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domingo, 1 de dezembro de 2013

OBRIGADA!



Venho aqui hoje, como ontem fiz na livraria, em primeiro lugar para agradecer o diploma LIVREIRO DA ESPERANÇA ESPECIAL CULSETE 40 ANOS, atribuído a mim própria e a Manuel Medeiros, meu companheiro de vida e de sonho, pelo movimento Encontro Livreiro. Juntos, lado a lado, ano após ano, atividade após atividade, superando muitos obstáculos e dificuldades, eu e ele fizemos a Culsete. Um sem o outro, não o teríamos conseguido.
Quero agradecer a todos os que ontem estiveram presentes na livraria a viver este momento connosco e com os elementos do Encontro Livreiro que vieram até Setúbal. Desejo ainda agradecer a quem pensou nesta forma de homenagear o nosso trabalho destes 40 anos, trabalho que fez da Culsete o que ela é hoje, uma instituição de caráter cultural, respeitada na cidade e fora dela. Obrigada Rosa Azevedo, Sara Figueiredo Costa, António Alberto Alves, Joaquim Gonçalves, José Teófilo Duarte, Luís Guerra. Obrigada ainda a todos aqueles que deram o seu aval a esta iniciativa, subscrevendo este diploma. Foram centenas. Gente de todo o país e até do estrangeiro. Bem hajam!
Quero partilhar esta distinção com os meus filhos e com os meus atuais colaboradores. Muito do que se construiu também a eles se deve. Muito do que há para criar terá a sua marca.
A decisão de nos atribuírem este diploma foi tomada à nossa revelia e tornada pública no blogue do movimento. Se tivéssemos tido conhecimento prévio desse intento teríamos pedido para que não avançasse, pois não parece justo receber um diploma que nós próprios concebemos e decidimos entregar anteriormente a livrarias independentes com tradição de promoção da leitura.
Eu própria e Manuel Medeiros considerávamos (e eu considero) este diploma um dos melhores galardões que qualquer livreiro pode desejar, por partir de dentro, das gentes do livro. Porque é verdadeiro e não obedece a segundas intenções. Porque sabemos que estamos todos num mesmo barco, como escreveu em devido tempo Rosa Azevedo.
Por isso, depois da surpresa inicial, decidimos aceitar com muito gosto e alegria essa distinção. É gratificante perceber como tanta gente, amigos e conhecidos, mas também desconhecidos, aprecia o nosso trabalho e o apoia.
Em 15 de Setembro de 1989, após uma sessão de apresentação de um livro, Manuel Alegre deixou escrito que nós éramos “os outros livreiros da esperança”, aproximando-nos do livreiro do seu poema incluído em Praça da Canção. Passámos desde então a ver esta frase como uma gostosa distinção que nos fora entregue por um grande escritor. Anos mais tarde, tomámo-la, juntamente com o Luís Guerra, como mote para designar os diplomas que o Encontro Livreiro passou a atribuir. Este diploma agora recebido é a confirmação pública alargada dessa distinção.
Sinto-a como um redobrar de responsabilidade. Se nunca pensámos desistir nem por um segundo do caminho delineado por ambos em 1973, quando eu e Manuel Medeiros decidimos mergulhar de corpo e alma no projeto Culsete, fazendo dele o segundo objetivo da nossa vida (o primeiro foi/é a nossa família), agora, mais do que nunca e por diversas razões, há que redobrar a nossa criatividade e o nosso empenho, já que temos cada vez mais gente a confiar e a acreditar em nós. Tudo farei, em conjunto com a minha equipa, para não desapontar ninguém, para poder continuar a sentir tão grande apoio.
Receber este diploma no dia 30 de Novembro, o DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO, tem um sabor especial. Este é o nosso dia, o dia de todos os que se consideram filhos da leitura, todos os que amamos e defendemos a nossa mãe-leitura até às últimas consequências. Livreiros e leitores. Só por si é um grande dia de festa que este ano foi vivido mais intensamente na Culsete em função desta atribuição.
O DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO é de grande importância para todas as livrarias. Trata-se de uma organização conjunta do movimento Encontro Livreiro e da Fundação José Saramago que vai no segundo ano de existência, mas que este ano já teve uma adesão bastante boa e que se quer que continue a chegar nos próximos anos a mais e mais livreiros. É um dia de festa que, como o Encontro Livreiro, veio para ficar. Não nos faltam ideias para ir alimentando este Dia. Algumas estão já na calha para o próximo ano.
Espero que todos tenham tido acesso ao material que foi preparado especialmente para distribuição neste dia, nomeadamente os cartões com as duas frases escolhidas como Leitmotif deste ano, uma de José Saramago e outra de Manuel Medeiros. Gosto bastante do cartaz, mas estes dois cartões estão um verdadeiro primor. Obrigada, Zé Teófilo.
Quero deixar aqui uma vez mais a frase de Manuel Medeiros (inserida no seu livro Papel a Mais, de 2009, mas pensada, escrita e verbalizada muito antes disso) sobre a missão e a paixão que deve animar o livreiro: Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro publica a leitura. Esta é uma frase lapidar que devia ter um lugar de destaque em todas as livrarias.
Cada vez mais os livreiros independentes têm de se unir, precisam de se unir, de criar formas de união que ultrapassem o querer e o dizer, para poderem agir como um bloco contra todas os ataques e investidas que chegam de muitos lados. Precisamos também de ter o leitor do nosso lado. Temos de ser todos a uma só voz. Sem medos. A nossa situação há muito que é conhecida e reconhecida. Não me refiro apenas à situação financeira, mas também quero falar nela. Não é de agora que as grandes cadeias de venda de livros andam a comprometer a saúde financeira das livrarias independentes com políticas de venda sem a mínima ética. Mas este ano refinaram a sua estratégia. E nós unimo-nos, como é do conhecimento público. Sem medos. E estamos aí a enfrentá-los, a mostrar-lhes que vender livros não é o mesmo que vender batatas, ou maçãs, ou enlatados. Que vender livros é uma atitude cultural e civilizacional.
Nós, livreiros independentes, não queremos ser daqueles que se lamentam, dos que põem as mãos à cabeça e falam sem dar um passo. Nós somos aqueles que de forma muito consciente e criativa, queremos agir, queremos arranjar soluções para atenuar e alterar este estado de coisas. E agimos.
Anteontem mesmo, Jaime Bulhosa deu conta no seu blogue da resposta da Inspeção Geral das Atividades Culturais, IGAC, à queixa apresentada àquela instituição por várias livrarias independentes, entre elas a Culsete. A queixa, efetuada sobre as recentes campanhas de Natal praticadas pelas cadeias de vendas de livros Bertrand e Fnac, denunciando a violação da lei do preço fixo, já recebeu uma resposta daquela instituição que vai de encontro às nossas pretensões. Será que vamos ter alguma justiça? Esperemos que sim.
Já disse e escrevi algures que apenas uma livraria independente oferece uma verdadeira bibliodiversidade. Disse-o e reafirmo-o agora. Dias como o DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO também ajudam a refletir sobre estas questões.
Deixem-me agora acrescentar algumas palavras sobre o tema de debate proposto para este Encontro Livreiro Especial, A Livraria, o Livreiro, a Leitura. É impossível pensar em LIVRARIA sem pensar em LIVRO e LEITURA. Esta relação direta pode não ser evidente para todos, não é certamente simples, mas é, a meu ver, determinante para enquadrar a livraria no contexto social e cultural. Numa sociedade dominada pela economia há que lutar contra a subversão de valores e a degradação do sentido das coisas. Só a partir do entendimento dos problemas da leitura se podem situar os problemas do livro e só o entendimento de uns e outros poderão determinar uma correta conceção da LIVRARIA e da sua posição relativa no complexo mundo da cultura e da civilização, ao lado da editora, do escritor, da escola, da biblioteca e de tudo o mais, naturalmente.
É esta, em traços largos, a minha visão desta problemática. Foi a partir dela que eu e Manuel criámos esta livraria.
Talvez alguns dos nossos leitores e amigos não se lembrem ou não saibam, por já terem esquecido ou por aqui terem chegado depois disso, mas esta casa abriu em 1 de Outubro de 1973. No dia 1 de Abril de 1974 comecei a trabalhar na Culsete a tempo inteiro, tendo abandonado uma situação profissional estável e economicamente muito compensadora. Vim aqui para me ocupar do sector administrativo, mas uma semana depois já tomava conta da livraria, já era a responsável pelas suas vendas e pela gestão de stocks. Manuel Medeiros ocupava-se da administração e tratava das vendas de artigos de papelaria e de algumas representações exclusivas para o distrito que a Culsete detinha, passando a maior parte do tempo fora. Nos documentos oficiais da livraria eu era a gerente de loja, ele o gerente da empresa. Ocupei essa função durante 16 anos.
Quando achei que a livraria já não precisava de mim a tempo inteiro, até porque Manuel já passava cá muito tempo, dividindo comigo o trabalho na livraria, decidi despedir-me e voltar-me para outros amores, o ensino e a investigação.
Mas nunca deixei de tomar parte ativa em todas as decisões da empresa. Sempre colaborei com a livraria, fazendo de tudo um pouco, como fizera até 1990, do acompanhamento das vendas à contabilidade, da arrumação à animação, promoção e mediação de leitura, aquilo de que sempre gostei mais. Levar alguém a ler um livro de que gostamos e que achamos importante e receber posteriormente o feedback positivo dessa leitura é algo de muito forte e compensador, servindo de conforto e apoio nos momentos de desalento e incompreensão que sempre nos vão batendo à porta.
A promoção do livro e a mediação de leitura em escolas foram por mim concretizadas de forma sistemática durante esses 16 anos, tendo-as levado comigo para outros compartimentos da minha vida.
Todo o trabalho realizado pela Culsete foi sempre feito a quatro mãos. As minhas estiveram sempre juntas com as de Manuel Medeiros. Talvez nem todos as tenham visto, mas estiveram sempre pela livraria. Por isso, hoje, quando ele já não pode estender as suas mãos para receber este diploma, eu estendo as minhas sem medo e com a plena consciência de que, se o merecemos, é em resultado desse trabalho de equipa. Não vou parar por aqui. Ainda há muitos sonhos que sonhámos juntos que é preciso concretizar. E novos desafios já se desenham no horizonte. Estou/estamos e estarei/estaremos preparada/preparados para os novos desafios que se desenham. Contem connosco! Contamos convosco!
A Culsete reafirma-se e reassume-se aqui e agora como defensora dos valores que a nortearam ao longo destes 40 anos: um espaço de promoção, mediação, animação e venda do livro que todos os dias procura contribuir para o desenvolvimento cultural da região onde se encontra inserida, ajudando a formar cidadãos mais informados, mais cultos, mais reflexivos, mais atuantes, mais livres.


Boas leituras!


Fátima Ribeiro de Medeiros
Docente, investigadora e livreira


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO | 2013

No próximo dia 30 de Novembro vamos festejar o Dia da Livraria e do Livreiro.

Depois de, no ano passado, ter sido assinalada a primeira edição do Dia das Livrarias, inspirada por ventos vindos do país vizinho e assinalando o aniversário da morte de Fernando Pessoa e de Fernando Assis Pacheco (este último, precisamente numa livraria de Lisboa), a Fundação José Saramago e o movimento Encontro-Livreiro estabeleceram uma parceria que passará a assumir a organização e a dinamização do a partir de agora designado Dia da Livraria e do Livreiro, tornando-o mais abrangente e destacando sobretudo o lugar central que o livreiro ocupa no percurso do livro e na promoção da leitura.

O Dia da Livraria e do Livreiro é um dia de Festa! Festa da livraria! Festa do livreiro! Festa do leitor!

O leitor, que para nós não é apenas um cliente, é o convidado de honra deste e de todos os dias e quem verdadeiramente justifica a livraria e o livreiro e garante, não só o futuro do livro e das gentes do livro, mas também o progresso, esclarecido e em liberdade, do(s) país(es).

Apelamos a que todas as livrarias, que queiram fazer deste dia o seu dia de festa, comecem, desde já, a preparar uma iniciativa especial para assinalar a data.

Apelamos a todos os leitores que, nas suas agendas, assinalem o dia 30 de Novembro como um dia de visita a, pelo menos, uma livraria, associando-se à festa do(s) seu(s) livreiro(s).

Vamos encontrar formas de divulgar todas as iniciativas que surjam neste âmbito e com este espírito e voltaremos com mais notícias.

Boas leituras e até breve!


Lisboa | Setúbal, 1 de Novembro de 2013

Fundação José Saramago | Encontro-Livreiro

quarta-feira, 10 de julho de 2013

«Os 40 anos da Culsete», por Sara Figueiredo Costa

Manuel Medeiros (Setúbal, 7-VII-2013). Foto de Luís Guerra

No Domingo passado, a livraria Culsete celebrou os seus 40 anos de actividade com um almoço onde se juntaram as gentes do livro, como Manuel Medeiros, um dos livreiros da casa, gosta de chamar aos que lêem e dão a ler. Quatro décadas de vida não são coisa pouca para uma livraria independente que, situada no centro de Setúbal, tem sabido reunir clientes e amigos a partir do gosto comum pela leitura. Isso mesmo se percebeu à mesa, com gente de todas as idades, alguns vindos de longe (dos Açores, por exemplo, terra natal de Manuel Medeiros), todos com alguma história para partilhar à volta das memórias ligadas à livraria. Fátima Medeiros, também livreira da Culsete, fez as honras da casa, e a sala cheia confirmou aquilo que já se sabia: que a Culsete é um espaço especial, capaz de reunir pessoas muito diferentes e de encontrar para cada leitor o livro que lhe está destinado – ou, melhor ainda, capaz de desencantar os livros que os leitores nem sabiam que queriam ler.
A minha primeira memória da Culsete não é muito antiga, mesmo que já conhecesse a livraria de ouvir falar a outros. Foi há poucos anos, numa tarde ensolarada, que rumei a Setúbal para visitar a livraria e conhecer Manuel Medeiros, o Livreiro Velho que tanta gente me garantia que tinha de conhecer. E tinha. A conversa, que era para ser entrevista (tê-la-ei algures no computador, mas guardo para mais tarde), durou um dia inteiro, começando na livraria e acabando em casa do livreiro, com derivas, pausas para uma ida à estante à procura de um ou outro livro, algumas gargalhadas e muita admiração da minha parte. E se a primeira visita à Culsete confirmou todos os elogios que a livraria parecia merecer por parte de quem já a conhecia, foi a conversa com Manuel Medeiros que me deixou com a certeza de que há pessoas que é mesmo preciso conhecer, porque nos fazem ver o mundo de outro ângulo, nos desarrumam as ideias para melhor as ordenarmos e, sobretudo, porque a empatia é uma coisa que nos faz bem à alma, mesmo que não se explique.
As comemorações dos 40 anos da Culsete prosseguem até ao final do ano e até ao próximo dia 17 acontecem sob a forma de arruada, todos os dias, na Av. 22 de Dezembro, em frente à livraria (das 15h00 às 23h00).

Sara Figueiredo Costa
, Cadeirão Voltaire

quarta-feira, 5 de junho de 2013

II Encontro Livreiro de Trás-os-Montes e Alto Douro reforça sinergias

Reproduzimos aqui a "Nota aos Livreiros" que saiu do II Encontro Livreiro de Trás-os-Montes e Alto Douro, felicitando os seus organizadores pelo encontro e pelas iniciativas que anunciam, reforçando aquilo que tem sido um ideia central do nosso movimento: o Encontro-Livreiro é um ponto de encontro, de debate e de reflexão das gentes do livro e ultrapassa, por isso, o espaço privilegiado da sua realização, a LIVRARIA, rumo ao país da LEITURA, sendo que esta é que deve ser o desígnio nacional agregador de quantos fazem dela e do seu desenvolvimento um dos motores fundamentais do progresso do nosso país.


«NOTA AOS LIVREIROS
Depois de um primeiro encontro decorrido em Março, em Vila Real, na Traga-Mundos - Livros e vinhos, coisas e loisas do Douro, promotora da iniciativa, aconteceu no passado dia 2 de Junho o II Encontro Livreiro de Trás-os-Montes e Alto Douro, desta feita na Poética - Livros, arte e eventos, em Macedo de Cavaleiros.
No centro do encontro esteve o debate em torno do tema "O futuro das livrarias tradicionais: Que estratégias?", e a continuação do trabalho de reforço das sinergias entre as livrarias com o propósito de dar mais voz mas também de repensar formas alternativas e concertadas de viabilização económica deste sector numa dimensão regional.
Do encontro houve resultados práticos, que as livrarias presentes partilham, agora e por esta via, convosco, no sentido da criação de um movimento o mais abrangente possível, consistindo essencialmente, num primeiro momento, da partilha de informação e da coordenação na organização de roteiros de eventos ligados à divulgação de autores e obras. Convidamos, assim, a vossa livraria a fazer parte desta “rede”.
Na sequência de um desafio lançado pela editora Âncora, a que outras editoras poderão vir a juntar-se, durante o mês de Agosto as livrarias que optem por aderir à iniciativa estarão, também, unidas numa mostra regional de livros dedicada aos autores transmontanos e a todas as publicações relacionadas com a nossa região. Para aderirem basta que manifestem essa intenção. Durante esse mês deverão ter nas respectivas livrarias um espaço dedicado ao tema. 
Pedimos ainda que sejam encaminhadas para o e-mail traga.mundos1@gmail.com sugestões de nomes para esta rede ou movimento que agora começamos a sedimentar.
Apelamos e agradecemos a vossa participação.

Para mais informações:
António Alberto Alves (Traga-Mundos) - 935 157 323
Virgínia do Carmo (Poética) - 960039138

Mais sobre o ENCONTRO LIVREIRO nacional aqui : http://encontrolivreiro.blogspot.pt/»


Poética - Livros, arte e eventos
Rua Fonte do Paço, nº 8C 5340-268 Macedo de Cavaleiros

960039138 /  278106420 http://poetica-livros.com/Blog/ A Poética no Facebook Loja online»

domingo, 2 de junho de 2013

Carta de uma Livreira sem Livraria ao Prémio Camões 2013



Caro Mia Couto:

Votos de bem-estar e espero que esta mensagem o vá encontrar de boa saúde no seu longínquo e belo país de mar infindo.

O hábito de escrever cartas passou de moda, mas para mim que não sou propriamente uma jovem, a carta ainda é um meio de comunicar com as pessoas de que gostamos e que se encontram lá longe.

Esta semana foi-lhe conferido o Prémio Camões. O mais privilegiado prémio literário em língua portuguesa a ser concedido aos escritores que se expressam nesta nossa tão bela e mal tratada língua. Foi muito bem entregue.

Fiquei muito feliz. Uma alegria forte, bem sentida cá no fundo do meu coração. Porque gosto de si e gosto dos seus livros, que me conduzem a um mundo com os cheiros, névoas e sombras em tudo semelhantes às terras da minha juventude.

Tive a alegria e a honra de o receber por quatro vezes na minha livraria, bem distante da sua terra natal; nas Caldas da Rainha, a Loja 107.

Entretanto as coisas mudaram e muito. Tive que fechar a Livraria, porque se alterou drasticamente todo o negócio do livro. Hoje, este, não é um livro é um produto. Grandes grupos económicos, simultaneamente editores e livreiros, dominam o mercado, juntamente com os supermercados e a Fnac. Os livros publicados são muitos, tantos que até é difícil identificá-los. Quanto aos seus conteúdos abstenho-me de me pronunciar, porque não sendo crítica literária, corro o risco de ser injusta para um qualquer livro menos cinzento… Tornou-se inviável manter uma livraria nas actuais condições de mercado, num país em que a leitura está longe de ser uma prioridade. E a 107, fechou…

A vida neste país está muito difícil ; neste país que também é um bocadinho seu.

Recordo com muita saudade as suas visitas. Lembra-se das frutas exóticas que lhe foram oferecidas ao som de uma música dançada ao ritmo africano?

Ainda tem o gato bordaliano que quis que passasse a fazer parte da sua vida? Ele tem-se portado bem?

Lembra-se de ter tido a ousadia de lhe ter dito que era um homem bonito, o que o fez corar um pouco?

Sabe que vive em minha casa um gato da Danuta Wojciechowska, talvez fugido do seu livro “O Gato e o Escuro”. Acredite ou não, enquanto lambemos as nossa feridas, mantemos grandes conversas sobre o que vamos lendo e muitas vezes não estamos de acordo.

Na última vez que cá esteve, em 2008, dedicou-me um autógrafo muito especial “À Isabel com a promessa de eterno retorno”.

Lanço-lhe um desafio, que é simultaneamente um desejo: quando tornar a Portugal a apresentar um seu novo livro, venha até às Caldas da Rainha. Faça desta cidade uma terra de eterno retorno, porque cá vive uma livreira, que tem pelos seus escritores um carinho muito especial e muitas saudades...

Isabel Castanheira
Ex Loja 107, Livraria Lda. 


Cavacos das Caldas, 2 de Junho de 2013

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Fui ao 4º Encontro Livreiro!

«Constato arrependida que ao invés de circular entre as estantes, ou de a explorar ao som dos instrumentos tocados ao vivo, me sentei rapidamente num “daqui já ninguém me tira.”


Carcavelos, 15 de Abril de 2013 

Quando li as “convocatórias” para o encontro livreiro fiquei aflita. Enquanto escrutinava as descrições do que se entendia por “Gentes do Livro”, tentava encaixar-me numa sentindo um desacerto. Eis que cheguei a LEITOR e me quedei descansada. Sim, era legítimo ir. Sou leitora, gente e sou definitivamente do LIVRO. O ano passado já me tinha dado a comichão nos pés para estar presente e motivos alheios me haviam impedido. Este ano é que ia ser. E foi. Quão feliz me senti na Culsete naquela tarde de Domingo, 7 de Abril de 2013. Tentarei transmitir o quanto recebi daquela boa gente, sendo certo que ficarei aquém na tarefa. A Livraria é um encanto. Cheira a história(s), a papel e a liberdade. Constato arrependida que ao invés de circular entre as estantes, ou de a explorar ao som dos instrumentos tocados ao vivo, me sentei rapidamente num “daqui já ninguém me tira.” Enquanto uns bebiam moscatel e outros punham a conversa em dia, aproveitei para ler. Em papel. Única forma como concebo a leitura. Estou certa que o objecto não irá sucumbir à era digital. (Muita esperança.) De vez em quando, levantava os olhos para o tocador de flauta que nos animava os tímpanos e os corações, vagueando alegre e ligeiro. (Há qualquer coisa na música…) Também para os livros. Não podes adiar mais Clarice Lispector. Havia uma capa a dizer-mo em surdina. Começou então o quarto encontro livreiro. Escutei atenta, as palavras de quem vive entre livros e para estes há anos. A situação está má? Está. Não vi ali, todavia, alguém disposto a permitir que lhe tombassem os braços. Não. Vi garra, brilho nos olhos e vontade. Ouvi mensagens de alento e propostas concretas de acção. Ficou-me uma certeza: é urgente a união. As gentes do livro têm de se juntar. Para o ano a Culsete deverá ficar com pessoas à porta, por não conseguir sentar todos os que virão ao quinto encontro livreiro. De costas voltadas não salvamos o Livro e as Livrarias. Carolinne Tyssen explicou porque não devemos pedir desconto. Já não o fazia. Depois de a ouvir jamais o farei. Ia à Trama, de propósito, comprar os meus livros. Não me ficava em caminho, embora fosse relativamente perto do meu trabalho. Ia lá porque me sentia em casa. Lá comprei livros maravilhosos que já li e outros que ainda me aguardam nas estantes. Lá fiz “workshops” de escrita criativa (Com a Raquel!) e sobre Literatura (Com a Rosa!). Lá conheci pessoas que me apaixonaram e outras que estranhei. Lá descobri autores de que nunca ouvira falar. Lá bebi cafezinhos e conversei animada, enquanto percorria as lombadas, doida de curiosidade. Lá havia a Catarina e o Ricardo, dois livreiros inesquecíveis. Não sou abastada. Vivo no modo chapa-ganha, chapa-gasta. Não me importo de não deixar qualquer fortuna pecuniária, em testamento, aos meus filhos. Deixo-lhes estantes habitadas por bons livros. Serão ricos. Faço votos que comecem mais cedo do que eu a ler os que importam. A Trama fechou e é como se me tivesse morrido uma amiga, por isso não me canso de lhe perpetuar a memória. Também por isso me esforço por perceber qual poderá ser o meu contributo. Sou das que acredita no que dizia o poeta: «quando um homem sonha o mundo pula e avança». Cada um a fazer a sua parte como parafuso, para que a engrenagem funcione. Quero saber que parafuso sou e onde me posso enroscar. Por isso vou, sempre que posso, escutar quem sabe. 

Recapitulo: 1) Não pedir descontos. 2) Comprar livros nas livrarias pequenas/independentes. 2.1.) Ir à Galileu. Sinto vergonha por nunca lá ter entrado, quando já comi tantos gelados no Santini. Perdoem-me Caroline e Nuno, é falha que colmatarei muito em breve e visita que repetirei, regularmente, de ora em diante. 3) Divulgá-las junto de quem não tem o hábito de comprar os seus livros aí. 4) Oferecer (bons) livros. 5) Estimular os mais novos a lerem e a escreverem. La Atrevida - Libraria Luso-Hispánica foi um projecto que neste encontro conheci e que se me afigurou fascinante. Já passei palavra ao meu sobrinho Rodrigo que adora escrever e que promete tanto em criatividade, como em desenvoltura na língua-mãe. Ficaria feliz se o viesse a ler na próxima Antologia Atrevida. 

Lamento não ter conhecido, ainda, o Livreiro Velho Manuel Medeiros, “pai” da Culsete. Inspiração para tantos. Espero que se restabeleça e encontrá-lo na sua Livraria no próximo ano. Comoveu-me a ideia do encontro ter continuado no Hospital. Lealdade, dedicação, amizade. O peito reconfortado. 

Agradeço à Rosa e ao Luís terem-me dado a conhecer este encontro. Têm sido focos de grande aprendizagem. 

Para terminar, a questão que se me colocou desde o início. Uma interrogação que me acompanha desde o fecho da Trama. Fui incapaz de a transmitir por estúpida e estéril timidez, mesmo tendo sido instigada pela Rosa a participar. Como quase tudo, não é original. Já a Sara a colocara na sua missiva de abertura do encontro. Aproveito para reforçá-la: o que posso fazer além de tudo quanto ouvi naquele Domingo, enquanto leitora, para cumprir o meu pequeno papel? 

(Garanto que vou, igualmente, pensar sobre o assunto para encontrar novos meios de luta.) 

Ajudem-me(nos) a ajudar-vos. Serei voluntária nesta causa. 

“Isto não fica assim!”.


Andreia Azevedo Moreira 
Escreleitora – Carcavelos

domingo, 14 de abril de 2013

«vontade em dar a volta certa às questões, sem previsão de milagres ou soluções mágicas.»


Rosa Azevedo, em plena actividade, coordenando as intervenções e tomando notas.

No primeiro fim-de-semana de Abril reunimos mais uma vez na bela Culsete, em Setúbal, para falar de livros, no IV Encontro Livreiro. É sempre e ainda difícil definir o que fazemos ali. Chama-se Encontro Livreiro mas é um encontro de todas as gentes do livro - sem mais definições do que esta. Este ano sentimos a falta do nosso Livreiro Velho que, por motivos de saúde, não pôde estar presente. No final o Encontro pegou nas malas e foi visitá-lo. E como seria de esperar o Manuel teve tanto a acrescentar como a ouvir.

Sem tema à partida pedimos todos os anos a alguém que escreva um texto para lançar a conversa. Desta feita calhou à Sara Figueiredo Costa que não pôde estar presente por motivos profissionais. A Sara lançou as questões a discutir. A dicotomia presente num país desistente que é tão contrastante com movimentos como o Encontro Livreiro e outros movimentos que daí advêm. No seu texto a Sara levanta uma questão sempre muito presente nestes encontros e que convém ter em conta - o Encontro Livreiro não se propõe resolver os problemas das livrarias nem do livro. O encontro propõe colocar mais questões do que as mais óbvias e pensar em algumas posturas alternativas para dar a volta à situação. E foi nesse contexto que este encontro foi mais rico - na demonstração de uma vontade em dar a volta certa às questões, sem previsão de milagres ou soluções mágicas. Já que é difícil manter o optimismo é importante que encontremos outras posições que sintamos que nos levam num qualquer caminho positivo.

Uma das propostas mais presentes quer nos textos lidos quer nas intervenções dos presentes foi a criação de um mapa de livrarias. A desinformação é um dos maiores inimigos deste tipo de negócios. Não podemos contar com quem conhece, temos de trazer às livrarias quem não conhece, quem compra em grandes superfícies apenas por hábito ou facilitismo. A ideia, que surgiu pela mão do Nuno Seabra Lopes, era que se fizesse um mapa físico das livrarias de Lisboa, mais do que apenas um directório como o que existe para os alfarrabistas. Esse mapa poderia ser lançado em Novembro, por altura das comemorações do Dia da Livraria e do Livreiro. Simultaneamente falou-se da importância de se criar um espaço na Internet, que poderia ser um blog por ser mais funcional, onde as livrarias estivessem registadas e pudessem aí fazer uma contínua divulgação quer do seu espaço quer dos seus eventos, textos, ideias, etc. Poderia ser a nível nacional ou regional.

Nuno Medeiros chamou a atenção para a dificuldade que se sente muitas vezes dentro do próprio mundo dos livros entre os vários agentes - assunto que costuma vir à baila nestes encontros - ou seja livreiros, editores, distribuidores. Carolyn, da livraria Galileu, «Livreiro da Esperança 2013» (com Duarte Nuno Oliveira), defende que as dificuldades aproximam as pessoas, uma vez que em tempos como estes cada um dos intervenientes tem mais necessidade do outro do que antes.

Este ano contámos com a presença de uma associação / livraria luso-hispânica que foi muito bem recebida pelas intervenções e pelos conteúdos que acrescentaram ao nosso Encontro. Javier Betemps e Paulo Madrid falaram da urgência de percebermos, dentro das tão referidas dificuldades, que o futuro está nas crianças e que por isso é importante ouvir o que elas têm para dizer. Acreditam que no futuro, e em Encontros como este, se deve fazer pedagogia. Ouviram-se muitas opiniões sobre o papel dos diversos intervenientes na educação de uma criança para a leitura (pais, escolas, livrarias). Mas a conclusão a que todos chegaram é que é importante formar as crianças, futuros leitores e futuros consumidores do mercado livreiro para a escrita e a leitura habituando-as às livrarias que assim se podem e devem chamar pois está nas mãos delas que estes espaços, que são muito mais do que vendedores de livros, possam subsistir. Segundo Javier Betemps as crianças não só são os futuros leitores como são os leitores / escritores do presente que, ao terem contacto com muitas realidades pela primeira vez, têm leituras isentas de vícios e sobre-interpretações com as quais nós só teremos a ganhar.

A conversa continuou animada e pautada pelo debate com algumas questões recorrentes e estruturantes - o papel do e-book, a importância de novos suportes e novas abordagens do livro, os livreiros das grandes livrarias que podem ou não ser considerados livreiros.

Gostava que este texto lançasse a discussão. Que ela continuasse a não ter um tema mas que tivesse vozes. O Encontro Livreiro é já um movimento cheio de braços e ramificações. A forma de continuar este debate de ideias é continuar a pensar e ao pensar continuar a dizer o que se pensa. Como dizia o Joaquim podemos não ser grandes mas seremos resistentes. E como todos sabemos, uns mais do que outros, não há grandeza maior do que a resistência e a não desistência. E o Encontro Livreiro tem provado ser isso mesmo. Ficamos por isso a aguardar as vossas reacções e comentários a estas ideias lançadas este ano para que o Encontro não se fique só por uma tarde boa passada à volta do moscatel, algures no início da Primavera.

Rosa Azevedo

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Dia da Livraria e do Livreiro


Sérgio Letria, da Fundação José Saramago, falou sobre o Dia da Livraria e do Livreiro

Em 2012, em parceria com a Fundação José Saramago, comemorámos de forma simples o Dia das Livrarias, associando-nos assim a iniciativa similar realizada em Espanha. Do contacto inicial entre a Fundação José Saramago e o Encontro-Livreiro nasceu mais uma iniciativa que muito tem a ver com o espírito e os objectivos deste movimento: a defesa das livrarias como o lugar privilegiado da edição da leitura, como muito bem diz o nosso Livreiro Velho, e como o garante do desenvolvimento da leitura, única forma de defender todos os intervenientes no mundo do livro, do autor ao leitor

Cartaz do Dia das Livrarias 2012


Para além da iniciativa do passado dia 30 de Novembro de 2012, fundamentalmente assinalada com a edição de um cartaz com frases de José Saramago alusivas à leitura, que as livrarias aderentes difundiram e que serviu para assinalar a data através fundamentalmente de blogues e redes sociais - aí difundindo também a mensagem «Todos os dias são bons para visitar uma livraria. Não permita que as livrarias se transformem numa "espécie em vias de extinção!"», continuámos as nossas conversas e, numa reunião realizada há dois dias, acordámos o seguinte:

1. Que fique instituída esta parceria entre o ENCONTRO-LIVREIRO e a FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO

2. Que o dia 30 DE NOVEMBRO se passe a chamar DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO [note-se que, neste dia, se assinala a morte de Fernando Pessoa (1935) e de Fernando Assis Pacheco (1995), este último precisamente numa livraria de Lisboa, a velha Buchholz da Rua Duque de Palmela. Dizia o seu filho João em texto que publicámos no dia 29/11/2012: «Morrer numa livraria chateia tanto como morrer noutro sítio qualquer, suponho. Mas se é mesmo preciso praticar essa maçada de morrer, que seja em serviço. Foi isso que Fernando Assis Pacheco fez numa manhã de 1995, num 30 de Novembro. Saiu de casa para ir trabalhar, passou pela livraria de todos os dias, apagou-se.]

3. Que seja constituído em breve um grupo organizador do Dia da Livraria e do Livreiro em 2013, que integrará elementos da Fundação, do Encontro e de  algumas Livrarias.

Temos hoje connosco o Sérgio Letria, director da Fundação, um amigo pessoal e do Encontro-Livreiro, a quem peço que nos dirija algumas palavras sobre este feliz envolvimento entre a Fundação José Saramago, uma entidade ligada a um AUTOR, e o Encontro-Livreiro, que «é simplesmente um movimento de aproximação entre quem, vivendo e trabalhando no meio dos livros, já percebeu que não faz sentido, hoje mais do que nunca, andarmos a esforçar-nos cada um por si, numa guerra que só pode ser vencida em comum, lado a lado. Se é que se pretende merecer que o livro continue a ser uma das mais ricas potencialidades criadas pelo homem civilizado para progredir em direcção a todas as suas utopias e ambições e conseguir que, trabalhando com ele e para ele, se vão colhendo bons proveitos e justos proventos.», como escreveu no texto do III Encontro o nosso querido e incontornável Manuel Medeiros, um entusiasta deste DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO (foi ele, aliás, o proponente desta nova designação, que eu e o Sérgio Letria aceitámos de imediato e pomos à vossa consideração) pelo que ele significa de chamada de atenção para o lugar central da LIVRARIA e para os sinais, cada vez mais evidentes, de que está a nascer, já está aí em várias livrarias pelo país fora, um novo modelo de LIVREIRO, já não necessariamente o proprietário da livraria, já não necessariamente um autodidacta (embora os haja, e vá continuar a haver, e muito bons), mas alguém com uma maior e melhor preparação e exigência, se bem que desejavelmente aberto a colher o saber dos livreiros menos jovens e mais experientes. 

Muitos de nós conhecemos casos de proprietários e administradores de livrarias que, por não saberem aproveitar devidamente os excelentes livreiros que querem apenas a “arrumar livros” e “atrás do balcão”, vêem as suas livrarias a definhar e cada vez mais vazias de livros e de leitores. 

Estou certo que, no futuro, se assistirá a um movimento desses mesmos livreiros, hoje encurralados em livrarias que não alcançam mais além do lucro imediato, rumo a projectos pessoais ou de pequenos grupos (assistiremos ao ressurgir das cooperativas?) onde possam desenvolver verdadeiros projectos livreiros que, não só cumprirão melhor a função de livraria, integrada no grande desígnio que é o desenvolvimento da leitura, como serão economicamente mais rentáveis. 

Mas aqui está mais um tema sobre o qual também seria bom conversarmos esta tarde. 

Passo a palavra ao Sérgio Letria [Falou de improviso. Foto acima]. 

Luís Guerra
Setúbal, 7 de Abril de 2013

terça-feira, 2 de abril de 2013

«O Livreiro Velho, com o precioso apoio de Fátima Ribeiro de Medeiros, mais um vez tem o gosto e a honra de repetir o Convite para um Moscatel, dirigindo-o a todos os que a si mesmos se entendam como Gentes do Livro e queiram participar neste IV Encontro.»

                                    Culsete, 27 de Março de 2013. Foto de Luís Guerra

Adiado do último de Março para o primeiro domingo de Abril, sendo já hoje o dia 2 deste novo mês, o tão caro Dia de Andersen, está em contagem decrescente o nosso IV Encontro Livreiro, mas, para que possa nele participar presencialmente, quero crer que também em decrescente a da minha alta do HSB, onde uma boa recuperação ainda me retém.


Esta mensagem vai neste tom, chamar-lhe-ão estilo epistolar, o simples tom da convivência comum, a normal, em que tudo à conversa trazemos, por exemplo uma banalíssima banalidade ou uma grandiosa pergunta acerca da última teoria sobre a origem do universo, logo seguida de uma queixa sobre a sopa que me esqueci de guardar no frigorífico e azedou.

Espero que ninguém me leve a mal. Creio que muitos dos entusiastas do nosso convívio livreiro leva a bem e é por eles. Com efeito… Desde 14 de Janeiro p.p. que o forte carinho que me foi manifestado por muitos aderentes ao nosso movimento mereciam que em tom pessoal e simples correspondesse como uma palavra ao modo amigo como me trataram. Isso me permite e até talvez impõe este tom. Para este meu simples vir dizer que que a minha contagem decrescente esta a ser dupla.
Vir dizer. É que…

Gostaria de bem vincar que o Movimento Encontro Livreiro nasceu como Convite às Gentes do Livro para em Convívio virem à Culsete em Setúbal tomar um Moscatel.
Um ponto de partida mais simples não podia haver; uma tarde tão bem passada e válida não esquece.

O Livreiro Velho, com o precioso apoio de Fátima Ribeiro de Medeiros, mais um vez tem o gosto e a honra de repetir o Convite para um Moscatel, dirigindo-o a todos os que a si mesmos se entendam como Gentes do Livro e queiram participar neste IV Encontro.

Se o IV Encontro Livreiro decorrer como os três anteriores, trazendo, embora ainda muito pequena, uma já rica história, irá dizendo aquilo para que nasceu: juntos podermos passar anualmente em Setúbal um agradável Último Domingo de Março e juntos acrescentarmos essa referida pequena história.

Ideias, iniciativas, outros modos de encarar e moldar o futuro até podem nascer. Não tanto a nascer do próprio Encontro Livreiro, em sua qualidade de movimento que apenas pretende ser convívio agradável e enriquecido pelo contributo de todos, mas das pessoas.

Das pessoas que participam e acreditam em si, como grupo empenhado. De cada uma das pessoas a começar por sua casa ou seu ofício. Tem neste sentido significado relevante o recente Encontro Livreiro de Trás-os Montes e Alto Douro.

O IV Encontro Livreiro significa que muitos de nós estamos por novos paradigmas no nosso Mundo dos Livros e da Leitura.

Livreiro Velho, «Encontro Livreiro - Contagem Decrescente», publicado originalmente em Chapéu e Bengala e Papel a Mais.

quarta-feira, 27 de março de 2013

«O livro democratizou-se, para o bem e para o mal, sustentado por uma estratégia de marketing que entroniza a mediocridade em escaparates onde, se não nos pomos a pau, esbarramos ao entrar da porta.»


ESPAÇOS DE VENDA DE LIVROS OU A LUTA PELA SUBSISTÊNCIA

Embora a efeméride tenha passado injustamente despercebida, comemorei, no dia 21 de Março de 2011, o cinquentenário de compradora de livros. O facto de a escolha da estreia ter recaído sobre um livro de poemas, O Luar de Janeiro de Augusto Gil, foi, decerto, mera coincidência pois, que me lembre, ainda se não comemoravam os dias de tudo e mais alguma coisa. Também me atraiçoa a minha memória regressiva quando lhe bato ao ferrolho como quem lança um S.O.S. De onde me terão vindo os 25 escudos da “Balada de Neve” & Companhia? 
Nunca tive essa coisa gostosa de semanada ou mesada. Argent de poche, limitava-se a uma expressão francesa de que só conhecia o significado. Os meus únicos proventos, que não chegavam a aquecer as mãos, eram uns miseráveis trocos escuros provindos da minha actividade de prestadora de serviços à minha mãe, raramente ultrapassando os cinco tostões, de imediato convertidos em cinco rebuçados de fruta ou num cúbico caramelo de prata colorida. Um consolo!
O acto de ir à Livraria Branco com outro fim que não fosse o da aquisição de material escolar, de passar de um lápis para um livro, constituiu para mim algo muito sério com gostinho a uma maioridade semelhante à de substituir os infantis soquetes pelas adultas meias de vidro.
Depois de Augusto Gil foi a vez de José Régio e de Florbela Espanca, vendidos por aquela altura respeitável do saudoso Sr. Adriano. Gostava de decorar poemas para brilhar, histrionicamente, nas lições nº cem. Também fui atacada pelo vírus dos versos (não da poesia, hélas!) submetidos, subrepticiamente, nas aulas de Português, ao parecer do saudoso Eduardo Guerra Carneiro, o meu primeiro crítico literário…
Pede-me o proprietário desta casa um texto sobre a minha experiência de frequentadora de livrarias na região, pelo que omito a Coimbra do meu Torga e o Porto da Leitura e da Bertrand.
Radicada nesta cidade há mais de 30 anos, é por estas bandas que vasculho a oferta livreira. Guardo, com a Branco, a fidelidade jurada no tal casamento, apenas quebrada com pontuais facadas quando uma força irresistível me empurra para dentro da Bertrand ou quando, numa surpreendente jogada de antecipação, a Traga-Mundos espicaça o meu telurismo com uma edição de comprovinciano ainda a cheirar a tipografia. 
O livro democratizou-se, para o bem e para o mal, sustentado por uma estratégia de marketing que entroniza a mediocridade em escaparates onde, se não nos pomos a pau, esbarramos ao entrar da porta. Quer isto dizer que a oferta visível pode desmotivar quem busque aquilo a que é justo rotular de literatura. A par deste aspecto, temos uma evidência comum a várias vilas e cidades pouco populosas. Com meia dúzia de leitores/compradores, como haveriam de sobreviver os comerciantes que teimam em reservar, nas suas lojas, um espaço para a cultura? Surge assim um hibridismo de oferta onde umas estantes alojam os escritores de maior ou menor (ou nenhuma) procura para onde nem olha quem vai à procura da última Caras, de uma raspadinha, de bugigangas, de uns produtos de beleza, de uns brinquedos, de produtos artesanais ou outros.
Longe de ser uma crítica, resulta esta achega da observação de uma realidade que veio para ficar. E também encerra uma palavra de reconhecimento e admiração por quantos teimam em manter vivo um património indispensável ao aconchego intelectual de quantos buscam na leitura uma prazer, uma companhia em horas solitárias, uma inesgotável fonte de aprendizagens, um meio de melhor conhecer a psicologia humana e o mundo que os rodeia.
O espaço onde nos encontramos é o exemplo vivo e singular de tentativa de fixação de leitores através de uma estratégia comercial. Com a particularidade, assumida orgulhosamente, de se constituir como um polo da complexa identidade transmontana nas suas várias vertentes, o António Alberto apostou na variedade e qualidade de produtos da região, hierarquizando-os, de modo a garantir o protagonismo à literatura que por cá se vai publicando, dela fazendo a rainha deste “país do vinho e do suor”, como disse António Cabral. A acrescentar o intimismo do local onde gente de cultura se reúne, sem mordomias nem salamaleques, antes num espírito de convívio com sabor a serão familiar, em roda de amigos. Para assistir a apresentação de livros, a sessões temáticas, a exposições de artes plásticas, a provas de vinhos e a um sem número de iniciativas nascidas da dedicação e do empreendedorismo de um bem intencionado vila-realense. Sem grandes ambições nem falsas ilusões quanto à procura de bens do espírito, tem vindo a conquistar o seu espaço, passo a passo. 
Penso que é esta coexistência pacífica entre produtos para diferentes públicos a opção para a continuidade do comércio do livro. Como diz o povo, deste modo dá a risa para a chora… 
Mais intolerante me manifesto com as secções de livros das grandes superfícies. Misturada com feiras de queijos, de vinhos, de fumeiro e outras, a literatura perde a sua dignidade. Se as receitas culinárias das apresentadoras de televisão ou as biografias dos futebolistas não ficam mal no cesto das compras com chouriços, repolhos, cervejas ou com material desportivo, não acredito que se sintam confortáveis Lobos Antunes e companhia ao alombarem com a areia do gato, o garrafão de azeite em promoção, o leve três pague dois de qualquer coisa e ao chegar-lhes ao nariz o cheiro do bacalhau e de seus colegas isentos de molho…
Os tempos que vivemos são pouco consentâneos com o consumo de bens não essenciais, mas bom seria que todos tivéssemos a capacidade de afogar em linhas e letras angústias presentes, numa espécie de evasão no tempo, um pouco como diz Padre António Vieira: “O fim para que os homens inventaram os livros foi para conservar a memória das coisas passadas contra a tirania do tempo e contra o esquecimento dos homens, que ainda é maior tirania.”

M. Hercília Agarez, professora aposentada e escritora

[texto solicitado à autora para servir de mote ao I.º Encontro Livreiro de Trás-os-Montes e Alto Douro e apresentado pela própria no dia 24 de Março de 2013 (domingo), pelas 15h00, na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro, em Vila Real].

Publicado originalmente no blogue da Traga-Mundos.