Hoje não há gente disposta a abrir mão do livro físico, e a desconfiança e não aposta no livro electrónico são realidades com que vivemos. Isto é algo que afecta em maior ou menor grau todos os agentes do sector do livro. Curiosamente, são os dois intervenientes menos valorizados no sistema actual que mais tem beneficiado e investido nele: os autores e os leitores. Nas relações que se estabelecem entre os vários actores desta peça, autores e leitores, por razões diferentes, são hoje os menos valorizados e mais abusados dentro do sistema da edição física. O mundo virtual possibilitou não só uma certa democratização dos meios de produção em causa, como também da distribuição do livro (e de outros produtos conexos) e da informação em geral. De repente, os autores deixaram de ser obrigados a um interlocutor/mediador privilegiado na sua relação com os leitores e o mundo (e vice-versa). Os leitores passaram a ter formas de ligação e influência sobre a produção e os meios literários. Veja-se por exemplo o papel da Crítica literária e a sua completa irrelevância no que toca ao seu valor promocional para as editoras, principalmente se comparada com a disseminação de opiniões/comentários/exposições nos blogues e redes sociais.
domingo, 12 de abril de 2015
Ainda o VI ENCONTRO LIVREIRO: Tempos Interessantes
Hoje não há gente disposta a abrir mão do livro físico, e a desconfiança e não aposta no livro electrónico são realidades com que vivemos. Isto é algo que afecta em maior ou menor grau todos os agentes do sector do livro. Curiosamente, são os dois intervenientes menos valorizados no sistema actual que mais tem beneficiado e investido nele: os autores e os leitores. Nas relações que se estabelecem entre os vários actores desta peça, autores e leitores, por razões diferentes, são hoje os menos valorizados e mais abusados dentro do sistema da edição física. O mundo virtual possibilitou não só uma certa democratização dos meios de produção em causa, como também da distribuição do livro (e de outros produtos conexos) e da informação em geral. De repente, os autores deixaram de ser obrigados a um interlocutor/mediador privilegiado na sua relação com os leitores e o mundo (e vice-versa). Os leitores passaram a ter formas de ligação e influência sobre a produção e os meios literários. Veja-se por exemplo o papel da Crítica literária e a sua completa irrelevância no que toca ao seu valor promocional para as editoras, principalmente se comparada com a disseminação de opiniões/comentários/exposições nos blogues e redes sociais.
sábado, 29 de maio de 2010
CRÓNICA RESUMIDA DE UMA CONFISSÃO
É verdade que, durante séculos, contribuí para a destruição de muitas florestas à força de querer ensinar o mundo a ler.
Em muitas latitudes, paguei caro por isso, ao ser perseguido, censurado, queimado e odiado por quem me temia.
Descobri, então, que a ignorância, além de ser estúpida, quer-se resistente.
Também é verdade que, à minha sombra, muitos abusaram da passividade a que me sujeitei, gastando toneladas de folhas em branco sem nada para dizer.
Acontece ser o desperdício um erro da democracia.
Sei, também, de sobra que neste planeta a deitar por fora, já se encara o espaço como um problema.
Quer nos armazéns das grandes editoras, quer nas lojas, reais ou virtuais, quer ainda nos lares de milhões de leitores, cresce a insinuação de que estou a mais.
Não é segredo para ninguém que o papel acumula-se, atrai os bichinhos, esgota prateleiras, ganha uma cor térrea e o cheiro a bafio de uma longa idade.
Há, também, quem diga que tremi e tremo com a chegada das novas tecnologias. Mais limpas e rápidas na comunicação, encurtam as distâncias entre os pólos da Terra, prometem robôs que venham a falar como seres humanos.
Verdade ou mentira, só de pensar que o livro digital já vem a caminho, quebra-me a vontade de ser D. Quixote, velha personagem a que tanta vez dei corpo.
Meter vinte livros numa pequena caixa é uma tentação mesmo para aqueles que não gostam de ler.
Mas sendo o progresso a arte de ir em frente, com os pés no chão, ainda há quem veja com olhos de gente que a minha permanência vai continuar, mesmo reduzida, no mercado da cultura e da comunicação.
Hábitos de leitura, estilo e tradição, a recordação de boas leituras, o toque do papel são muitas as razões de quem julga haver lugar para todos.
Assim aconteceu com a fotografia, o cinema e o teatro quando da chegada da madre televisão e, mais recentemente, com a Internet.
E, depois, quem sabe, ao fim de tantas voltas ao redor do sol, quantas vezes nós olhamos em frente e damos connosco a olhar para trás.
O vento, o mar e o sol, já por cá andavam antes do carvão, do petróleo, da electricidade e do nuclear entrarem ao serviço.
Agora lhes chamam energias renováveis e revelam-se úteis para a humanidade .
Assim sendo, eu, o livro em papel, embora admita que a minha viagem já esteja a entrar na última estação, ainda circulo à velocidade dos milhares de edições.
- Então que fazer? – perguntam os elementos da tribo do deitar abaixo como sempre fizeram em todas as situações.
Ora bem, senhores, mesmo que o vulcão da Islândia e outros parecidos cubram o céu de cinzas, é de boa prática que autores, editores, livreiros e leitores atentem na mudança com esta certeza.
Em papel ou em suporte digital o livro continuará a existir e a ser procurado por quem não desiste de viver com ele.
Com este argumento, talvez os juízes me reduzam a pena, a morte do livro não é para já.
Tenho a meu favor o muito que aprendi, enquanto esperava dias a fio, que alguém me tirasse de uma prateleiras.
É, pois, sobre a loja que passo a falar.
A loja, esse elo visível do circuito comercial que é o ponto de encontro entre o livro e o leitor, não deve nem pode ficar para trás.
Alguém afirmou que o caminho se faz, começando a andar.
Na expectativa de uma morte lenta, entre lapiseiras baratas made in China e cromos de futebolistas, é bom que os livreiros não baixem os braços e vejam os recursos com que podem contar na venda do livro, ainda em papel.
Caramba, olhem como os putos brincam com a informática, sobre o teclado do computador.
Organizar ficheiros de clientes certos é tratar de forma directa a comunicação.
Animar as lojas, enfeitar as montras, seguir na esteira das campanhas de publicidade dos mais poderosos, criar a notícia feita boca a boca, dar mais vida ao livro no ponto de venda, preparar a tempo os dias festivos, contactar autores, conhecer o produto que vos chega às mãos, falar sobre ele a quem lhe está perto, procurar parceiros… ufff… que cansaço, dá muito trabalho.
Mas também se sabe que ninguém faz milagres por mais forte que seja e cada tentativa é um sinal de vida.
Para morrer de joelhos, morra-se de pé.
Por estranho que pareça, eu, o livro em papel, acredito nisto e para os meus pecados peço a vossa absolvição.
Fernando Bento Gomes
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Livrarias: presente e futuro
sexta-feira, 18 de março de 2011
A Persistência da Visão
Sentado frente ao ecrã, com o frio da noite lá fora, longe deste ambiente vivo e agradável graças a um aquecedor a gás, recordo os lugares de ler da minha infância e juventude. Eram sítios e espaços maravilhosos, de regras claras e distintas, com um imperativo maravilhoso: fruir o livro. Eram lugares onde eu podia largar tudo e mergulhar num livro.
No meu caso, identifico-os bem. A livraria e a tabacaria do meu bairro e, como é natural, a casa de meus pais. Em casa havia livros de todos os tipos, temas e feitios. Não eram muitos mas supriam todas as minhas necessidades e prazeres. Quando descobri que não me chegavam e que lá fora havia um mundo imenso de livros, livrarias e bibliotecas, fiquei maravilhado. Iniciei então uma viagem sem regresso, do tipo que todos reconhecemos (mesmo os que não lêem).
O encontro com o livro e a leitura é por vezes o simples resultado da disponibilidade. De livros e de tempo. É espantosa a quantidade de tempo que existe quando somos mais novos. Todavia, acredito que o mais determinante nesse encontro não é nem o espaço, nem o tempo, nem sequer uma forte presença física de livros.
Por isso, ao desfiar a memória dos lugares onde li livros, reparo subitamente que o importante foram as pessoas que neles estavam.
As pessoas que faziam parte da minha paisagem em qualquer lado que eu estivesse ou fosse eram naturalmente os meus pais e os meus avós. Pessoas que para mim foram e são como lugares num sentido latino. Presenças fulcrais, centrípetas e aconchegantes. Pessoas que me deixaram sonhar e que me mostraram como fazê-lo. Vejo o meu avô sentado no sofá da sala embrenhado num jornal ou num romance. Sinto a minha avó perto de mim, ajudando-me a ler os livros de juventude da minha mãe. Aqueço-me nos serões de leitura dos Lusíadas à beira da cama de minha mãe. Descanso, mesmo nas noites em que acordei estremunhado com algo e dei com o meu pai lendo, sentado na cama.
Mais tarde, saía de casa para ir a lugares com pessoas. Com as senhoras simpáticas da livraria do bairro que não só me aturavam as perguntas, como o hábito de ler sentado no chão ou encostado aos escaparates. A da tabacaria que me deixava manusear dicionários ilustrados e Júlio Verne sem ter de os comprar. O alfarrabista que macambúzio não comentava se eu pegasse num volume de Spengler, noutro de Durrell e num Argonauta. Posso dizer que a primeira coisa que comprei para mim em toda a minha vida, foi um livro e que não me esqueço dos nervos que senti ou do sorriso de lábios cuidadosamente irreflectidos da empregada ao dar-me o troco.
Os livros, apesar de maravilhosos, nada são sem as gentes que o suportam, amam e acarinham, nada sem os que os lêem, que os promovem, que os ensinam e que os tornam, como se costuma dizer hoje, virais. Os livros possuem o péssimo hábito de não serem auto-suficientes. Precisam de pessoas como nós para terem vida, para serem vida.
E quantos mais formos, mais persistiremos contra o apagar da luz.
Nuno Fonseca
Orgia Literária / Fundador do Encontro Livreiro
terça-feira, 7 de abril de 2015
NOVOS MUNDOS, NOVOS ATORES: A ALTERAÇÃO RADICAL NO MUNDO DO LIVRO / PALAVRAS QUE VOS DEIXO
NOVOS MUNDOS, NOVOS ATORES: A ALTERAÇÃO RADICAL NO MUNDO DO LIVRO
Setúbal, 29/03/2015, VI Encontro Livreiro
Nuno Seabra Lopes
PALAVRAS QUE VOS DEIXO
Luís Guerra
Margem Sul, 29 de Março de 2015
quinta-feira, 12 de abril de 2012
ouvirmos as opiniões e experiências uns dos outros, de forma a repensarmos estratégias conducentes à sobrevivência e dignificação do livro, do livreiro e do editor.
[Autor e Editor (Clinfontur)]
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
O VI Encontro Livreiro está a chegar
| (Rosa Azevedo, Nuno Medeiros e Nuno Fonseca, no V Encontro Livreiro) |
O ENCONTRO LIVREIRO não é apenas um encontro de livreiros. É antes um encontro de todas as gentes do livro, do leitor ao investigador, passando pelo editor, pelo livreiro, pelo tradutor, pelo designer gráfico, pelo revisor, pelo ilustrador, pelo bibliotecário, pelo autor, pelo agente literário, enfim, por todos os que trabalham e vivem na esfera do livro.
Haverá no início do Encontro, às 15 horas, o habitual apontamento musical e o moscatel de Setúbal marcará como sempre o clima de convívio.
Em breve anunciaremos o nome do livreiro a quem será atribuído o diploma LIVREIRO DA ESPERANÇA 2015, uma singela homenagem deste movimento àqueles que dedicaram uma vida a promover o livro e a leitura, continuando as suas livrarias a ser espaços de resistência e persistência cultural.
Iniciando o VI ENCONTRO LIVREIRO um novo lustro, sentiu o núcleo fundador necessidade de fazer alguns ajustes. Assim, o debate far-se-á em torno de uma temática comum que será introduzida pelo chamado texto do Encontro, que em breve estaremos em condições de divulgar.
Portanto, já sabe: Em março todos os caminhos vão dar a Setúbal, à Culsete, ao VI ENCONTRO LIVREIRO.
Contamos consigo!
sábado, 4 de fevereiro de 2012
«Ebookação»
(1)
Mas devíamos questionar isto. Os e-books existem e vieram para ficar. Mesmo que em Portugal ainda se teime em não o produzir ou consumir em larga escala, o certo é mais tarde ou mais cedo ele vir cá assentar arraiais. Por isso, talvez fosse melhor "saltar da caixa", "sair da zona de conforto", e começarmos a pensar em formas de usar a via digital para valorizar o livro físico, ao invés de a recearmos.
É que ao contrário do que queremos ou nos habituamos a pensar, não há uma relação assim tão directa entre a existência (e o sucesso) do e-book e a propalada (até à náusea) morte do livro. A história diz-nos algo sobre isto. O cinema não matou o teatro, a televisão não matou o cinema, a internet não matou nenhum deles. O televisor não matou o ecrã. Assim como os sintetizadores não mataram o piano ou as esferográficas os lápis.
E se queremos verdadeiramente valorizar o livro enquanto objecto cultural imprescindível e essencial, temos de nos adaptar e começar a incorporar o meio digital, todas as suas ferramentas e processos e meios, de modo a consegui-lo. Algo já se vai fazendo, é certo, como vemos diariamente: a actividade bloguística aumentou de forma entusiástica e barata o interesse geral pelos livros. É só um exemplo. O e-book é apenas uma das suas expressões e mesmo ele tem potencialidades úteis não só para a criação literária, como para a comercialização, o estudo, a investigação, a fruição, etc.
Por exemplo, o livro em formato digital possibilita, antes do mais, a formação de novos leitores e o reforço da actividade dos existentes (quer na leitura ou no simples consumo). Possibilita também um precioso auxílio à memória, pois deixa de ser inevitável que as obras desapareçam com o tempo, por acção das erosões naturais ou dos interesses comerciais. Que melhor forma, por exemplo de fazer reviver obras esquecidas? Meros exemplos.
Abraçar o e-book e o meio digital na área do livro é inevitável e, apesar dos riscos, uma incrível oportunidade para todos os intervenientes do mundo literário. Mas ignorá-los ou menosprezá-los não me parece, sinceramente, uma opção. Criatividade, isso sim, é que é necessário.
Nuno Fonseca*
* O Nuno Fonseca, um dos fundadores do Encontro Livreiro, faz hoje anos. Parabéns, Nuno! Pelo texto. Pela vida.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
«Com dois anos e meio este mais novo livreiro do mundo demonstra que a continuidade da «espécie» está assegurada!!!»
I
L. V., «O mais novo livreiro do mundo», Chapéu e Bengala


