Ouro) e, no domingo passado, em Valpaços (Livraria Dinis) – e no Porto, onde brotaram num jardim feito de livros, a Lello do livreiro Antero Braga, a mui antiga e bela livraria da invicta e do mundo. Da equipa de “resistentes” a Norte, quero ainda destacar Dina Ferreira (Poetria), um exemplo de visão e de persistência de uma livreira que ama os livros, a poesia, o teatro.
Acompanhei muito de perto o seu crescimento até bem próximo dos cinco anos, que ontem se cumpriram. Parabéns a você! E lembro, com alguma nostalgia, o brinde inicial (vão lá ver ao Isto Não Fica Assim!). E lembro ainda, feliz, os meses da gravidez e da esperança, os primeiros dias, as primeiras noites, os primeiros meses e anos, os primeiros e trémulos passos, primeiro a necessitar do amparo de uma ou mais mãos, adquirindo aos poucos cada vez mais autonomia.
É um movimento que não gosta de chefes nem de líderes e que desde o início se quis o mais informal e livre possível. Mas, para funcionar e avançar, foi recorrendo a uma “comissão executiva” oficiosa constituída por Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro Medeiros (Culsete – Setúbal), Joaquim Gonçalves (A das Artes – Sines), António Alberto Alves (Traga-Mundos – Vila Real), Sara Figueiredo Costa (Cadeirão Voltaire), Rosa Azevedo (Estórias com Livros) e eu próprio. Claro que no início este núcleo era ainda mais reduzido. Convém referir que alguns destes elementos foram sendo cooptados à medida que chegavam ao Encontro Livreiro e que há outros amigos, que me desculparão por não os nomear, que sempre estiveram muito próximos.
Por razões de ordem muito pessoal, em Novembro passado – por ocasião do Dia da Livraria e do Livreiro, “rebento” que nasceu da relação entre o Encontro Livreiro e a Fundação José Saramago e da vontade do seu director, o meu amigo Sérgio Letria, mas que precisa de um maior envolvimento dos livreiros, o que não se conseguiu satisfatoriamente até à edição de 2014 – decidi que era chegado o momento de me afastar. Nessa altura comuniquei a minha decisão à Fátima, desde sempre a livreira da Culsete mas agora a solo depois da partida do Livreiro Velho, e pedi-lhe o grande favor de a transmitir aos restantes amigos. Ao mesmo tempo, entreguei-lhe as “chaves” do blogue «Isto Não Fica Assim!» e da página do Encontro Livreiro no facebook, que tomei a liberdade de criar logo a seguir ao I Encontro e onde podem encontrar os textos, as imagens, a história deste inédito movimento das gentes do livro.
Deixem-me que refira uma das iniciativas que mais acarinhei, a atribuição do diploma Livreiros da Esperança, e que recorde aqui os nomes dos livreiros já homenageados: Jorge Figueira de Sousa (Esperança – Funchal), Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira (Galileu – Cascais), Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro Medeiros (Culsete – Setúbal), Antero Braga (Lello – Porto) e ainda o Livreiro da Esperança de 2015, Luís Alves Dias (Ler – Lisboa), nome que já tinha sido referido em conversas com a Fátima anteriores à minha saída e ao seu falecimento em 23 de Janeiro deste ano e que depois vi confirmado no Isto Não Fica Assim! Um abraço, bem rijo e amigo, ao filho, o livreiro-editor-livreiro Luís Alves.
Se me permitem, quero também deixar uma palavra em memória e em homenagem à vida de um outro livreiro que nos deixou no mesmo mês de Janeiro deste ano, António André (Lácio – Lisboa), a quem me ligam boas recordações e que, no meu modesto entender, mereceria um maior reconhecimento público. Sabem, por exemplo, que nos deixou um livro de poemas intitulado Entrevero? Sei da sua existência mas confesso que não o tenho nem o li ainda. Se alguém me fizer chegar um exemplar ficarei muito agradecido. Pagando, claro! Mas o seu poema maior, e esse tive o privilégio de o ler repetidas vezes, chamou-se “Lácio, Campo Grande, 111”! Que agora se continua a “ler devagar”, na voz do José Pinho e do Pedro Oliveira. Boas leituras, que devagar se vai ao longe!
E por falar em livreiros e em livrarias, no último encontro lancei um apelo que parece ter caído em saco roto: para quando a criação de um movimento próprio de livrarias independentes? E neste conceito cabem livrarias com décadas de experiência e outras, novas e novíssimas e com novos modelos, que estão a nascer ou a dar os primeiros passos. Continuo a achar que faz sentido, que faz falta, que é urgente, muitíssimo urgente. Pelo país fora há (ainda há) mais de duas dezenas de livrarias que podiam animar e dar corpo a um movimento que comece por criar uma “rota de livrarias independentes” que funcionem a partir de uma grande cumplicidade entre si, mas também – e isto parece-me fundamental – que crie uma cumplicidade nova entre autores, editores, livreiros e leitores. E, se o meu grande amigo Joaquim Gonçalves me permite, ele que o criou e dinamizou e que, quase sempre sozinho, tem vindo a desmascarar manhas e artimanhas de vários Golias, sugiro um nome para este movimento: “Livros, é nas Livrarias!”.
Meus caros amigos livreiros, não fiquem a observar na bancada ou atrás do balcão. Não esperem que outros resolvam os vossos problemas. Não se olhem como concorrentes, que não são. Conversem, conheçam-se, troquem ideias, definam objectivos comuns, promovam iniciativas próprias que circulem pelas vossas livrarias, de norte a sul. Livreiros do meu país, uni-vos!
Não posso deixar de mencionar e de registar os nomes de Pedro Vieira, José Teófilo Duarte e Manuel Rosa pela preciosa e desinteressada colaboração na criação dos cartazes e dos diplomas.
Desejo ao Encontro Livreiro aquilo que desejo a cada um dos meus três filhos, todos já na maioridade: que continue o seu caminho, agora sem a minha presença e zelo diários, e sem os constrangimentos que mesmo o amor de um “pai” e de uma “mãe” acabam por implicar. Evitando a rotina e a repetição de procedimentos e de vícios, e possibilitando novas escolhas, novos caminhos, novos objectivos, novos intervenientes, novos actores.
Tenho a consciência de ter dado o máximo – como gosto, aliás, quando me envolvo nas coisas – e de ter feito o melhor que pude e que sabia. Saí antes que viesse a sentir que isto fica assim. Cabe às gentes do livro fazer com que, afinal, isto não fique assim.
São estas as palavras que vos deixo. Obrigado pela vossa compreensão e, o que para mim é o mais importante, pela vossa amizade.
Envolvo todos (e vejo agora os rostos e os olhares, um a um) com um abraço apertado dado a cada um de vocês.
Até sempre!

Luís Guerra
Margem Sul, 29 de Março de 2015

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O VI ENCONTRO LIVREIRO FOI ASSIM

 

image

Passada uma semana sobre o VI ENCONTRO LIVREIRO, vamos começar a apresentar a partir de hoje algumas fotos, o texto do Encontro, da autoria de Nuno Seabra Lopes, e outros depoimentos que ajudaram a construir o Encontro e a enriquecer o debate.
Diga-se desde já que este VI Encontro correu muito bem. Ao final da tarde somávamos propostas concretas e muito válidas e ainda trouxemos connosco várias opiniões que nos ajudarão a repensar as questões da leitura e do livro.

image

Enquanto esperavam que o E.L. começasse, a Clementina e o Fernando não resistiram e começaram a ler. Como nós gostamos disso!

Iniciámos o VI E.L. entregando com muito prazer o diploma Livreiros da Esperança 2015 a Luís Alves Dias, na pessoa do seu filho, Luís Alves, editor e atual gerente da Livraria Ler, que assegura a continuidade do projeto livreiro iniciado pelo nosso homenageado. Luís Alves agradeceu a homenagem, evocou o pai e recordou alguns momentos passados na livraria ao lado dele. Foi, como sempre, um momento de diferentes emoções.

image

Aproveitamos para agradecer publicamente a José Teófilo Duarte a feitura do diploma, belissimamente concebido e que muito agradou a todos, em especial ao destinatário. Aproveitamos ainda para voltar a agradecer a Pedro Vieira a elaboração do cartaz de promoção do Encontro, que oferecemos a todos os participantes, transformado em marcador de livros.

image

Passou-se de seguida à segunda parte do Encontro Livreiro. Nuno Seabra Lopes leu o seu texto (será publicado amanhã neste blogue) e imediatamente se iniciou o debate, vivo e espontâneo e muito participado, tendo um dos presentes, Nuno Fonseca, trazido também um texto sobre o tema proposto que, em devido tempo,leu aos presentes.

image

Quanto aos participantes, vieram de muitos lados, prontos a ouvir e a dialogar. Sendo o Encontro Livreiro um movimento feito por pessoas, a partir delas, das suas ideias e da sua vontade se constroem os nossos percursos. Sabendo nós que sem pessoas o E.L. não existiria, foi com alegria que voltámos a encontrar participantes que aparecem desde o primeiro, o segundo, o terceiro Encontros. São a sua base, o seu corpo, a sua continuidade.

image

Tivemos o prazer de voltar a receber, como acontece desde 2013, ano em que foi a Livreira da Esperança, Caroline Tyssen, atenta, entusiasta e irreverente como sempre.

image

Várias pessoas apareceram pela primeira vez, aumentando, assim, o nosso movimento. De leitores a escritores, de livreiros a editores, passando por bibliotecários, de diversa gente dos livros se constituiu o grupo dos novos deste VI Encontro Livreiro. Gostaríamos de destacar alguns desses novos participantes, pela sua simbologia: Duarte Pereira (Livraria Snob, Guimarães), Fernando Dacosta (escritor), José António Calixto (bibliotecário), Pedro Bernardo (editor). A diversidade continua a ser uma constante entre os participantes do E.L.

fotografia 3 (6)

Já o VI E.L.ia a mais de meio quando Hugo Xavier e Pedro Bernardo tomaram a palavra para nos falarem de uma nova proposta editorial que se abrirá a várias parcerias, sendo uma delas com as livrarias. Desde já saudamos essa iniciativa. Sobre essa apresentação contamos dar-vos elementos daqui a alguns dias.

image

Ainda houve tempo para beberricar o Moscatel de Setúbal e provar algumas das especialidades da doçaria regional. Os persistentes lá foram uma vez mais jantar choco frito.

Em 2016 cá estaremos de novo. Estamos já a desenhar o VII ENCONTRO LIVREIRO.

 

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O VI Encontro Livreiro está a chegar

DSCF9514
(Rosa Azevedo, Nuno Medeiros e Nuno Fonseca, no V Encontro Livreiro)
É já no próximo 29 de março, exatamente daqui a dois meses, que se vai realizar o VI ENCONTRO LIVREIRO.
Vamos todos voltar a Setúbal, à Livraria Culsete, para passar uma tarde diferente de domingo, debatendo ideias sobre questões relacionadas com a problemática do livro e da leitura.
O ENCONTRO LIVREIRO não é apenas um encontro de livreiros. É antes um encontro de todas as gentes do livro, do leitor ao investigador, passando pelo editor, pelo livreiro, pelo tradutor, pelo designer gráfico, pelo revisor, pelo ilustrador, pelo bibliotecário, pelo autor, pelo agente literário, enfim, por todos os que trabalham e vivem na esfera do livro.
Haverá no início do Encontro, às 15 horas, o habitual apontamento musical e o moscatel de Setúbal marcará como sempre o clima de convívio.
Em breve anunciaremos o nome do livreiro a quem será atribuído o diploma LIVREIRO DA ESPERANÇA 2015, uma singela homenagem deste movimento àqueles que dedicaram uma vida a promover o livro e a leitura, continuando as suas livrarias a ser espaços de resistência e persistência cultural.
Iniciando o VI ENCONTRO LIVREIRO um novo lustro, sentiu o núcleo fundador necessidade de fazer alguns ajustes. Assim, o debate far-se-á em torno de uma temática comum que será introduzida pelo chamado texto do Encontro, que em breve estaremos em condições de divulgar.
Portanto, já sabe: Em março todos os caminhos vão dar a Setúbal, à Culsete, ao VI ENCONTRO LIVREIRO.
Contamos consigo!

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

NO PORTO OU PERTO… MAS NÃO SÓ.


Recebemos e divulgamos uma mensagem, enviada pela livraria Poetria, sobre o próximo I ENCONTRO LIVREIRO DO PORTO E GRANDE PORTO. 

Relembramos que o Encontro Livreiro não é apenas um Encontro DE Livreiros. É UM ENCONTRO ABERTO À PARTICIPAÇÃO DAS GENTES DO LIVRO e parte do princípio de que as livrarias — como espaço privilegiado da promoção e da mediação da leitura — não se salvam isoladamente e fechadas sobre si próprias e precisam de criar um movimento de permanente cumplicidade entre as gentes do livro, do autor ao leitor, passando por todos e cada um dos intervenientes na cadeia do livro.

Apelamos a que todos colaborem na divulgação do I Encontro Livreiro do Porto e Grande Porto e a que, estando NO PORTO OU PERTO, participem activamente neste importante momento de um movimento que nasceu, vai para cinco anos, em Setúbal.

ISTO NÃO FICA ASSIM!

Encontro Livreiro
Setúbal, 7 de Novembro de 2014



«Caríssimos Colegas,

Queremos que este Encontro seja uma fantástica ocasião para nos conhecermos melhor, convivermos, trocarmos experiências e saberes e mesmo tentarmos descobrir novos caminhos que melhorem as nossas condições e motivações profissionais.

O Encontro Livreiro do Porto está marcado, como já foi anunciado, na livraria Lello, representada pelo nosso colega Sr. Antero Braga, que aceitou ser o nosso anfitrião nesse importante evento.

A data agendada é o próximo dia 23, um domingo, que queremos seja bem passado e bem animado, depois de um almoço portuense que aconchegue estômagos e alegre corações. 

A esse propósito, gostaríamos então de saber quais os colegas interessados no dito, a fim de fazermos as necessárias reservas, no restaurante mais adequado, em espaço, qualidade e conforto.

Estamos a trabalhar na preparação do cartaz de divulgação que publicitaremos logo que esteja pronto. Mas entretanto pensamos que o Encontro já poderá ser anunciado junto de todos quantos se interessam pelos livros, a partir dos vossos contactos, quer pessoais quer institucionais ou outros.

É importante salientar que os livreiros, como veículos directos dos livros e do prazer e necessidade da leitura, contribuem para que os cidadãos de hoje garantam, através do conhecimento e do saber, uma melhor sociedade futura. E nesse sentido, é preciso passar a palavra sobre o espírito do Encontro Livreiro, unirmos esforços e vontades, fazer com que sejamos ouvidos e compreendidos.

TEMOS A MELHOR PROFISSÃO DO MUNDO.
VAMOS TRABALHAR PARA QUE SEJA TAMBÉM A MAIS DIGNA E A MAIS RESPEITADA!

Livraria Poetria
www.livrariapoetria.com»

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

I ENCONTRO LIVREIRO DO PORTO E GRANDE PORTO


Acabou de nos chegar, via Poetria, a notícia da realização do 

I Encontro Livreiro do Porto e Grande Porto

Será na tarde do dia 23 de Novembro de 2014, na 

Livraria Lello | Prólogo Livreiros

Depois da experiência dos Encontros Livreiros de Trás-os-Montes e Alto Douro, que já conheceu várias edições e vai rodando pelas livrarias da região, 

saudamos a realização, no Porto, de uma experiência que, no Encontro Livreiro, sempre desejámos ver reproduzida em várias regiões do nosso país. 

Apelamos, desde já, a que se façam representar no próximo Encontro Livreiro nacional, a realizar, como habitualmente, na livraria Culsete, em Setúbal, na tarde do último domingo de 
Março de 2015.

Contem sempre com a melhor colaboração do movimento 
Encontro Livreiro.

ISTO NÃO FICA ASSIM!

Encontro Livreiro
Setúbal, 23 de Outubro de 2014

… | ...

«Está em preparação o I Encontro Livreiro do Porto e Grande Porto, a realizar no próximo dia 23 de Novembro e que terá lugar na livraria Lello (Rua das Carmelitas – Porto).

No rescaldo da recente feira do livro do Porto, que ocorreu no Palácio de Cristal entre os dias 5 e 21/9/21014, é de toda a oportunidade que os livreiros continuem a afirmar-se vivos entre os mais vivos e não "mortos entre os vivos", citando Jaime Bulhosa quando assim se exprimia, com alguma amargura, em 2012, aquando da 82ª Feira do Livro de Lisboa.

Em suma, é tempo de passarmos a palavra, junto dos livreiros e demais gentes do livro, "isto não fica assim", instituída e materializada em blogue, por ocasião do I Encontro Livreiro na Livraria Culsete, em Setúbal.

O sábio Manuel Medeiros, carinhosamente apelidado de "Livreiro Velho", dizia então: "... o olhar encontra de imediato os escritores e os leitores, mas entre o livro e a leitura está o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro 'publica' a leitura".

E da Traga-Mundos, livraria de Vila Real onde também se realizou o Encontro Livreiro, vinham estas palavras (citadas de um Encontro Livreiro de Setúbal): "O Encontro Livreiro é simplesmente um movimento de aproximação entre quem, vivendo e trabalhando no meio dos livros — livreiros, gentes do livro e todos quantos se reconhecem, de um ou outro modo, no amor e no culto do livro —, já percebeu que não faz sentido, hoje mais do que nunca, andarmos a esforçar-nos cada um por si, numa 'guerra' que só pode ser vencida em comum, lado a lado, se é que se pretende que o livro continue a ser uma das mais ricas potencialidades do homem civilizado para progredir em direcção a todas as suas utopias e ambições. E conseguir que, trabalhando com ele e para ele, se vão colhendo bons proveitos e justos proventos".

A Poetria, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lello, Lumière, João Soares e Manuel Ferreira, por parte dos livreiros do Porto, vêm por este meio convidar os estimados colegas e as designadas "gentes do livro" — autores, jornalistas, professores, leitores, editores, tradutores, bibliotecários… — reunindo-as num Encontro Livreiro no Porto para nos conhecermos, pensarmos e falarmos sobre o objectivo central: o livro e a leitura.

Um Encontro que se quer também de partilha de experiências, histórias e troca de informações sobre as contingências da nossa profissão, a nível do mercado, dos agentes e instituições culturais, dos leitores, presentes e futuros, e tudo o mais que tenha a ver com os livros, numa perspectiva de superação da crise pela positiva e não pelo queixume ou desistência.

Também nos motiva a vertente social e lúdica do Encontro, enquadrada num momento de fruição de prazeres como um porto, um vinho tinto (ou até água fresquinha da torneira), mais uns petisquinhos genuinamente nacionais — uma autêntica broa de Avintes, uns bolinhos de bacalhau ou umas pataniscas do mesmo —, mais uma musiquinha, cantada ou tocada, ou mesmo poesia...

Chegados a este ponto, gostaríamos agora de colher a vossa opinião, sugestões, ideias ou quaisquer considerações que nos possam ser úteis no sentido de prosseguirmos no caminho que nos conduza à concretização ideal desse Encontro.

Quanto ao local, pensamos que o mais acertado será que o Encontro aconteça na livraria Lello, cujo livreiro, o Sr. Antero Braga, foi recentemente declarado “Livreiro da Esperança”. Além disso, esta emblemática livraria fica numa zona privilegiada e histórica do Porto, enquadrada pelas ruas José Falcão, Carmelitas, Passeio dos Clérigos, pç Gomes Teixeira (Leões) e Carlos Alberto.

Apelamos a que todos, através dos contactos e meios de que disponham, colaborem na divulgação do conteúdo desta comunicação e do I Encontro Livreiro do Porto e Grande Porto, que se organizem em grupos (de amigos, de profissão, de empresa, etc.) e se desloquem ao Porto, se o desejarem e se possível, almoçando num dos inúmeros e cativantes restaurantes na zona (quem sabe uma francesinha no Golfinho, aqui tão perto), e a seguir encaminhando-se para o convívio e o Encontro na livraria Lello.»

Livraria Poetria

terça-feira, 22 de abril de 2014

O que faço aqui? – O V Encontro Livreiro por Andreia Azevedo Moreira


Desde o Encontro Livreiro do ano passado que ando a matutar: «Qual é o meu papel aqui? Em que posso intervir?» O meu ponto de vista, quando vos venho ouvir, é o de Leitora e embora não tenha participado falando, recuso ser mera testemunha. É do meu feitio se sinto haver desacerto, ou mal-estar, impor-me uma qualquer acção. Insignificante que seja. Neste caso sou o burro a olhar para o palácio porque, além do óbvio, não descortino o que mais poderei fazer para contrariar a tendência actual. A partir do momento em que reflecti sobre este assunto e o adoptei como um dos que me importa e preocupa, arregacei mangas para o que se encontra ao meu alcance. Ganhei maior consciência de que as minhas opções individuais têm importância, sim, e que mesmo sendo gota de água, o meu mililitro de contribuição pode fazer a diferença. Compro os meus livros, na sua maioria, em livrarias independentes. Nesta área, como em outras, também falho. Às vezes uma pessoa está com pressa e tem ao pé o que precisa e pronto. Para mim, essa será a excepção que confirma a regra. Tenho noção exacta do que tem acontecido a demasiadas Livrarias independentes, por uma grande parte dos Leitores se render ao comodismo das estantes fáceis. 

Em Setembro de 2008 falaram-me de uma Livraria que ficava no Rato. O nome por si só era prometedor: «A Trama». Aí encontraria uma publicação de poesia, a Criatura, que me apaixonara com o texto anónimo que lhe servia de mote. Começava assim: Não precisas de explicar ou dar nome a um movimento para fazeres as coisas moverem-se. De Setembro de 2008 a Junho de 2010 «A Trama» foi a minha livraria. Nessa altura, como agora, o orçamento doméstico não permitia grandes desvarios, por isso, guardava-me para lá ir em busca das leituras que me faltavam. Era um imenso prazer falar com a Catarina Barros e com o Ricardo Ribeiro. Perguntar-lhes o que achavam deste, ou daquele livro. Sentia-me orgulhosa quando seleccionava sozinha volumes e eles me sorriam cúmplices, aprovando a(s) escolha(s). Seria difícil que não o pudessem fazer. Todas as capas em destaque eram a melhor Literatura. Trabalho deles, essa criteriosa selecção. Passeava enamorada pelos títulos, maldizendo a falta de um plafond maior. Olho para as minhas estantes e sei cada livro que lá adquiri. Não foram poucos. Deviam ter sido muitos mais. A Trama fechou e não me esqueço dela, nem dos dois Livreiros, como não se esquece um amigo importante que partiu, deixando-nos com a saudade. Este foi, neste contexto, o primeiro grito ensurdecedor que me atingiu certeiro. 

(Apercebo-me, neste momento, que fechou a «Livro do Dia» em Torres Vedras que nunca cheguei a visitar, apesar da vontade, o que me deixa desolada.) 

O que é que a Trama tinha de especial? A intimidade. O ser um ponto de venda de livros, mas também um local de discussões profícuas, de aprendizagem, de convívio, de arte, do saber, de enriquecimento intelectual. Lá conheci pessoas estimulantes como a Rosa Azevedo, a Raquel Ochoa, a Rita Pedro, a Ana (Uma senhora de oitenta e tal anos que ainda se atirava a workshops de escrita criativa, recusando a solidão e a velhice.) entre muitas outras. Foi naquele espaço que reconheci, à distância, o Fallorca que acompanhava no blogue «O Cheiro dos Livros» cuja notícia da morte recente muito me entristeceu. Passeei os olhos por exposições de fotografia e outras. Dei mais uns passos neste trilho desmedido que é a Literatura. Lá amadureci enquanto Leitora. 

Falou-se disso neste Encontro Livreiro. Por que preferir as Livrarias independentes aos gigantes? Precisamente por isto. Nenhum Golias me marcará, ou ensinará, desta maneira. Os laços, o contacto directo e estreito com quem pretende comprar bons livros, a vontade de promover o encontro entre as gentes que os amam, de trocar ideias, de difundir a leitura e os bons autores, só poderá ser concretizada por pessoas apaixonadas e conhecedoras: os Livreiros. Muito dificilmente máquinas comerciais com líderes que são exclusivamente gestores e não se comovem com histórias de amor aos livros, como se preocupam com lucros, farão tanto por eles, pela leitura e pela Literatura. 

Exemplifico uma pequena parte da cadeia que já se criou na minha vida graças às livrarias independentes e às pessoas a elas ligadas: 

Na Trama frequentei dois cursos de Literatura com a Rosa Azevedo. Fiquei de olho nela, como pessoa a seguir, por ter entendido que dela virá sempre aprendizagem útil e refrescante. Entretanto, a Rosa organizou um ciclo de encontros que se intitulava “Para acabar de vez com a Leitura”. Iniciativa singular que muita falta me faz. Numa das sessões vi, pela primeira vez, o Luís Guerra. Homem dedicado aos livros, às letras e aos afectos que já muito me trouxe e que adorei conhecer, na Culsete, o ano passado, sem o filtro da virtualidade. Ele é o que se vê online e é alguém que nos enriquece a vida. Graças a ele tenho-me cruzado com outras pessoas marcantes, como o divertido Joaquim Gonçalves da «A das Artes» que por muito negra que se encontre a actualidade, acha os meios para arrancar um sorriso a quem o rodeia e para não perder o seu; o Nuno Fonseca e o Francisco Belard a quem o Luís tratou de arranjar boleia (a minha) para este quinto Encontro Livreiro, o que me proporcionou muitos minutos de conversa boa. Na «Pó dos Livros» frequentei um curso (Com a Rosa. Lá está.) sobre Surrealismo que me aprofundou o encantamento por Mário Cesariny, Alexandre O’Neill e António Maria Lisboa. Na «Ler Devagar» tive umas luzes sobre ficção para TV, com o vibrante filipe Homem Fonseca a quem continuo a acompanhar à distância. O Ricardo Ribeiro continua a ser o meu Livreiro de eleição, mesmo sem poiso fixo. Aquele a quem recorro e em quem confio. Tudo o que diga ficará aquém do quanto já ganhei nesta rede, sob o tecto acolhedor de Livrarias Independentes e pelas mãos empenhadas e amigas dos respectivos Livreiros. 

Um povo com Cultura terá maior capacidade para reflectir, ripostar e exercer o seu pensamento de forma livre. Não é possível submeter-se quem raciocina, está informado, sonha fora dos parâmetros, imagina e vislumbra além do que é imediato. Fornecido mastigado. É inestimável e fundamental o uso que os Livreiros fazem das suas Livrarias, na divulgação da nossa Cultura. 

O que faço perante um problema que considero também meu? 

1) Compro os meus livros em Livrarias Independentes. 
2) Divulgo, insistente, as livrarias que visito. 
3) Quando ofereço um presente a alguém dou primazia ao livro. 
4) Recomendo leituras. 
5) Leio aos meus filhos e conto-lhes histórias. 
6) Sensibilizo os que me rodeiam para a temática. 
7) Compareço, quando posso, nas iniciativas que as Livrarias dos meus afectos promovem e tento que me acompanhem amigos. Divulgo. 
8) Prefiro o papel ao digital. 

Reforço o apelo que já um dia fiz. Ajudem-nos a ajudar-vos. O que podemos, enquanto Leitores, fazer mais? 

Se a união dos Livreiros Independentes fará a força, essencial à sua sobrevivência, também é verdade que trará pujança à luta, a sensibilização dos Leitores para esta causa. Explicar-lhes o que está em jogo, o que perderão assim desapareça esta forma de olhar para os Livros e o quanto têm a ganhar ao entenderem que viver a Literatura é muito mais do que a mera compra do objecto. 

(Perdoem se me alonguei.) 

Finalizo dando os parabéns ao Antero Braga, da Livraria Lello, por esta justa homenagem a 46 anos de dedicação aos Livros, à Literatura e de serviço aos Leitores. 

A todos os que referi e aos que estão implícitos o meu MUITO OBRIGADA. 

Um abraço amigo. 

21 de Abril de 2014 

Andreia Azevedo Moreira, Escreleitora, Carcavelos.

domingo, 6 de abril de 2014

Esperamos sinceramente que o próximo Encontro Livreiro no Porto seja em breve uma realidade — Dina Ferreira | Poetria



A Poetria, livraria de poesia e teatro, no Porto, associa-se em pleno ao 5º Encontro Livreiro no próximo domingo, na livraria Culsete, em Setúbal, onde este maravilhoso movimento nasceu, e envia aos colegas livreiros uma mensagem de solidariedade e esperança num futuro melhor para todos nós. 

No Porto há livrarias bonitas, e a mais bonita de todas é a magnífica Lello, cujo livreiro e grande amigo Sr. Antero Braga, está de parabéns porque acaba de ser homenageado com o diploma "Livreiro da Esperança". 

Nessas livrarias, há livreiros com histórias de dedicação, competência, entusiasmo, partilha de experiências e informação com o público que lê mas também com o que (ainda) não lê. 

Incansáveis e apaixonados pelos livros, os livreiros revêem-se nas sábias palavras do saudoso Manuel Medeiros, o querido "Livreiro Velho" que nos deixou recentemente: "...o olhar encontra de imediato os escritores e os leitores, mas entre o livro e a leitura está o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro 'publica' a leitura". 

Esperamos sinceramente que o próximo Encontro Livreiro no Porto seja em breve uma realidade, e estamos a trabalhar para que isso aconteça muito brevemente, porque estamos em perfeita sintonia com o espírito e objectivos que estiveram na origem desta iniciativa: conhecimento mútuo dos livreiros a nível nacional, englobando na mesma um universo alargado de gentes do livro e da cultura, reflexão conjunta sobre todos os aspectos e problemas inerentes a esta profissão: A MAIS BELA PROFISSÃO DO MUNDO! 

Um grande e forte abraço a todos. 

POETRIA
Dina Ferreira | Porto

(mensagem recebida no dia 27 de Março e lida no V Encontro Livreiro)

quinta-feira, 3 de abril de 2014

«Se o ciclo do livro está uma baralhada, a parte final é uma tourada»




Texto escrito para leitura no V Encontro Livreiro, em Setúbal, o que aconteceu no passado domingo, dia 30 de Março, foi já considerado aqui como uma «divertida e irreverente paródia, uma metáfora inteligente sobre o momento presente.» Passemos à leitura, se bem que nos falte agora a voz e o saber dizer do Joaquim, o Livreiro de Sines, para a transformar num momento único, de uma beleza irrepetível, que apenas quem esteve na Culsete pôde testemunhar e sentir. 


Por isso mesmo e pelo título que dou a esta breve intervenção, não me apetece falar de livros, nem de livrarias, nem de grandes grupos, concorrência desleal, supermercados, bombas de combustíveis, máquinas de livros… nada disso. 

Estou farto dessa conversa que, sem acção precisa e coordenada, só leva a um lado — a banalização do entorpecimento. 

Por isso mesmo, e porque estamos aqui, informalmente, mais uma vez, a confraternizar, deixo para outros as coisas sérias e tomo a liberdade de ocupar um pouco deste nosso tempo de forma lúdica. Talvez, assim, limpemos as cabeças para baralhar e dar de novo. 

Ora, lá, onde a minha mãe me deu à luz (no século em que nasci chamava-se parir…) nascidos em terra de tradições tauromáquicas, desde crianças que nos habituámos a aguardar ansiosamente o mês de Setembro para participar nas Festas anuais. Do seu programa ainda hoje constam, em confortável maioria, os espectáculos com toiros bravos. Para além das touradas, várias largadas de toiros nas ruas e praças, ao uso de Pamplona, rezam os cartazes. 

Directos ao assunto, falemos, então, das touradas e do seu cerimonial. 

Praça cheia, colorida, povo e mais povo. A gente ilustre em lugares de destaque. Barreira de sombra, para onde confluem olhares. O povaréu ao sol, lugares mais baratos. A banda de música convidada dá alma à tarde. Cinco horas — cinco en punto de la tarde — hora importada para o início da função. 

O público existe. O público aguarda. Está sedento de espectáculo. Seja qual for o cartaz, a mole humana vagueia, mais ao sabor da moda. Mesmo que haja pouco dinheiro, guardou-se algum para a festa. Se o cartaz é anunciado na televisão, melhor ainda. Já é bom antes de ser! 

Abre-se a porta larga — cerimónia de cortesias. Primeira oportunidade de apreciar as casacas dos cavaleiros – traje de luces, gente nobre, ou parecida com isso; a destreza dos cavalos, bem amestrados, dançando ao som do passo-doble. Na sombra da parelha, os peões de brega, subalternos, apeados, não variando muito de vestimentas. Já as dos moços de forcado, com ligeiras diferenças, são sempre iguais. Parentes pobres da afición, quantas vezes com as jaquetas esgaçadas, mas altivos e orgulhosos da sua posição independente no cartel, sem cachet, quantas vezes a terem de financiar a actividade, sempre a actuar pelo amor à camisola. 

Toca a música a compasso, os cavalos acompanham em passo artístico cadenciado. Acenam, acenam, que os cavalos acenam sempre! Ainda mais se forem vaidosos, que é assim que os donos os querem. 

Recolhidas as apresentações, a expectativa cresce. Pára a música até que o corneta anuncie a primeira lide. Surge, pela porta larga, o primeiro cavaleiro, agora já com outra montada. Dá voltas à arena, reconhece terrenos. Posiciona-se no lado oposto frente à porta dos curros. 

O corneta entra novamente em acção. É tradicional falhar uma ou outra nota daquele sinal que os aficionados sabem de cor. 

Porta dos curros aberta, sai a besta a soprar. O cavalo volteia, o cavaleiro condu-lo em busca de posição de cite. 

-Toiro, toiro! Eh toir’ liiiind’! 

Corre daqui, foge para acolá, posiciona-se mais além. O toiro desconfia. Decide-se, corre em busca do vulto provocador. O cavalo faz nova habilidade, contorce-se no cruzamento, o cavaleiro espeta o primeiro ferro. 

Seguem-se outros. Primeiro a série de compridos, depois, a de curtos. 

Entretanto, já os peões de brega voltearam os capotes rosa, em tentativas de posicionar o boi para a faena. Se têm dificuldade em conseguir ou abusam dos floreados, a turba assobia. O povo quer ver brilhar o artista. 

Toca a corneta para sair. O cavaleiro finge que sim. Mas, enchendo, ufano, o peito, cabeça para trás, saca do tricórnio, acena triunfal ao público que não regateia aplausos. Volteia, simula a saída e pede mais um ao director da corrida. Perante a concordância deste, rompe a praça num urro. E vai sair um curtíssimo. É o cravo, corolário da exibição. 

Sai o cavaleiro, toca para a entrada do grupo de forcados. Em pose e movimentos estudados, saltam a trincheira a um tempo, ajeitam os barretes, compõem a cinta. 

O público anseia pela porrada. São homem e toiro frente a frente, sem artefactos. Há quem defenda que é a parte nobre da tourada. 

Alinham-se os moços em fila. Destaca-se um – é o que vai à cara. Pega de caras, portanto. Seguem-se os ajudas — com título, o primeiro e o segundo. Os restantes, anónimos, excepto o último – o rabejador, que aguenta o que resta da fúria do bicho, até que os colegas se coloquem a salvo de ocasional investida. 

- Hu! Hu! Ehhhhhh toiro! Toiro, toiro, tooooooiro! 

Há gritos que se repetem, há coreografias próprias. 

Depois de vários cites e de uma dança de gato e de rato, a besta resolve-se a arrancar, num tropel doido, em direcção ao vulto provocador. O da cara recua em passinhos apressados para que o embate seja amolecido. Dá-se o choque. O homem, cara à banda, agarra-se à barbela do bicho; o primeiro e o segundo ajudas saltam para cima do estranho duo; os outros seguem as pisadas e, de repente, é um enxame de homens a imobilizar o animal. Resta o rabejador, com uma mão já agarrada à cauda, a outra em busca de terra para que não escorregue quando ficar sozinho a dar conta da bizarma. 

A pega de caras é uma operação de trabalho conjunto, solidário. Se os moços não estiverem todos em consonância, a coisa falha. 

Mesmo assim, nem sempre a pega corre de feição. Por vezes o toiro não colabora. Caem forcados, há quem saia ferido, há quem nunca mais possa pegar toiros. Há quem morra. Mas o espectáculo tem de continuar e as hipóteses de sucesso têm conta curta. 

Novo toque do inteligente – o tal homem da corneta que, por acaso, é uma trompete. Desiludidos, saem os moços da arena. Menos dois. Um par fica para a cernelha, última oportunidade de pegar o toiro, antes que as chocas entrem para o varrer de novo para os curros. A colaboração, agora, tem de ser ainda maior. Não há mais ajudas. Estudando os movimentos do bicho preto, de repente desatam numa correria e pegam o animal de lado. Já está. 

Salva de palmas, música no ar. Nas bancadas, gritos por queijadas e cervejas. - Olh’ó gelaaaaado f’squinh’! 

Enquanto os moços de arena vão alisando a terra com rodos, o cavaleiro já saltou para o recinto para a volta de honra. Sempre atrás de si, os peões de brega vão apanhando bonés e flores que o público arremessa e, subservientes, lá vão entregando ao artista. Este, chama o forcado da cara para o acompanhar. Assentindo, mais um salto acrobático sobre a trincheira, aí está o garboso. 

São agora dois os homens a recolher os louros da lide. O faustoso cavaleiro emproado na sua casaca e a modesta dignidade do forcado, lado a lado… a apanhar bonés! 


E tudo isto para nada! Vieram os fundamentalistas das ligas de defesa dos animais e acabaram com a fiesta

À falta de projector, fomos forçados a eliminar as ilustrações. Mas não faz mal. Toda a gente conhece as imagens, basta nomeá-las e logo o leitor/ouvinte as encaixará no devido lugar: 

1 - Nas bancadas, o público; 

2 - O traje de luces que ofusca e, bastas vezes, engana; 

3 - Os seus peões de brega – normalmente entregues a esta função para retardar o momento do fim; 

4 - os moços de forcado, armados da sua independência, agrupados, enfrentando o animal; 

5 - finalmente, o animal, a besta cornuda que uns espicaçam com farpas, de forma desigual, de cima dos seus cavalos amestrados e, outros, têm de pegar pelos cornos, solidariamente, para que tenham sucesso. 

Ah! Nunca esquecer, nunca, aquela figura sinistra, que é o Director da corrida – é que é ele quem manda tocar a corneta! 


Joaquim Gonçalves | A das Artes (Sines)

(Foto da escultura: Joaquim Gonçalves | Santarém, frente ao tribunal).