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terça-feira, 29 de março de 2011

A leitura como desígnio nacional e como elemento agregador das gentes do livro?

No nosso I Encontro Livreiro começámos por inventariar problemas. Assim, verificámos que:

1) – As várias profissões do sector livreiro têm vivido permanentemente de costas voltadas e há que pô-las a «viajar no mesmo barco para o país da leitura»;

2) - Os índices de leitura, em Portugal, são baixíssimos e é neste âmbito que há mais trabalho a fazer, até por ser fundamental em toda a cadeia do livro, seja este em que suporte for. Não valerá muito a pena discutirmos a questão dos suportes se não resolvermos o problema da leitura;

3) - A profissão dos tradutores nem sempre tem sido respeitada, assistindo-se a um “salve-se quem puder” e à recorrente utilização do mais barato em vez da qualidade;

4) - O papel dos professores e das escolas, com honrosas excepções, nem sempre tem sido o melhor e não existe verdadeiramente uma política, na educação, de promoção da leitura.

E como alterar isto? Encontrámos, na nossa conversa do ano passado, algumas pistas:

- Reunindo em vez de dividir;

- Ouvindo em vez de impor;

- Convivendo em vez de continuar de costas voltadas;

- Metendo as mãos na massa em vez de esperar que outros resolvam os nossos problemas;

- Tomando consciência de que todos somos poucos para a árdua tarefa de fazer da leitura um desígnio nacional crucial para o progresso e para a nossa identidade e maioridade cultural;

- Contrariando a opinião acrítica e a formatação de um gosto dominante que prima pelo fugaz, pelo efémero e pelo superficial;

Sobre a questão do ENCONTRO e do CONVÍVIO refira-se que foi clara, desde o início, a intenção de manter esta dupla característica, associada ao carácter informal, livre e aberto, transformando o ENCONTRO LIVREIRO num espaço de reunião, de reflexão e de partilha em que não há distinções, em que nos tratamos pelo nome próprio e não por títulos, em que não há «estrelas» nem oradores convidados com uma assistência ou espectadores, mesmo que com direito a uma ou duas questões, em que inventariando e falando dos nossos problemas comuns possamos, com isso, estar já a contribuir para o encontrar de soluções e de caminhos.

Encontro e convívio, dois termos que queremos de mãos dadas para cumprir a vontade de Manuel Medeiros, o Livreiro Velho, que um dia sonhou este espaço das “gentes do livro” e se empenhou com todas as sua forças na sua concretização.

O convívio, melhorando e aprofundando o conhecimento mútuo, melhora e aprofunda o encontro, mas se não nos encontrássemos, como daríamos ao convívio o tão necessário calor humano que a proximidade física proporciona?

Queremos um encontro e um convívio que, em cada ano, seja sempre uma novidade, uma surpresa, um espaço aberto à participação e à criatividade. Onde, para além do abraço, da palavra, do moscatel, possa também acontecer a alegria e a festa.

Como temos afirmado no nosso blogue ISTO NÃO FICA ASSIM!:

O ENCONTRO LIVREIRO SERÁ O QUE TODOS NÓS, OS QUE AQUI ESTIVERMOS EM CADA ANO, QUISERMOS QUE SEJA.

E cá estamos nós no II Encontro Livreiro, na cidade de Setúbal (nem muito a Norte, nem muito a Sul, esperando que aqui acorram gentes do livro de todos os cantos do país) e numa livraria, a Culsete, que desde há muitos anos tem tido um papel relevante na “edição da leitura” e na intervenção cultural.

No livro Papel a Mais, que assina como Resendes Ventura em homenagem a seus avós paterno e materno, diz-nos Manuel Medeiros:

«A escrita, o livro, a leitura: um mundo! Vasto e complexo mundo! Quem encontrarei disponível para me acompanhar num breve olhar sobre ele?

Mundo habitado. O olhar encontra imediatamente os escritores e os leitores. Depois, entre a escrita e o livro, está o editor com o seu trabalho emérito. Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro “publica” a leitura.

Para publicar a escrita e o livro basta um escritor e um editor. Para publicar a leitura nem só o livreiro, muito menos um livreiro. (…) sou apenas um livreiro entre muitos, um livreiro em fim de carreira, que não consegue fugir à consciência do modo concreto como a sua vida foi marcada pelo mundo da escrita, do livro e da leitura.»

Isto deve fazer-nos reflectir sobre o papel central que, neste mundo do livro, ocupam as livrarias e os livreiros.

Resultou esta iniciativa de algumas conversas que fomos tendo, ao longo do tempo, sobre a necessidade de ultrapassar o lamento, a lamúria mesmo, as visões catastrofistas sobre o fim do livro – agora adensadas pelas alterações muito rápidas que se estão a dar sobretudo a nível dos seus suportes materiais – e, acima de tudo, a urgência de deixarmos de alijar responsabilidades sobre as malfeitorias que se vão fazendo neste sector. Um sector que, estranhamente (ou não), tem vindo a despertar apetites a quem vê aí grandes possibilidades de multiplicar rapidamente os seus investimentos. Estranho, não é? Ainda por cima num momento em que se ouvem, vindos de muitos quadrantes, os ecos da Declaração (talvez exageradamente apressada) do Fim do Livro.

Apelo, se me permitem, a todos os presentes para que nos digam de onde vêm, ao que vêm e o que pensam da necessidade de encontro e de convívio das gentes do livro, no fundo o que pensam desta iniciativa e do seu futuro. E que aqui lancem outras pistas para a reflexão e o debate.

E se, para garantir um melhor futuro ao livro, começássemos por dar uma melhor atenção ao problema da LEITURA?

E não acham que para isso há que defender as LIVRARIAS, o lugar privilegiado para o seu saudável desenvolvimento e crescimento?

E para quando os EDITORES a preocuparem-se mais com o que verdadeiramente faz falta na promoção da leitura, a única que pode garantir a sua própria sobrevivência como editores, e menos com a visão estreita de resultados apenas para o agora?

E as BIBLIOTECAS?

E as ESCOLAS?

E…?

E…?

O que é que já fazemos o que é que poderemos fazer mais para que LEITURA seja o desígnio nacional que pode e deve unir as gentes do livro?

Está lançado o debate e a reflexão.

(…)


Permitam-me uma palavra final sobre o blogue ISTO NÃO FICA ASSIM! pela contribuição que pode dar para que o ENCONTRO LIVREIRO, como espaço de reflexão, se mantenha permanentemente aberto. Peço a todos que o promovam, por todos os meios ao vosso alcance, e que aí façam chegar as vossas reflexões escritas, opiniões e propostas.

Conseguimos, este ano, uma maior visibilidade. Aproveito para agradecer publicamente a todos os que colaboraram na divulgação deste nosso Encontro Livreiro que, a partir de agora, não é mais possível ignorar. Ficam, desde já, todos convocados para o III Encontro Livreiro, a realizar aqui em Setúbal no dia 25 de Março de 2012.

Luís Guerra

Texto lido na abertura do II Encontro Livreiro, em Setúbal, Livraria Culsete, no dia 27 de Março de 2011.

domingo, 1 de dezembro de 2013

OBRIGADA!



Venho aqui hoje, como ontem fiz na livraria, em primeiro lugar para agradecer o diploma LIVREIRO DA ESPERANÇA ESPECIAL CULSETE 40 ANOS, atribuído a mim própria e a Manuel Medeiros, meu companheiro de vida e de sonho, pelo movimento Encontro Livreiro. Juntos, lado a lado, ano após ano, atividade após atividade, superando muitos obstáculos e dificuldades, eu e ele fizemos a Culsete. Um sem o outro, não o teríamos conseguido.
Quero agradecer a todos os que ontem estiveram presentes na livraria a viver este momento connosco e com os elementos do Encontro Livreiro que vieram até Setúbal. Desejo ainda agradecer a quem pensou nesta forma de homenagear o nosso trabalho destes 40 anos, trabalho que fez da Culsete o que ela é hoje, uma instituição de caráter cultural, respeitada na cidade e fora dela. Obrigada Rosa Azevedo, Sara Figueiredo Costa, António Alberto Alves, Joaquim Gonçalves, José Teófilo Duarte, Luís Guerra. Obrigada ainda a todos aqueles que deram o seu aval a esta iniciativa, subscrevendo este diploma. Foram centenas. Gente de todo o país e até do estrangeiro. Bem hajam!
Quero partilhar esta distinção com os meus filhos e com os meus atuais colaboradores. Muito do que se construiu também a eles se deve. Muito do que há para criar terá a sua marca.
A decisão de nos atribuírem este diploma foi tomada à nossa revelia e tornada pública no blogue do movimento. Se tivéssemos tido conhecimento prévio desse intento teríamos pedido para que não avançasse, pois não parece justo receber um diploma que nós próprios concebemos e decidimos entregar anteriormente a livrarias independentes com tradição de promoção da leitura.
Eu própria e Manuel Medeiros considerávamos (e eu considero) este diploma um dos melhores galardões que qualquer livreiro pode desejar, por partir de dentro, das gentes do livro. Porque é verdadeiro e não obedece a segundas intenções. Porque sabemos que estamos todos num mesmo barco, como escreveu em devido tempo Rosa Azevedo.
Por isso, depois da surpresa inicial, decidimos aceitar com muito gosto e alegria essa distinção. É gratificante perceber como tanta gente, amigos e conhecidos, mas também desconhecidos, aprecia o nosso trabalho e o apoia.
Em 15 de Setembro de 1989, após uma sessão de apresentação de um livro, Manuel Alegre deixou escrito que nós éramos “os outros livreiros da esperança”, aproximando-nos do livreiro do seu poema incluído em Praça da Canção. Passámos desde então a ver esta frase como uma gostosa distinção que nos fora entregue por um grande escritor. Anos mais tarde, tomámo-la, juntamente com o Luís Guerra, como mote para designar os diplomas que o Encontro Livreiro passou a atribuir. Este diploma agora recebido é a confirmação pública alargada dessa distinção.
Sinto-a como um redobrar de responsabilidade. Se nunca pensámos desistir nem por um segundo do caminho delineado por ambos em 1973, quando eu e Manuel Medeiros decidimos mergulhar de corpo e alma no projeto Culsete, fazendo dele o segundo objetivo da nossa vida (o primeiro foi/é a nossa família), agora, mais do que nunca e por diversas razões, há que redobrar a nossa criatividade e o nosso empenho, já que temos cada vez mais gente a confiar e a acreditar em nós. Tudo farei, em conjunto com a minha equipa, para não desapontar ninguém, para poder continuar a sentir tão grande apoio.
Receber este diploma no dia 30 de Novembro, o DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO, tem um sabor especial. Este é o nosso dia, o dia de todos os que se consideram filhos da leitura, todos os que amamos e defendemos a nossa mãe-leitura até às últimas consequências. Livreiros e leitores. Só por si é um grande dia de festa que este ano foi vivido mais intensamente na Culsete em função desta atribuição.
O DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO é de grande importância para todas as livrarias. Trata-se de uma organização conjunta do movimento Encontro Livreiro e da Fundação José Saramago que vai no segundo ano de existência, mas que este ano já teve uma adesão bastante boa e que se quer que continue a chegar nos próximos anos a mais e mais livreiros. É um dia de festa que, como o Encontro Livreiro, veio para ficar. Não nos faltam ideias para ir alimentando este Dia. Algumas estão já na calha para o próximo ano.
Espero que todos tenham tido acesso ao material que foi preparado especialmente para distribuição neste dia, nomeadamente os cartões com as duas frases escolhidas como Leitmotif deste ano, uma de José Saramago e outra de Manuel Medeiros. Gosto bastante do cartaz, mas estes dois cartões estão um verdadeiro primor. Obrigada, Zé Teófilo.
Quero deixar aqui uma vez mais a frase de Manuel Medeiros (inserida no seu livro Papel a Mais, de 2009, mas pensada, escrita e verbalizada muito antes disso) sobre a missão e a paixão que deve animar o livreiro: Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro publica a leitura. Esta é uma frase lapidar que devia ter um lugar de destaque em todas as livrarias.
Cada vez mais os livreiros independentes têm de se unir, precisam de se unir, de criar formas de união que ultrapassem o querer e o dizer, para poderem agir como um bloco contra todas os ataques e investidas que chegam de muitos lados. Precisamos também de ter o leitor do nosso lado. Temos de ser todos a uma só voz. Sem medos. A nossa situação há muito que é conhecida e reconhecida. Não me refiro apenas à situação financeira, mas também quero falar nela. Não é de agora que as grandes cadeias de venda de livros andam a comprometer a saúde financeira das livrarias independentes com políticas de venda sem a mínima ética. Mas este ano refinaram a sua estratégia. E nós unimo-nos, como é do conhecimento público. Sem medos. E estamos aí a enfrentá-los, a mostrar-lhes que vender livros não é o mesmo que vender batatas, ou maçãs, ou enlatados. Que vender livros é uma atitude cultural e civilizacional.
Nós, livreiros independentes, não queremos ser daqueles que se lamentam, dos que põem as mãos à cabeça e falam sem dar um passo. Nós somos aqueles que de forma muito consciente e criativa, queremos agir, queremos arranjar soluções para atenuar e alterar este estado de coisas. E agimos.
Anteontem mesmo, Jaime Bulhosa deu conta no seu blogue da resposta da Inspeção Geral das Atividades Culturais, IGAC, à queixa apresentada àquela instituição por várias livrarias independentes, entre elas a Culsete. A queixa, efetuada sobre as recentes campanhas de Natal praticadas pelas cadeias de vendas de livros Bertrand e Fnac, denunciando a violação da lei do preço fixo, já recebeu uma resposta daquela instituição que vai de encontro às nossas pretensões. Será que vamos ter alguma justiça? Esperemos que sim.
Já disse e escrevi algures que apenas uma livraria independente oferece uma verdadeira bibliodiversidade. Disse-o e reafirmo-o agora. Dias como o DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO também ajudam a refletir sobre estas questões.
Deixem-me agora acrescentar algumas palavras sobre o tema de debate proposto para este Encontro Livreiro Especial, A Livraria, o Livreiro, a Leitura. É impossível pensar em LIVRARIA sem pensar em LIVRO e LEITURA. Esta relação direta pode não ser evidente para todos, não é certamente simples, mas é, a meu ver, determinante para enquadrar a livraria no contexto social e cultural. Numa sociedade dominada pela economia há que lutar contra a subversão de valores e a degradação do sentido das coisas. Só a partir do entendimento dos problemas da leitura se podem situar os problemas do livro e só o entendimento de uns e outros poderão determinar uma correta conceção da LIVRARIA e da sua posição relativa no complexo mundo da cultura e da civilização, ao lado da editora, do escritor, da escola, da biblioteca e de tudo o mais, naturalmente.
É esta, em traços largos, a minha visão desta problemática. Foi a partir dela que eu e Manuel criámos esta livraria.
Talvez alguns dos nossos leitores e amigos não se lembrem ou não saibam, por já terem esquecido ou por aqui terem chegado depois disso, mas esta casa abriu em 1 de Outubro de 1973. No dia 1 de Abril de 1974 comecei a trabalhar na Culsete a tempo inteiro, tendo abandonado uma situação profissional estável e economicamente muito compensadora. Vim aqui para me ocupar do sector administrativo, mas uma semana depois já tomava conta da livraria, já era a responsável pelas suas vendas e pela gestão de stocks. Manuel Medeiros ocupava-se da administração e tratava das vendas de artigos de papelaria e de algumas representações exclusivas para o distrito que a Culsete detinha, passando a maior parte do tempo fora. Nos documentos oficiais da livraria eu era a gerente de loja, ele o gerente da empresa. Ocupei essa função durante 16 anos.
Quando achei que a livraria já não precisava de mim a tempo inteiro, até porque Manuel já passava cá muito tempo, dividindo comigo o trabalho na livraria, decidi despedir-me e voltar-me para outros amores, o ensino e a investigação.
Mas nunca deixei de tomar parte ativa em todas as decisões da empresa. Sempre colaborei com a livraria, fazendo de tudo um pouco, como fizera até 1990, do acompanhamento das vendas à contabilidade, da arrumação à animação, promoção e mediação de leitura, aquilo de que sempre gostei mais. Levar alguém a ler um livro de que gostamos e que achamos importante e receber posteriormente o feedback positivo dessa leitura é algo de muito forte e compensador, servindo de conforto e apoio nos momentos de desalento e incompreensão que sempre nos vão batendo à porta.
A promoção do livro e a mediação de leitura em escolas foram por mim concretizadas de forma sistemática durante esses 16 anos, tendo-as levado comigo para outros compartimentos da minha vida.
Todo o trabalho realizado pela Culsete foi sempre feito a quatro mãos. As minhas estiveram sempre juntas com as de Manuel Medeiros. Talvez nem todos as tenham visto, mas estiveram sempre pela livraria. Por isso, hoje, quando ele já não pode estender as suas mãos para receber este diploma, eu estendo as minhas sem medo e com a plena consciência de que, se o merecemos, é em resultado desse trabalho de equipa. Não vou parar por aqui. Ainda há muitos sonhos que sonhámos juntos que é preciso concretizar. E novos desafios já se desenham no horizonte. Estou/estamos e estarei/estaremos preparada/preparados para os novos desafios que se desenham. Contem connosco! Contamos convosco!
A Culsete reafirma-se e reassume-se aqui e agora como defensora dos valores que a nortearam ao longo destes 40 anos: um espaço de promoção, mediação, animação e venda do livro que todos os dias procura contribuir para o desenvolvimento cultural da região onde se encontra inserida, ajudando a formar cidadãos mais informados, mais cultos, mais reflexivos, mais atuantes, mais livres.


Boas leituras!


Fátima Ribeiro de Medeiros
Docente, investigadora e livreira


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

I ENCONTRO LIVREIRO DO PORTO E GRANDE PORTO


Acabou de nos chegar, via Poetria, a notícia da realização do 

I Encontro Livreiro do Porto e Grande Porto

Será na tarde do dia 23 de Novembro de 2014, na 

Livraria Lello | Prólogo Livreiros

Depois da experiência dos Encontros Livreiros de Trás-os-Montes e Alto Douro, que já conheceu várias edições e vai rodando pelas livrarias da região, 

saudamos a realização, no Porto, de uma experiência que, no Encontro Livreiro, sempre desejámos ver reproduzida em várias regiões do nosso país. 

Apelamos, desde já, a que se façam representar no próximo Encontro Livreiro nacional, a realizar, como habitualmente, na livraria Culsete, em Setúbal, na tarde do último domingo de 
Março de 2015.

Contem sempre com a melhor colaboração do movimento 
Encontro Livreiro.

ISTO NÃO FICA ASSIM!

Encontro Livreiro
Setúbal, 23 de Outubro de 2014

… | ...

«Está em preparação o I Encontro Livreiro do Porto e Grande Porto, a realizar no próximo dia 23 de Novembro e que terá lugar na livraria Lello (Rua das Carmelitas – Porto).

No rescaldo da recente feira do livro do Porto, que ocorreu no Palácio de Cristal entre os dias 5 e 21/9/21014, é de toda a oportunidade que os livreiros continuem a afirmar-se vivos entre os mais vivos e não "mortos entre os vivos", citando Jaime Bulhosa quando assim se exprimia, com alguma amargura, em 2012, aquando da 82ª Feira do Livro de Lisboa.

Em suma, é tempo de passarmos a palavra, junto dos livreiros e demais gentes do livro, "isto não fica assim", instituída e materializada em blogue, por ocasião do I Encontro Livreiro na Livraria Culsete, em Setúbal.

O sábio Manuel Medeiros, carinhosamente apelidado de "Livreiro Velho", dizia então: "... o olhar encontra de imediato os escritores e os leitores, mas entre o livro e a leitura está o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro 'publica' a leitura".

E da Traga-Mundos, livraria de Vila Real onde também se realizou o Encontro Livreiro, vinham estas palavras (citadas de um Encontro Livreiro de Setúbal): "O Encontro Livreiro é simplesmente um movimento de aproximação entre quem, vivendo e trabalhando no meio dos livros — livreiros, gentes do livro e todos quantos se reconhecem, de um ou outro modo, no amor e no culto do livro —, já percebeu que não faz sentido, hoje mais do que nunca, andarmos a esforçar-nos cada um por si, numa 'guerra' que só pode ser vencida em comum, lado a lado, se é que se pretende que o livro continue a ser uma das mais ricas potencialidades do homem civilizado para progredir em direcção a todas as suas utopias e ambições. E conseguir que, trabalhando com ele e para ele, se vão colhendo bons proveitos e justos proventos".

A Poetria, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lello, Lumière, João Soares e Manuel Ferreira, por parte dos livreiros do Porto, vêm por este meio convidar os estimados colegas e as designadas "gentes do livro" — autores, jornalistas, professores, leitores, editores, tradutores, bibliotecários… — reunindo-as num Encontro Livreiro no Porto para nos conhecermos, pensarmos e falarmos sobre o objectivo central: o livro e a leitura.

Um Encontro que se quer também de partilha de experiências, histórias e troca de informações sobre as contingências da nossa profissão, a nível do mercado, dos agentes e instituições culturais, dos leitores, presentes e futuros, e tudo o mais que tenha a ver com os livros, numa perspectiva de superação da crise pela positiva e não pelo queixume ou desistência.

Também nos motiva a vertente social e lúdica do Encontro, enquadrada num momento de fruição de prazeres como um porto, um vinho tinto (ou até água fresquinha da torneira), mais uns petisquinhos genuinamente nacionais — uma autêntica broa de Avintes, uns bolinhos de bacalhau ou umas pataniscas do mesmo —, mais uma musiquinha, cantada ou tocada, ou mesmo poesia...

Chegados a este ponto, gostaríamos agora de colher a vossa opinião, sugestões, ideias ou quaisquer considerações que nos possam ser úteis no sentido de prosseguirmos no caminho que nos conduza à concretização ideal desse Encontro.

Quanto ao local, pensamos que o mais acertado será que o Encontro aconteça na livraria Lello, cujo livreiro, o Sr. Antero Braga, foi recentemente declarado “Livreiro da Esperança”. Além disso, esta emblemática livraria fica numa zona privilegiada e histórica do Porto, enquadrada pelas ruas José Falcão, Carmelitas, Passeio dos Clérigos, pç Gomes Teixeira (Leões) e Carlos Alberto.

Apelamos a que todos, através dos contactos e meios de que disponham, colaborem na divulgação do conteúdo desta comunicação e do I Encontro Livreiro do Porto e Grande Porto, que se organizem em grupos (de amigos, de profissão, de empresa, etc.) e se desloquem ao Porto, se o desejarem e se possível, almoçando num dos inúmeros e cativantes restaurantes na zona (quem sabe uma francesinha no Golfinho, aqui tão perto), e a seguir encaminhando-se para o convívio e o Encontro na livraria Lello.»

Livraria Poetria

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Da Livraria, do Livreiro, do Leitor... da Leitura.



A ideia de que o autor pode dispensar o editor, de que o editor pode dispensar o livreiro, de que o livreiro pode dispensar o leitor, bastando-lhes o último grito da tecnologia e que continue a haver clientes que consumam o livro, mesmo que não o leiam, é uma ideia, a meu ver, completamente errada e que esquece, ou ignora, algo de fundamental: sem leitores não há nem autor, nem editor, nem livreiro, nem livro. E diria até: nem grande futuro!

Partindo desta ideia e da convicção profunda de que, apenas do convívio, do encontro e da troca de ideias entre si, as gentes do livro poderão encontrar os melhores caminhos para fazer da leitura um verdadeiro desígnio em que possa ancorar-se o futuro, em progresso e em liberdade, a experiência do Encontro-Livreiro de 2010, o nosso primeiro encontro-convívio em torno de um moscatel e de muitas ideias, conheceu já quatro edições antes deste Encontro Livreiro Especial de hoje.

Não posso deixar de referir também, neste momento, os Encontros Livreiros Regionais, com duas edições em Trás-os-Montes e Alto Douro que já estão a dar frutos na forma de trabalhar, mais colectiva, das livrarias da região. Parabéns às livrarias e aos seus livreiros! Um abraço muito especial ao livreiro, e dinâmico elemento do nosso movimento, António Alberto Alves, da Traga-Mundos, em Vila Real.

E aproveito para dar aqui uma notícia que me chegou do Norte e que nos dá muita alegria e nos transmite um sinal de esperança para o futuro: no primeiro trimestre de 2014 e ainda antes do nosso Encontro Livreiro aqui na Culsete — como habitualmente na tarde do último domingo de Março, ou seja, no dia 30 de Março de 2014 —, vai realizar-se o I Encontro Livreiro do Porto e Grande Porto, de que daremos oportunamente notícias mais pormenorizadas através do nosso blogue, o ISTO NÃO FICA ASSIM! Parabéns às livrarias e aos livreiros envolvidos, há meses, na sua preparação.

Muitos livreiros lutam hoje pela sobrevivência mas gostam muito do que fazem, querem defender a dignidade da sua profissão e sabem que os leitores podem e devem ser os seus principais aliados. Apesar disso e por isso, estão em festa – a festa do livro e da leitura – e convidam os leitores a visitá-los nas suas casas. Espero, por isso, que os leitores acorram às livrarias num dia que, sendo da Livraria e do Livreiro, é também o dia do Leitor.

Vivemos um tempo agreste de ditadura. A ditadura do efémero, do fugaz, do superficial, do que vende muito e depressa, do espalhafato, e não um tempo do perene, do que perdura para além dos tops, dos holofotes, da fanfarra ensurdecedora que nos distrai e afasta do essencial.

Sendo esta data, a partir deste ano, designada como Dia da Livraria e do Livreiro, faz todo o sentido centrar a nossa reflexão na livraria e no livreiro, mas também no leitor, pois é ele que justifica, no fundo, todos os intervenientes na vida do livro. Se continuarmos apenas preocupados em arranjar clientes, mais clientes, e apenas mais clientes — atraindo-os com as mais variadas formas de folclore ou como se estivéssemos a anunciar a banha da cobra – não vamos conseguir defender e salvaguardar uma rede livreira (e também editorial, acrescento) diversificada e que não retire ao leitor a sua sacrossanta liberdade de escolha.

No fundo, no mundo do livro não lutamos por nada de muito diferente daquilo por que lutamos na sociedade.

Os tempos são difíceis? São. Mas é na tomada de consciência dos problemas e dos erros das opções e soluções que têm sido seguidas que está a semente de um futuro diferente e melhor. E nós acreditamos que é na promoção da leitura e na procura de mais leitores, cada vez mais leitores – livres e conscientes e com possibilidade de aceder a um fundo editorial diversificado – que está o futuro das gentes do livro (autores, editores, livreiros, bibliotecários, tradutores, professores, investigadores, jornalistas e demais profissões que se relacionam com o livro).

A leitura é, ou pode ser, o elemento agregador das gentes do livro. Vamos então pôr a leitura no primeiro lugar do nosso top.

Este Encontro Livreiro Especial é especial por diversas razões:

1) Acontece no Dia da Livraria e do Livreiro, um dia que, em parceria com a Fundação José Saramago, festejamos desde o ano passado e pretende chamar a atenção para o lugar central que a livraria e o livreiro ocupam no percurso do livro, da ideia e da escrita do autor até à leitura e à reescrita infinitas do leitor, bem como na promoção e desenvolvimento da leitura;

2) Acontece no ano em que a Culsete, a sua anfitriã e principal impulsionadora, comemora quarenta anos, tendo a cidade de Setúbal assistido ao longo do ano a uma série de iniciativas que reuniram — na livraria, à volta da mesa, na rua e em espaços culturais da cidade — muitos amigos e leitores;

3) Acontece no dia em que entregamos formalmente o diploma Livreiro da Esperança Especial Culsete – 40 Anos aos livreiros que construíram e consolidaram esta livraria, Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro de Medeiros. Este diploma foi atribuído no dia 1 de Agosto de 2013, à revelia dos homenageados, como não poderia deixar de ser, e proposto a uma subscrição pública que reuniu até hoje cerca de três centenas de subscritores;

4) Acontece já sem a presença física do Manuel, mas com a presença, a determinação, a experiência e o saber da Fátima que, sendo simultaneamente professora e investigadora, é sobretudo livreira e um importante pilar desta casa;

5) E acontece ainda com a nossa firme vontade de manter aqui as reuniões anuais deste movimento inédito das gentes do livro. Que dele possam surgir outros movimentos e iniciativas colectivas, nomeadamente das livrarias, mas também de outros sectores do mundo do livro, é algo que nos dará muito gosto e alegrará os dias cinzentos que persistem e ameaçam ensombrar o nosso quotidiano presente e futuro. E há já por aí, assumindo diversas formas, sinais bem evidentes disso mesmo.

Por todas estas razões, pensámos que este Encontro poderia ter também um figurino diferente, convidando algumas pessoas a escrever e a ler-nos um texto em torno da questão da livraria, do livreiro e da leitura. Todos — entre os quais me incluo — amigos da livraria Culsete que, num texto escrito em Outubro para as comemorações, designei como um rochedo em forma de navio que se soltou dos Açores e aportou a Setúbal, navegando — sem nunca deixar de avistar o Sado e a Arrábida e numa viagem sem fim — rumo ao País da Leitura.

E no final, a livre troca de ideias entre os presentes enriquecerá, estou certo, uma tarde tão especial passada no conforto de uma livraria que muitos sentimos como nossa casa.

E como uma livraria como esta, que guarda maravilhosos tesouros para partilhar com amigos e leitores que a visitam, não se faz sem a participação de muitos, não quero terminar sem deixar uma referência e uma saudação a todos os que trabalharam e trabalham nesta livraria, bem como aos seus leitores e amigos de quatro décadas. Fazem todos parte — e talvez nos possamos incluir também nesse lote — da História da Leitura em Portugal.

Por último, porque muito especial e sentido, deixo aqui o meu abraço, bem rijo e amigo, à Fátima, ao Nuno, ao Damião e à Ana Júlia e, através deles, a toda a família. Obrigado por nos receberem sempre tão bem nesta casa que, sendo muito vossa, que aqui quase nasceram, cresceram, brincaram, leram, trabalharam, propagaram o vírus da leitura e viveram muitos anos das vossas vidas, é também um pouco de cada um dos presentes e de tantos outros que, de uma forma ou de outra, foram irremediavelmente tocados por esta livraria e pelos seus livreiros.

Setúbal | Culsete | 30 de Novembro de 2013

Luís Guerra

segunda-feira, 29 de março de 2010

O TEXTO QUE DÁ O PONTAPÉ DE SAÍDA

Em busca do maravilhoso país da leitura, aportou hoje a Setúbal o «Encontro Livreiro», dando assim cumprimento ao sonho de um velho livreiro, que sempre desejou ver os profissionais do livro «viajar num mesmo barco para o país da leitura».

A bordo, e sob a hospitaleira recepção do livreiro Manuel Medeiros, o também escritor Resendes Ventura, viajam todos quantos puderam e quiseram corresponder ao seu apelo para que com ele passassem a tarde deste último domingo de Março, conversando, convivendo, entre livros e saboreando um moscatel da região, com o seguinte traje obrigatório, segundo reza o convite: «interesse em participar e boa disposição!»

Desejamos que a este porto acorram editores, tradutores, livreiros, vendedores, distribuidores, bibliotecários, professores, blogues, comunicação social, mas também leitores que queiram conviver, conhecer e trocar ideias com aqueles que fazem do livro a sua actividade diária, alguns a actividade e paixão de uma vida inteira.

Do autor ao leitor, muitas são as mentes e as mãos que fazem do livro uma das mais extraordinárias criações humanas e transformam cada livro editado num renovado acontecimento.

É ambição de quem deu os primeiros passos deste empreendimento, pôr todas estas pessoas, comummente vistas como individualistas e sempre à procura de alijar responsabilidades e «sacudir a água do capote», a conversar sobre as formas de se darem ao respeito e, desse modo, dignificarem as suas profissões e o livro.

Essencial ao desenvolvimento cultural do país e ao progresso, o livro, no formato actual ou em quaisquer outros que o futuro nos ofereça, exige de nós uma atitude mais responsável e mais interventiva. Não nos podemos quedar pela crítica destrutiva e lamurienta.

A situação actual do livro, das livrarias, da edição, da distribuição, das bibliotecas, das escolas, da leitura, merece a reflexão atenta de todos e a adopção de medidas e sobretudo de atitudes que contrariem a opinião acrítica e a formatação de um gosto dominante que prima pelo efémero, pelo fugaz e pelo superficial.

Não se pretende encontrar, e muito menos crucificar, «culpados» dos males que atormentam o mundo do livro e da leitura. Se os há somos todos nós, quando não somos profissionais competentes na actividade que desenvolvemos. E uma actividade que visa, em última instância, a leitura, mais exigente se torna com os seus profissionais. Choca, por exemplo, ver profissionais do livro que fogem da leitura como o diabo da cruz!

Há que mudar atitudes e procedimentos e é já com um novo espírito que este Encontro Livreiro deve acontecer: reunindo em vez de dividir; ouvindo em vez de impor; convivendo em vez de continuar de costas voltadas; metendo as mãos na massa em vez de estar à espera que outros resolvam o que a nós cabe resolver; tomando consciência de que todos somos poucos para a árdua tarefa de fazer da leitura um desígnio nacional crucial para o progresso e para a nossa identidade e maioridade cultural.

O país futuro que ambicionamos e que queremos ajudar a construir assenta o seu progresso no desenvolvimento cultural, na leitura e numa verdadeira articulação entre política cultural e educação.

Os participantes no I Encontro Livreiro, constituindo-se como fundadores e impulsionadores destes Encontros, estabelecem a sua realização anual, fixando que o II Encontro Livreiro terá lugar, no mesmo local, no dia 27 de Março de 2011, mantendo o seu carácter aberto.

Será criado um blogue, com a designação de «Encontro Livreiro», onde, para além da publicação, entre encontros, de notícias e textos relevantes relacionados com o Livro em Portugal, se divulgarão textos, propostas e outros documentos que surjam durante a realização de cada Encontro. Em cada sessão anual será designado um grupo de três elementos que se responsabilizará, no ano seguinte, pela manutenção do blogue.


Luís Guerra
Setúbal, Livraria Culsete, 28 de Março de 2010

domingo, 27 de março de 2011

A escrita, o livro, a leitura: um mundo!

«A escrita, o livro, a leitura: um mundo! Vasto e complexo mundo! Quem encontrarei disponível para me acompanhar num breve olhar sobre ele?

Mundo habitado. O olhar encontra imediatamente os escritores e os leitores. Depois, entre a escrita e o livro, está o editor com o seu trabalho emérito. Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro “publica” a leitura.

Para publicar a escrita e o livro basta um escritor e um editor. Para publicar a leitura nem só o livreiro, muito menos um livreiro. (…) sou apenas um livreiro entre muitos, um livreiro em fim de carreira, que não consegue fugir à consciência do modo concreto como a sua vida foi marcada pelo mundo da escrita, do livro e da leitura.»

Resendes Ventura, Papel a Mais, Esfera do Caos, 2009, pp. 20-21.