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quinta-feira, 12 de abril de 2012

ouvirmos as opiniões e experiências uns dos outros, de forma a repensarmos estratégias conducentes à sobrevivência e dignificação do livro, do livreiro e do editor.

                                                          João Frada no III Encontro Livreiro

Caro Luís Guerra,

Parece-me que o objetivo deste Encontro era mesmo isto: ouvirmos as opiniões e experiências uns dos outros, de forma a repensarmos estratégias conducentes à sobrevivência e dignificação do livro, do livreiro e do editor. Acho que daquilo que lá foi dito, joeiradas algumas considerações, histórias e experiências sem reflexos ou consequências sobre o dito objetivo em causa, podemos estabelecer uma ou duas conclusões ou ilações:

1. Não há neste momento nenhuma Associação (de editores, livreiros, tradutores, designers e gráficos) que assuma e defenda a bipolaridade fundamental ao equilíbrio e contenção de monopólios desenvolvidos por grandes grupos livreiros. Respeitamos a existência destes grupos, que têm sabido garantir a continuidade da produção do livro  através  de uma união de esforços, sem a qual muita contribuição editorial teria periclitado, mas entendemos que eles não representam todo o mundo do livro em Portugal. E esse equilíbrio, garantido por um outro pólo que falta no mercado livreiro, onde se congreguem livrarias, editoras e demais organismos e interventores na produção e comercialização livreira, cuja ação ainda se situa fora dos mesmos grandes grupos editoriais,  podia assegurar  “mecanismos” para harmonizar custos de produção, distribuição e até de vendas, conquanto fosse criada no seu seio (de tal Associação), entre outras respostas, uma espécie de órgão especializado em definição de tabelas de custos gráficos e de preços de venda comercial. Havendo concorrência, há possibilidade de produzir e colocar no mercado livros mais baratos e mais acessíveis ao leitor, nesta época de crise e austeridade que também toca o livro e se adivinha duradoura.

2. Com preços mais competitivos, com possibilidade de negociação mais facilitada por se tratar de uma Associação, especialmente, defensora dos interesses de livreiros editores, é possível ponderar-se em projetar livros de língua Portuguesa a menor custo e com a possibilidade de maior impacto comercial em todos os espaços e eventos permanentes ou temporários, dentro e fora do País. Um organismo criado e tutelado por essa Associação poderia por exemplo coordenar todas as ações de divulgação, colocação e venda de livros, onde quer que fosse. E sempre que estas se processassem fora do País, caberia apenas aos livreiros/editores diretamente interessados na venda e divulgação das suas obras custear os respetivos gastos com transporte (através de distribuidora ou por outra qualquer via), logística e exposição no local de venda (feira ou outro evento afim), mas sempre sob a coordenação da mesma Associação. Os mecanismos e as cautelas jurídicas necessárias à definição das ações da mesma Associação teriam de ser avaliados e definidos por especialistas nesta área.

4. Muitas são as opiniões sobre a realização das Feiras do Livro. Há vozes discordantes e outras concordantes. Mas, como pelos vistos prevalecem as concordantes, e as Feiras se vão realizando em Lisboa, no Porto, em Coimbra, etc., criem-se as condições ideais para que os visitantes possam usufruir leitura, espaço e tempo lúdicos, enquanto passam os olhos pelos expositores de livros disponíveis nestes eventos tão agradáveis.     
Face às condições atmosféricas frequentemente adversas observadas durante a Feira do Livro de Lisboa (frio, calor e/ou chuva), que, lamentavelmente, se repetem todos os anos naquele espaço aberto do Parque Eduardo Sétimo, sem o mínimo de proteção para o visitante, potencial comprador e dinamizador deste evento, sugere-se que tal evento, de uma vez por todas, se realize em pavilhão ou  recinto coberto, aberto ao público, a fim de se evitarem aqueles transtornos e de não se comprometer o sucesso de vendas, tão importante para a sobrevivência do mundo do livro.

Bem, meu caro Luís, talvez houvesse mais considerações a fazer, mas creio que tu próprio, sempre atento e com um sentido bem ponderado "destas andanças", és capaz de acrescentar outras mais sugestões úteis a este "Movimento de Solidariedade e Rejuvenescimento do Livro, do Livreiro e do Editor em Portugal".

Um abraço muito cordial. 

João Frada 
[Autor e Editor (Clinfontur)]

E gostei muito de conhecer o Manuel Medeiros e a família dele. A livraria Culsete, essa, é um espanto, um verdadeiro "Ex-Multilibris".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O VI Encontro Livreiro está a chegar

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(Rosa Azevedo, Nuno Medeiros e Nuno Fonseca, no V Encontro Livreiro)
É já no próximo 29 de março, exatamente daqui a dois meses, que se vai realizar o VI ENCONTRO LIVREIRO.
Vamos todos voltar a Setúbal, à Livraria Culsete, para passar uma tarde diferente de domingo, debatendo ideias sobre questões relacionadas com a problemática do livro e da leitura.
O ENCONTRO LIVREIRO não é apenas um encontro de livreiros. É antes um encontro de todas as gentes do livro, do leitor ao investigador, passando pelo editor, pelo livreiro, pelo tradutor, pelo designer gráfico, pelo revisor, pelo ilustrador, pelo bibliotecário, pelo autor, pelo agente literário, enfim, por todos os que trabalham e vivem na esfera do livro.
Haverá no início do Encontro, às 15 horas, o habitual apontamento musical e o moscatel de Setúbal marcará como sempre o clima de convívio.
Em breve anunciaremos o nome do livreiro a quem será atribuído o diploma LIVREIRO DA ESPERANÇA 2015, uma singela homenagem deste movimento àqueles que dedicaram uma vida a promover o livro e a leitura, continuando as suas livrarias a ser espaços de resistência e persistência cultural.
Iniciando o VI ENCONTRO LIVREIRO um novo lustro, sentiu o núcleo fundador necessidade de fazer alguns ajustes. Assim, o debate far-se-á em torno de uma temática comum que será introduzida pelo chamado texto do Encontro, que em breve estaremos em condições de divulgar.
Portanto, já sabe: Em março todos os caminhos vão dar a Setúbal, à Culsete, ao VI ENCONTRO LIVREIRO.
Contamos consigo!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

«Ebookação»

E começam a chegar as
 «ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»
(1)


Está um pouco na moda dar pancada nos livros electrónicos. É compreensível, embora não seja muito racional. A verdade é que somos uma sociedade habituada ao livro como objecto físico, e para muitos de nós, principalmente no meio literário, a relação que com ele estabelecemos tem uma componente muito sensorial, senão mesmo sensual. Para além disso, os hábitos são coisas terríveis, pequenos arames que teimam em ter pouca maleabilidade.

Mas devíamos questionar isto. Os e-books existem e vieram para ficar. Mesmo que em Portugal ainda se teime em não o produzir ou consumir em larga escala, o certo é mais tarde ou mais cedo ele vir cá assentar arraiais. Por isso, talvez fosse melhor "saltar da caixa", "sair da zona de conforto", e começarmos a pensar em formas de usar a via digital para valorizar o livro físico, ao invés de a recearmos.


É que ao contrário do que queremos ou nos habituamos a pensar, não há uma relação assim tão directa entre a existência (e o sucesso) do e-book e a propalada (até à náusea) morte do livro. A história diz-nos algo sobre isto. O cinema não matou o teatro, a televisão não matou o cinema, a internet não matou nenhum deles. O televisor não matou o ecrã. Assim como os sintetizadores não mataram o piano ou as esferográficas os lápis.


E se queremos verdadeiramente valorizar o livro enquanto objecto cultural imprescindível e essencial, temos de nos adaptar e começar a incorporar o meio digital, todas as suas ferramentas e processos e meios, de modo a consegui-lo. Algo já se vai fazendo, é certo, como vemos diariamente: a actividade bloguística aumentou de forma entusiástica e barata o interesse geral pelos livros. É só um exemplo. O e-book é apenas uma das suas expressões e mesmo ele tem potencialidades úteis não só para a criação literária, como para a comercialização, o estudo, a investigação, a fruição, etc.


Por exemplo, o livro em formato digital possibilita, antes do mais, a formação de novos leitores e o reforço da actividade dos existentes (quer na leitura ou no simples consumo). Possibilita também um precioso auxílio à memória, pois deixa de ser inevitável que as obras desapareçam com o tempo, por acção das erosões naturais ou dos interesses comerciais. Que melhor forma, por exemplo de fazer reviver obras esquecidas? Meros exemplos.


Abraçar o e-book e o meio digital na área do livro é inevitável e, apesar dos riscos, uma incrível oportunidade para todos os intervenientes do mundo literário. Mas ignorá-los ou menosprezá-los não me parece, sinceramente, uma opção. Criatividade, isso sim, é que é necessário.

Nuno Fonseca*
Escritor

* O Nuno Fonseca, um dos fundadores do Encontro Livreiro, faz hoje anos. Parabéns, Nuno! Pelo texto. Pela vida.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

«Com dois anos e meio este mais novo livreiro do mundo demonstra que a continuidade da «espécie» está assegurada!!!»


I
Antes de mais, documentar fotograficamente. Aqui está ele, o mais novo livreiro do mundo, fotografado em 24 de Março deste ano de 2012, dia em que fez dois anos. Em 24 de Outubro, por conseguinte, passou a ter dois anos e sete meses. Dois dias depois ingressou objectivamente na profissão de livreiro ao fazer uma venda de sua inteira responsabilidade e tão bem sucedida como e quanto se verá na história inteiramente verídica que se vai contar só por graça ou talvez nem só.

II
O Livreiro Velho que esta história vem lançar na blogosfera, sendo que se considera um discípulo de Espinosa ainda que humílimo, não pode gostar de profecias. Não se convence de que a profissão de livreiro esteja em extinção. Razões, isso sim, apenas para ver a profissão em processo de mudança, quer por adaptação quer por aperfeiçoamento. Do baixo estatuto a que tem estado votada, poderá passar a profissão com exigências de alto nível. Isso acontecerá muito naturalmente logo que chegue ao fim a era das tradicionais mercearias de livros, cujo desaparecimento é indispensável para que tal se torne viável. Quando o livreiro, numa das livrarias que serão as únicas livrarias de então, for um perito indispensável, enquanto leitor preparado para o apoio ao público, quantos livreiros haverá, que preparação lhes será própria e que reconhecimento quer de autoridade quer de remuneração lhe virá da sociedade?
Não se está falando de outro, mas do público que cultiva e mais terá de cultivar a leitura em necessidade ou gosto de construir biblioteca própria.
Havendo cada vez mais livros e sendo cada vez mais necessário escolher e sendo cada vez mais necessário acertar e sendo muito bom não só encontrar como também dar-uma-vista-de-olhos-antes-de…
Um cuidado aqui se toma com não reduzir o conceito de apoio ao de aconselhamento. É muito cativante o saber e arte do bom conselho e a sua aceitação. Apoiar leitores e leitura, porém, é e deve ser muito mais.
Razões contra as profecias? É que a inteligência nem está em perigo de se perder nos novos suportes da escrita nem estão por perder-se as eternas e ricas vantagens da leitura em suporte livro. E de qualquer modo a grande questão não é a do livro, mas a da leitura. Também em crise?
O problema da leitura, sendo o problema do livreiro, assegura-lhe um mais que duradouro futuro, porque a expansão da Noosfera é irreversível e ler é-lhe intrínseco. Também de Teillard de Chardin humílimo discípulo...

III
E então a história do «livreiro mais novo»?
O Manuel Henrique veio mais cedo do infantário porque apareceu com febre. Por um bocadinho à espera da mãe teve de ficar na livraria com a avó que o sentou no seu colo enquanto ia conversando com o Sr. Valério. Pedida que lhe foi a ela uma ajuda para a escolha de um livro a oferecer a uma criança, o Manuel Henrique, que desde sempre andou pelo cantinho dos livros infantis, seguiu-a. Percebeu logo do que se tratava. Várias sugestões apresentando a avó e já o Manuel Henrique a chamar a atenção para um dos livros da Série Madagáscar. Deixar o cliente a apreciar e escolher, ir continuar a conversa interrompida. No cantinho dos infantis, ficam cliente e «livreirinho», este insistindo na sua sugestão com o argumento de que conhecia a história e era bonita. Depois também se afastou, mas por pouco tempo. Voltando, ao ver que o cliente ainda não se decidira, levantou o livro e exclamou: «Madagáscar! Madagáscar». Pronto, cliente decidido! Ao vir para pagar, «levo este», um diálogo: «que idade tem este menino?» «Dois anos e meio». «Se a história o encantou, vai também agradar a outra criança». O Manuel Henrique estava tão consciente de que efectuara uma venda que quis que fosse ele a receber o dinheiro. Sabia da profissão. Tinha aprendido. Ele, a prima e o irmão – cinco e quatro anos - desde quando se habituaram aos livros e quantos já «leram», tanto acompanhados como sozinhos? E não só. De há uns tempos para cá, além de irem por hábito ver livros no cantinho próprio, puxam cadeiras para junto do balcão, sobem e brincam a vender. As pessoas acham muita graça. Desta vez aconteceu. As coisas foram mais longe. Com dois anos e meio este mais novo livreiro do mundo demonstra que a continuidade da «espécie» está assegurada!!!

L. V., «O mais novo livreiro do mundo», Chapéu e Bengala

domingo, 6 de abril de 2014

Esperamos sinceramente que o próximo Encontro Livreiro no Porto seja em breve uma realidade — Dina Ferreira | Poetria



A Poetria, livraria de poesia e teatro, no Porto, associa-se em pleno ao 5º Encontro Livreiro no próximo domingo, na livraria Culsete, em Setúbal, onde este maravilhoso movimento nasceu, e envia aos colegas livreiros uma mensagem de solidariedade e esperança num futuro melhor para todos nós. 

No Porto há livrarias bonitas, e a mais bonita de todas é a magnífica Lello, cujo livreiro e grande amigo Sr. Antero Braga, está de parabéns porque acaba de ser homenageado com o diploma "Livreiro da Esperança". 

Nessas livrarias, há livreiros com histórias de dedicação, competência, entusiasmo, partilha de experiências e informação com o público que lê mas também com o que (ainda) não lê. 

Incansáveis e apaixonados pelos livros, os livreiros revêem-se nas sábias palavras do saudoso Manuel Medeiros, o querido "Livreiro Velho" que nos deixou recentemente: "...o olhar encontra de imediato os escritores e os leitores, mas entre o livro e a leitura está o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro 'publica' a leitura". 

Esperamos sinceramente que o próximo Encontro Livreiro no Porto seja em breve uma realidade, e estamos a trabalhar para que isso aconteça muito brevemente, porque estamos em perfeita sintonia com o espírito e objectivos que estiveram na origem desta iniciativa: conhecimento mútuo dos livreiros a nível nacional, englobando na mesma um universo alargado de gentes do livro e da cultura, reflexão conjunta sobre todos os aspectos e problemas inerentes a esta profissão: A MAIS BELA PROFISSÃO DO MUNDO! 

Um grande e forte abraço a todos. 

POETRIA
Dina Ferreira | Porto

(mensagem recebida no dia 27 de Março e lida no V Encontro Livreiro)

terça-feira, 27 de março de 2012

«O III ENCONTRO LIVREIRO FOI ASSIM!», por Fátima Ribeiro de Medeiros

No domingo, 25, houve alguém que passou boa parte da noite a viajar para chegar à Culsete e viver o III Encontro Livreiro sem perder pitada. Esse alguém foi o António Alberto Alves da Traga-Mundos, de Vila Real. Foi o primeiro a passar a porta, eram 11 horas da manhã. Aqui está ele a contemplar a pequena anarquia que é a livraria.


Logo de seguida entraram a Rosa Azevedo, o Hugo Xavier, o Bartolomeu Dutra e o Luís Guerra. Um pouco depois apareciam a Sara Figueiredo Costa, o Nuno Seabra Lopes e o Ricardo Duarte. Conversaram, ajudaram nas arrumações finais, tiraram fotos, espreitaram  as estantes, sorriram para a máquina (completamente amadora).




Ao almoço, de peixe assado, éramos dez à mesa. Mas a máquina ficou arrumada. 
O Encontro Livreiro estava aprazado para começar às 15 horas e a essa hora em ponto começou a chegar gente. De Portalegre chegaram  o José Tavares e o Amadeu Candeias, estreantes no Encontro Livreiro. A Ana Wiesenberger e o Pedro Vieira também deram o ar da sua graça, e que graça…


Assinava-se o “livro oficial do encontro”, conversava-se com esta e com aquela/com este e com aquele, até que se deu início à função, com as necessárias palavras de boas-vindas. E, já que estávamos numa livraria, recorreu-se a uma página do Diário II de Luísa Dacosta, Um Olhar Naufragado (pp.25-28), onde a escritora discorre sobre o que são livrarias, esses “espaços de liberdade, lugares de encontro. Liberdade intimista, com uma profundidade de abismo e onde o tempo e o lugar podem ser vencidos. […]”.

Indo ao encontro do conceito de “Livreiros da Esperança”, leu-se o poema de Manuel Alegre «Livreiro da Esperança», incluído em Praça da Canção.

LIVREIRO DA ESPERANÇA

Há homens que são capazes
duma flor onde
as flores não nascem.
Outros abrem velhas portas
em velhas casas fechadas há muito
outros ainda despedaçam muros
acendem nas praças uma rosa de fogo.
Tu vendes livros quer dizer
entregas a cada homem
teu coração dentro de cada livro.

Uns sentados, outros em pé, todos escutámos com prazer  o Bartolomeu e a sua viola. Quem passava pela montra, parava a tentar perceber o que se passava.


E chegou o momento de ouvirmos Manuel Medeiros, sob o olhar atento da Rosa, enquanto o Flamarion, seguindo à risca as “sábias” orientações do Nuno Medeiros, aproveitava para captar os momentos mais vibrantes, para mais tarde os mostrar no Brasil.



Aconteceu depois um dos momentos mais importantes do encontro, a atribuição do diploma de Livreiro da  Esperança ao senhor Jorge Figueira de Sousa, da Livraria Esperança, do Funchal, na pessoa de sua prima, Maria do Carmo Figueira de Sousa e Abreu, que, curiosamente, foi, durante três anos, livreira na livraria da Seara Nova. No momento da entrega do diploma, o Luís Guerra entrou em contacto telefónico com o senhor Jorge Figueira que pôde ouvir as fortes palmas que todos lhe batemos. A Sara falou-nos da sua recente visita à livraria Esperança e do seu encontro com o senhor Jorge Figueira.



Leram-se em seguida as mensagens enviadas por aqueles que, gostando de estar presentes, não tiveram oportunidade de aparecer.

Chegou depois o momento em que  falaram todos os que para tal se inscreveram (ou foram inscritos!), sob a condução e savoir faire da Rosa. Levantaram-se diversas questões relacionadas com a problemática do livro, da leitura, da edição, das livrarias, da comercialização do livro, etc., etc., pondo o dedo em muitas feridas e alimentando esperanças de melhor  futuro.

A tarde ia avançando, o microfone sem fios ia passando de mão em mão, nós íamos rodando nas cadeiras, degustando o que havia em cima da mesa que servia de bar e  molhando as gargantas com água e sobretudo com o famoso Moscatel de Setúbal, “o melhor do mundo, quiçá até da Europa”, como lembrou, e muito bem, alguém…  Os fumadores inveterados davam escapadelas até ao passeio em frente à montra, deixando um rasto de pontas de cigarros na calçada.  Houve também que aproveitasse para informar a família que o encontro estava para durar ou quem descansasse o olhar sobre os livros expostos, sempre com o ouvido no que era dito.







 

Já o sol se tinha posto há muito quando a Rosa Azevedo fez o resumo do que fora dito. Manuel Medeiros, como bom anfitrião, disse as palavras finais. A viola e a voz do Bartolomeu, desta vez acompanhado pelo João Frada, animaram os últimos momentos de convívio de alguns resistentes. Consta que alguns destes ainda foram saborear o célebre choco frito setubalense.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

DEBATE LIVREIRO . 2 - «PROPORÇÃO INVERSA»

Mercadorias entradas e mercadorias saídas. É evidente ou não? Se o valor das mercadorias saídas é inferior ao das entradas e se se trata de uma situação recorrente e persistente, o caldo está derramado: é um ramo de comércio inviável. Tem mesmo que ser: ou acaba a «proporção inversa» ou é melhor, efectivamente, suspender o debate. É inútil discutir o inviável. Tornar viável o comércio livreiro, quando era fácil, não se quis nem se soube e não se fez. Foi-se aguentando. Claro que isto em referência às «LI» - Livrarias Independentes. Agora que é difícil, não há mais que aguentar: ou se faz ou já não faz falta. Ficarão, naturalmente, dois ou três «reliquianos» para contar as histórias ao Terramarique (Lisboa no ano 3.000, Cândido de Figueiredo, Frenesi), mas mais do que isso não é expectável. Isto é, ou os livreiros se respeitam e são respeitados por serem indispensáveis à dignificação do livro e aos bons níveis de leitura do país ou os editores e os leitores têm o oceano das grandes superfícies, das cadeias de livrarias de grupo (grupos económico-financeiros) e tudo o que é canto onde se possam expor livros. E… acabou-se!

I
Duas vezes por ano o comércio do livro é assunto: por ocasião da Feira do Livro de Lisboa (do Porto também, mas nem tanto assim) e na abertura do Ano Lectivo das Escolas Básicas e Secundários. Mas com que nível? Com que conhecimento de causa? Com que motivações? Barulhinhos!
A Feira do Livro de Lisboa de 2010, a prolongada, deu para protesto, mas já passou. Para o ano, mais do mesmo e só então voltar a levantar a questão das Livrarias Independentes?
Sempre achei uma graça a esta incapacidade que temos de discutir em terra as condições da navegação. Com a Feira ou a Época Escolar a decorrerem pode-se aproveitar para atirar uns foguetes, mas mais nada. É nos entretantos que se podem estudar, analisar, discutir e projectar novos modos e meios de navegar.
Houve cerca de cinquenta anos para preparar a sociedade para o fim do emprego anunciado por Anna Arendt (A Condição Humana). O Plano Nacional de Leitura de 2006 era, em 1986, a iniciativa evidente a lançar. - E o Programa de Bibliotecas? -Teria sido um seu excelente apêndice. Etc.

II
A última oportunidade que teve a APEL de orientar o comércio livreiro como podia, devia e era desejável, de modo a manter a representatividade das Livrarias Independentes que tinha, foi nos anos oitenta. Na altura do aparecimento dos hipermercados e do seu interesse no produto livro. A história do assunto pode fazer-se. A APEL e a Secretaria de Estado da Cultura, depois Ministério da Cultura, jogaram para perdermos.
Os sócios-livreiros eram maioria na associação, mas nunca conseguiram sê-lo nas orientações decididas e praticadas. Perderam sempre. Vitoriosas? A Secretaria de Estado do Comércio e as grandes superfícies comerciais. E os editores? Se quisermos ver isso bem, talvez se percebam algumas contradições.
Dir-se-á: «Mas então? Não foi uma vitória a publicação da Lei do Preço Fixo?».
Resposta: Estudem o assunto. Não se limitem a ter umas impressões e a dizer umas bocas.
Quantos sócios-livreiros houve na APEL? Quantos há actualmente?
E já não há retorno possível, crê-se.
O que é incrível é que nem os livreiros se queiram na APEL nem também se queiram numa sua autónoma associação. Olhem para o lado. Quantos sectores profissionais acreditam tão pouco na vantagem individual da força colectiva?

III
Faz sentido pensar que as Livrarias Independentes fazem falta ao bom futuro da leitura? Continuarão a ser viáveis? Desenvolvimento ou atrofiamento?
Que livrarias? E que novos livreiros se esperam?
Olhar para trás? Cuidado! Agora?
O que é bom é olhar para quem, felizmente, se levanta. Dá muito gosto aos velhos ver gente nova de pé!


M. Medeiros

segunda-feira, 29 de março de 2010

UM RESUMO DO I ENCONTRO LIVREIRO

Manuel Pereira Medeiros, o livreiro velho, não quer que os seus sonhos morram. Para isso há que os lançar ao mundo. No último domingo do mês de Março de 2010, Manuel Medeiros encontrou a data ideal para aquilo que começou por ser pensado como um convívio livreiro e que acabou por se transformar antes em encontro. A diferença não é tão subtil quanto possa parecer. Convívio houve, mas houve muito mais do que isso neste encontro que, espera-se, seja o primeiro de muitos. A ideia era simples: reunir, para uma conversa, algumas pessoas das várias actividades ligadas ao livro. E houve escritores, editores, comerciais, tradutores, críticos, professores, investigadores, bibliotecários, livreiros...

O local de encontro não podia deixar de ser a Livraria Culsete, a casa de Manuel Medeiros em Setúbal. E a afluência, sem ser arrebatadora, foi mais do que suficiente e a prova disso é o vastíssimo leque de “profissões do livro” representadas.

Este primeiro encontro foi, contudo, e como bem sublinhou o anfitrião, uma preparação para a conversa que se queria ter. Discutiu-se muito, concordou-se e discordou-se, mas quando a hora de partir chegou a sensação era a de que se tinham levantado as questões para a discussão a sério. A que viria – e virá – a seguir. Porque «isto não fica assim!»

Havendo gente de tantas actividades diferentes, o primeiro problema identificado foi o de que trabalham todos de costas voltadas uns para os outros. Hoje em dia edita-se muito mais livros com tiragens mais reduzidas e há, consequentemente, menos capacidade de exposição para cada título. Há uma rotatividade enorme de livros nas livrarias, o que faz com que os leitores acabem por não ter capacidade para os ver a todos. Os livros ficam uns meses nas livrarias e são logo devolvidos, o que faz com que as vendas, segundo um dos presentes, não representem um lucro para o editor, porque este vê a factura paga com os livros que anteriormente enviara. Entra-se assim num ciclo vicioso que acaba por ser prejudicial para todos.

Os livreiros – e aqui falamos dos poucos livreiros a sério que existem – sofrem a sufocante concorrência que vem de várias direcções: hipermercados, feiras do livro incessantes, grandes cadeias de livrarias, etc. Muitos destes, se não todos, arranjando forma de contornar a lei do preço fixo, deixando de mãos atadas os livreiros.

Assim, a primeira grande questão que surge é: como regularizar esta situação e como colocar livrarias a trabalhar em conjunto – e não contra – com editoras. Vieram à baila exemplos de Espanha, de França, de Inglaterra. Devemos ou não olhar para estes modelos? A nossa realidade, o nosso mercado, permite a comparação?

A segunda grande questão levantada prende-se com os índices de leitura. Em Portugal lê-se pouco e, muitas vezes, lê-se mal. O problema vem de trás, de uma iliteracia tardia e que ainda hoje nos envergonha. Então, o que se pode fazer para combater isto, para pôr as pessoas a ler, para ensinar as pessoas a ler (bem)?

O governo lançou o Plano Nacional de Leitura, mas isso chega? Está a ser bem feito? Qual o papel que o Plano atribui às livrarias? Há alguns resultados visíveis, mas são muito insuficientes. É preciso motivar as crianças para a leitura desde o berço, mas, mais do que incentivá-las, é preciso formar os pais, que muitas vezes – por mais revoltante que isso seja - são um obstáculo para a formação dos filhos enquanto leitores e, consequentemente, enquanto pessoas mais cultas, mais inteligentes, melhores. Porque todos acreditamos que ler (bem) é fundamental para a formação do indivíduo.

E para que haja muitos e bons leitores é preciso que haja bons escritores, bons editores, bons livreiros. E que estes trabalhem em conjunto. Assim voltamos à primeira discussão e percebemos que está tudo ligado.

É preciso pôr as pessoas que não lêem a ler. É preciso pôr as pessoas que lêem a ler melhor. É preciso pôr as pessoas que lêem bem a discutir. É preciso que todos, em conjunto, pensem em estratégias de promoção da leitura eficazes e duradouras. E é para isso que deverão servir estes encontros. Para que aqui os “especialistas” se encontrem, troquem ideias, saiam daqui pessoas mais intervenientes, capazes de uma mediação e de uma acção em prol do aumento dos índices de leitura mais eficaz, isto é agentes mais capazes de ajudar na mudança que todos precisamos de operar.

Foi ainda aflorada a questão dos tradutores, muitas vezes pouco respeitados e mal pagos, sendo os verdadeiros profissionais frequentemente preteridos e substituídos por outros de duvidosa formação, que aceitam remunerações incompatíveis com o trabalho do técnico de tradução competente, o que prejudica a qualidade das obras traduzidas e vai interferir com a recepção das mesmas, afectando a sua procura.

Não podemos ficar parados a ver o que acontece. Não podemos esperar que outros o façam. Temos todos de nos mexer. De nos unir. De chamar mais um ou dois.

Isto não fica assim!

Gonçalo Mira

terça-feira, 1 de abril de 2014

Entrega do diploma «Livreiros da Esperança» ao livreiro Antero Braga

Depois das palavras de boas-vindas da nossa querida amiga e anfitriã, a Livreira da Esperança Fátima Ribeiro de Medeiros, quero dizer que é também para mim um enorme prazer encontrar-me convosco na Culsete, a casa onde foi concebido, nasceu e continua a crescer o Encontro Livreiro, o lugar onde se concretiza o sonho — que começou por ser de um pequeno grupo de pessoas — de pôr as gentes do livro a conviver e a encontrar-se para melhor se conhecerem, para trocarem ideias e projectos, para viverem o presente e construírem o futuro. No fundo, para fazerem deste movimento um verdadeiro manifesto contra o fatalismo que pretende acabar, a pouco e pouco, com o tradicional derrotismo e com a lamúria. 

Como sabem, o diploma «Livreiros da Esperança» — uma homenagem das gentes do livro aos livreiros portugueses que reconhece o papel central que esta classe profissional desempenha na «publicação» da leitura — é uma iniciativa do movimento Encontro Livreiro e foi instituído e atribuído pela primeira vez em 2012. 

Este ano, o Encontro Livreiro homenageia o livreiro Antero Braga, da Livraria Lello, uma livraria da cidade do Porto, mas também do país e do mundo. 

Pede-me a amiga Fátima que seja eu a entregar este diploma, mas quero convidá-la, bem como à Caroline Tyssen ­—­ ambas Livreiras da Esperança ­— para o fazermos em conjunto e para me acompanharem neste momento. 

Sobre o novo diplomado, e resumidamente, quero dar-vos apenas algumas notas, parte delas já publicadas no Isto Não Fica Assim!, o blogue do Encontro Livreiro. 

Antero Braga é natural da freguesia do Bonfim, no Porto, onde nasceu no dia 17 de Agosto de 1950. 

Desde 1968 (faz 46 anos no próximo dia 16 de Julho), ano em que começou a trabalhar na Bertrand da 31 de Janeiro, na sua cidade natal, desempenhou diversas funções naquela empresa editorial, distribuidora e livreira (no Porto, em Aveiro e em Lisboa, assumindo responsabilidades tanto a nível local e regional como a nível nacional), tendo sido gerente de loja, chefe do departamento de lojas e agências, director-geral e administrador. 

Importa referir que Antero Braga entrou no mundo dos livros e para sempre se apaixonou por eles, pela leitura e pela profissão de livreiro um pouco por acaso, pois tudo parecia indicar que seria um homem dos números. Preparou-se para isso mesmo ao fazer o Curso Geral do Comércio e ao frequentar o Instituto Comercial do Porto. 

Perdemos um contabilista ou um profissional de seguros, outro dos seus destinos prováveis, mas ganhámos um livreiro de referência que tem como lemas considerar que é preciso aprender, aprender, aprender sempre, ir ao encontro dos leitores e não ficar simplesmente à sua espera com a barriga encostada ao balcão e, sobretudo nos últimos anos, resistir à pressão destruidora do poder económico, em defesa de um modelo de livraria que dê ao leitor o máximo de liberdade de escolha, não o submetendo à ditadura da moda, do descartável, do efémero, do que busca apenas o lucro imediato. No fundo, um modelo de livraria que crie, não apenas clientes, mas leitores, um modelo que nós aqui, no Encontro Livreiro, muito admiramos. 

Entre uma saída e um regresso à Bertrand, trabalhou ainda na distribuidora Jardim (grupo brasileiro Abril Cultural), como responsável do departamento de promoções e publicidade, tendo neste âmbito colaborado no programa televisivo «O Passeio dos Alegres», de Júlio Isidro. 

Mas a grande aposta de vida de Antero Braga — contra a opinião de muitos, mesmo dos mais próximos — foi a criação da Prólogo Livreiros e a renovação e dinamização da Livraria Lello, a emblemática livraria do Porto. Mais uma data a festejar este ano, no próximo mês de Maio: os 20 anos da Prólogo Livreiros e da renovada Livraria Lello. 

Não será por acaso que a Lello tem sido, desde 2008 e todos os anos, galardoada com vários prémios e eleita a loja tradicional com mais qualidade do país e a livraria melhor e mais bela do mundo. Recebeu também, em 2011, a medalha de mérito de grau ouro da cidade do Porto e, em 2013, a Secretaria de Estado da Cultura classificou-a como monumento de interesse público. Acrescentamos nós agora, em 2014, um diploma que reconhece o homem por detrás da obra. 

Trocando, a nível profissional, o certo pelo incerto, mas dando asas aos seus sonhos e transformando-os quotidianamente em realidade, Antero Braga fez e continua a fazer de uma livraria que encontrou decadente e em grandes dificuldades uma referência incontornável no conjunto das livrarias portuguesas. 

Antero Braga é, para nós, um exemplo de persistência e um sinal de esperança para o futuro. E é mais do que merecedor desta singela homenagem das gentes do livro e do Encontro Livreiro. Por isso queremos dizer-lhe, agora publicamente e na presença das gentes do livro que hoje quiseram e puderam estar neste Encontro: OBRIGADO, ANTERO BRAGA! 

Peço a Antero Braga que nos conte um pouco do seu percurso e da sua experiência e nos dirija algumas palavras de esperança, mas antes quero referir os nomes dos anteriores homenageados, os para sempre merecedores da nossa gratidão Jorge Figueira de Sousa, da Livraria Esperança (Funchal), Caroline Tyssen e Duarte Nuno Oliveira, da Livraria Galileu (Cascais) e Fátima Ribeiro de Medeiros e Manuel Medeiros, da Livraria Culsete (Setúbal). 

Peço uma salva de palmas, em jeito de renovada homenagem aos nossos Livreiros da Esperança e termino dizendo, certo de estar a representar cada um dos presentes e também os ausentes que gostariam de ter vindo e não puderam: OBRIGADO, LIVREIROS DA ESPERANÇA! 


Luís Guerra 
V Encontro Livreiro | Setúbal, 30 de Março de 2014

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

E um sorriso abriu-se na sua cara




Caros amigos, 

Em Agosto de 2011 reiniciei actividade em Portugal, depois de uma ausência de 4 anos em Kiel (Alemanha) e de 5 anos como voluntário em Cantchungo (Guiné-Bissau), com a ideia de abrir uma livraria regional (temática) em Vila Real (Trás-os-Montes e Alto Douro). 

Nos preparativos e pesquisas para organizar e montar o projecto, procurei solicitar informação e aconselhamento nas livrarias independentes e deparei com o blogue Encontro Livreiro. Telefonei para a livraria Culsete e falei com Manuel Medeiros. Para quem conhece o Livreiro Velho, sabe que recebi uma doutrinação crua e pertinente, lúcida e sem rodriguinhos – também me remeteu para Bruno Malheiros, pela sua experiência recente de abrir uma livraria: a Capítulos Soltos, em Braga. Foi assim que, a 5 de Novembro de 2011, abri pela primeira vez a porta da Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro... 

A 21 de Março de 2012 foi com naturalidade que viajei para Setúbal, para participar no III Encontro Livreiro, uma realização anual na livraria Culsete. Com cinco meses de actividade, foi muito importante ter encontrado um ambiente informal de partilhas e aprendizagens, com diversas personagens do mundo livreiro, sobretudo pelo imenso carisma de Manuel Medeiros – foi como carregar baterias de motivação. 

A 7 de Abril de 2013 voltei a viajar para Setúbal, para participar no IV Encontro Livreiro, na livraria Culsete. Novamente, foi muito importante continuar a apreender o ambiente informal de partilhas e ideias, testemunhos e aprendizagens, convívios e amizades – desta vez fiquei a conhecer um pouco melhor toda a força e perseverança de Fátima Medeiros. 

Hoje, não posso estar presente. É o Dia da Livraria e do Livreiro... e nem sequer posso estar presente no espaço da Traga-Mundos! Depois de ontem terminar a tertúlia “Adolfo Rocha / Miguel Torga: O Médico, o Escritor, o Poeta, o Homem do Doiro” pelo Prof. Dr. Alfredo Mota, fiquei como é habitual a arrumar o espaço da loja: recolher as cadeiras, recolocar as mesas e o estirador, bem como todos os livros e produtos em exposição, no fundo da loja. Fiquei ainda a seleccionar e a embalar todos os livros para a solicitação do dia seguinte. Saí e caminhei para onde tinha o carro estacionado, conduzi para parar próximo da loja e carregar as caixas de papelão. Eram 2 horas da manhã... Hoje, cheguei às 8h30 ao Teatro Municipal de Vila Real, para descarregar as caixas e montar uma banca de livros no evento “O Valor dos ‘Simples’ – A Natureza à Mesa”, onde ficarei das 9h00 às 20h00 – não poderei ser anfitrião nem assistir ao atelier de escrita criativa, que Daniela Costa irá realizar das 17h00 às 19h00 na Traga-Mundos... Pelo que pude depreender nas entrelinhas da leitura de “Papel A Mais – Papéis de um livreiro com inéditos de escritores”, Manuel e Fátima Medeiros viveram incontáveis situações como esta ao longo dos seus 40 anos de Livreiros, também de carregarem livros para inúmeros recantos e eventos, na sua incansável missão de promover o Livro e a Leitura – e hoje por aí, vocês poderão ter oportunidade de ouvir (re)contar dessa infatigável odisseia, sendo sempre um exemplo para todos nós. 

Da minha parte, para declarar a importância do casal Medeiros para o que hoje faço e para o que é a Traga-Mundos, recordo um testemunho que foi deixado pela setubalense Vanessa Amorim: «Em Setembro andava eu por Vila Real quando entrei numa livraria. Conversando com o livreiro eu acabei por dizer que era de Setúbal e, então, a sua reacção imediata foi qualquer coisa como: "A terra da Culsete, do Sr. Medeiros que me incentivou a abrir este espaço!" e um sorriso abriu-se na sua cara. Acho que este episódio diz muito da importância deste grande livreiro setubalense.» 

Daqui, de Vila Real, envio um forte abraço de solidariedade para Fátima & Família Medeiros


Vila Real, 30 de Novembro de 2013

António Alberto Alves (Traga-Mundos - Vila Real)

(Mensagem enviada ao Encontro Livreiro Especial de 30 | Novembro | 2013)


segunda-feira, 12 de abril de 2010

«FALAR DO HERMÍNIO», um editor que veio da rua...

Luís Guerra, a quem telefonei logo após a sessão em que leu o seu «Texto sobre Hermínio Monteiro», teve a simpatia de mo enviar. Li-o e comoveu-me. É um documento, precioso a vários títulos. Sinto-me feliz por Luís Guerra aceder ao meu pedido de divulgação no ISTO NÃO FICA ASSIM! do Encontro Livreiro. Estou certo de que lhe ficarão gratos todos os que aqui lerem este precioso texto. E quantos comentários ele suscita!

Manuel Medeiros



Quero em primeiro lugar agradecer o convite do André Godinho para participar no seu filme sobre o Manuel Hermínio Monteiro e à Midas o amável convite para colaborar nesta iniciativa de lançamento. Não podia recusar porque se trata do Hermínio, uma pessoa que estará para sempre ligada à minha vida e ao rumo que ela tomou tinha eu vinte e poucos anos. Esta iniciativa, além do mais, realiza-se numa livraria e no Dia Mundial da Poesia e, portanto, num local e num dia especialmente bem escolhidos para falarmos do Hermínio, um amigo das livrarias e da poesia, por vezes tão maltratadas e desrespeitadas.

O Hermínio dizia repetidamente, referindo-se aos livros que então iam construindo o catálogo da Assírio & Alvim, que o importante era que falassem deles e os dessem a conhecer, mesmo que nem sempre de forma elogiosa. Preocupante era e é, penso eu também, o silêncio ou o barulho ensurdecedor que, anunciando a fugaz «banha da cobra», relega para o esquecimento o que de mais perene se vai fazendo.

Falar do Hermínio, mais do que pôr a nu as especificidades e múltiplas facetas de uma personalidade forte, como homem que era (como me custa ainda, passados quase dez anos, conjugar o verbo desta forma), daria para muita conversa e tem dado, felizmente, para muita conversa junto dos muitos amigos que deixou e também daqueles, mais jovens, com quem me tenho cruzado e me pedem muitas vezes informações sobre alguém de quem ouvem falar com tanto entusiasmo.

Falar do Hermínio é falar de um tempo em que a produção editorial em Portugal era mais escassa, em que os livros tinham uma permanência mais prolongada nas livrarias e em que a nossa alegria de ver chegar novos livros (uma festa sempre renovada) era tão grande como a alegria de ver partir, ao longo de anos, os livros do nosso fundo editorial. Esse fundo e as novidades que o passam a integrar e que ultrapassam a voracidade do primeiro impulso, continuo convencido disso, é que fazem verdadeiramente o catálogo de uma editora.

Falar do Hermínio é falar de um editor que veio da rua, do contacto directo com os livreiros e, através destes, com os leitores, reflectindo nas suas escolhas e atitudes o que aprendera enquanto vendedor de livros, uma actividade que muitos, erradamente, ainda hoje confundem com a de meros «anotadores» de pedidos ou, como agora se diz, «repositores de produto». Quero aqui recordar as visitas que comigo fez às livrarias, na passagem de testemunho, e a forma como os livreiros me receberam, sabendo eu que isso se devia muito ao caminho desbravado pelo Hermínio.

Falar do Hermínio é falar de um homem que, vindo do campo, trouxe para a cidade as vivências e os aromas de um espaço e de um tempo prenhe de um imaginário maravilhoso mas em acentuado processo de extinção. De um homem que nunca renegou as suas origens e afirmava «gosto de pensar que edito livros como quem trata de uma vinha», demonstrando uma sageza própria de camponês que sabe dar tempo ao tempo e está sempre sujeito às agruras e à imprevisibilidade do tempo.

Falar do Hermínio é falar de um líder natural que, com o seu entusiasmo, contagiava todos quantos com ele punham a mão na massa da edição e de outros projectos que abraçou.

Falar do Hermínio é falar de um dos pilares, com o Manuel Rosa (actual editor da Assírio & Alvim e já então o grande responsável pela sua imagem), de uma editora que, criada em 1972, se afirmava nos anos oitenta como uma editora de culto com projecção num futuro que continuamos a construir. Com o Hermínio a Assírio passou a ter um rosto.

Falar do Hermínio é falar de alguém que, acima de tudo, tinha um grande amor à vida e às coisas boas e belas que ela nos oferece e que, partindo embora prematuramente, continua presente na obra que nos legou, pelo que o continuo a encontrar diariamente nos vários espaços da Assírio & Alvim, desde o departamento editorial, às livrarias, ao armazém onde ele tanto gostava de descer para se inteirar do andamento das vendas e sentir o movimento dos livros para as livrarias e vice-versa, num repetido vaivém que vai levando os livros aos leitores.

Falar do Hermínio é falar de um editor que sempre viu na Assírio & Alvim, não apenas uma empresa (que foi limitada, cooperativa, novamente limitada e hoje sociedade anónima), mas sobretudo um projecto cultural mais vasto. É falar também de todos os que, no passado e no presente e sem nenhuma excepção, ajudaram a construir e consolidar um projecto editorial que assenta numa permanente escolha de rigor e exigência.

Falar do Hermínio é falar de Cesariny, Herberto, Pascoaes, Ruben A., Fernando Pessoa, Miguel Esteves Cardoso, Agostinho da Silva, João dos Santos, José Agostinho Baptista (que também participa neste filme e tão bem nos fala do lugar dos afectos na vida do Hermínio) e muitos, muitos outros autores cuja obra a Assírio & Alvim «aprendeu a amar e a tratar com rigor e dedicação». O catálogo que deixou e que continuamos a construir está aí e julgo que fala por si. Como diz Manuel António Pina, num belíssimo texto publicado em «Uma rosa para o Hermínio» (uma homenagem da APEL realizada no dia 3 de Junho de 2002), «(…) os livros que o Hermínio editou ao longo da vida desenham (vemo-lo agora nitidamente) o perfil do seu rosto intelectual e afectivo.»

Falar do Hermínio é falar de alguns projectos que muito acarinhou e marcam o seu legado: o Anuário de Poesia de autores não publicados (com um júri que foi sendo integrado, em anos diferentes e entre outros, por José Bento, Fiama Hasse Pais Brandão, José Agostinho Baptista, Fernando Luís Sampaio e Miguel Serras Pereira) que acolheu milhares de poemas e revelou alguns autores que ganharam posteriormente espaço próprio. Veja-se, por exemplo, o caso de Adília Lopes, que publicou nos anuários de 1984 e 1985 e de quem acabámos de lançar, em 2009, Dobra – poesia reunida; A Phala, sucessora de uma efémera publicação chamada Folha, publicação que no primeiro número se propunha ser «uma forma de expressão da Assírio & Alvim» e um «complemento do nosso trabalho cultural» e fechava a sua «Apresentação» desta forma: «(…) projectamos a Assírio & Alvim como espaço de qualidade e diversidade, de quem escolhe e edita livros à revelia dos códigos dominantes de comércio e lucro. Queremos dizer: não fazemos livros para cambiar por patacos. Editamos porque os livros nos dão prazer, e pretendemos colocar à disposição dos nossos leitores o que nos parece ser o melhor: autores, traduções e concepção gráfica.»; A Phala especial, Um Século de Poesia, que em 1988, envolvendo muitos colaboradores e tendo aos comandos o Hermínio, o José Bento, o Gil de Carvalho e o Fernando Pinto do Amaral e no design gráfico Manuel Rosa e Luís Miguel Castro, assinalou o centenário do nascimento de Fernando Pessoa, homenageando a poesia portuguesa como a mais alta expressão cultural desse século; e a última grande aventura, Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro.

Falar do Hermínio é falar de um editor que não se fechou no seu gabinete, antes se empenhou em movimentos cívicos, associativos e culturais, tendo ainda variada participação escrita em catálogos, jornais e revistas como a Ler, a Epicur, o JL, a K, O Independente, entre outros.

Falar do Hermínio é falar da inovação que, nos anos oitenta, se introduziu nos lançamentos de livros e de que são exemplo: pedir à Rodoviária Nacional um autocarro e enchê-lo de jornalistas, escritores e amigos para ir a Amarante, à casa de Teixeira de Pascoaes, fazer o lançamento de Os Poetas Lusíadas que contou com a leitura integral, na casa, de «Senhora da Noite» por Maria Barroso e pelo poeta Eugénio de Andrade; fazer o lançamento do primeiro volume das obras de Ruben A. no Monte dos Pensamentos, em Estremoz, com muitos amigos do Ruben A. e uma exposição sobre o escritor no museu da cidade (exposição que depois esteve no Porto e em Lisboa); fazer o lançamento d' O Livro de Bem Comer, de José Quitério, com um enorme repasto na quinta de D. Pipas, no Ribatejo; o lançamento de Cartas Portuguesas em Beja, com a exposição das pinturas de Ilda David' que fazem parte do livro, no castelo de Beja, e o lançamento do livro no convento de Mariana Alcoforado, com leitura das cartas pela actriz Inês Medeiros (o livro teve também um lançamento no Porto, com uma peça musical inédita de Paula Sousa, com a cantora Ana Deus e a actriz Ana Bustorf); a «Marcia de Poesia», que durante um mês inteiro levou à livraria da Assírio conversas sobre a poesia portuguesa do século XX, onde participaram dezenas de escritores e críticos, actores e músicos, muitos a despontar, como a Alexandra Lencastre, a Margarida Marinho, a Filipa Pais, outros já a consolidar a carreira, como o Pedro Aires Magalhães, ou os consagrados, como a Fernanda Alves (que leu «Poliptika de Maria Koplas», poema de Mário Cesariny, com banda sonora, que este executou ao piano) a Isabel de Castro, o Luís Miguel Cintra, etc.; ou as iniciativas por todo o país, com exposições, leituras, lançamentos, nos 25 anos da Assírio, numa enorme descentralização bem demonstrativa do quanto o Hermínio amava o país inteiro e tinha amigos de norte a sul; o projecto «Os Poetas» e muitas outras iniciativas que o tempo não nos permite continuar a enumerar.

Falar do Hermínio é falar de um editor que também experimentou o ensino, tendo deixado marcas pela forma como transmitia o seu amor pela História, em cujo imaginário invariavelmente buscava ensinamentos para a edição.

Falar do Hermínio é falar das colecções que ele via como divisões de uma casa feita de livros. Lembremos a colecção «Rei Lagarto» pela importância que teve, num tempo anterior à Internet, para a divulgação de biografias e de letras de cantores e de grupos que, cá e lá fora (e este lá fora era bem mais longínquo), marcavam a cena musical dos anos oitenta. Lembro, e há por aí ainda muita gente que me acompanha nesta recordação, os lançamentos noite fora em bares do Cais do Sodré resgatados ao lado mais obscuro da noite (o Tókyo, do senhor António, e o Shangri-lá, do senhor Martins, são disso exemplo), mas também no Porto, no Aniki Bóbó do amigo Becas. Lembremos também a «Gato Maltês», a colecção de livros de bolso da Assírio & Alvim que fará trinta anos em Janeiro do próximo ano.

Voltando atrás: conheci o Hermínio no início dos anos oitenta, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde estudámos, Filosofia eu, História ele. Conheci o Hermínio por causa do Sérgio Godinho e o Sérgio Godinho por causa do Hermínio. São ambos grandes culpados de ser quem sou hoje.
Sendo eu, por parte da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras, um dos responsáveis (com, entre outros, o António Costa que também participa no filme) pela organização de um espectáculo do Sérgio na Aula Magna, quem é que me apareceu a representá-lo? O Hermínio, o «Meu amigo Manuel» da canção que todos devem recordar. Conversámos, negociámos, e ao fim de demoradas negociações baixámos vinte contos ao cachet inicial (guardo o contrato que ambos assinámos, eu pela AEFLL, o Hermínio pelo Sérgio Godinho) e no dia 10 de Dezembro de 1981, como rezam os recortes de jornais da época «O cantor Sérgio Godinho provocou (…) uma das maiores enchentes de sempre da Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa (…) “Maré Alta” (…), (um dos temas do seu primeiro LP) foi executado “ao vivo” pela primeira vez, merecendo prolongados aplausos da assistência.» (Expresso, 12-XII-1981) e «Sérgio Godinho encheu a Aula Magna (…) uma lição com um brilhozinho nos olhos.» (…) «num show onde o risco se cruzou com o prazer, onde a festa colectiva se misturou com um silêncio comovido» (Se7e, 16-XII-1981).
Numa entrevista ao Letra – Jornal da AEFLL, com a presença e participação do Hermínio (que a certa altura interrompe e chama a atenção para a existência de dois tipos de público distintos, na cidade e no campo), o cantor afirmava: «Gosto do palco. A partir de certa altura senti necessidade, eu e muitos outros, de melhorar um bocado a apresentação das nossas canções. A interpretação pode ganhar com a espontaneidade, com a vivacidade, com o contacto com o público. (…) O palco é, muitas vezes, a finalidade da canção, porque a renova permanentemente».
Alonguei-me um pouco neste aspecto por duas razões: primeiro, porque daqui nasce a minha relação com o Hermínio; segundo, porque este espectáculo marca o início de um tempo em que os chamados «cantores de intervenção» começaram a tomar consciência, depois de um tempo em que imperava o voluntarismo, de que deveriam começar a ter uma exigência mais profissional.

Passa o tempo e um dia recebo um telefonema do Hermínio (que já tinha deixado vários recados nos sítios por onde eu andava. Lembremo-nos que ainda não havia telemóveis. O fax chegou já eu estava na Assírio) a perguntar-me se queria ir trabalhar para a Assírio. Disse-lhe que ia passar o mês de Agosto em Paris, onde residia a Maria de Lurdes, namorada recente e minha mulher de então para cá, mas que estava interessado sim senhor. E diz o Hermínio: «Vai lá de férias descansado e, quando regressares, aparece». E eu disse que sim! Sem perguntar o que ia fazer e quanto ia ganhar, feliz pela aventura de poder trabalhar numa editora, eu que já fora há muito tocado pelo vírus do livro e da leitura. E aqui estou, depois de muitas, muitas voltas, nossas e da vida.

Perceberão agora melhor a razão pela qual não podia recusar o convite do André Godinho (estes Godinho perseguem-me) para lhe falar do Hermínio. Gravámos a conversa na livraria da Assírio & Alvim, num domingo à tarde, tendo o António Costa viajado propositadamente do Porto, onde reside e trabalha. As coisas que o Hermínio nos obriga a fazer!

Obrigado André por nos falares do Hermínio e por me teres concedido o privilégio de falar sobre alguém que marcou para sempre o meu percurso pessoal e profissional, em suma a minha vida.

Obrigado a todos pela paciência de me ouvirem dizer pobremente algumas palavras sobre um homem acerca do qual nunca conseguiremos expressar cabalmente o quão importante foi no mundo da edição e do livro em Portugal, mas também o quão importante foi para os amigos que tão cedo se viram privados do seu entusiástico, afectuoso e contagiante convívio.

O essencial da obra do Hermínio, os livros que editou e estão vivos no catálogo da Assírio & Alvim, bem como o seu exemplo, continuam hoje na luta diária que mantemos para honrar uma chancela editorial que se soube impor ao respeito de muitos e que continua a ser acarinhada pelos seus leitores, apesar das dificuldades, das tormentas e das «crises» que ciclicamente apoquentam a nossa economia e o mundo do livro.

Espalhem a notícia e continuem a falar do Hermínio.

Luís Guerra
Lisboa, 21 de Março de 2010
[Texto lido na apresentação do dvd MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO -MHM, de André Godinho, no auditório da Fnac Chiado]

terça-feira, 22 de abril de 2014

O que faço aqui? – O V Encontro Livreiro por Andreia Azevedo Moreira


Desde o Encontro Livreiro do ano passado que ando a matutar: «Qual é o meu papel aqui? Em que posso intervir?» O meu ponto de vista, quando vos venho ouvir, é o de Leitora e embora não tenha participado falando, recuso ser mera testemunha. É do meu feitio se sinto haver desacerto, ou mal-estar, impor-me uma qualquer acção. Insignificante que seja. Neste caso sou o burro a olhar para o palácio porque, além do óbvio, não descortino o que mais poderei fazer para contrariar a tendência actual. A partir do momento em que reflecti sobre este assunto e o adoptei como um dos que me importa e preocupa, arregacei mangas para o que se encontra ao meu alcance. Ganhei maior consciência de que as minhas opções individuais têm importância, sim, e que mesmo sendo gota de água, o meu mililitro de contribuição pode fazer a diferença. Compro os meus livros, na sua maioria, em livrarias independentes. Nesta área, como em outras, também falho. Às vezes uma pessoa está com pressa e tem ao pé o que precisa e pronto. Para mim, essa será a excepção que confirma a regra. Tenho noção exacta do que tem acontecido a demasiadas Livrarias independentes, por uma grande parte dos Leitores se render ao comodismo das estantes fáceis. 

Em Setembro de 2008 falaram-me de uma Livraria que ficava no Rato. O nome por si só era prometedor: «A Trama». Aí encontraria uma publicação de poesia, a Criatura, que me apaixonara com o texto anónimo que lhe servia de mote. Começava assim: Não precisas de explicar ou dar nome a um movimento para fazeres as coisas moverem-se. De Setembro de 2008 a Junho de 2010 «A Trama» foi a minha livraria. Nessa altura, como agora, o orçamento doméstico não permitia grandes desvarios, por isso, guardava-me para lá ir em busca das leituras que me faltavam. Era um imenso prazer falar com a Catarina Barros e com o Ricardo Ribeiro. Perguntar-lhes o que achavam deste, ou daquele livro. Sentia-me orgulhosa quando seleccionava sozinha volumes e eles me sorriam cúmplices, aprovando a(s) escolha(s). Seria difícil que não o pudessem fazer. Todas as capas em destaque eram a melhor Literatura. Trabalho deles, essa criteriosa selecção. Passeava enamorada pelos títulos, maldizendo a falta de um plafond maior. Olho para as minhas estantes e sei cada livro que lá adquiri. Não foram poucos. Deviam ter sido muitos mais. A Trama fechou e não me esqueço dela, nem dos dois Livreiros, como não se esquece um amigo importante que partiu, deixando-nos com a saudade. Este foi, neste contexto, o primeiro grito ensurdecedor que me atingiu certeiro. 

(Apercebo-me, neste momento, que fechou a «Livro do Dia» em Torres Vedras que nunca cheguei a visitar, apesar da vontade, o que me deixa desolada.) 

O que é que a Trama tinha de especial? A intimidade. O ser um ponto de venda de livros, mas também um local de discussões profícuas, de aprendizagem, de convívio, de arte, do saber, de enriquecimento intelectual. Lá conheci pessoas estimulantes como a Rosa Azevedo, a Raquel Ochoa, a Rita Pedro, a Ana (Uma senhora de oitenta e tal anos que ainda se atirava a workshops de escrita criativa, recusando a solidão e a velhice.) entre muitas outras. Foi naquele espaço que reconheci, à distância, o Fallorca que acompanhava no blogue «O Cheiro dos Livros» cuja notícia da morte recente muito me entristeceu. Passeei os olhos por exposições de fotografia e outras. Dei mais uns passos neste trilho desmedido que é a Literatura. Lá amadureci enquanto Leitora. 

Falou-se disso neste Encontro Livreiro. Por que preferir as Livrarias independentes aos gigantes? Precisamente por isto. Nenhum Golias me marcará, ou ensinará, desta maneira. Os laços, o contacto directo e estreito com quem pretende comprar bons livros, a vontade de promover o encontro entre as gentes que os amam, de trocar ideias, de difundir a leitura e os bons autores, só poderá ser concretizada por pessoas apaixonadas e conhecedoras: os Livreiros. Muito dificilmente máquinas comerciais com líderes que são exclusivamente gestores e não se comovem com histórias de amor aos livros, como se preocupam com lucros, farão tanto por eles, pela leitura e pela Literatura. 

Exemplifico uma pequena parte da cadeia que já se criou na minha vida graças às livrarias independentes e às pessoas a elas ligadas: 

Na Trama frequentei dois cursos de Literatura com a Rosa Azevedo. Fiquei de olho nela, como pessoa a seguir, por ter entendido que dela virá sempre aprendizagem útil e refrescante. Entretanto, a Rosa organizou um ciclo de encontros que se intitulava “Para acabar de vez com a Leitura”. Iniciativa singular que muita falta me faz. Numa das sessões vi, pela primeira vez, o Luís Guerra. Homem dedicado aos livros, às letras e aos afectos que já muito me trouxe e que adorei conhecer, na Culsete, o ano passado, sem o filtro da virtualidade. Ele é o que se vê online e é alguém que nos enriquece a vida. Graças a ele tenho-me cruzado com outras pessoas marcantes, como o divertido Joaquim Gonçalves da «A das Artes» que por muito negra que se encontre a actualidade, acha os meios para arrancar um sorriso a quem o rodeia e para não perder o seu; o Nuno Fonseca e o Francisco Belard a quem o Luís tratou de arranjar boleia (a minha) para este quinto Encontro Livreiro, o que me proporcionou muitos minutos de conversa boa. Na «Pó dos Livros» frequentei um curso (Com a Rosa. Lá está.) sobre Surrealismo que me aprofundou o encantamento por Mário Cesariny, Alexandre O’Neill e António Maria Lisboa. Na «Ler Devagar» tive umas luzes sobre ficção para TV, com o vibrante filipe Homem Fonseca a quem continuo a acompanhar à distância. O Ricardo Ribeiro continua a ser o meu Livreiro de eleição, mesmo sem poiso fixo. Aquele a quem recorro e em quem confio. Tudo o que diga ficará aquém do quanto já ganhei nesta rede, sob o tecto acolhedor de Livrarias Independentes e pelas mãos empenhadas e amigas dos respectivos Livreiros. 

Um povo com Cultura terá maior capacidade para reflectir, ripostar e exercer o seu pensamento de forma livre. Não é possível submeter-se quem raciocina, está informado, sonha fora dos parâmetros, imagina e vislumbra além do que é imediato. Fornecido mastigado. É inestimável e fundamental o uso que os Livreiros fazem das suas Livrarias, na divulgação da nossa Cultura. 

O que faço perante um problema que considero também meu? 

1) Compro os meus livros em Livrarias Independentes. 
2) Divulgo, insistente, as livrarias que visito. 
3) Quando ofereço um presente a alguém dou primazia ao livro. 
4) Recomendo leituras. 
5) Leio aos meus filhos e conto-lhes histórias. 
6) Sensibilizo os que me rodeiam para a temática. 
7) Compareço, quando posso, nas iniciativas que as Livrarias dos meus afectos promovem e tento que me acompanhem amigos. Divulgo. 
8) Prefiro o papel ao digital. 

Reforço o apelo que já um dia fiz. Ajudem-nos a ajudar-vos. O que podemos, enquanto Leitores, fazer mais? 

Se a união dos Livreiros Independentes fará a força, essencial à sua sobrevivência, também é verdade que trará pujança à luta, a sensibilização dos Leitores para esta causa. Explicar-lhes o que está em jogo, o que perderão assim desapareça esta forma de olhar para os Livros e o quanto têm a ganhar ao entenderem que viver a Literatura é muito mais do que a mera compra do objecto. 

(Perdoem se me alonguei.) 

Finalizo dando os parabéns ao Antero Braga, da Livraria Lello, por esta justa homenagem a 46 anos de dedicação aos Livros, à Literatura e de serviço aos Leitores. 

A todos os que referi e aos que estão implícitos o meu MUITO OBRIGADA. 

Um abraço amigo. 

21 de Abril de 2014 

Andreia Azevedo Moreira, Escreleitora, Carcavelos.