domingo, 11 de setembro de 2011

Agora imagina um mocinho de quinze anos a ler este soneto nas suas noites de ler muito pela noite dentro, em um fim de mundo de silêncios...

«Homem! Homem! mendigo do Infinito»

Açores, S. Miguel, Ponta Delgada:
1842 - o nascimento a 18 de Abril / 1891 - o suicídio a 11 de Setembro.

I
JOSÉ BRUNO CARREIRO
ANTERO DE QUENTAL
Subsídios para a sua biografia
2.ª Edição
Instituto cultural de Ponta Delgada
Página 17:
«Lia muito, lia sempre e lia tudo», diz o seu condiscípulo Raimundo Capela (…). Outro contemporâneo, o Visconde de Faria e Maia, diz que era «ávido pela leitura» (…). Em 1887, na Carta Autobiográfica, ao descrever a sua entrada aos dezoito anos para o «grande mundo do pensamento e da poesia», Antero aludirá às «caóticas leituras» a que então se entregava, devorando (…).

II
Como encontraste ANTERO DE QUENTAL?
Para muitos, também para mim, os Sonetos como primeira aproximação a Antero.
Verão de 1951, quinze anos, férias na aldeia, um vizinho empresta-me os SONETOS.
Podes ler comigo, por favor, os dois versos finais do soneto intitulado de AMARITUDO?

O que será velhice e desalento,
Se isto se chama aurora e juventude?

Leio isto hoje, já velho, e…
Pois!, a velhice!…
Agora imagina um mocinho de quinze anos a ler este soneto nas suas noites de ler muito pela noite dentro, em um fim de mundo de silêncios, à luz do candieiro de petróleo…

III
Leste o que deixei escrito no post anterior?:
Os sessenta anos sobre esse verão e esse ano e esse Setembro é que espero não fiquem por aqui, porque…
A vida, com efeito, como se vê e poderá ver, faz-nos estas pequenas espantosas coincidentes marcações…
É!
É isso mesmo!
Uma atenção para mais sessenta anos sobre aquele 11 de Setembro, para mim tão doloroso quão respeitado, o do Banco da Esperança, em 1891.
Comecei a ler Antero, o nosso Santo Antero, quando se cumpriam sessenta anos sobre o seu último dia, um último dia sobre que tentarei pedir-te que nos detenhamos. Temos uma descrição pormenorizada. O último dia de vida de Antero de Quental sempre e cada vez mais a interrogar-me sobre a sua grandeza e a lição que ele é. Não apenas pela obra. Ele, como ser humano excepcional. A sua presença no seu tempo e para todos os tempos.
11 de Setembro de 1891. Em 1951 tinham passado sessenta anos. Mais sessenta e estamos em 2011.
Como achas que juntos podemos melhor assinalar os 120 anos sobre a morte do nosso Antero?

L. V.


[Texto originalmente publicado no blogue «Chapéu e Bengala» com o título: «"LIA... LIA... LIA" - Ler Antero, o nosso grande Antero!»]

sábado, 10 de setembro de 2011

MHM

(foto retirada, com a devida vénia, do blogue Assírio & Alvim)

Faz hoje 59 anos que nasceu, em Parada do Pinhão (Sabrosa - Vila Real), o Manuel Hermínio Monteiro.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Parabéns, Cristina e Artur

{para saber mais basta clicar na imagem}

Cristina Rodriguez e Artur Guerra, dois fundadores do Encontro Livreiro, acabam de ganhar um importante Prémio de Tradução e nós estamos muito felizes e orgulhosos.
PARABÉNS!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Só o cheirá-los lhe dava engulhos

De muitos dos actuais neo-editores pode-se dizer o que um dia Aquilino Ribeiro disse de um responsável da Bertrand:

«Em matéria de livros sentia o mesmo fastio que o pasteleiro pelos pastéis. Só o cheirá-los lhe dava engulhos. Lê-los, jamais.»

Livraria Letra Livre
www.letralivre.com

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O livro e a leitura

"Os meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história."

BILL GATES
{através da ARQUIVO}

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

E a vida não vive em linha recta


DEUS ESCREVE DIREITO


Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento


SOPHIA, O BÚZIO DE CÓS - 1997 ]



{Leitura de Vanda Viveiros, Livreira / Encontro Livreiro}

"Tenho só / este corpo / para ser"

RV

{Leitura de um Anónimo do século XXI}

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

É o outro lado da magia

Chamo
a cada ramo
de árvore
uma asa.

E as árvores voam.

Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.

É o outro lado
da magia.


Carlos de Oliveira [10-VIII-1921 / 1-VII-1981), Trabalho Poético.

[Leitura de Luís Guerra]

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Até há pouco tempo, a FNAC era a minha livraria de bairro e o Pão de Açúcar, a minha mercearia.

Tinha 5 anos em 1989. Lembro-me de ver, na televisão, o fumo erguer-se sobre o Chiado. Anos depois, ouvi a expressão «amostras é no Grandela» e perguntei o que era o Grandela. «Era onde estão agora os Armazéns do Chiado». «Ah, na FNAC!», respondi.

Em 1998, pouco antes de completar 14 anos, fiz a minha primeira visita à FNAC. Na altura, não me passava pela cabeça comprar um livro que fosse, já que estava convicta de que a última coisa de que a minha casa precisava era de mais uma tontinha e carregar sacos de livros diariamente para dentro da fortaleza de papel em que vivíamos, eu e os meus pais.

Isto teria pouco que ver com o encontro livreiro, não fosse o meu caso, o meu perfil, o de muitos, tantos da minha geração. Até há pouco tempo, a FNAC era a minha livraria de bairro e o Pão de Açúcar, a minha mercearia. O meu livreiro era o meu pai. O meu livreiro ainda é o meu pai. Às vezes também é o meu guarda-livros e bibliotecário, mas isso é outra história (não estava a exagerar quando falei na fortaleza de papel).

Embora os conceitos de «livraria de bairro» e de «livreiro» me sejam por demais caros, sou obrigada a confessar que em situação alguma me vi, alguma vez, na necessidade de um ou de outro, tão pouco lhes senti a falta. Sempre soube o que eram livrarias de bairro e livreiros, mas saber em teoria é tão bonito e trágico quanto viajar através dos livros – não se conhece sem se experimentar; não se viaja sem se sair do sofá.

Foi apenas quando comecei a trabalhar – em edição – que me apercebi do «vasto mundo» paralelo à ou soterrado pelas grandes cadeias de livrarias. Apesar da mortificação exigida por qualquer emprego digno dessa designação a quem a ele se submete, não deixa de ser uma excelente oportunidade para levantarmos os olhos dos nossos distintos umbigos e olhar em volta, ver o que perdemos, lembrarmo-nos de perguntar de onde vieram todos os livros lá de casa.

Isto não é um manifesto contra as grandes cadeias que todos conhecemos. Isto não é, de resto, um manifesto, sequer. Lamento, no entanto, que o progresso seja isto: comprar um livro como quem compra um bife, ser consumidora e não leitora numa espaço comercial e não numa livraria e adquirir um produto e não um livro. Não é um manifesto contra nada, mas podia ser. Porque tenho saudades, no verdadeiro sentido do termo - desejar de volta algo que nunca vivi, que nunca vi, pela simples ideia de isso, esse passado, me agradar enquanto projecção no futuro. Sim, tenho saudades de sair de casa, dobrar a esquina, passar pela minha livraria, dar com uma curiosidade qualquer no escaparate e ter a sorte de estar ali alguém que conhece o livro e sabe dizer-me o que tenho nas mãos.

Sei que ainda existem livrarias independentes, que ainda há livreiros assim e que não estão assim tão longe de mim, mas os descontos e as promoções e o espaço disponível oferecidos selvaticamente pelas grandes cadeias obrigam a uma luta desigual que apenas com uma consciencialização colectiva pode ser ganha. O Encontro Livreiro assumiu essa tarefa, sim, mas o Encontro Livreiro são eles e somos nós. Nós que lemos, fazemos e compramos livros. E, convenhamos, 10% pelo nosso número de contribuinte, BI, rendimento anual, historial de crédito e morada fiscal é um preço demasiado alto a pagar a quem não sabe sequer o nosso nome.

eurídice e oliveira, Quintais Lda.

Deixe proliferar o exemplo de uma «liberdade livre» por toda uma vida

«Quem sabe o que está a caminho, embora com menos fragor? Só o pensar nos prepara, e agora tem de ser feito no interior do torvelinho que nos arrasta. Ora, só se pensa radicalmente fora da utilidade e da profissão, e isso é, nos nossos dias, o mais difícil. Pequena heroicidade, imperceptível, mas de que qualquer um medirá o alcance se experimentar deixar o utilitário, a negociação, por pouco tempo que seja. Deixe proliferar o exemplo de uma «liberdade livre» por toda uma vida, e perceberá o que quero dizer. De imediato o pensar radicalmente se torna um assunto político.»

J. A. Bragança de Miranda, Traços - Ensaios de Crítica da cultura, Vega, colecção «Paisagens» n.º 30.

{Leitura de Manuel Medeiros}

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A boa consciência

«Existiu no centro da Selva, há muito tempo, uma extravagante família de plantas carnívoras que, com o passar do tempo, tomaram consciência do seu estranho costume, principalmente devido aos constantes rumores que o bom Zéfiro lhes trazia de todos os cantos da cidade.
Sensíveis à crítica, pouco a pouco foram ganhando repugnância à carne, até que chegou o momento em que não só a repudiaram em sentido figurado, ou seja, sexual, como por último se negaram a comê-la, a tal ponto enjoadas que a sua simples visão lhes causava náuseas.
Então decidiram tornar-se vegetarianas.
A partir desse dia comem-se unicamente umas às outras e vivem tranquilas, esquecidas do seu passado infame.»

Augusto Monterroso, A ovelha negra e outras fábulas

{Leitura de Marta Peixoto}

O editor

«O editor recusou a publicação de uma obra que um autor desconhecido lhe apresentou, argumentando que um romance de mil páginas teria poucos leitores. O autor reduziu o volume para uma novela de cem páginas mas o editor aconselhou-o a cortar um pouco mais porque isso beneficiaria as vendas. O autor abreviou o trabalho para um conto de dez páginas e o editor elogiou-lhe o raro talento para síntese, mas informou-o de que a edição do livro teria de ser adiada para uma data mais propícia à procura do mercado. O autor condensou o texto numa única frase e escreveu-a na lápide da campa onde enterrou o editor.»

Contos Efémeros, de Rui Sousa Basto, Edição Opera Omnia, Julho 2011

{Bruno Malheiro & Marta Peixoto / Capítulos Soltos}

Escrevi com o meu sangue


«Escrevi com o meu sangue; nunca molhei a pena na pia de água benta, nem nos lavabos perfumados das viscondessas.»

Aquilino Ribeiro

{Livraria Letra Livre}

Ler é errar

«Há no acto de ler uma expectativa que não procura a consumação. Ler é errar. A leitura é a errância.

[...]

A felicidade crescia. Lia. A felicidade devorava-me. Li todo o Verão. A felicidade devorou-me todo o Verão.
»

Pascal Quignard, As Sombras Errantes - Último reino, Lisboa, Gótica, 2003.

{leitura de Luís Guerra - com um abraço reconhecido ao Ricardo Ribeiro que lhe ofereceu este livro}

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

As pessoas más e as pessoas boas

«As pessoas más gostam das coisas e servem-se das pessoas, e as pessoas boas gostam das pessoas e servem-se das coisas.»

José R. dos Santos, Anjo Branco.

{leitura de Leopoldino Flores}

O livro é


«O livro é o salva-vidas da solidão.»

Ramón Gómez de la Serna, Greguerías, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998.

{leitura de João Reis Ribeiro /nesta hora}

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Não podemos viver eternamente rodeados de morte e de mortos.


«Não podemos viver eternamente rodeados de morte e de mortos. E se ainda restam preconceitos há que destruí-los. "O dever", digo bem, "O DEVER" do escritor, do poeta não é encerrar-se cobardemente num texto, num livro, numa revista, donde não mais se libertará, mas pelo contrário sair para fora para sacudir, para atacar o espírito público. Senão para que serve? Para que nasceu?»

Antonin Artaud

{leitura de Rosa Azevedo /estórias com livros}

Tenho cada vez mais a sensação de que o mundo se vai progressivamente esvaziando


«Tenho cada vez mais a sensação de que o mundo se vai progressivamente esvaziando, apesar do bulício dos carros e da azáfama da multidão. É tão difícil nos dias que correm encontrar uma pessoa! Na rua não nos cruzamos senão com silhuetas, figuras, símbolos. Um taxista, por exemplo, não é um indivíduo, mas um modelo social: rezingão, desabrido, insolente, antes de entrarmos no seu táxi já sabemos do que vai falar, que manhas vai usar para tornar a corrida mais sinuosa e lucrativa. Uma vendedora de centro comercial confunde-se com todas as vendedoras de centros comerciais: indiferente, desdenhosa, mal-educada, com ares de nobre senhora que ali foi parar por engano. E a adolescente de calças de ganga que nos aborda na rua não é o anjo pessoal com quem sonhávamos desde a nossa infância, mas uma cópia de entre milhares de exemplares da pedinchona que, tanto aqui como em Londres, São Francisco ou Hamburgo, detém o transeunte e lhe pede uma moeda destinada ao arquétipo barbudo que a espera, ao dobrar da esquina, a enrolar um charro. Compreendo as causas desta degradação da personalidade nas urbes demenciais, apenas me limito a comprovar os seus efeitos. Mas é penoso que tenhamos de viver entre fantasmas, procurando inutilmente um sorriso, um convite, uma familiaridade, um gesto de generosidade ou de desinteresse, e que, em suma, nos vejamos forçados a caminhar, cercados pela multidão, no deserto.»

Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas, AHAB

{leitura de Inês Espada / CELivrarias - Oeiras / hoje pedi que o tempo parasse}

O futuro transformava-se numa sala iluminada


«O futuro transformava-se numa sala iluminada que pretendíamos tomar de assalto, mesmo que viéssemos a ter de deixar parte do corpo entalado nas portas por onde passássemos»

Lídia Jorge, A noite das mulheres cantoras, D. Quixote, p. 80.

{Leitura de Joaquim Gonçalves / A das Artes}

Apreço enorme

[rabisco de pedro vieira]

«Outra condição da concórdia e da convivência é a redução da agressividade ao mínimo. Há pessoas que não podem falar sem agredir, insultar, caluniar. Provocam profundas feridas pessoais, que costumam acirrar-se e dificultar a convivência. Costuma-se responder a essas palavras com outras igualmente exasperadas e agressivas, sendo esse justamente o princípio da discórdia.
Sinto enorme apreço e admiração pelas pessoas que unem a integridade à serenidade, à cortesia, que não entram no jogo quando se trata de um jogo sujo».

Julián Marías, Tratado sobre a Convivência - Concórdia sem Acordo, Martins Fontes, 2003, p. 204.

{leitura de Manuel Pereira Medeiros}

O valor intrínseco de um livro

«O valor intrínseco de um livro não depende da importância do tema (caso contrário, caberia aos teólogos a vitória), mas da maneira de abordar o acidental e o insignificante, de dominar o ínfimo. O essencial nunca exigiu o mínimo talento.»

E. Cioran, Do Inconveniente de ter Nascido, Letra Livre, Lisboa, 2010.

{leitura de Letra Livre}

Leitura e cidadania mais livre e mais crítica

[Fotografia de ALFREDO JIMÉNEZ]

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Cavacos das Caldas


«Antes de viajar, abasteça-se na livraria»

«As férias chegaram e há que pôr na mala os bens essenciais. Não a feche antes de passar na livraria mais próxima e escolher com os miúdos uns quantos livros. Para ler, desenhar e pintar. Deixe o hipermercado para os outros alimentos.
(...)
Boas leituras e boas férias»

Assim começa o artigo de Rita Pimenta, «Pública» / Público de 31-VII-2011, que em breve contamos reproduzir aqui na íntegra.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

«Para acabar de vez com a leitura - Socorro, onde está o meu livreiro?»»










Bartô do Chapitô, noite de 13 de Julho de 2011

Também quero ter a minha livraria, na verdade já a tenho, em tamanho pequenino, muito apertadinha no meu coração.

Quando li o teu email foram muitas as imagens que me vieram à cabeça. Imagens, sons, cheiros... Sorri, "é fácil dizer porque gosto tanto disto de ser livreira".
A verdade é que não é. Porque pôr tudo isto em palavras é tarefa complicada, porque ser livreiro tem muito que se lhe diga, é muito mais coração do que outra coisa qualquer. É muito mais prazer do que trabalho. Ser livreiro é comover-se com uma criança, com pouco menos de 3 anos, que entra no nosso mundo e faz "aaaawwwww tantos livros" e sorri! É aconselhar aquele livro, que beijámos em segredo quando terminámos, e um leitor nos dizer: "eu vim ter consigo porque há dois anos atrás me recomendou um livro muito bonito". É recomendar outras livrarias, porque nisto dos livros somos todos amigos! É frequentar outras livrarias (TODAS as livrarias!), e ter ânsias por não ir há tanto tempo às que nos são especiais! É não ter estantes que cheguem, NUNCA, nem na livraria, nem em casa... e no entanto... "é só mais este!".

O Livreiro é, como se já tem dito, uma espécie em vias de extinção. Um bicho que causa estranheza. Alguém que dá valor aos livros pelo que eles são, e não pelo seu valor monetário. Lembro-me sempre daquela frase do Sr. Medeiros:

"Ninguém quer ser livreiro, por duas razões. Primeira, não tem estatuto social. Segunda, porque quem se mete nisto está perdido, tem de ser um carola, sempre com as calças na mão, sem conseguir pagar aos editores."


E no entanto... é como te dizia, não trocava a minha profissão por nenhuma deste mundo! Soube disso a primeira vez que entrei na Galileu, não sei quantos anos já passaram... foi mágico! Até então nunca vira tantos livros juntos, tão apertadinhos uns nos outros... o cheiro era inigualável.
Apaixonei-me instantaneamente por aquela figura de lenço ao pescoço, fumando o seu cigarro e falando, falando, falando... Apetecia sentar e ficar ali a ouvi-lo durante horas! E eu queria mesmo isso! Ficar ali... Anos mais tarde, quem diria, foi lá que comecei a ser livreira.

Também quero ter a minha livraria, na verdade já a tenho, em tamanho pequenino, muito apertadinha no meu coração. Tem sítio para o gato e até já tem o sininho pendurado atrás da porta. Só falta a Livreira, uma livreira que ainda tem muito de aprender para, um dia, ser esta espécie em vias de extinção, como o Sr. Medeiros da Culsete, ou como o Sr. Nuno da Galileu, ou como tantos de que não falo, tantos que ainda não conheço...

Já reparaste como as pessoas dos livros têm todas um brilho especial?! :)

Um beijinho enorme para ti, "Luís da Assírio".

E um sincero agradecimento por estares sempre tão perto! Amigo e 'pessoa dos livros' que admiro muito!

Inês Espada

Mensagem da livreira Inês Espada, da CELivrarias - Oeiras, enviada a Luís Guerra para ser lida (o que não foi possível, tendo referido apenas a sua recepção) no último "encontro livreiro" realizado no Bartô do Chapitô, integrado na iniciativa "Para acabar de vez com a leitura", no dia 13 de Julho de 2011.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Vamos fazer todos um manguito à crise?


«(...) têm bom remédio: em vez de irem comprar produtos com páginas impressas ao hipermercado da zona, rumem ao centro da cidade para se abastecerem de livros. (...)»


Sara Figueiredo Costa, Cadeirão Voltaire.

domingo, 24 de julho de 2011

As novas gerações vão chegando finalmente à noção de livraria. É preciso que cheguem a tempo de travar o pessimismo e o desânimo dos livreiros.


SERÁ QUE AINDA VAI A TEMPO?

1
As novas gerações vão chegando finalmente à noção de livraria. É preciso que cheguem a tempo de travar o pessimismo e o desânimo dos livreiros. Contar com quem, a não ser com os mais novos, a quem já se proporcionou alguma familiaridade com os livros, a partir das bibliotecas públicas e das bibliotecas escolares?

2
«As novas gerações vão chegando…», posso contar muitos episódios que o provam. Mas muito mais lentamente do que era bom, possível e urgente. Porque quem está a fazer o seu melhor para que os mais novos desenvolvam o gosto pelos livros não teve livros nem em casa, nem na escola, já foi muito bom ter aprendido a ler e a escrever e acabado por tirar um curso no secundário ou no universitário. Temos de ser compreensivos com as pessoas que têm a responsabilidade de promover a leitura. Se pensarmos no atraso imenso em que foram educadas… Como consequência, os níveis de leitura das camadas sociais que a si mesmas se consideram cultas não chegam para justificar um trabalho livreiro bom e suficientemente compensador.

3
Muita gente chega ao topo do estatuto de pessoa com alto nível social sem ter lido quase nada. Não me interessa culpar essas pessoas. Façam a sua vida. A culpa da extensão da nossa falta de nível é colectiva. E dos menos inocentes foram e são os editores e os livreiros do meu país, não considerados individualmente mas como grupo ou grupos profissionais, porque nunca acreditaram em que o desenvolvimento da leitura era sua obrigação e até por uma primeira razão evidente: ganhar para o seu produto a clientela mais vasta e da melhor qualidade possíveis. Nem sequer se entenderam nunca, as Gentes do Livro…

4
Não são possíveis saltos muito grandes em pouco tempo. Mas já são vinte e quatro anos de investimentos continuados no sector do livro e da leitura!… Não são três dias! Acho que deviam ter produzido muito melhores resultados. Eu acho… Estarei a ver mal e a ser injusto para quem fez o que devia e mais um bom bocado? Isso não quero!
Para se resistir já é muito bom podermos olhar para o que está feito. Dar valor a quem o tem, é justo.
Em termos de leitura colectiva já se fez mesmo muito, com deficiências imperdoáveis embora. Recordar as críticas de Francisco José Viegas ao PNL. Etc., etc..

5
Contar com quem, até que desapareçam da sociedade as grandes camadas de néscios? Por mais que se julguem e os tenhamos como sábios, são néscios que sabem tudo sem ter aprendido quase nada…
Uma grande pobreza de cultura geral, em tanta gente que se julga alguém…
- Não digas isso…
-Já disse!

6
Quem tem fome vai à comida. Quem tem nível procura a melhor comida. Quem é culto tem necessidade de boas livrarias e frequenta-as e convive com os livros, alguns que lê e muitos que não chega a ler, mas que fica conhecendo. Até porque acaba por haver encontro e convívio com quem leu o que não se chega a ler. Ninguém consegue, felizmente…, ler tudo.
Prometo que vou reler o que, por estes dias, alguns livreiros nos vieram dizer e que qualquer um pode ler em http://encontrolivreiro.blogspot.com/ .
Apetece-me muitas vezes perguntar a muita gente: há quanto tempo não entra numa livraria? Ou até fazer esta pergunta tão inocente: «ainda sabe ler». Gostava que aparecesse uma que me respondesse: «já não sei ler, mas sei ensinar a ler».
1, 2, 3, 4, 5, 6 e… 7
Será que ainda chegamos a tempo?
Será que aqueles pais, os da prancha tão simpática de mestre José Ruy, aqui reproduzida com a devida vénia, resolvem mesmo dar uma alegria ao filho e à livreira emérita da «Loja-107-Livraria», Isabel Castanheira?
Em Fevereiro p. p. com muita alegria se viu Isabel Castanheira ser distinguida com o Prémio Especial Livreiro Ler/Booktaillors 2010. Aqueles pais terão mesmo de entrar. E… e… e… dar-lhe os bons dias que merece!

L. V.

[copiado integralmente, com muitas e devidas vénias, ao Chapéu & Bengala]

sábado, 23 de julho de 2011

Felicito-vos por ainda arranjarem alento e coragem para discutirem estes problemas.


Caro Luís:

Bom dia e votos de bem-estar.

Felicito-vos por ainda arranjarem alento e coragem para discutirem estes problemas.

Falar sobre:

Livrarias: quase todas com a corda na garganta.
Livros: cada vez mais e de qualidade e interesse muito duvidáveis.
Leitores: ando de lanterna à procura deles.

Quanto à comercialização abstenho-me de mandar palpites.

Mais um pequeno detalhe.
Livreira: Não se lança nas águas sulfurosas, porque o Arquimedes não deixa... seria demasiado o impulso...

Isabel Castanheira (Loja 107 - Caldas da Rainha)

Mensagem da livreira Isabel Castanheira, da Loja 107, em Caldas da Rainha, enviada a Luís Guerra para ser lida (o que não foi possível, tendo referido apenas a sua recepção) no último "encontro livreiro" realizado no Bartô do Chapitô, integrado na iniciativa "Para acabar de vez com a leitura", no dia 13 de Julho de 2011.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A livreira emociona-se, chora e ri como qualquer humano, mas tem a certeza convicta que o seu coração é feito de papel.

Ser Livreira

Vender livros é algo tido como banal. Em todo o lado se vendem livros. Qualquer um está (aparentemente) creditado para o fazer.
Quando abri a livraria alguém me perguntou: "És livreira! O que é ser livreira?" Sem pensar muito respondi: bem... a livreira é aquela que ama os livros. Gosta do cheiro do papel, gosta de acariciar as capas, sentir as folhas a passar pelos dedos. Tem uma paixão doentia pela leitura, fica inclusive indignado quando alguém diz que nunca leu.
A livreira vive num caos organizado de autores, tradutores, ilustradores, títulos, editoras, distribuidoras.
A livreira leva sempre o trabalho para casa. Por vezes pensa que a sua casa é apenas uma extensão da livraria.
A livreira deixou tudo para trás, (estudos, carreira, uma vida confortável), porque acredita que os livros alimentam a alma.
A livreira ouve todos os dias a mesma história de uma família que acha que os livros não se comem. E que assim não se pode viver.
A livreira tem constantemente palavras, frases, páginas de livros dentro da cabeça, coisas que não consegue esquecer.
A livreira dentro da mala não consegue encontrar um comprimido para a dor de cabeça, uma caneta para tirar apontamentos, as chaves de casa... todo o espaço é ocupado por livros que a acompanham por todo o lado, que são para ela mais preciosos que qualquer outra coisa.
A livreira emociona-se, chora e ri como qualquer humano, mas tem a certeza convicta que o seu coração é feito de papel.

E agora, será mesmo que qualquer um pode ser livreiro? Será que os livros se vendem sozinhos ou existe necessidade de alguém que ame os livros para os vender?


Marta Peixoto, Capítulos Soltos (Braga)

[texto publicado originalmente no blogue Os Livros Tristes]

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Cada vez é mais difícil vender livros. Vende-se papel para entreter as gentes.

Tudo começa com um leitor encantado pela ideia da livraria. Só depois nasce o livreiro. Apaixonado e sonhador, pronto a ser mastigado pelos próprios livros que o seduziram. Cada vez é mais difícil vender livros. Vende-se papel para entreter as gentes. A livraria conquista e apaga o sonho e a paixão. Felizmente, haverá sempre aquele livro que nos salva o sorriso quando tudo o resto parece desmoronar-se.

Luís Filipe Cristóvão (Livrododia - Torres Vedras]

Mensagem do livreiro Luís Filipe Cristóvão , da Livrododia, em Torres Vedras, enviada a Luís Guerra para ser lida (o que não foi possível, tendo referido apenas a sua recepção) no último "encontro livreiro" realizado no Bartô do Chapitô, integrado na iniciativa "Para acabar de vez com a leitura", no dia 13 de Julho de 2011.