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domingo, 12 de abril de 2015

Ainda o VI ENCONTRO LIVREIRO: Tempos Interessantes

Como já dissemos, Nuno Fonseca, numa das suas intervenções no VI E.L., fez a leitura de um texto expressamente escrito para aí ser lido, tendo a sua leitura reforçado o debate. É esse texto que hoje publicamos.

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Tempos Interessantes
Intervenção no 6º Encontro Livreiro, lida perante os meus pares, durante as conversas da tarde, num momento em que, por motivos de acaso e estro, se discutia a realidade do fenómeno do livro electrónico e os seus efeitos no sector do livro.
Por vezes, e talvez em grau maior do que com muita gente, pergunto-me sobre o futuro, sobre como virá a ser aquilo que ainda não se transformou. Este exercício especulativo não precisa de ficar restricto aos domínios ficcionais ou do academismo criativo. Por vezes pode e deve ser tentado por todos nós.
A primeira coisa que devemos ter em mente é que não se pode pensar o futuro sem conhecer uma parte significativa do passado e sem ter uma visão sólida do presente. Neste momento, há cerca de 20 anos que temos internet. Mais concretamente, os livros digitais também circulam desde o seu início, e o seu percurso, nos últimos anos, tem sido notório. Por outro lado, há 6 anos que foi feita uma tipografia portátil para venda directa de modelos livres de livros ao consumidor (a famosa expresso book machine). É verdade que este aparelho parece ter caído no esquecimento, mas relembremos que também o livro digital passou por muitos anos de relativa obscuridade até atingir o estado presente. Pode ser que o seu advento seja igualmente lento e que ainda venha a ter um papel importante no negócio dos livros.
A questão não é muito diferente da do papel da gasolina Vs. electricidade no mundo dos transportes (salvaguardando as devidas diferenças) - e todos sabemos que apesar de todas as razões e argumentos, continuaremos num sistema baseado em combustíveis fósseis durante muito tempo, porque essa é a vontade dos principais agentes do sector.
Hoje não há gente disposta a abrir mão do livro físico, e a desconfiança e não aposta no livro electrónico são realidades com que vivemos. Isto é algo que afecta em maior ou menor grau todos os agentes do sector do livro. Curiosamente, são os dois intervenientes menos valorizados no sistema actual que mais tem beneficiado e investido nele: os autores e os leitores. Nas relações que se estabelecem entre os vários actores desta peça, autores e leitores, por razões diferentes, são hoje os menos valorizados e mais abusados dentro do sistema da edição física. O mundo virtual possibilitou não só uma certa democratização dos meios de produção em causa, como também da distribuição do livro (e de outros produtos conexos) e da informação em geral. De repente, os autores deixaram de ser obrigados a um interlocutor/mediador privilegiado na sua relação com os leitores e o mundo (e vice-versa). Os leitores passaram a ter formas de ligação e influência sobre a produção e os meios literários. Veja-se por exemplo o papel da Crítica literária e a sua completa irrelevância no que toca ao seu valor promocional para as editoras, principalmente se comparada com a disseminação de opiniões/comentários/exposições nos blogues e redes sociais.
Aos poucos, estes intervenientes que eram eminentemente passivos dentro do velho sistema, passaram a ter um papel muito mais activo e em certos aspectos, mais eficaz. Mas, e está aqui o paradoxo, o que tem sucedido simultaneamente é um retrocesso claro em certos aspectos dos seus papéis, que reverteram claramente para características antigas. Neste sentido, o papel do autor contemporâneo alterou-se atavicamente para modelos de há quase 150 anos: ter dinheiro e /ou posição social são cada vez mais condições normais para se poder exercer com sucesso e relevância uma carreira de escrita; e também se observa que o empenho individual e sem apoios de outros agentes na promoção de si e da sua obra voltou a encontrar sede no actual sistema, pois é cada vez maior o desinvestimento na promoção e no marketing dos autores, e cada vez maior a necessidade de chamar os leitores para participar nesta mudança.
Mas se abro os olhos perante isto é principalmente para relembrar que tudo irá evoluir. O sector do livro é essencialmente sui generis por causa das diferentes evoluções temporais dos seus elementos. No sector do livro anda-se a destempo, a vários tempos, por vezes até a contratempo, mas o sentido é sempre o da mudança e o da valorização, má ou boa, do presente. O futuro parece cada vez mais condicionado pela evolução da natureza da informação e já não tanto pela sua disseminação. Daí estes pequenos sobressaltos que temos assistido em torno do livro digital e do papel das redes sociais no meio.  Os dados financeiros ou mercantis, macro ou micro culturais, sobre os livros, circulam cada vez mais de forma massificada, tendendo para formas públicas. Tanto autores como leitores têm sido os principais fomentadores destas pulsões, enquanto os restantes intervenientes tendem a contrariá-los. E no entanto, o caminho faz-se. Penso que a livre e pública informação de todos os dados referentes ao livro é um caminho inevitável e que todos devem ponderar.
Pode-se discorrer muito sobre tudo isto que o futuro continuará a ser filho apenas de si próprio, mas como pais no presente, temos o dever de olhar em volta, identificar estas tendências e ponderar sobre elas. Se por um lado, os intervenientes e instituições do sector apresentam estas pulsões antagónicas, por outro a verdade é que vivemos uma espécie de época de ouro, moderna e massificada, no que toca ao livro - nunca houve tanto livro em circulação, nem tantos autores, nem tantos leitores, editores, livreiros, nem tanta gente envolvida nos seus processos; se pensarmos nas possibilidades de uma distribuição democratizada, fora de mãos especulativas e gestionárias - e os meios aí estão à vista; se pensarmos, mais à frente ainda, num mundo onde o virtual, o simulacro, tende para invadir o real colonizando-o, passando a fazer parte do dia-a-dia… então acho que as próximas décadas ameaçam vir a ser, no mais profundo significado chinês, muito interessantes.
Nuno Fonseca
2015.03.29

sábado, 29 de maio de 2010

CRÓNICA RESUMIDA DE UMA CONFISSÃO

Eu, livro impresso em papel, a exemplo do velho Galileu, venho reconhecer os meus erros em final de vida e pedir perdão por todos os crimes de que sou acusado.
É verdade que, durante séculos, contribuí para a destruição de muitas florestas à força de querer ensinar o mundo a ler.
Em muitas latitudes, paguei caro por isso, ao ser perseguido, censurado, queimado e odiado por quem me temia.
Descobri, então, que a ignorância, além de ser estúpida, quer-se resistente.
Também é verdade que, à minha sombra, muitos abusaram da passividade a que me sujeitei, gastando toneladas de folhas em branco sem nada para dizer.
Acontece ser o desperdício um erro da democracia.
Sei, também, de sobra que neste planeta a deitar por fora, já se encara o espaço como um problema.
Quer nos armazéns das grandes editoras, quer nas lojas, reais ou virtuais, quer ainda nos lares de milhões de leitores, cresce a insinuação de que estou a mais.
Não é segredo para ninguém que o papel acumula-se, atrai os bichinhos, esgota prateleiras, ganha uma cor térrea e o cheiro a bafio de uma longa idade.
Há, também, quem diga que tremi e tremo com a chegada das novas tecnologias. Mais limpas e rápidas na comunicação, encurtam as distâncias entre os pólos da Terra, prometem robôs que venham a falar como seres humanos.
Verdade ou mentira, só de pensar que o livro digital já vem a caminho, quebra-me a vontade de ser D. Quixote, velha personagem a que tanta vez dei corpo.
Meter vinte livros numa pequena caixa é uma tentação mesmo para aqueles que não gostam de ler.
Mas sendo o progresso a arte de ir em frente, com os pés no chão, ainda há quem veja com olhos de gente que a minha permanência vai continuar, mesmo reduzida, no mercado da cultura e da comunicação.
Hábitos de leitura, estilo e tradição, a recordação de boas leituras, o toque do papel são muitas as razões de quem julga haver lugar para todos.
Assim aconteceu com a fotografia, o cinema e o teatro quando da chegada da madre televisão e, mais recentemente, com a Internet.
E, depois, quem sabe, ao fim de tantas voltas ao redor do sol, quantas vezes nós olhamos em frente e damos connosco a olhar para trás.
O vento, o mar e o sol, já por cá andavam antes do carvão, do petróleo, da electricidade e do nuclear entrarem ao serviço.
Agora lhes chamam energias renováveis e revelam-se úteis para a humanidade .
Assim sendo, eu, o livro em papel, embora admita que a minha viagem já esteja a entrar na última estação, ainda circulo à velocidade dos milhares de edições.
- Então que fazer? – perguntam os elementos da tribo do deitar abaixo como sempre fizeram em todas as situações.
Ora bem, senhores, mesmo que o vulcão da Islândia e outros parecidos cubram o céu de cinzas, é de boa prática que autores, editores, livreiros e leitores atentem na mudança com esta certeza.
Em papel ou em suporte digital o livro continuará a existir e a ser procurado por quem não desiste de viver com ele.
Com este argumento, talvez os juízes me reduzam a pena, a morte do livro não é para já.
Tenho a meu favor o muito que aprendi, enquanto esperava dias a fio, que alguém me tirasse de uma prateleiras.
É, pois, sobre a loja que passo a falar.
A loja, esse elo visível do circuito comercial que é o ponto de encontro entre o livro e o leitor, não deve nem pode ficar para trás.
Alguém afirmou que o caminho se faz, começando a andar.
Na expectativa de uma morte lenta, entre lapiseiras baratas made in China e cromos de futebolistas, é bom que os livreiros não baixem os braços e vejam os recursos com que podem contar na venda do livro, ainda em papel.
Caramba, olhem como os putos brincam com a informática, sobre o teclado do computador.
Organizar ficheiros de clientes certos é tratar de forma directa a comunicação.
Animar as lojas, enfeitar as montras, seguir na esteira das campanhas de publicidade dos mais poderosos, criar a notícia feita boca a boca, dar mais vida ao livro no ponto de venda, preparar a tempo os dias festivos, contactar autores, conhecer o produto que vos chega às mãos, falar sobre ele a quem lhe está perto, procurar parceiros… ufff… que cansaço, dá muito trabalho.
Mas também se sabe que ninguém faz milagres por mais forte que seja e cada tentativa é um sinal de vida.
Para morrer de joelhos, morra-se de pé.
Por estranho que pareça, eu, o livro em papel, acredito nisto e para os meus pecados peço a vossa absolvição.

Fernando Bento Gomes

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Livrarias: presente e futuro


O movimento Encontro Livreiro convidou para apresentar o chamado texto oficial do V Encontro o sociólogo Nuno Medeiros que se tem dedicado à análise e reflexão de questões relacionadas com o livro, as livrarias e a edição, tendo publicado vários estudos sobre estas temáticas, entre eles o livro Edição e Editores: o mundo do livro em Portugal, 1940-1970. O texto produzido por Nuno Medeiros abordou e introduziu o tema proposto para reflexão durante o V Encontro Livreiro.


Como lançar o tema “Livrarias: presente e futuro” para o espaço de discussão e reflexão do encontro livreiro, designação que suscita apenas aparentemente uma homologia de sentidos conferida à palavra livreiro, que se deseja antes de mais uma noção alargada em torno do livro e dos seus praticantes: leitores, editores, tradutores, gráficos, distribuidores, capistas, ilustradores, revisores, autores, agentes de representação, formadores, bibliotecários, críticos e, claro, livreiros? 

O desafio que me foi proposto para trazer à fase inicial da discussão do V Encontro Livreiro obriga-me ao confronto com várias armadilhas. Devo evitá-las? E como? Sendo eu filho de livreiros e, durante muitos anos, colaborador de ocasião e de permanência no espaço livreiro, o da Culsete, que nos acolhe, sou também filho de dois promotores iniciais desta ideia: Fátima Ribeiro de Medeiros e Manuel Medeiros. E tenho vindo a ser, na última década e meia, um estudioso de espaços e campos confluentes, da edição de livros à leitura. É uma declaração de interesses longa e heterogénea, que espero não me tolher o convite que farei para o debate a partir de algumas, poucas, ideias que procurarei delinear. 

Antes de mais, convém abordar a própria categoria, para começar a pensar nela. O que é uma livraria? Como a definir? Quais os parâmetros e critérios da sua delimitação? Entramos em terreno que é mais escorregadio e rugoso do que parece, cujos ângulos se multiplicam a cada passo que damos. De que falamos, então, quando falamos de livrarias? A porta franqueia-se à complicação, diria antes complexificação. Sendo um espaço onde se vende livros, será um espaço onde apenas se vendem livros? Atiremos para a relação os espaços de papelaria onde se apresentam livros, ou de livraria onde surgem artigos de papelaria (assim como esta casa, a Culsete, mesmo que os livros ocupem espaço esmagador na proporção), ou ainda a livraria em que encontramos discos, e máquinas, e jogos, e livros. Juntemos espaços com configurações várias, como a livraria de pequena dimensão, a rede de livrarias culturais e com projecto comercial (veja-se exemplo de Óbidos, com o desígnio da obtenção do selo de Vila Literária através de iniciativas como a da rede de livrarias em elaboração), a livraria independente de maior dimensão (ou em rede), a livraria em rede, a livraria na rede. 

Haverá aqui lugar para os espaços híbridos? Pergunta especiosa, pois como é fácil perceber, o carácter sincrético, misturado, impuro (palavra muito perigosa e que procuro evitar, dada a sua ressonância eugénico-cultural), da livraria, ou melhor, do espaço livreiro, é uma realidade em si mesmo. Como se desenha a linha do que é essencialmente uma livraria, do que não é? E constitui uma ordem física ou não? Visitem-se sítios electrónicos de venda de livros usados e raros e perceba-se que haverá nos seus colaboradores mais livreiros que espaços de livraria. A livraria em casa. De onde, através de cliques e idas aos correios se vai fazendo um negócio e mantendo vivo o sistema de circulação da palavra escrita, impressa e virtual. 

A abordagem, portanto, não se encerra facilmente em gavetas operáveis. O que não quer dizer que se enverede por cair deliberadamente no dédalo da hiper-crítica, em que tudo é questionado até ao limite da inviabilidade de ser operacionalizado e de nos ajudar a pensar, decidir, praticar. Podia ainda ir pegar em aspectos como o da classificação em torno da existência ou não de atributos que legalmente definiriam a livraria, isto é, se um espaço de livraria entendido como espaço livreiro o é à luz de critérios de nomenclatura jurídica e administrativa. Uma parte da dificuldade de pensarmos a livraria de modo automático, logo redutor, virá certamente das transformações pretéritas sofridas pela palavra e pela polissemia que a parece ter caracterizado desde que o livreiro era também editor, distribuidor, vendedor, produtor. Outra parte da dificuldade reside seguramente na perspectiva de quem pensa a livraria, dependendo esta concepção dos seus gostos, hábitos, interesses, preferências. 

Avancemos, pois corro o risco de me perder na velha rábula de Sócrates, que proponha como método certeiro para derrotar alguém pedir-lhe uma definição. As livrarias, na sua pluralidade, enfrentam hoje desafios e obstáculos insofismáveis. Não é possível iludir o encerramento sucessivo de livrarias históricas um pouco por todo o país. E outras, menos históricas, por idade ou estatuto atribuído, também têm perecido. O estado de coisas não é apenas nacional. Mesmo as livrarias de nicho, em Portugal normalmente viradas para a literatura de recepção infantil, enfrentam problemas. O panorama livreiro nacional é um panorama em muito caracterizado pela morte livreira, pelo padecimento, pelo estiolamento de espaços que muitos aprenderam a chamar seu – mesmo que eventualmente nunca lá tivessem ido ou lá fossem arribando apenas a espaços. A luta é constante e de desfecho frequentemente avassalador. 

Por outro lado, como negar a resistência de projectos de criação ou recuperação, ressurreição até, de lugares devotados à venda e animação do livro? Não tenho presente essa contabilidade, a má e a boa, nem sei se está feita de modo sistemático e actual, mas sou confrontado com notícias paradoxais. Há, nesse sentido, um dinamismo, visível em encontros como este, ou como o de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde já decorreram três encontros livreiros. Há aventuras auspiciosas, em locais surpreendentes. 

O ciclo é um ciclo em aceleração, pautado pela velocidade de mudança, em que a morte é contrariada pelo nascimento de novos projectos. O universo corporativo, entenda-se, dos maiores jogadores deste diversificado tabuleiro, também tem demonstrado ritmo de transfiguração. E de onde a morte, o nascimento e a compra e venda não têm estado igualmente ausentes. E o processo continua. Mesmo aqui em Setúbal se prevê a vinda de um espaço de venda de livros para o novo centro comercial em construção. 

O cenário não é, por isso, de apreciação simples nem imediata. Mas está em transformação acelerada nestes últimos anos pela conjugação de factores de todos conhecidos, nos quais a inserção em movimentações igualmente sentidas internacionalmente não desempenha certamente um papel menor. Refiro apenas quatro, provavelmente os factores mais decisivos, se exceptuarmos o contexto geral de contracção económica, com evidentes e duradouras repercussões em tudo quanto tenha que ver com o livro: a) a concentração editorial e, em escala e com contornos diferentes, o seu émulo livreiro; b) a transfiguração tecnológica e a adopção de novos produtos, vias de acesso e práticas de fruição; c) o crescimento dos espaços virtuais de venda, edição e criação autoral (e aqui também a explosão dos serviços de auto-edição e comercialização, mesmo quando maquilhados com chancela); d) o fim provavelmente definitivo do modelo de distribuição assente em empresas de maior ou menor dimensão sustentado num acompanhamento de venda por comissão através da proximidade e de modos de venda não assentes em ritmos vertiginosos de rotatividade editorial nem em compra de espaço de montra e de exposição. 

A livraria tem de encontrar o seu caminho por entre um número alargado e volúvel de indicadores, tanto de entropia como de oportunidade, tanto de impedimento como de possibilidade. É verdade que o alinhamento do universo não é neste momento o melhor, mas o campo mudou inapelavelmente. E continua a mudar. Que fazer, então? 

Não tenho nem quero oferecer um receituário. Não creio que existam panaceias, nem mesmo que cheguem a ser desejáveis. Mas ocorre-me um conjunto de perguntas. Onde tem estado a lógica colectiva, de debate e acção? Multipliquem-se espaços como estes, diversifiquem-se momentos como o que nos levou até à Culsete numa tarde como a do último domingo de Março. Expanda-se o recurso aos jornais e restantes meios de comunicação, até à televisão. Haja uma atenção aos blogues que por aí vão aparecendo. Não resisto a mencionar o da Edição Exclusiva (http://edicaoexclusiva.blogspot.pt/), gerido pelo Nuno Seabra Lopes, perdoem-me a referência interessada, já que sou membro – muito preguiçoso – do mesmo. Mas há muitos outros, onde se procura discutir e pensar o universo do livro e que vale a pena espreitar e usar como recurso. 

E a componente associativa? Seja para defender os interesses de representação de uma classe que nunca foi só uma, seja para dinamizar e forçar a associação existente, APEL, a abraçar novos rumos de intervenção no que concerne à questão – ou questões – livreira. Seja ainda para pensar em formas de ultrapassar condicionamentos antigos, como o reduzido poder negocial de compra e encomenda de entidades o mais das vezes fragmentadas, de tamanho reduzido e actuando isoladamente. 

A capacidade de acção colectiva pode encontrar barreiras difíceis de ultrapassar em termos de uma agenda comum e de âmbito alargado, pois as prioridades e os interesses nem sempre são possíveis de harmonizar institucionalizadamente, através de uma nova associação, por exemplo, ou até da transformação da APEL numa federação de associações ou centros de representação distintos entre editores, distribuidores e livreiros. Mas a prática já demonstrou que é possível agitar as águas, pelo menos a julgar por casos recentes como a da intervenção de um conjunto de livreiros independentes (à falta de outro termo) junto das autoridades para obrigar ao respeito da Lei do Preço Fixo por outras entidades de venda do livro, algumas das quais assumidamente livrarias. Neste caso não foi necessária uma acção organizada em torno de um elemento de associação, mas apenas de mobilização concertada em torno de um desiderato específico. 

Mas, por outro lado, o exemplo que aduzi acaba – e reconheço-o provocatoriamente – por contribuir para um reforço da heterogeneização do campo livreiro (não que isso seja mau ou indesejável), já se trata de uma espécie de luta intestina, livrarias contra livrarias, habitando embora lugares muito diferentes, como diferente e hierárquico é o seu posicionamento geoestratégico no circuito de comercialização do livro. 

O tempo é pouco e as ideias muitas e em atropelo mútuo. Termino por aqui, nem sem antes fazer breve alusão ao terceiro termo, não formulado, da equação inicial: o passado das livrarias. O fecho de muitos destes espaços também encerra a potencial perda ou dissipação de material imprescindível ao conhecimento da cultura impressa e da circulação do livro em Portugal nos últimos cem anos. Essa potencial perda ou dissipação têm sido, aliás, a regra. Tal como para o património editorial, documental e não documental, fará muita falta continuar a alimentar um esforço de discussão e mobilização para a salvaguarda e estudo desse património livreiro, que engrossa, afinal, o património geral do que se convencionou chamar de História Contemporânea de Portugal. Sugiro uma incursão no sítio electrónico, pioneiro, sobre o arquivo histórico da editora e livraria Romano Torres (http://fcsh.unl.pt/chc/romanotorres/).

Nuno Medeiros, professor e investigador em Ciências Sociais

sexta-feira, 18 de março de 2011

A Persistência da Visão

Sentado frente ao ecrã, com o frio da noite lá fora, longe deste ambiente vivo e agradável graças a um aquecedor a gás, recordo os lugares de ler da minha infância e juventude. Eram sítios e espaços maravilhosos, de regras claras e distintas, com um imperativo maravilhoso: fruir o livro. Eram lugares onde eu podia largar tudo e mergulhar num livro.

No meu caso, identifico-os bem. A livraria e a tabacaria do meu bairro e, como é natural, a casa de meus pais. Em casa havia livros de todos os tipos, temas e feitios. Não eram muitos mas supriam todas as minhas necessidades e prazeres. Quando descobri que não me chegavam e que lá fora havia um mundo imenso de livros, livrarias e bibliotecas, fiquei maravilhado. Iniciei então uma viagem sem regresso, do tipo que todos reconhecemos (mesmo os que não lêem).

O encontro com o livro e a leitura é por vezes o simples resultado da disponibilidade. De livros e de tempo. É espantosa a quantidade de tempo que existe quando somos mais novos. Todavia, acredito que o mais determinante nesse encontro não é nem o espaço, nem o tempo, nem sequer uma forte presença física de livros.

Por isso, ao desfiar a memória dos lugares onde li livros, reparo subitamente que o importante foram as pessoas que neles estavam.

As pessoas que faziam parte da minha paisagem em qualquer lado que eu estivesse ou fosse eram naturalmente os meus pais e os meus avós. Pessoas que para mim foram e são como lugares num sentido latino. Presenças fulcrais, centrípetas e aconchegantes. Pessoas que me deixaram sonhar e que me mostraram como fazê-lo. Vejo o meu avô sentado no sofá da sala embrenhado num jornal ou num romance. Sinto a minha avó perto de mim, ajudando-me a ler os livros de juventude da minha mãe. Aqueço-me nos serões de leitura dos Lusíadas à beira da cama de minha mãe. Descanso, mesmo nas noites em que acordei estremunhado com algo e dei com o meu pai lendo, sentado na cama.

Mais tarde, saía de casa para ir a lugares com pessoas. Com as senhoras simpáticas da livraria do bairro que não só me aturavam as perguntas, como o hábito de ler sentado no chão ou encostado aos escaparates. A da tabacaria que me deixava manusear dicionários ilustrados e Júlio Verne sem ter de os comprar. O alfarrabista que macambúzio não comentava se eu pegasse num volume de Spengler, noutro de Durrell e num Argonauta. Posso dizer que a primeira coisa que comprei para mim em toda a minha vida, foi um livro e que não me esqueço dos nervos que senti ou do sorriso de lábios cuidadosamente irreflectidos da empregada ao dar-me o troco.

Os livros, apesar de maravilhosos, nada são sem as gentes que o suportam, amam e acarinham, nada sem os que os lêem, que os promovem, que os ensinam e que os tornam, como se costuma dizer hoje, virais. Os livros possuem o péssimo hábito de não serem auto-suficientes. Precisam de pessoas como nós para terem vida, para serem vida.

E quantos mais formos, mais persistiremos contra o apagar da luz.


Nuno Fonseca

Orgia Literária / Fundador do Encontro Livreiro

terça-feira, 7 de abril de 2015

NOVOS MUNDOS, NOVOS ATORES: A ALTERAÇÃO RADICAL NO MUNDO DO LIVRO / PALAVRAS QUE VOS DEIXO


Continuando a viver o clima do VI ENCONTRO LIVREIRO, publicamos agora o texto do VI ENCONTRO, da autoria de Nuno Seabra Lopes, que despoletou o debate riquíssimo que se seguiu à sua leitura. Obrigado Nuno por tão importante contributo!

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NOVOS MUNDOS, NOVOS ATORES: A ALTERAÇÃO RADICAL NO MUNDO DO LIVRO

Não é recente o tema dos novos atores. Nem nova é a reação de achar que, tal como para os autores, será demasiada a importância que se atribuiu à «categoria». Nem é tanto pelo culto da juventude, mas mais o sebastiânico culto da promessa, do jovem que irá fazer o que os outros, já instalados, não foram capazes de fazer: a esperança como substituto da ação; algo demasiado habitual por cá.
Mas não venho cá para me lamentar.
Bem sabemos que, durante muito tempo, o novo representava o mais bem formado e capacitado, e que − no tempo em que o mercado ainda o permitia − muitas vezes a experiência era também sinónimo de acomodação, de perda de criatividade e de outros crimes capitais; mas, quando à experiência se alia o conhecimento, a criatividade e tantas outras coisas, é somente sinal de fazer melhor, de ter memória e respeito pelo que já resultou e tempo passado a aprender o que os outros ensinaram – ninguém sabe tudo; permanência é também existência de arquitetura de conhecimentos com base em amizades e afinidades, algo essencial num mundo que funciona cada vez mais em rede.
Por isso não gosto de falar de novos ou de novidades, sejam elas livreiras ou profissionais. Prefiro falar de pessoas, de capacidades, de inteligência, de vontade de mudar e de abertura para ouvir, independentemente da idade ou da permanência neste mercado.
Um pequeno parêntesis para dizer que é bem mais fácil ser-se novo − uma página em branco com tudo para ganhar − mas difícil, e melhor, é termos a nossa própria experiência como limites e perceber diariamente formas de nos ultrapassarmos.
Mas, este sim um facto irreversível, este mundo é novo.
Venho hoje com um propósito: o de fazer com que estas palavras de arranque não estabeleçam só o mote para este encontro, mas também proponham uma ação para o futuro.
Começo então por dizer que algo no título desta apresentação está tremendamente bem (e não fui eu a dar o título): “novos mundos”, no plural. Deixamos há uns tempos agora de falar do mundo do livro para falarmos de um sistema de mundos não do livro, mas dos conteúdos para a leitura, cujo suporte primordial é ainda o livro. Temos hoje planetas a morrer ou que permanecem iguais mas outros novos e em ebulição vulcânica, só para manter a metáfora.
Deixando de eufemismos: vivemos ainda entre um batalhão de licenciados indiferenciados para a profissão − há mais de uma década com salários baixos − debruçado num balcão livreiro, e entre editoriais especializados que já perceberam que daqui a 20 anos estarão no mesmo lugar ou despedidos. Todos os anos ainda surgem os mesmos casais que sonham com projetos culturais e miúdos com dois anos de fraca experiência a julgar saber tudo o que precisam para vingar.
Mas à parte desse “negócio habitual”, e fora da tradicional cadeia de produção do livro, as coisas mudaram radicalmente, em particular na cadeia da comunicação, ou seja, na forma essencial de dar a conhecer e convencer os leitores a comprarem os livros.
Se o final da corrida muda, isso altera o essencial, pois uma livraria já não tem de se limitar ao que produz por cá, nem um editor ao que se vende aqui. O mercado já não tem de ser a tragédia «daquilo que é». Foi na comunicação e comercialização que se deu o principal da revolução digital, aquele que pulverizou fronteiras – exceto culturais e linguísticas −, e o que gera fenómenos tremendos e destrói projetos históricos antes sustentados – jornais, revistas. Mas este facto é irrecusável: temos hoje muito mais gente e valor no negócio, em particular se compararmos com mercados restritos como o do Portugal livreiro; outro facto: não estamos preparados e vemos esse dinheiro a escoar por tantos novos sítios diferentes. Exemplo, o advento do leitor-autor tão típico do mundo digital, que leva primeiros leitores e não leitores para o âmbito da escrita vanity e fomentam negócios de serviços editoriais como a Chiado. Apesar de tudo não nos devemos aborrecer com estes fenómenos que, apesar do posicionamento mais do que dúbio, atraem a prazo para o mundo do livro pessoas que antes estariam de fora.
Regressando ao tema e evitando o jargão da economia, gestão e marketing (a minha primeira versão deste texto...), relembro que, se antes um leitor queria um livro de História de Portugal, lia num jornal a crítica e ia a uma livraria, onde na estante respectiva, encontrava o livro de referência que necessitava. Hoje a mesma pessoa já não irá não direcionado da mesma forma na necessidade, ele irá fazer uma busca por factos na Internet e irá ser condicionado nas respostas não por quem quer promover e vender livros, mas pelos sites e motores que querem promover vendas cruzadas e publicidade. Ou seja, será distraído com informação genérica (como as explicação wikipédia do que procuramos), direcionado para blogs e sites que promovem não a categoria mas um produto específico ou um tema. Ou seja, a Internet não nos ajuda a encontrar o produto certo ou de referência, mas abre-nos tremendamente o leque de opções sobre o tema, desvia e condiciona as opções por relevância comercial de outros negócios ou outra. Assim, as pessoas não só encontram hoje livros diferentes como também os consomem de forma muito diferente, relacionando e referenciando livros não com outros livros, mas com posts, comentários de facebook, sites, séries, documentários e outras fontes de informação diferenciadas, alterando a percepção do que lemos e o caminho de leitura a seguir.
Por já não precisarmos deixámos de seguir as categorias de forma canónica e agora passamos a procurar informação na Internet sobre os factos que nos interessam. Exemplo: «Morte de Maria Antonieta / croissants»; em vez de termos de lá chegar por: «História da França / Revolução Francesa». A busca de informação é hoje mais específica e já não incide sobre as categorias – única forma que antes tínhamos para lá chegar, mas sobre os factos.
Assim, onde antes poderíamos ser levados a comprar um livro, hoje podemos ficar por um site de informação genérica que está a gerar riqueza seja pela publicidade, seja pela venda de outros produtos como aplicações, espetáculos, músicas, revistas, etc. Já não procuramos livros numa livraria, mas numa mega-store digital que nos está a vender tudo de tudo. Os inputs de oferta misturam-se, apresentam-se como um delta do Nilo onde podemos ir dar à bela e terrível histórica da biblioteca de Alexandria como a uma oferta de férias no gigantesco porto naval de Port Saïd, junto ao canal do Suez.
O mais importante a reter nisto é que se retêm clientes constantemente nesta «loja», e faz-se negócio. Tudo pode ser vendido em toda a parte e os conteúdos pertencentes aos livros estão em toda a parte. Tal como a Amazon já vende detergentes e bolachas, os textos dos livros estão hoje repartidos e adaptados em artigos, posts, guiões, vídeos, postais, filmes, músicas, etc. Podemos chegar à mesma informação – a diversos níveis – com diferentes percursos mais ou menos satisfatórios. E são tudo meios de gerar riqueza com o mesmo negócio, i.e., vender a quem quer saber a informação ou distração por conteúdos de que necessita, apesar dos resultados diferentes.
Hoje quase todos estamos envolvidos neste sistema e existe infinitamente mais valor a circular, neste espaço onde parte das fronteiras ruiu. Se a forma como se conhece e se chega ao livro mudou, e isso significa uma alteração radical do processo, vemos então a mudança de conceitos de base onde, por exemplo, os nichos deixam de ser descritos pelas categorias padrão (história de Portugal) ou pelos segmentos tradicionais (professores universitários com mais de 45 anos), mas sim perfilados por construções coerentes de tipologias de negócio – pardon my french − (ou seja segmentar por público interessado em genealogia europeia, que usa o Ancestry.com frequentando um ecossistema digital fechado onde poderemos inserir uma loja ou comunicação com impacto total).
Independentemente da dimensão do nicho, o segredo reside na capacidade de recriar um circuito de negócio com base na ligação de pontos existentes e funcionais (para acesso de informação, encaminhamento de clientes, processo de venda e retorno).
E é isso que temos de radicalmente novo nestes tempos; são essas as novas pessoas que constituem este ecossistema e que trazem a novidade. O mercado já não é um percurso único e difícil, que passa pelo que dá ou pelo acesso a boa localização, por exemplo, mas sim pela seleção das pedras onde iremos assentar o nosso negócio.
Uma livraria local – em Setúbal, Chaves ou Portalegre – não tem de ser só uma livraria local a vender por proximidade livros que, mais cedo ou mais tarde, um Continente ou uma Bertrand poderá fornecer com mais força, condições e marca. A livraria em Chaves pode ser também a livraria especializada em território, património e natureza da Europa, que existe online e que congrega e fornece não só para todo o país como para o portefólio de produtos de qualidade que represente, trabalhando para faculdades e institutos nacionais e internacionais, apoiando ações locais espalhadas e algumas dinâmicas empresariais como casas de turismo rural ou empresas de animação cultural que levam caminhantes a fazer treking ou escalada e que podem sugerir a venda de livros de rotas, monografias sobre esse território ou outros livros.
E este é só um mísero exemplo do que hoje é possível fazer.
É importante pensar nesta nova forma de se trabalhar em rede de gerar negócio de forma transversal. O que para nós é fácil, para outro pode ser impossível e gerador de riqueza, e hoje é possível colocar os dois em diálogo. O mundo de sinergias empresariais permite cruzar hoje campos inimagináveis e, quando se está aberto a colaborar, descobrem-se mercados e caminhos que não tínhamos pensado. Por isso, olhemos para estes os «novos» não como os novos que estamos habituados mas como os novos que são para este negócio e apresentemo-nos também como novos a eles, abertos a ideias e com vontade de trabalhar e de ajudar.
Por tudo isso, venho propor um acrescento a este espaço de diálogo.
Vejo esta iniciativa não só como um espaço de conversa, mas também como uma possibilidade para gerar ideias, algo que já antes tem acontecido. Proponho assim criar neste âmbito um espaço para a apresentação pública de ideias e novos projetos. Se cada interessado apresentar o que faz, e o que procura, pode ser que haja alguém do outro lado que possa ter a solução. Pode ser que uma nova editora de livros náuticos encontre a livraria que se quer especializar no tema, ou conheça alguém associado a uma empresa de venda de velas que está interessada em fazer um livro para eles. Pessoalmente, seria um motivo de interesse adicional.
Obrigado pela atenção.
Setúbal, 29/03/2015, VI Encontro Livreiro
Nuno Seabra Lopes


Depois deste texto tão inspirador e que nos lança para novos projetos e desafios, transcrevemos agora a mensagem que Luís Filipe Guerra, impossibilitado de comparecer no VI E.L., enviou e que foi lida por Rosa Azevedo. Lamentamos que Luís Guerra, connosco desde o I E.L., não tenha podido envolver-se mais este ano. Esperamos que seja um afastamento temporário e que rapidamente possamos voltar a contar com a sua preciosa colaboração e envolvimento nos próximos Encontros.

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PALAVRAS QUE VOS DEIXO
Sou um orgulhoso fundador do movimento das gentes do livro que dá pelo nome de Encontro Livreiro. Recordo hoje os nomes do pequeno núcleo inicial: Manuel Pereira Medeiros, Luís Guerra, Fernando Bento Gomes, Cristina Rodriguez, Artur Guerra, Gonçalo Mira, Nuno Fonseca, Joaquim Gonçalves, Dina Silva, Adelino Almeida Abrantes, José Augusto Soares Pereira, António Almeida, Fátima Ribeiro de Medeiros, Hélia Filipa da Cruz Sampaio, Nuno Miguel Ribeiro de Medeiros, João Manuel Rodriguez Guerra, José Teófilo Duarte, Francisco Abreu, José Gonçalves (ausente por motivos de saúde, participou na preparação e na divulgação).
O Encontro Livreiro nasceu na livraria Culsete, em Setúbal, no dia 28 de Março de 2010, mas tem andado por aí e gosta de deixar sementes que deem rebentos que possam dar novas sementes, que possam dar rebentos que possam dar novas sementes... e assim sucessivamente. Os primeiros rebentos nasceram em Trás-os-Montes – onde cresceram e se multiplicaram em Vila Real (Traga-Mundos), Macedo de Cavaleiros (Poética), Bragança (Rosa D’Ouro) e, no domingo passado, em Valpaços (Livraria Dinis) – e no Porto, onde brotaram num jardim feito de livros, a Lello do livreiro Antero Braga, a mui antiga e bela livraria da invicta e do mundo. Da equipa de “resistentes” a Norte, quero ainda destacar Dina Ferreira (Poetria), um exemplo de visão e de persistência de uma livreira que ama os livros, a poesia, o teatro.
Acompanhei muito de perto o seu crescimento até bem próximo dos cinco anos, que ontem se cumpriram. Parabéns a você! E lembro, com alguma nostalgia, o brinde inicial (vão lá ver ao Isto Não Fica Assim!). E lembro ainda, feliz, os meses da gravidez e da esperança, os primeiros dias, as primeiras noites, os primeiros meses e anos, os primeiros e trémulos passos, primeiro a necessitar do amparo de uma ou mais mãos, adquirindo aos poucos cada vez mais autonomia.
É um movimento que não gosta de chefes nem de líderes e que desde o início se quis o mais informal e livre possível. Mas, para funcionar e avançar, foi recorrendo a uma “comissão executiva” oficiosa constituída por Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro Medeiros (Culsete – Setúbal), Joaquim Gonçalves (A das Artes – Sines), António Alberto Alves (Traga-Mundos – Vila Real), Sara Figueiredo Costa (Cadeirão Voltaire), Rosa Azevedo (Estórias com Livros) e eu próprio. Claro que no início este núcleo era ainda mais reduzido. Convém referir que alguns destes elementos foram sendo cooptados à medida que chegavam ao Encontro Livreiro e que há outros amigos, que me desculparão por não os nomear, que sempre estiveram muito próximos.
Por razões de ordem muito pessoal, em Novembro passado – por ocasião do Dia da Livraria e do Livreiro, “rebento” que nasceu da relação entre o Encontro Livreiro e a Fundação José Saramago e da vontade do seu director, o meu amigo Sérgio Letria, mas que precisa de um maior envolvimento dos livreiros, o que não se conseguiu satisfatoriamente até à edição de 2014 – decidi que era chegado o momento de me afastar. Nessa altura comuniquei a minha decisão à Fátima, desde sempre a livreira da Culsete mas agora a solo depois da partida do Livreiro Velho, e pedi-lhe o grande favor de a transmitir aos restantes amigos. Ao mesmo tempo, entreguei-lhe as “chaves” do blogue «Isto Não Fica Assim!» e da página do Encontro Livreiro no facebook, que tomei a liberdade de criar logo a seguir ao I Encontro e onde podem encontrar os textos, as imagens, a história deste inédito movimento das gentes do livro.
Deixem-me que refira uma das iniciativas que mais acarinhei, a atribuição do diploma Livreiros da Esperança, e que recorde aqui os nomes dos livreiros já homenageados: Jorge Figueira de Sousa (Esperança – Funchal), Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira (Galileu – Cascais), Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro Medeiros (Culsete – Setúbal), Antero Braga (Lello – Porto) e ainda o Livreiro da Esperança de 2015, Luís Alves Dias (Ler – Lisboa), nome que já tinha sido referido em conversas com a Fátima anteriores à minha saída e ao seu falecimento em 23 de Janeiro deste ano e que depois vi confirmado no Isto Não Fica Assim! Um abraço, bem rijo e amigo, ao filho, o livreiro-editor-livreiro Luís Alves.
Se me permitem, quero também deixar uma palavra em memória e em homenagem à vida de um outro livreiro que nos deixou no mesmo mês de Janeiro deste ano, António André (Lácio – Lisboa), a quem me ligam boas recordações e que, no meu modesto entender, mereceria um maior reconhecimento público. Sabem, por exemplo, que nos deixou um livro de poemas intitulado Entrevero? Sei da sua existência mas confesso que não o tenho nem o li ainda. Se alguém me fizer chegar um exemplar ficarei muito agradecido. Pagando, claro! Mas o seu poema maior, e esse tive o privilégio de o ler repetidas vezes, chamou-se “Lácio, Campo Grande, 111”! Que agora se continua a “ler devagar”, na voz do José Pinho e do Pedro Oliveira. Boas leituras, que devagar se vai ao longe!
E por falar em livreiros e em livrarias, no último encontro lancei um apelo que parece ter caído em saco roto: para quando a criação de um movimento próprio de livrarias independentes? E neste conceito cabem livrarias com décadas de experiência e outras, novas e novíssimas e com novos modelos, que estão a nascer ou a dar os primeiros passos. Continuo a achar que faz sentido, que faz falta, que é urgente, muitíssimo urgente. Pelo país fora há (ainda há) mais de duas dezenas de livrarias que podiam animar e dar corpo a um movimento que comece por criar uma “rota de livrarias independentes” que funcionem a partir de uma grande cumplicidade entre si, mas também – e isto parece-me fundamental – que crie uma cumplicidade nova entre autores, editores, livreiros e leitores. E, se o meu grande amigo Joaquim Gonçalves me permite, ele que o criou e dinamizou e que, quase sempre sozinho, tem vindo a desmascarar manhas e artimanhas de vários Golias, sugiro um nome para este movimento: “Livros, é nas Livrarias!”.
Meus caros amigos livreiros, não fiquem a observar na bancada ou atrás do balcão. Não esperem que outros resolvam os vossos problemas. Não se olhem como concorrentes, que não são. Conversem, conheçam-se, troquem ideias, definam objectivos comuns, promovam iniciativas próprias que circulem pelas vossas livrarias, de norte a sul. Livreiros do meu país, uni-vos!
Não posso deixar de mencionar e de registar os nomes de Pedro Vieira, José Teófilo Duarte e Manuel Rosa pela preciosa e desinteressada colaboração na criação dos cartazes e dos diplomas.
Desejo ao Encontro Livreiro aquilo que desejo a cada um dos meus três filhos, todos já na maioridade: que continue o seu caminho, agora sem a minha presença e zelo diários, e sem os constrangimentos que mesmo o amor de um “pai” e de uma “mãe” acabam por implicar. Evitando a rotina e a repetição de procedimentos e de vícios, e possibilitando novas escolhas, novos caminhos, novos objectivos, novos intervenientes, novos actores.
Tenho a consciência de ter dado o máximo – como gosto, aliás, quando me envolvo nas coisas – e de ter feito o melhor que pude e que sabia. Saí antes que viesse a sentir que isto fica assim. Cabe às gentes do livro fazer com que, afinal, isto não fique assim.
São estas as palavras que vos deixo. Obrigado pela vossa compreensão e, o que para mim é o mais importante, pela vossa amizade.
Envolvo todos (e vejo agora os rostos e os olhares, um a um) com um abraço apertado dado a cada um de vocês.
Até sempre!

Luís Guerra
Margem Sul, 29 de Março de 2015

quinta-feira, 12 de abril de 2012

ouvirmos as opiniões e experiências uns dos outros, de forma a repensarmos estratégias conducentes à sobrevivência e dignificação do livro, do livreiro e do editor.

                                                          João Frada no III Encontro Livreiro

Caro Luís Guerra,

Parece-me que o objetivo deste Encontro era mesmo isto: ouvirmos as opiniões e experiências uns dos outros, de forma a repensarmos estratégias conducentes à sobrevivência e dignificação do livro, do livreiro e do editor. Acho que daquilo que lá foi dito, joeiradas algumas considerações, histórias e experiências sem reflexos ou consequências sobre o dito objetivo em causa, podemos estabelecer uma ou duas conclusões ou ilações:

1. Não há neste momento nenhuma Associação (de editores, livreiros, tradutores, designers e gráficos) que assuma e defenda a bipolaridade fundamental ao equilíbrio e contenção de monopólios desenvolvidos por grandes grupos livreiros. Respeitamos a existência destes grupos, que têm sabido garantir a continuidade da produção do livro  através  de uma união de esforços, sem a qual muita contribuição editorial teria periclitado, mas entendemos que eles não representam todo o mundo do livro em Portugal. E esse equilíbrio, garantido por um outro pólo que falta no mercado livreiro, onde se congreguem livrarias, editoras e demais organismos e interventores na produção e comercialização livreira, cuja ação ainda se situa fora dos mesmos grandes grupos editoriais,  podia assegurar  “mecanismos” para harmonizar custos de produção, distribuição e até de vendas, conquanto fosse criada no seu seio (de tal Associação), entre outras respostas, uma espécie de órgão especializado em definição de tabelas de custos gráficos e de preços de venda comercial. Havendo concorrência, há possibilidade de produzir e colocar no mercado livros mais baratos e mais acessíveis ao leitor, nesta época de crise e austeridade que também toca o livro e se adivinha duradoura.

2. Com preços mais competitivos, com possibilidade de negociação mais facilitada por se tratar de uma Associação, especialmente, defensora dos interesses de livreiros editores, é possível ponderar-se em projetar livros de língua Portuguesa a menor custo e com a possibilidade de maior impacto comercial em todos os espaços e eventos permanentes ou temporários, dentro e fora do País. Um organismo criado e tutelado por essa Associação poderia por exemplo coordenar todas as ações de divulgação, colocação e venda de livros, onde quer que fosse. E sempre que estas se processassem fora do País, caberia apenas aos livreiros/editores diretamente interessados na venda e divulgação das suas obras custear os respetivos gastos com transporte (através de distribuidora ou por outra qualquer via), logística e exposição no local de venda (feira ou outro evento afim), mas sempre sob a coordenação da mesma Associação. Os mecanismos e as cautelas jurídicas necessárias à definição das ações da mesma Associação teriam de ser avaliados e definidos por especialistas nesta área.

4. Muitas são as opiniões sobre a realização das Feiras do Livro. Há vozes discordantes e outras concordantes. Mas, como pelos vistos prevalecem as concordantes, e as Feiras se vão realizando em Lisboa, no Porto, em Coimbra, etc., criem-se as condições ideais para que os visitantes possam usufruir leitura, espaço e tempo lúdicos, enquanto passam os olhos pelos expositores de livros disponíveis nestes eventos tão agradáveis.     
Face às condições atmosféricas frequentemente adversas observadas durante a Feira do Livro de Lisboa (frio, calor e/ou chuva), que, lamentavelmente, se repetem todos os anos naquele espaço aberto do Parque Eduardo Sétimo, sem o mínimo de proteção para o visitante, potencial comprador e dinamizador deste evento, sugere-se que tal evento, de uma vez por todas, se realize em pavilhão ou  recinto coberto, aberto ao público, a fim de se evitarem aqueles transtornos e de não se comprometer o sucesso de vendas, tão importante para a sobrevivência do mundo do livro.

Bem, meu caro Luís, talvez houvesse mais considerações a fazer, mas creio que tu próprio, sempre atento e com um sentido bem ponderado "destas andanças", és capaz de acrescentar outras mais sugestões úteis a este "Movimento de Solidariedade e Rejuvenescimento do Livro, do Livreiro e do Editor em Portugal".

Um abraço muito cordial. 

João Frada 
[Autor e Editor (Clinfontur)]

E gostei muito de conhecer o Manuel Medeiros e a família dele. A livraria Culsete, essa, é um espanto, um verdadeiro "Ex-Multilibris".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O VI Encontro Livreiro está a chegar

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(Rosa Azevedo, Nuno Medeiros e Nuno Fonseca, no V Encontro Livreiro)
É já no próximo 29 de março, exatamente daqui a dois meses, que se vai realizar o VI ENCONTRO LIVREIRO.
Vamos todos voltar a Setúbal, à Livraria Culsete, para passar uma tarde diferente de domingo, debatendo ideias sobre questões relacionadas com a problemática do livro e da leitura.
O ENCONTRO LIVREIRO não é apenas um encontro de livreiros. É antes um encontro de todas as gentes do livro, do leitor ao investigador, passando pelo editor, pelo livreiro, pelo tradutor, pelo designer gráfico, pelo revisor, pelo ilustrador, pelo bibliotecário, pelo autor, pelo agente literário, enfim, por todos os que trabalham e vivem na esfera do livro.
Haverá no início do Encontro, às 15 horas, o habitual apontamento musical e o moscatel de Setúbal marcará como sempre o clima de convívio.
Em breve anunciaremos o nome do livreiro a quem será atribuído o diploma LIVREIRO DA ESPERANÇA 2015, uma singela homenagem deste movimento àqueles que dedicaram uma vida a promover o livro e a leitura, continuando as suas livrarias a ser espaços de resistência e persistência cultural.
Iniciando o VI ENCONTRO LIVREIRO um novo lustro, sentiu o núcleo fundador necessidade de fazer alguns ajustes. Assim, o debate far-se-á em torno de uma temática comum que será introduzida pelo chamado texto do Encontro, que em breve estaremos em condições de divulgar.
Portanto, já sabe: Em março todos os caminhos vão dar a Setúbal, à Culsete, ao VI ENCONTRO LIVREIRO.
Contamos consigo!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

«Ebookação»

E começam a chegar as
 «ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»
(1)


Está um pouco na moda dar pancada nos livros electrónicos. É compreensível, embora não seja muito racional. A verdade é que somos uma sociedade habituada ao livro como objecto físico, e para muitos de nós, principalmente no meio literário, a relação que com ele estabelecemos tem uma componente muito sensorial, senão mesmo sensual. Para além disso, os hábitos são coisas terríveis, pequenos arames que teimam em ter pouca maleabilidade.

Mas devíamos questionar isto. Os e-books existem e vieram para ficar. Mesmo que em Portugal ainda se teime em não o produzir ou consumir em larga escala, o certo é mais tarde ou mais cedo ele vir cá assentar arraiais. Por isso, talvez fosse melhor "saltar da caixa", "sair da zona de conforto", e começarmos a pensar em formas de usar a via digital para valorizar o livro físico, ao invés de a recearmos.


É que ao contrário do que queremos ou nos habituamos a pensar, não há uma relação assim tão directa entre a existência (e o sucesso) do e-book e a propalada (até à náusea) morte do livro. A história diz-nos algo sobre isto. O cinema não matou o teatro, a televisão não matou o cinema, a internet não matou nenhum deles. O televisor não matou o ecrã. Assim como os sintetizadores não mataram o piano ou as esferográficas os lápis.


E se queremos verdadeiramente valorizar o livro enquanto objecto cultural imprescindível e essencial, temos de nos adaptar e começar a incorporar o meio digital, todas as suas ferramentas e processos e meios, de modo a consegui-lo. Algo já se vai fazendo, é certo, como vemos diariamente: a actividade bloguística aumentou de forma entusiástica e barata o interesse geral pelos livros. É só um exemplo. O e-book é apenas uma das suas expressões e mesmo ele tem potencialidades úteis não só para a criação literária, como para a comercialização, o estudo, a investigação, a fruição, etc.


Por exemplo, o livro em formato digital possibilita, antes do mais, a formação de novos leitores e o reforço da actividade dos existentes (quer na leitura ou no simples consumo). Possibilita também um precioso auxílio à memória, pois deixa de ser inevitável que as obras desapareçam com o tempo, por acção das erosões naturais ou dos interesses comerciais. Que melhor forma, por exemplo de fazer reviver obras esquecidas? Meros exemplos.


Abraçar o e-book e o meio digital na área do livro é inevitável e, apesar dos riscos, uma incrível oportunidade para todos os intervenientes do mundo literário. Mas ignorá-los ou menosprezá-los não me parece, sinceramente, uma opção. Criatividade, isso sim, é que é necessário.

Nuno Fonseca*
Escritor

* O Nuno Fonseca, um dos fundadores do Encontro Livreiro, faz hoje anos. Parabéns, Nuno! Pelo texto. Pela vida.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

«Com dois anos e meio este mais novo livreiro do mundo demonstra que a continuidade da «espécie» está assegurada!!!»


I
Antes de mais, documentar fotograficamente. Aqui está ele, o mais novo livreiro do mundo, fotografado em 24 de Março deste ano de 2012, dia em que fez dois anos. Em 24 de Outubro, por conseguinte, passou a ter dois anos e sete meses. Dois dias depois ingressou objectivamente na profissão de livreiro ao fazer uma venda de sua inteira responsabilidade e tão bem sucedida como e quanto se verá na história inteiramente verídica que se vai contar só por graça ou talvez nem só.

II
O Livreiro Velho que esta história vem lançar na blogosfera, sendo que se considera um discípulo de Espinosa ainda que humílimo, não pode gostar de profecias. Não se convence de que a profissão de livreiro esteja em extinção. Razões, isso sim, apenas para ver a profissão em processo de mudança, quer por adaptação quer por aperfeiçoamento. Do baixo estatuto a que tem estado votada, poderá passar a profissão com exigências de alto nível. Isso acontecerá muito naturalmente logo que chegue ao fim a era das tradicionais mercearias de livros, cujo desaparecimento é indispensável para que tal se torne viável. Quando o livreiro, numa das livrarias que serão as únicas livrarias de então, for um perito indispensável, enquanto leitor preparado para o apoio ao público, quantos livreiros haverá, que preparação lhes será própria e que reconhecimento quer de autoridade quer de remuneração lhe virá da sociedade?
Não se está falando de outro, mas do público que cultiva e mais terá de cultivar a leitura em necessidade ou gosto de construir biblioteca própria.
Havendo cada vez mais livros e sendo cada vez mais necessário escolher e sendo cada vez mais necessário acertar e sendo muito bom não só encontrar como também dar-uma-vista-de-olhos-antes-de…
Um cuidado aqui se toma com não reduzir o conceito de apoio ao de aconselhamento. É muito cativante o saber e arte do bom conselho e a sua aceitação. Apoiar leitores e leitura, porém, é e deve ser muito mais.
Razões contra as profecias? É que a inteligência nem está em perigo de se perder nos novos suportes da escrita nem estão por perder-se as eternas e ricas vantagens da leitura em suporte livro. E de qualquer modo a grande questão não é a do livro, mas a da leitura. Também em crise?
O problema da leitura, sendo o problema do livreiro, assegura-lhe um mais que duradouro futuro, porque a expansão da Noosfera é irreversível e ler é-lhe intrínseco. Também de Teillard de Chardin humílimo discípulo...

III
E então a história do «livreiro mais novo»?
O Manuel Henrique veio mais cedo do infantário porque apareceu com febre. Por um bocadinho à espera da mãe teve de ficar na livraria com a avó que o sentou no seu colo enquanto ia conversando com o Sr. Valério. Pedida que lhe foi a ela uma ajuda para a escolha de um livro a oferecer a uma criança, o Manuel Henrique, que desde sempre andou pelo cantinho dos livros infantis, seguiu-a. Percebeu logo do que se tratava. Várias sugestões apresentando a avó e já o Manuel Henrique a chamar a atenção para um dos livros da Série Madagáscar. Deixar o cliente a apreciar e escolher, ir continuar a conversa interrompida. No cantinho dos infantis, ficam cliente e «livreirinho», este insistindo na sua sugestão com o argumento de que conhecia a história e era bonita. Depois também se afastou, mas por pouco tempo. Voltando, ao ver que o cliente ainda não se decidira, levantou o livro e exclamou: «Madagáscar! Madagáscar». Pronto, cliente decidido! Ao vir para pagar, «levo este», um diálogo: «que idade tem este menino?» «Dois anos e meio». «Se a história o encantou, vai também agradar a outra criança». O Manuel Henrique estava tão consciente de que efectuara uma venda que quis que fosse ele a receber o dinheiro. Sabia da profissão. Tinha aprendido. Ele, a prima e o irmão – cinco e quatro anos - desde quando se habituaram aos livros e quantos já «leram», tanto acompanhados como sozinhos? E não só. De há uns tempos para cá, além de irem por hábito ver livros no cantinho próprio, puxam cadeiras para junto do balcão, sobem e brincam a vender. As pessoas acham muita graça. Desta vez aconteceu. As coisas foram mais longe. Com dois anos e meio este mais novo livreiro do mundo demonstra que a continuidade da «espécie» está assegurada!!!

L. V., «O mais novo livreiro do mundo», Chapéu e Bengala