quinta-feira, 17 de março de 2011

Os livros que se publicam, as listas dos mais vendidos, os prémios literários e aquilo que mais interessa

Há épocas do ano em que, apesar da profusão de novas edições que surgem diariamente nas livrarias, não me é muito fácil escolher um livro para ler. Possivelmente porque sou preguiçoso e estou sempre à espera da nata. Talvez seja por isso ou porque já não tenho paciência para o estilo de publicações com que o mercado editorial vai seduzindo não só leitores mas, acima de tudo, não leitores.
São títulos e personalidades que, cada vez mais, interessam a uma parte do sector editorial. Algumas das vezes, infelizmente, àquela parte que tem dinheiro para esbanjar na habituação, no vício, na publicidade e no marketing, para depois ir colher os frutos que quer. Frutos que já não custam tanto dinheiro a produzir. É uma opção de um sistema que valoriza apenas o material, a imagem, o parecer-se com. Daí, muitas das publicações que aparecem nas montras parecerem-se com livros mas serem apenas um produto. Com embalagens vistosas e publicidade em tudo o que é sítio. Não me admira, pois, que se vendam ao lado dos legumes e das mercearias.
Pelo contrário, há publicações que apenas se vendem nos estabelecimentos da especialidade. Como os medicamentos. São livros perigosos, que servem para curar doenças ou alimentar o espírito. Como os remédios deste tipo que só se vendem nas farmácias, são livros que apenas se encontram nas livrarias. Porque são perigosos mas, em geral, não são rentáveis.
Gostaria que António Damásio tivesse vida e saúde para ter tempo de estudar e publicar os motivos que levam a este estado mental. Poderia ser que conseguisse iluminar algumas cabeças pensantes. Pode ser que o seu último livro O Livro da Consciência – A construção do cérebro consciente possa já dar uma pequena ajuda. Até porque o livro, para o género, até se vende bem ocupando mesmo um bom lugar no top da livraria.
Aqui, a nossa lista dos mais vendidos, desta vez, até tem coincidência com as listas dos grandes grupos livreiros. Mas as listas valem o que valem. Há livros dessas listas de grandes vendedores que não saem das prateleiras ou das mesas da livraria de província. Sejam eles publicitados ou mesmo premiados. Por exemplo, sendo um dos autores que até se vende bem por aqui, desde o anúncio do Prémio Nobel da Literatura de 2010, e durante cerca de um mês, só um cliente nos procurou por livros de Mário Vargas Llosa. Há mistérios insondáveis dignos de um estudo sociológico.
E este é o prémio Nobel! Imaginem as dezenas de outros prémios que aparecem anunciados nas capas, prémios de que ninguém ouviu falar senão o Editor quando visitou a Feira de Frankfurt.
Felizmente há quem aposte no prémio da qualidade. Autores, Editores, livreiros e, felizmente, alguns leitores. Esse é o prémio que apenas com a leitura se afere. Somos nós, leitores, que o atribuímos. Ao ler, ao falar do livro, ao divulgá-lo. E isso é o que mais interessa.

Joaquim Gonçalves
A das Artes (Sines) / Fundador do Encontro Livreiro

Blogtailors


Obrigado pela divulgação, venham daí até Setúbal e tragam outro amigos também.

Tratar os livros por tu

Depois de tantas reflexões à volta dos livros e da leitura fiquei com a pergunta às voltas na cabeça: afinal porque é que lemos?
E hoje apetece-me responder sem filosofias, talvez porque já seja tarde e estou demasiadamente cansada, ou porque faz muita falta voltarmos a tratar os livros por tu.
Eu leio porque gosto dos livros. Porque de manhã vou no comboio e estou a caminho de um dia comprido de trabalho e quero viajar um bocadinho antes de lá chegar. Leio porque gosto de histórias, de conhecer pessoas com quem nunca me vou cruzar e sítios a que nunca hei-de ir porque estão na cabeça dos autores e não nos mapas. Leio porque estou e férias e fico mesmo feliz por ter tempo para ler. Leio porque acredito que a escrita é a forma mais pura de falar. De mandar mensagens ao mundo ou só a uma pessoa. Leio porque os livros pelos quais somos loucamente apaixonados são o assunto mais encantador que se pode ter numa conversa de café. Leio porque sou dotada de uma curiosidade doentia (só com os livros). Leio porque muitas vezes fui salva por um livro, quando o real diário se tornava insustentável. Leio também porque os livros são objectos bonitos. E há uns que são mesmo bonitos. E além disso são objectos que podem andar sempre connosco e o conforto é também termos connosco todo o dia o que de nosso é mais bonito. Nunca me vou fartar de ler nem de livros. O facto de trabalhar com livros não me saturou, conseguiu apenas que eles se tornassem a minha casa.
Vou viver com eles e para eles o resto da minha vida.


Rosa Azevedo
Estórias com Livros

quarta-feira, 16 de março de 2011

ACERCA DE «REFLEXÕES SOBRE...»

CARTA ABERTA A LUÍS GUERRA

Desafia-nos, meu amigo, para, de hoje, dia 16, até ao já tão próximo dia 26, enviarmos à sua administração do «encontrolivreiro.blogspot.com»
as nossas «reflexões sobre...». E... cá estou eu! Se alguém tem obrigação de não fazer ouvidos de mercador,
toda a gente, de certeza, acha que sou eu.

Conhece aquela dos dois compadres?
«Nesta terra há duas pessoas que devem merecer a vossa inteira confiança.
Uma é meu compadre.
A outra, meu compadre que o diga».
Porque isto é questão de lembrarmos o que num certo dia foi simples conversa entre nós dois:
a razão que me levou em 2010 a desejar oferecer aqui em Setúbal um moscatel a um diversificado grupo de pessoas, desde que de algum modo
ligadas ao Mundo dos Livros.
Com o único objectivo de nos encontrarmos, convivermos e, naturalmente, conversarmos.
Sem nada de formal nem de agendado,
a não ser exactamente isso:
juntos tomarmos um moscatel, aqui em Setúbal, e nesse dia escolhido cuidadosamente, o último domingo de Março.
Já bom tempo,
nem muito a Norte, nem muito a Sul, nem onde sempre é difícil este ambiente de passeio que Setúbal proporciona,
entre o fechar devoluções e contas do ano anterior
e o entrar nas actividades em que muitos têm de ocupar-se, até ao domingo, no adiantar-se a Primavera.

A si, por acaso e por alguma razão especial, encomendei uma opinião.
Se agarrou a ideia como válida, não vai ninguém perguntar, porque é evidente.
Foi por isso que em 28 de Março de 2010 aconteceu o I ENCONTRO LIVREIRO
e que agora em 27 de Março o II ENCONTRO LIVREIRO vai acontecer.

O velho livreiro tem de sentir-se grato.
O novo convite que faz para mais um Moscatel de Setúbal é também um modo de agradecer,
a todos mas especialmente a si, meu amigo, o prazer que, como se compreende,
um livreiro em seu fim de carreira não pode deixar de sentir pela bela tarde de convívio que se viveu no ano passado e
pelo entusiasmo com que está ser divulgado o convívio da tarde do já tão próximo último domingo de Março de 2011, este ano no dia 27.

É por isso e para isso, esta carta.
Não são bem as reflexões que pediu «sobre» ENCONTRO, CONVÍVIO, GENTES DO LIVRO, mas creio poder dizer-se que «acerca de».

Permita-me que traga para aqui um meu
«Bem haja!».
E permita-me, ainda, que estenda este «Bem haja!» a todos os que estão consigo (connosco, talvez deva dizer!).
Por agora fico por aqui, a ver quem chega.
Um grande abraço

Manuel Medeiros

A Fonte de Helena

Obrigado, Helena. E no próximo dia 27 feche a porta (avise antecipadamente os seus clientes, que eles compreenderão) e venha até Setúbal. Não a dispensamos.

Encontro / Convívio das Gentes do Livro

Aproxima-se a data do II ENCONTRO LIVREIRO, o CONVÍVIO das GENTES DO LIVRO que responde, desde o ano passado, ao apelo do livreiro Manuel Medeiros, da Culsete, que é também o autor Resendes Ventura, o blogger Livreiro Velho, que é também...

DEIXAMOS AQUI O SEGUINTE DESAFIO

Até ao próximo dia 26, façam chegar ao

encontro.livreiro@gmail.com

as vossas reflexões sobre

ENCONTRO

CONVÍVIO

GENTES DO LIVRO



e nós publicaremos aqui no blogue. Agradecemos que os textos indiquem nome, actividade e/ou empresa a que estão ligados profissionalmente.

sábado, 12 de março de 2011

Teresa


«A grande invenção aconteceu no ano passado: fazer um encontro entre leitores, críticos, livreiros, editores, em suma, «gentes do livro». As invenções felizes tendem sempre a evoluir e, no próximo dia 27, o encontro repete-se.» LER MAIS AQUI.

Obrigado, Teresa. Esperamos ver-te em Setúbal.

Isabel

«Isabel Castanheira dedica-se aos livros desde 1976, altura em que abriu a sua livraria Loja 107. Hoje é um lugar de apreço do circuito livreiro português, onde se pode saber e conversar sobre tudo o que diz respeito ao mundo dos livros e de quem dele faz parte.»

Ler mais aqui.

Parabéns, Isabel.
Contamos consigo no próximo dia 27, em Setúbal.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ecos do Encontro Livreiro no «La double vie de Veronique»


Um encontro anual aberto às gentes dos livros. Acontece, e muito bem, numa livraria em Setúbal no dia 27 de Março, às 15h ( pena, no meu caso, a coincidência com a Feira de Bolonha ). [...]

Obrigado, Dora. Pena que não possa vir até Setúbal no próximo dia 27. Fica o convite para o III Encontro Livreiro. Ou antes, quando quiser.

Bem-vindo(a)s ao universo do livro

«[...]
É então assim que Francisco Bélard vem a acabar -
ipsis verbis! - "… numa livraria utópica que venda todas as revistas do mundo. Muitas assumem natureza semelhante à dos livros. Àquelas de gosto, digo: bem-vindas ao universo do livro".
[...]
Como não devo alongar-me, volto a Francisco Bélard, com um abraço para ele, naturalmente, mas extensivo a muita gente do jornalismo cultural, e termino a saudar o jornal e a revista: "bem-vindos ao universo do livro"!

L. V.»


Ler texto completo no «Chapéu & Bengala».

terça-feira, 8 de março de 2011

«E, em três tempos, muitos escritores deixarão de existir.»

«Desde há uns anos que a velocidade e o número de livros editados não têm parado de aumentar. Até que um dia um editor-chefe se vai lembrar de dizer: "Um livro em que a primeira edição não venda em três tempos nunca será reeditado." E, em três tempos, muitos escritores deixarão de existir. No futuro, alguém há-de perguntar: "Então, e os clássicos?" "Os clássicos!?... O que é isso?", dirão.»

Jaime Bulhosa (Livreiro), in «100 ideias para o futuro, LER, nº 100 (Março de 2011), p. 77.

«as livrarias deviam premiar o bom gosto e castigar a saloiice»

«No futuro radioso as livrarias deviam premiar o bom gosto e castigar a saloiice: cliente que leva o Moby Dick tem massagem com happy end, fulano que pergunta pela Sveva é condenado ao opróbrio e a ser sovado por um gorila que recita o Gilgamesh. Um sistema como o do saudoso "Colpo Grosso" e das suas Ragazze Cin Cin. A bem da Nação.»

Pedro Vieira (ilustrador e apresentador do programa "Ah, a Literatura!" , etc. etc., e ex-livreiro), in «100 ideias para o futuro, LER, nº 100 (Março de 2011), p. 80.

«Enquanto, lá fora, as galinhas...»

«Enquanto, lá fora, as galinhas depenicam as couves que vamos comer e, cá dentro, a sopa da pedra abobora na panela de ferro, sento-me com o Futuro no banquinho, junto à lareira, leio-lhe num Livro a história do Homem que se comeu a si próprio e espero que ele aprenda a lição.»

Joaquim Gonçalves (Livreiro), in «100 ideias para o futuro», LER, nº 100 (Março de 2011), p. 84.

«eh eh... agora a sério, requisito é ser amigo do livro ou amigo do amigo do livro»

Isto e muito mais vem dito em

Ditos

Loja 107 Livraria

«Loja 107 Livraria, partilhando leituras.»


Isabel,
Estamos a contar com a sua presença e participação. Até dia 27.

Pó dos Livros


«O Encontro Livreiro será o que todos nós quisermos que seja.»

Venham daí Isabel, Débora, Jaime e Carlos. Contamos convosco no próximo dia 27.


«Gentes do livro, uni-vos!»

Contamos contigo no próximo dia 27.

segunda-feira, 7 de março de 2011

«Impressionante»

«É só porque, se ficasse apenas num comentário ao chapeuebengala de 27/2/2011, este «impressionante» testemunho talvez…
E era uma pena!

Podia escapar aos meus queridos amigos que visitam este blogue, como o fazem a estimada D. Fernanda e o grande artista José Ruy. Queridos amigos, sim!, porque não se importam com que não tire o meu chapéu ao abrirem-me a sua porta e são sabedores de que uma bengala pode ser admirável batuta para bons ritmos dos movimentos quer do corpo quer do espírito.

Copiei para ser post e para pedir a atenção das Gentes do Livro. Fiz bem?»

LER MAIS AQUI.

Bibliotecário de Babel

Obrigado, José Mário Silva. E vem daí no próximo dia 27.

sexta-feira, 4 de março de 2011

«o cão que comeu o livro...»

A bibliotecária Ana Tarouca, do blogue «o cão que comeu o livro...», divulga o II Encontro Livreiro. Bem haja, Ana, e venha daí até Setúbal. E traga outro(s) amigo(s) também.

quarta-feira, 2 de março de 2011

«Rabiscos Vieira» divulgam Encontro

Pedro Vieira, o Irmão Lúcia, o ilustrador (da Ler e não só), o apresentador (com Catarina Homem Marques) do Ah, a Literatura! (Canal Q), o escritor que acaba de lançar o seu primeiro livro, Última Paragem, Massamá (Quetzal) e que confessa, nesta entrevista, «gosto muito da vírgula, das quebras e das graças que se podem fazer, são infinitas, de facto», o livreiro (Bulhosa, Byblos, Almedina), mas sobretudo o amigo que quis mas não pôde, por motivos de força maior, participar no I Encontro Livreiro - fica aqui o convite público para participares no Encontro deste ano -, ofereceu-nos este «rabisco» que, a partir de hoje, passa a ser utilizado na divulgação deste convívio / encontro das «gentes do livro» que, no dizer da Sara do Cadeirão Voltaire, reunirá em Setúbal, no próximo dia 27, domingo a partir das 15 horas, «gente que lê, que escreve sobre o que lê, que frequenta as livrarias, que edita, que escreve para os outros lerem, que gosta de livros, em suma.»

Bem haja, Pedro.

Diz o Joaquim d'A das Artes, um dos fundadores do Encontro Livreiro



... e nós dizemos com ele: Isto Não Fica Assim!

No Cadeirão da Sara


«Está a aproximar-se o dia do segundo Encontro Livreiro, em Setúbal. A data marcada é 27 de Março e era muito bom que a casa enchesse com gente que lê, que escreve sobre o que lê, que frequenta as livrarias, que edita, que escreve para os outros lerem, que gosta de livros, em suma
[...]»

Notícia completa AQUI. O sublinhado é nosso.

Obrigado, Sara, e até dia 27.

«A 2 de Março para ouvi-lo»

«[...]
Provocante e prometedor. Lá estarei.
Ora este “provocante” foi escolhido de propósito pois, na descrição dos objectivos gerais do programa, vem anunciado que o tal Losowsky está contratado pela biblioteca como “Provocateur-in-Residence”. Por aqui há “poets-in-residence”,“ writers-in-residence”, “artists-in-residence”, mas “provocateurs” é novidade. Na reunião fiz mesmo um comentário sobre os sinais dos tempos. Quando eu era estudante de pós-graduação “provocateurs” era o que menos faltava nas universidades. Agora, se querem um, têm que pagar por ele. O riso gerado, tomei-o por concordância.
Mas lá estarei a 2 de Março para ouvi-lo sobre um tema tão provocador.
[...]»

Pode ler o texto na íntegra AQUI. E logo à noite há mais novidades.

terça-feira, 1 de março de 2011

Crescente e decrescente, com texto de Resendes Ventura dentro

Já viu ISTO?

E já passou a mensagem?



O ISTO E O ASSIM

Quanto a isso de o livro acabar e,
ainda antes deles,
as livrarias,
estamos conversados.
Embora se possa
e até seja inevitável
continuar a conversa,
«que tempo irá fazer amanhã?», temos que perguntar dia após dia.
Porque o futuro é sempre o futuro a apanhar-nos, muito com ameaças,
mas sobretudo com a certeza de que para a frente é que é caminho.

O que for será e o que importa aqui
é esta simples constatação:
somos muitos os que hoje e neste nosso país andamos nisto dos livros.
Já fomos mais?
Não sei.
Já fomos menos?
Isso sim! Isso eu sei!

Se nos encontrarmos uns com os outros, talvez seja agradável
constatarmos que de muitas maneiras as GENTES DO LIVRO
são muita gente. E que há por aqui muita gente que vale a pena!

E seja como for «isto não fica assim»:
se não mudares, és mudado!
Ou julgas que os outros não se safam, mas tu vais safar-te?
Pensar assim, há muita gente que... Depois, é o que se vê!

MM

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A CONTAGEM [MAIS EXACTA] DO «LIVREIRO VELHO»


«Livros? Escritores Livreiros Editores Leitores Investigadores Comentaristas Tradutores Bibliotecários Etc.: GENTES DO LIVRO»
Pode seguir AQUI a contagem decrescente do «livreiro velho»

domingo, 27 de fevereiro de 2011

27 de Março de 2011

DE HOJE A UM MÊS.

Convívio, encontro, troca informal de ideias, de tudo isto (e muito mais) se fará o

II ENCONTRO LIVREIRO
[o encontro das gentes dos livros]

que terá lugar em Setúbal, na Livraria Culsete - Av. 22 de Dezembro, 23 A/B - no dia 27 de Março de 2011 a partir das 15h00.

VENHA DAÍ E TRAGA OUTRO(S) AMIGO(S) TAMBÉM!
Se quiser contactar-nos e/ou confirmar a sua presença, pode fazê-lo para encontro.livreiro@gmail.com

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Cadeias livreiras

De Francisco José Viegas, via A das Artes:

"A mítica livraria Waterstones de Piccadilly Circus, em Londres, vai deixar de ser livraria – em seu lugar, ficará um cinema. Ao mesmo tempo, fecha mais 11 lojas, incluindo as duas de Dublin, com mais de vinte anos de vida. Nos EUA, a cadeia de livrarias Borders prepara-se para dizer o adeus definitivo. A culpa é do livro digital? Não apenas. É sobretudo de uma gestão virada para o “capital financeiro”, que acreditava que podia vender livros da mesma forma que venderia produtos de limpeza [...]".

sábado, 1 de janeiro de 2011

BOM ANO DE 2011

2011
é o ano do

II ENCONTRO LIVREIRO

Setúbal - Livraria Culsete, no último domingo de Março, dia 27

Os amigos do ramo livreiro e todos os que se consideram como
«GENTES DO LIVRO»
são convidados e convidam-se uns aos outros.

Traje obrigatório: interesse em participar e boa disposição!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

«Antologia»

ANTOLOGIA - Revista semestral de contos
Uma iniciativa dos amigos
Gonçalo Mira, Nuno Fonseca e Emanuel Amorim
Mais informações aqui: http://www.revistaantologia.com/

sábado, 11 de dezembro de 2010

«Pormenores de uma relação amorosa»

«Encontrados na tradução - Pormenores de uma relação amorosa: o tradutor e a obra de um autor», de Gonçalo Mira, in «Ípsilon»/Público, de 3-XII-2010, já está on-line. Recomendamos a sua leitura e ficamos à espera de comentários.

Gonçalo Mira e dois dos entrevistados, Artur Guerra e Cristina Rodriguez, são membros fundadores do Encontro Livreiro.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Doutoramento «Honoris Causa» para um Livreiro, o nosso «Livreiro Velho»

Quando todos pensávamos que a Cerimónia já tinha acabado, a Natureza, no preciso momento em que o homenageado saía do edifício da Câmara Municipal de Setúbal, brindou-o com uma salva de potentes trovões e uma chuvada torrencial.

Com início pelas 15:00 horas de hoje, 9 de Dezembro de 2010, terminou já ao princípio da noite a Cerimónia de entrega das Insígnias de Doutoramento Honoris Causa, pela UNISETI - Universidade Sénior de Setúbal, ao LIVREIRO Manuel Pereira Medeiros, apadrinhado pelo Prof. Doutor Onésimo Teotónio de Almeida. Proferiu a Oração de Sapiência o Prof. Doutor Viriato Soromenho Marques.

A sessão, que teve lugar num Salão Nobre aquecido pela Amizade de todos os que, da cidade ou de outras paragens, puderam estar presentes, não terminou sem que o Livreiro, agora Doutor Honoris Causa, nos brindasse com um belíssimo e profundo texto que, lido numa voz que se foi afirmando e fortalecendo ao longo de uma leitura esforçada e muito sentida, a todos tocou, fez pensar e suster respirações.

Parabéns, Manuel Medeiros!

Luís Guerra

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Gentes do livro

«Se estes elementos são importantes como factores activos no relacionamento do possível leitor com o livro, mais importantes, como se calcula, são aqueles que fazem a livraria, os livreiros, quer sejam proprietários-trabalhadores ou empregados. É por eles que passa em grande parte a história do livro, são eles que fazem a história da livraria.»

Livrarias & Livreiros, Carlos Porto
[citação encontrada no blogue da Trama e que aqui partilhamos]

domingo, 21 de novembro de 2010

Novo Encontro, em Setúbal, das «Gentes do Livro» - Convite

(clicar para aumentar a imagem)

Porque se trata de um acontecimento que interessa e diz respeito a todos os que trabalham no mundo do livro, se bem que trate essencialmente de edição e editores, aqui deixamos este convite, ao mesmo tempo que sugerimos a leitura do texto que Manuel Medeiros, o «Livreiro Velho», acaba de publicar em Chapéu e Bengala, onde lança o apelo: «Gostava mesmo que, na tarde do sábado, dia 27 do mês corrente, às 16h, dia do lançamento na Culsete, o ambiente aqui na livraria fosse de encontro entre algumas das pessoas que a sério e a fundo se dedicam ao livro. Um encontro de «Gentes do Livro».

Nuno Medeiros, autor do livro, faz parte do grupo de fundadores do Encontro Livreiro que, desde o ano passado, se realiza em Setúbal, no último domingo de Março de cada ano. Parabéns, Nuno, pela obra, pelo prémio, pelo empenho, pelo exemplo, pela amizade.

Venha daí e traga outro(s) amigo(s) também! Nós, lá estaremos. Sim, porque ISTO NÃO FICA ASSIM!

sábado, 9 de outubro de 2010

Última Época Escolar que faz o livreiro velho nesta livraria onde não sabe quando deixará de poder e querer trabalhar, por mais vagarosamente que seja

MANUAIS ESCOLARES: HOJE? PORQUÊ?

Pois!
Porquê?
Simplesmente por ser 1 de Outubro.
Durante quantos anos as escolas portuguesas abriram a 1 e 7 de Outubro, ano após ano sempre nesses dias, conforme o grau de ensino?

Setúbal, 1970, 1 de Outubro. 40 anos. Setúbal. 1 de Outubro de 2010. Primeira Época Escolar que faz o livreiro velho nesta livraria em que ainda trabalha. Era a Galeria Culdex. Última Época Escolar que faz o livreiro velho nesta livraria onde não sabe quando deixará de poder e querer trabalhar, por mais vagarosamente que seja.

E acima de todos aquele 1 de Outubro de 1973. A Culsete reabre nesse dia a livraria que entretanto uma gestão impossível obrigara a encerrar uns meses antes.
Quem sabe o que significa de esforço, resistência e paciência prestar este serviço a uma cidade e região vasta e diversificada como Setúbal, entende que o livreiro velho não se importe que o critiquem por trazer para aqui esta emoção de estar dizendo a si próprio: «o meu último 1 de Outubro dedicado ao trabalho dos manuais escolares das crianças e adolescentes de Setúbal…».

São muitas as histórias que me contam meninas e meninos de ontem que são os pais das meninas e meninos de hoje. São muitas! Nada de admirar, é por ser realmente velho. Um dia acaba por se compreender que ser velho é ir dando por findas muitas das tarefas em que nos investimos.

Fiz, pessoalmente, quarenta aberturas de ano lectivo em Setúbal. Foi uma teima comigo: «mais este ano, para ficar nos quarenta!» Se calhar, teria sido melhor… Veremos… Nesta fase da vida é bom teimar, mas não é sempre nem em tudo.

Hoje é esta emoção, apenas. Ficarei por aqui? Espero que não. Os manuais escolares, em meu entender, devem dar referências culturais fortes e firmes para toda a vida. São por isso um tema importante. Em meu entender…

L. V.
[Manuel Medeiros - Livraria Culsete, Setúbal]
Texto originalmente publicado em «Chapéu e Bengala». Sublinhados nossos.

E, aproveitando a visita ao «Chapéu e Bengala», sugerimos a leitura do texto «MANUAIS ESCOLARES: ao redor da fogueira», de 4 de Setembro de 2010.

domingo, 8 de agosto de 2010

«Atabernar as livrarias»

«Quem faz com que uma livraria seja uma verdadeira livraria e não uma simples mercearia de livros, uma mercearia onde é natural que os livros se vendam "com a mesma pseudo-eficiência" com que se devem vender "detergentes ou margarinas"? O livreiro? O seu público? Se calhar os dois… Ou não?»

Quem pergunta é o Livreiro Velho. Pode ler o texto completo no «Chapéu e Bengala».

sábado, 7 de agosto de 2010

«De se tirar o chapéu»

Sines, nesta época do ano, é ponto de passagem de alguns e de destino de outros. O mar, praia, sol e outras coisas que os forasteiros cá descobrem. A livraria fica perto do parque de campismo que, por razões que desconheço, este verão apenas esteve aberto durante o Festival Músicas do Mundo. De qualquer forma, sendo uma zona comercial, as pessoas passeiam-se, principalmente durante a manhã, com carrinhos de bebé, sem carrinhos de bebé, em pequenos grupos, aos pares, solitários, mãos atrás das costas, desviando-se dos montes que os cães deixam nos passeios e das paredes mijadas até à altura do alçar da perna, vendo as montras ou, mesmo, não vendo nada. É de manhã também que, de vez em quando, vou até à porta e espreito o mar, à esquerda, lá ao fundo, um ou outro navio a chegar conduzido pelos potentes rebocadores; imaginando os corpos ao sol estendidos na areia. Cumprimento com um aceno pessoas que me cumprimentam de dentro de carros que passam. Normalmente não consigo vislumbrar quem lá vai mas a educação nunca fez mal a ninguém e eu até gosto de ser cumprimentado. Bons dias de um ou outro idoso que só conheço do seu passeio matinal, saído do lar ao virar da esquina e para onde regressa depois da volta ao quarteirão. Também retribuo o aceno de alguns pescadores que, do Bairro Marítimo, ali à direita, balde de plástico pendurado no braço, se dirigem para o porto de pesca ou de lá regressam depois de várias horas no mar. O interior da livraria está fresco. Para quem gosta de livros, as luzes apagadas ajudam ao ambiente propício para alguns momentos de descontracção. Há quem entre, dê a voltinha e saia. Há quem entre e fique mais um bocado, vendo as novidades nas mesas ou procurando surpresas nas prateleiras. Por vezes sou eu que tenho surpresas. Por vezes aparecem pessoas que gostam de falar de livros. Por vezes inicia-se um namoro sem consequências mas que é bom enquanto dura. Falamos de títulos e de autores, de histórias, contamo-las e ouvimo-las. Não tão raramente quanto isso, há quem pergunte como é vender livros em Sines. E dá? Vai dando, com dificuldades, os encargos são muito grandes… o costume. Mas estamos cá! Há pouco estava eu à porta a olhar para nada – apenas a descansar do teclado e das facturas. Da esquerda vêm surgindo pessoas. Um casal, calções e chinelos; uma senhora com saco da loja de roupas; três raparigas, uma delas com filmes de vídeo numa mão e o telemóvel na outra, digitando freneticamente. Um pouco atrás um homem alto, mais de setenta anos, roupa desportiva mas clássica, clara, óculos escuros acastanhados, boné bege na cabeça. Traje de passeio e passo de passeio. Detém-se na montra da livraria, observa os livros expostos. Para não incomodar afasto-me um pouco da porta. O senhor também se afasta da montra e dirige-se à entrada. Observo-o pelo canto do olho. Entra. Fico-lhe agradecido. Não só pelo facto de entrar. Entrar muita gente entra e é claro que é gratificante que isso aconteça. Mas, é que, no momento de entrar na livraria, este senhor tirou o chapéu!

Joaquim Gonçalves

Este texto, de se lhe tirar o chapéu, foi surripiado - sem qualquer autorização, mas com a certeza da compreensão de seu autor - do blogue da A das Artes, uma livraria, em Sines, que espera uma visita sua. Os sublinhados são nossos.

terça-feira, 15 de junho de 2010

ESCREVER NÃO É PARA MARIQUINHAS

Nós, os portugueses, somos todos divas. Do café da esquina ao estádio de futebol ao hemiciclo de S. Bento, todos nos devem e ninguém nos paga. Nos outros sítios também será assim. Que o digam os de lá (às vezes dizem-no e é bom sabê-lo). Mas por aqui, algo que parece sempre omnipresente é a noção de que todos temos razão, só os outros é que não, nunca!
Este texto nasceu do verificar que não podemos olhar constantemente para o nosso umbigo. De ver imensos jovens e outros a protestar inanemente: Não sei ler? Não sei escrever? Mas quem é que me ensina? Dou erros? Mas não é natural que os dê? Já ninguém fala do meu livro? Não ganhei um concurso? Não me andarão a prejudicar? E não deviam ter feito isto e aquilo por mim? Não deverão? Não gostaram do meu conto? Do meu livro? Mas quem são vocês? Etc. Etc.
Qualquer editor, ou mesmo qualquer pessoa ligada ao mundo das letras, está habituado a ver e ouvir disto. O fenómeno é mais típico em novos escritores, (o que não é o mesmo que dizer de jovens pessoas: pode-se ser um jovem escritor, profissional e maduro, ou um novato com qualquer idade) mas não lhes é exclusivo. Normalmente enferma de se pensar que uma crítica ou uma rejeição é sempre algo de negativo ou mesmo soez. Não é. Mas o fenómeno da intemperada reacção negativa à crítica e ao não reconhecimento que se pensa devido, isso já é algo de chato e recorrente. Principalmente porque improdutivo e não leva a lado algum. A mais das vezes leva a quezílias idiotas que mais valeria não terem existido. Recordo um professor de jornalismo na escola que nos obrigava a apresentar trabalhos e a elaborar textos, que depois eram criticados e avaliados por todos, sem que nós os autores pudéssemos emitir um pio de resposta ou defesa – foi uma grande lição. Muitas vezes é o que nos acontece pela vida fora. Quando nos candidatamos a um emprego ou a um prémio; quando preenchemos um formulário ou respondemos a uma pergunta para a televisão; até mesmo em literatura, que é o que nos interessa por aqui. Portanto, é disso que falarei.
Desde pelo menos o sumérios que há malta a morrer que nem tordos por causa da escrita. Ou porque são pré-personagens das suas próprias histórias, porque penam durante anos infindos até conseguir escrever decentemente no seu idioma, porque se pensa haver excesso de ideias ou falta delas, ou porque se esbarra nesse grande nivelador que é o ter de aguentar a vidinha de todos os dias. Mas Gilgamesh, do alto das muralhas de Uruk, viu como era horrível os homens morrerem no olvido, a vacuidade de toda a vidinha, até da sua, e fez uma jura: lançar-se na maior das aventuras, na busca pela imortalidade. Para que no fim, essa história e o seu nome fossem inscritos numa estela, para todo o sempre. Gilgamesh fez-se à estrada, passou por várias dificuldades, conheceu o segredo da imortalidade, perdeu-o e voltou a Uruk de braços vazios. Mas há outra forma de vencer a morte, uma que é tipicamente humana, e que nunca dependeu dos deuses, e essa alcançou-a.
Ser escritor é e será sempre assim: não é fácil. Não é suposto sê-lo. Se fosse, não teríamos literatura: teríamos cadernetas e cromos. Isso sim é fácil: é só ter uns trocos no bolso e ir à loja; mas para se…
…ser escritor, não é nada fácil. Primeira das primeiríssimas coisas, é preciso saber decentemente sobre o próprio idioma, falado e escrito, de forma a que nos façamos entender, a que percebamos o que queremos dizer, a que ninguém possa apontar erros grosseiros, ninguém possa ter vontade de dizer “Para que vou eu continuar a ler isto se há tanta gente que sabe escrever e esta pessoa não?”. Esse ninguém, não são primordialmente os críticos, nem sequer os bem-pensantes: são os leitores. Porque os leitores não são os nossos pais, os nossos amigos, os nossos inimigos ou sequer os coitados a quem escolhemos mostrar as nossas obras; os leitores são os alienígenas a quem temos de estender a mão e convencer que somos amigos – mesmo que no fim nos queiram apedrejar. Os leitores são toda a gente, desde a que gosta de nós à que nos odeia, a que nos é indiferente e nós para eles; são a empregada a dias e o presidente da nação, o crítico e o editor, o transeunte e o caga-postas, o gajo do café e a miúda do lado, a mãe do facínora e o bêbado que é filho dela, a arquitecta e o enfermeiro. É para ser lido que um escritor existe e se não sabemos escrever com um mínimo de agradabilidade ou de indefinível qualia, não há leitor que connosco persista ou que connosco insista. Para um leitor, o bom escritor acaba por ser aquele para quem…
…ser escritor não é fácil. E também é competitivo como o caraças. Para cada aprendiz de escritor que dá um erro, há vários escritores que não o dão e interessantes livros aos milhares nas livrarias. Porque quererá um leitor perder tempo? E um editor então? Fará isso sentido? Escrever bem parece fácil? Só parecer mesmo. Aprender um idioma decentemente, leva anos e muita bordoada. É desagradável. Faz-nos perder a paciência e a tramontana. A vida vai-se metendo no meio. E pior, a partir de certa altura, quanto mais aprendemos mais nos parece que nada sabemos, coisa que nos exaspera…até que aprendemos um pouco mais e percebemos ser esse o seu encanto. E sim, porque…
…ser escritor não é fácil. Principalmente, não é fácil perceber que dá muito trabalho. Que não é questão de “ter imaginação” (que por aí abunda aos pontapés), de fazer umas “história fixes” (quem quer ser medíocre?), ou de “ter jeitinho para a escrita” (o que não falta é gente com jeitinho; com jeito é que começa a ser difícil; e que sejam escritores sérios então pffff, não são muitos, não senhora, não em comparação com o que fica estirado no chão das fatalidades literárias). Nada disso basta ou é sequer fundamental. O essencial é dado pelo tempo e pela perseverança, é o sangue, suor e lágrimas. É obter experiência e saber usá-la. Batalhar muito com o texto e o uso que dele se quer fazer, o uso que se lhe quer dar. Porque…
…ser escritor não é nada fácil. A história está cheia de escritores que se suicidam, que enlouquecem, que morrem pobres, que morrem odiados e pior, que acabam desconhecidos. Mesmo os que conhecem o sucesso, a maioria acaba mal. Porque será? Porque…
…ser escritor não é nada fácil. É passar a vida a ter editores que não editam, revisores que não revêem, tradutores que traem, leitores que não lêem e críticos que têm as suas próprias agendas. É ir às livrarias e encontrar a sua obra ausente ou metida num canto escuso ou com o mesmo número de exemplares durante meses a fio retrocedendo nas estantes até ao armazém ou à guilhotinagem final. É ficar à espera das boas críticas que não virão, das resenhas que só com sorte, das entrevistas que não aparecem e da publicidade inexistente. Perante tudo isto, é mais do que óbvio que…
…ser escritor não é fácil.
Ser escritor não é para mariquinhas.
Se querem fácil, desistam. Dediquem-se a outras pescas. Poupam trabalhos e chatices, árvores ao ambiente, e provavelmente serão bem mais felizes e realizados. Não terão de se levantar a meio da noite para ir escrever 3 a 5 horas ganhas ao sono, pé ante pé, de modo a não acordar os filhos que sonham como os justos na cama do quarto ao lado. Não terão de se preocupar em trabalhar o dia inteiro em algo que não gostam, para que possam ter meia-hora de escrita no café, antes de terem de correr a ir ajudar na lida da casa. Não terão de aguentar os humores dos maridos e das esposas que não vos compreendem, ou que quando sim, às vezes também têm os seus problemas. Não terão de se perguntar quando é que virá o cheque de tostões prometido meses e meses atrás. Não terão de aturar as personalidades de todos os que não escrevem, ou dos que julgam que o fazem (ou pior ainda, dos que julgam que sabem), e de ainda ter de lhes sorrir, ter de sorrir até ao nosso espelho perante a nossa imagem em farrapos. Não terão de escrever se estiverem doentes, infelizes, maltratados, sorumbáticos, nostálgicos, tristes ou depressivos. Não terão de olhar para o que escrevem e constantemente achar que é uma porcaria, e pior, saber que haverá sempre quem o achará. Não terão de aturar que as pessoas vos digam o que pensam, mesmo que não saibam quem são ou o que fazem, que digam coisas que vocês não gostam de ouvir mesmo que sejam verdade ou pior mesmo que sejam mentira. Não terão de viver sem palmadinhas nas costas, ou com elas e à espera de quando vão levar no toutiço pumbapumbapumba pela frente ou por trás. Não terão de ser confrontados com o que fazem mal, errado ou incorrecto, nem que vos ponham a dizer aquilo que não disseram, a escrever o que não escreveram, a inferir o que não quiseram significar. Não terão de ser avaliados pelos vossos pares, pelos editores, pelos críticos, pelos leitores, e até pelo Zé do boné e pelo canário da Dona Francisca.
Porque ser escritor é escrever sozinho e ser-se avaliado por toda a gente pelo modo como o fazemos. E aguentar. O que se publica não tem bilhete de ida e volta. A opinião dos outros não depende da nossa. É livre, terrível e maravilhosa. Se custa? Custa. É agradável? Poucas vezes. É fácil? Muito raro. É preciso ter força de vontade? É. Muitas vezes parece impossível de continuar? Garantidamente. Portanto, para quê armarem-se em divas? Protesta-se do quê? dos outros darem a opinião que não queremos? Para quê? Mais importante, porquê?
A quem se perguntar como é então possível que alguém queira ser escritor, será tudo mau? Nem pensar nisso! É a melhor coisa do mundo. A vocação perfeita.
Mas não é disso que estou a falar. As partes boas terão de ficar para outro dia. É que, desculpem qualquer coisinha, mas para chegar aí é difícil. Lá isso é. Compõe a maior parte do caminho. E não há volta a dar-lhe. Nem pedindo mãozinhas, cunhas, bolinhos, compreensõezinhas, palavras amigas, explicações, apontamentos, palmadinhas ou subornos. Nem fazendo clubes ou blogues ou fóruns selectos, fechados e cegos. Nem nos fazendo de mais nem de menos do que somos. Nem exibindo arrogâncias deslocadas ou esgrimindo inanidades indefensáveis. Nem fabricando ou fomentando ou gozando questões e problemas e quezílias. Nem reduzindo os problemas a questões geracionais ou paranormais. Há por aí uns quantos milénios de gente que enfrentou as feras da vida, as contrariedades, as dificuldades. Muitos deles foram escritores. Todos perceberam que não é fácil. Ora isso é algo a respeitar sempre. Todos tiveram de aprender a escrever, a esmagadora maioria sem enciclopédias, wikipédias, e mãozinhas de outrem na caneta. Todos com menos bons exemplos que no presente. Todos tiveram de se dar com os seus pares, todos tiveram de conviver e aprender. E para todos não foi fácil.
Que fazer então? Ora, escrever parece-me bem. E se não o fizerem, pois bem, LEIAM.

n.fonseca

segunda-feira, 31 de maio de 2010

DEBATE LIVREIRO . 2 - «PROPORÇÃO INVERSA»

Mercadorias entradas e mercadorias saídas. É evidente ou não? Se o valor das mercadorias saídas é inferior ao das entradas e se se trata de uma situação recorrente e persistente, o caldo está derramado: é um ramo de comércio inviável. Tem mesmo que ser: ou acaba a «proporção inversa» ou é melhor, efectivamente, suspender o debate. É inútil discutir o inviável. Tornar viável o comércio livreiro, quando era fácil, não se quis nem se soube e não se fez. Foi-se aguentando. Claro que isto em referência às «LI» - Livrarias Independentes. Agora que é difícil, não há mais que aguentar: ou se faz ou já não faz falta. Ficarão, naturalmente, dois ou três «reliquianos» para contar as histórias ao Terramarique (Lisboa no ano 3.000, Cândido de Figueiredo, Frenesi), mas mais do que isso não é expectável. Isto é, ou os livreiros se respeitam e são respeitados por serem indispensáveis à dignificação do livro e aos bons níveis de leitura do país ou os editores e os leitores têm o oceano das grandes superfícies, das cadeias de livrarias de grupo (grupos económico-financeiros) e tudo o que é canto onde se possam expor livros. E… acabou-se!

I
Duas vezes por ano o comércio do livro é assunto: por ocasião da Feira do Livro de Lisboa (do Porto também, mas nem tanto assim) e na abertura do Ano Lectivo das Escolas Básicas e Secundários. Mas com que nível? Com que conhecimento de causa? Com que motivações? Barulhinhos!
A Feira do Livro de Lisboa de 2010, a prolongada, deu para protesto, mas já passou. Para o ano, mais do mesmo e só então voltar a levantar a questão das Livrarias Independentes?
Sempre achei uma graça a esta incapacidade que temos de discutir em terra as condições da navegação. Com a Feira ou a Época Escolar a decorrerem pode-se aproveitar para atirar uns foguetes, mas mais nada. É nos entretantos que se podem estudar, analisar, discutir e projectar novos modos e meios de navegar.
Houve cerca de cinquenta anos para preparar a sociedade para o fim do emprego anunciado por Anna Arendt (A Condição Humana). O Plano Nacional de Leitura de 2006 era, em 1986, a iniciativa evidente a lançar. - E o Programa de Bibliotecas? -Teria sido um seu excelente apêndice. Etc.

II
A última oportunidade que teve a APEL de orientar o comércio livreiro como podia, devia e era desejável, de modo a manter a representatividade das Livrarias Independentes que tinha, foi nos anos oitenta. Na altura do aparecimento dos hipermercados e do seu interesse no produto livro. A história do assunto pode fazer-se. A APEL e a Secretaria de Estado da Cultura, depois Ministério da Cultura, jogaram para perdermos.
Os sócios-livreiros eram maioria na associação, mas nunca conseguiram sê-lo nas orientações decididas e praticadas. Perderam sempre. Vitoriosas? A Secretaria de Estado do Comércio e as grandes superfícies comerciais. E os editores? Se quisermos ver isso bem, talvez se percebam algumas contradições.
Dir-se-á: «Mas então? Não foi uma vitória a publicação da Lei do Preço Fixo?».
Resposta: Estudem o assunto. Não se limitem a ter umas impressões e a dizer umas bocas.
Quantos sócios-livreiros houve na APEL? Quantos há actualmente?
E já não há retorno possível, crê-se.
O que é incrível é que nem os livreiros se queiram na APEL nem também se queiram numa sua autónoma associação. Olhem para o lado. Quantos sectores profissionais acreditam tão pouco na vantagem individual da força colectiva?

III
Faz sentido pensar que as Livrarias Independentes fazem falta ao bom futuro da leitura? Continuarão a ser viáveis? Desenvolvimento ou atrofiamento?
Que livrarias? E que novos livreiros se esperam?
Olhar para trás? Cuidado! Agora?
O que é bom é olhar para quem, felizmente, se levanta. Dá muito gosto aos velhos ver gente nova de pé!


M. Medeiros

sábado, 29 de maio de 2010

«A PROPÓSITO DE UMA FEIRA QUE DUROU QUASE UM MÊS...»

No Expresso de hoje, 29 de Maio de 2010, António Guerreiro escreve o artigo «Sobre o arraial das livrarias e a Feira do Livro» («Actual», p. 34), que aconselhamos a ler e a comentar aqui, de onde respigamos «A propósito de uma feira que durou quase um mês, ninguém parece interessado em perguntar se as barracas montadas por tanto tempo não afastam, mais do que seria desejável, as pessoas das livrarias (...)».

E o debate continua...

Isto não fica assim!

CRÓNICA RESUMIDA DE UMA CONFISSÃO

Eu, livro impresso em papel, a exemplo do velho Galileu, venho reconhecer os meus erros em final de vida e pedir perdão por todos os crimes de que sou acusado.
É verdade que, durante séculos, contribuí para a destruição de muitas florestas à força de querer ensinar o mundo a ler.
Em muitas latitudes, paguei caro por isso, ao ser perseguido, censurado, queimado e odiado por quem me temia.
Descobri, então, que a ignorância, além de ser estúpida, quer-se resistente.
Também é verdade que, à minha sombra, muitos abusaram da passividade a que me sujeitei, gastando toneladas de folhas em branco sem nada para dizer.
Acontece ser o desperdício um erro da democracia.
Sei, também, de sobra que neste planeta a deitar por fora, já se encara o espaço como um problema.
Quer nos armazéns das grandes editoras, quer nas lojas, reais ou virtuais, quer ainda nos lares de milhões de leitores, cresce a insinuação de que estou a mais.
Não é segredo para ninguém que o papel acumula-se, atrai os bichinhos, esgota prateleiras, ganha uma cor térrea e o cheiro a bafio de uma longa idade.
Há, também, quem diga que tremi e tremo com a chegada das novas tecnologias. Mais limpas e rápidas na comunicação, encurtam as distâncias entre os pólos da Terra, prometem robôs que venham a falar como seres humanos.
Verdade ou mentira, só de pensar que o livro digital já vem a caminho, quebra-me a vontade de ser D. Quixote, velha personagem a que tanta vez dei corpo.
Meter vinte livros numa pequena caixa é uma tentação mesmo para aqueles que não gostam de ler.
Mas sendo o progresso a arte de ir em frente, com os pés no chão, ainda há quem veja com olhos de gente que a minha permanência vai continuar, mesmo reduzida, no mercado da cultura e da comunicação.
Hábitos de leitura, estilo e tradição, a recordação de boas leituras, o toque do papel são muitas as razões de quem julga haver lugar para todos.
Assim aconteceu com a fotografia, o cinema e o teatro quando da chegada da madre televisão e, mais recentemente, com a Internet.
E, depois, quem sabe, ao fim de tantas voltas ao redor do sol, quantas vezes nós olhamos em frente e damos connosco a olhar para trás.
O vento, o mar e o sol, já por cá andavam antes do carvão, do petróleo, da electricidade e do nuclear entrarem ao serviço.
Agora lhes chamam energias renováveis e revelam-se úteis para a humanidade .
Assim sendo, eu, o livro em papel, embora admita que a minha viagem já esteja a entrar na última estação, ainda circulo à velocidade dos milhares de edições.
- Então que fazer? – perguntam os elementos da tribo do deitar abaixo como sempre fizeram em todas as situações.
Ora bem, senhores, mesmo que o vulcão da Islândia e outros parecidos cubram o céu de cinzas, é de boa prática que autores, editores, livreiros e leitores atentem na mudança com esta certeza.
Em papel ou em suporte digital o livro continuará a existir e a ser procurado por quem não desiste de viver com ele.
Com este argumento, talvez os juízes me reduzam a pena, a morte do livro não é para já.
Tenho a meu favor o muito que aprendi, enquanto esperava dias a fio, que alguém me tirasse de uma prateleiras.
É, pois, sobre a loja que passo a falar.
A loja, esse elo visível do circuito comercial que é o ponto de encontro entre o livro e o leitor, não deve nem pode ficar para trás.
Alguém afirmou que o caminho se faz, começando a andar.
Na expectativa de uma morte lenta, entre lapiseiras baratas made in China e cromos de futebolistas, é bom que os livreiros não baixem os braços e vejam os recursos com que podem contar na venda do livro, ainda em papel.
Caramba, olhem como os putos brincam com a informática, sobre o teclado do computador.
Organizar ficheiros de clientes certos é tratar de forma directa a comunicação.
Animar as lojas, enfeitar as montras, seguir na esteira das campanhas de publicidade dos mais poderosos, criar a notícia feita boca a boca, dar mais vida ao livro no ponto de venda, preparar a tempo os dias festivos, contactar autores, conhecer o produto que vos chega às mãos, falar sobre ele a quem lhe está perto, procurar parceiros… ufff… que cansaço, dá muito trabalho.
Mas também se sabe que ninguém faz milagres por mais forte que seja e cada tentativa é um sinal de vida.
Para morrer de joelhos, morra-se de pé.
Por estranho que pareça, eu, o livro em papel, acredito nisto e para os meus pecados peço a vossa absolvição.

Fernando Bento Gomes

terça-feira, 25 de maio de 2010

DEBATE LIVREIRO . 1 - BILHETE DE ENTRADA

«Bem sabes que o teu lugar já não é no campo. Se ainda queres participar no jogo, bate palmas ou então assobia. O teu lugar agora é na bancada.»
Entra-se com este bilhete. Gratuitamente.
Começado o jogo, na distracção do entusiasmo e do vício, o livreiro velho dá por si entre os jogadores. -E agora? -Vai de jogar!

I
Ao pretendermos chegar a qualquer coisa de prático, não podemos começar ab ovo. Por outro lado, ao não partirmos das origens dos fenómenos, a ignorância saltará imediatamente para o estatuto de variável a ter sempre em grande conta. Mas não temos remédio, há é que saber ser ignorante. Até porque os jogadores que aparecerem vestidos de «sabe-tudo» atrapalharão mais do que aqueles que tiverem consciência das nossas ignorâncias individuais e colectivas.
Em todo o caso, só uma transigência inadmissível nos levaria a prescindir, para o percurso, de umas bússolas, magneticamente a guiar-nos no bom rumo.

II
Os cérebros formatados pela cultura ocidental são de um transcendentalismo medonho! Progredir não devia ser respeitar a natureza das coisas, compreendendo as suas leis e em conformidade desenvolvendo o presente e criando um melhor futuro? Ora! Preferimos impor-lhe as nossas cerebralíssimas ideias, corrigindo e dominando a Natureza, com as nossas leis e os nossos poderes (-E os supostos interesses? -Acrescente-se, p.f.!). A admirável Natureza, para nós, no fundo, está toda errada. Se fossemos nós a criá-la, nada seria como é. Imagine-se a perfeição que seria!
Por exemplo: talvez ainda haja quem lance livros no mercado para serem lidos. Quem conhecer alguém que ainda faça isso, deve anunciá-lo, para que preservemos alguma lucidez ao querermos abordar os problemas do comércio livreiro.
A questão não tem que ver só com o mundo dos livros, é civilizacional. E já dissemos que não é possível começar ab ovo. Apesar de tudo, se o livro não é para ler, então para que é? Antigamente ainda era… (Bom, continuemos no sério!).

III
Alguém tem dúvidas de que o comércio livreiro português é responsável, numa percentagem elevadíssima, pelos baixos níveis de leitura do país?
É quase impossível avançar no debate antes que neste ponto concordem todos os que de algum modo nele quiserem participar, quer por estarem no comércio do livro por dentro, quer pelas suas responsabilidades culturais, sociais ou políticas, quer por simples curiosidade ou amor à causa da leitura. Porquê?
É tão verdade que sem leitores o comércio livreiro não se poderia ter desenvolvido, como que, sem desenvolver o comércio livreiro, a leitura não poderia de modo algum desenvolver-se.

IV
Editores e livreiros, mas também toda a gente que se considere «gente dos livros», por favor!... De diante da já partida cabeça de um velho profissional que nela está cansado de bater, tirem esta parede:
«Onde esteve e está o erro no sistema de comercialização do produto livro? Porque foi que o comércio livreiro não progrediu ao ritmo da alfabetização do país?»
Não lhe falem mais - Oh! Não! - nem do salazarismo, nem da pobreza das gentes. A percentagem inegável desses factores sempre a tomou em consideração, pois os conheceu por experiência própria desde a infância. Tem de haver outras razões. E ele também sabe há quantos anos Abril aconteceu. E viveu intensamente o que há para contar do comércio livreiro destes trinta e seis anos. Tem de haver razões e… responsáveis. «Únicos»? Isso é que era bom!

M. Medeiros

«CADA UM BALANÇA À SUA MANEIRA»

Ainda sobre a Feira do Livro de Lisboa (e não só), recomendamos a leitura de um texto de Joaquim Gonçalves publicado no blogue da livraria A das Artes, de Sines.

E quando passar por Sines, faça uma visita à livraria.
Caro Joaquim,

Não desistas. ISTO NÃO FICA ASSIM!

sábado, 22 de maio de 2010

PARABÉNS!

Fernando Bento Gomes, agora agraciado com a medalha de mérito da SPA, é um dos membros fundadores do Encontro Livreiro e estamos, por isso, muito felizes com esta merecida distinção.
Aqui fica o nosso abraço de parabéns ao escritor e amigo.

Encontro Livreiro

«FEIRA DO LIVRO: ESTICAR, ESTICAR»

Com a permissão da autora, a quem agradecemos, deixamos aqui, para leitura e comentários, o texto que publicou no «Cadeirão Voltaire» acerca do prolongamento da Feira do Livro de Lisboa.

Com a semana extra da Feira do Livro a chegar ao fim, começa a ser tempo de balanço. O das contas, há-de fazê-lo quem percebe de contas. Já o das opiniões que se manifestaram contra, e que pouco eco parecem ter tido na decisão da APEL, pode começar a ser feito. Sobre as razões que levaram a APEL a prolongar a Feira, não pode este blog dizer mais do que aquilo que foi divulgado nos comunicados e na comunicação social: a chuva de um certo fim de semana, a visita do Papa (que teria afastado gente da Feira, apesar de eu própria a ter visto cheia como poucas vezes durante a semana no dia em que o papamóvel cortava o trânsito em várias ruas da capital), o Benfica campeão… Quanto ao processo de decisão e à participação e sentido de voto dos associados da APEL, ainda espero resposta a um mail enviado ontem. Do ponto de vista dos frequentadores da Feira, não haverá muito a dizer. É lógico que quem gosta de subir e descer o Parque por entre as bancas de livros não se importa de poder fazê-lo durante mais uma semana, e por mim falo. Mas como dizia um editor, numa das noites da Feira, é preciso perceber que onde os livros se vendem é nas livrarias. Ou seja, aquilo que começou por ser um modo de escoar fundos e que entretanto se transformou numa livraria de novidades ao ar livre e com descontos acima do imaginável é um momento alto do ano editorial, mas não pode ser o ano editorial. Se a Feira esgotar a venda de livros durante muito tempo (afastando os leitores das livrarias durante o tempo que a antecede, durante o tempo que dura e durante o tempo que se segue, que é o que, naturalmente, costuma acontecer), o esforço de recuperação das livrarias pode não conseguir suportar a queda das vendas. Resultados: muitas livrarias não farão encomendas durante os meses que se seguem à Feira, outras não terão capacidade imediata para repor stocks, e algumas correrão, mesmo, o risco de fechar portas (e isto não é um exagero, ainda por cima em tempos de crise). E aquilo que pode ter sido muito vantajoso para as editoras, que venderam livros com descontos acima da média, ainda por cima durante mais uma semana relativamente ao que era habitual para este período (e aqui impõe-se a pergunta: a Lei do Preço Fixo permite vendas com descontos desta ordem durante tantos dias seguidos?), pode deixar de o ser quando quiserem colocar as novidades de Junho e Julho nas livrarias e só conseguirem fazê-lo nas grandes superfícies livreiras. Talvez isso não incomode a maioria das editoras, sobretudo as de grande dimensão. Certo é que muitas editoras se manifestaram contrárias ao prolongamento da Feira durante mais uma semana (entre elas a Assírio & Alvim e a Antígona, que eu tenha conhecimento directo), e que alguns livreiros (sócios da APEL? consultados perante a proposta de prolongamento?) o fizeram igualmente. Aqui ficam os links para os textos que fui apanhando sobre o tema (e onde importa ler igualmente os comentários), e que bem podiam ser, juntamente com mais opiniões, favoráveis ou contrárias, matéria para reflexão sobre o ‘mercado do livro’ que estamos a alimentar: Pó dos Livros, Culsete e Trama. É possível que outros se acrescentem entretanto.

(E já se acrescentam: o editor da Frenesi tem uma opinião diferente e publica-a aqui).

Sara Figueiredo Costa

O «PROTESTO LIVREIRO» GERADOR DE UM «DEBATE LIVREIRO»?

Tropeçar, só por si, não é cair. E talvez não seja preciso ir mais devagar para que o debate continue de pé. Basta que ninguém o queira ao nível da conhecida Escola de Debate Portuguesa, que ao longo da sua longa existência tanto ilustrou o país. Como se sabe! E não se sabe apenas pelo permanente tempo de antena que tem na actualidade essa nossa excelente Escola nas televisões. Uma cultura de debate típica muito antiga!
Há por aí quem queira ler as Farpas? Não aquela coisa, interessante em si, mas que enganou muita gente «culta». Os livreiros conhecem o caso.
Uma livraria que de há muito tempo tem, como «património próprio», os volumes da última edição, a da Clássica Editora, terá muito gosto em receber algum leitor interessado nessa valiosa herança que nos deixou Ramalho Ortigão. Se lhe parecer que se trata de um leitor a quem valha a pena chamar a atenção para outras edições «patrimoniais», o livreiro até lhe vai propor a leitura de Lisboa no ano 3.000. Honra ao editor que desencantou tal preciosidade!
Concluamos, pois, por agora.
Há debate aberto. Só por isso, para um livreiro que não quer sentir-se uma excepção, como é óbvio, terá valido a pena a Feira do Livro de Lisboa de 2010 ter sido prolongada, como tantas outras vezes já foi, com estas ou aquelas razões, ao longo dos seus oitenta anos.
Já não vale a pena discutir mais a feira deste ano, embora sejam muito diferentes as situações de quem ganhou e de quem perdeu. Mas o debate livreiro pode ser que sim, que possa prosseguir, com tempo, interrogações e interesse por abrir caminho. O comércio do livro é um caso de vergonha nacional muito grave e há muito tempo!...
«O debate aceso das ideias pode tropeçar», mas, por favor, não o deixem cair. Não queiram merecer a acusão de «únicos responsáveis pelo declínio» de um debate há tantos anos esperado!
«Únicos responsáveis»!... E ainda mais do que a ouvir custa a crer que se diga isto! «Únicos»? Há as histórias de um lado. E as do outro?
Mas não dá para tropeçar. Dá é para debater muito a fundo as responsabilidades de todos. Se for para debater bem longe dos níveis de discussão praticados na Escola!

M. Medeiros

sexta-feira, 21 de maio de 2010

LIVREIRO ENCALORADO

De Joaquim Gonçalves, da A das Artes de Sines e participante activo do Encontro Livreiro, recebemos um belísssimo texto que passa de imediato para o blogue e fica à disposição de mais leituras e comentários. Também pode ser lido no blogue da livraria.

Hoje está muito calor. Os vidros da montra e das portas estão cobertos de mosquitos irritantes. No muro ali em frente, do outro lado da rua, enfileiram-se milhares de minúsculas formigas.
O livreiro fecha as portas para não ser comido pelos mosquitos, decomposto pelas formigas, derretido pelo calor. Encosta as portas mas deixa a tabuleta «ABERTO». Olha para o computador e sente saudades do livro que deixou na página 384. Ali mesmo, onde Sophie e Hans se preparam para traduzir Bocage e Leopardi. O Viajante do Século. Que deleite!
Passam poucos minutos das três da tarde e já espreitou a Internet: As últimas da ópera bufa dos impostos; da Feira do Livro de Lisboa que, este ano, teima em não acabar; daa Feira do Livro do Porto que, este ano, arrecadou para si toda a polémica; espreitou, muito de mansinho, para ela não dar por isso, a conta no banco… Melhor dito: a “desconta”(!) do banco!
O livreiro não sai de trás do balcão e olha para O Último Leitor e Santa Maria do Circo que, numa das mesas em frente, o chamam. Lá perto, O Físico Prodigioso não consegue mezinhas para esticar o tempo. Tempo para ler o que é preciso. O que apetece.
Mais uma mirada à Internet, outra vez um saltinho aos blogues literários e salta a palavra “bibliodiversidade”. Sim, é o que oferecem as livrarias independentes. Mas independentes de quê? De quem? Se o livreiro fosse independente queria ser livro! Isso sim! Diria o que quisesse. Faria o que lhe desse na real gana… até que o queimassem… Ou guilhotinassem!
Mas o livreiro não é livro. É, apenas, livreiro. Aliás, talvez nem isso! Basta ir à Repartição de Finanças e procurar pela lista de profissões. Não há.
Na Argentina, chamou-nos para isso a atenção o blogue da revista Ler, foi fundada a primeira escola de livreiros do País. Na apresentação dizia o respectivo Secretário Estado da Cultura, Jorge Coscia: «La palabra "librero" adquirió un gran prestigio en la cultura argentina. Aparece en el paradigma primero como un hombre que ama y conoce los libros y está grabada a fuego en esta hermosa tradición de la actividad editorial».
Atrás do balcão o livreiro - português, de província, ainda por cima - dá uma espreitadela para lá da montra, para lá dos mosquitos – alguém mira os livros expostos enquanto dura um cigarro. O cigarro acaba-se e a beata vai para o chão. A senhora - é uma senhora - apaga-o com a ponta bicuda do sapato não vá incendiar as pedras da calçada. O livreiro baixa os braços do teclado e prepara-se para ir buscar a vassoura. Livreiro todo-o-terreno, como dizia a colega Lena ao queixar-se das limpezas, dos caixotes, das facturas, das prateleiras, de tanta coisa e da falta de tudo.
O calor não dá tréguas. Nada dá tréguas. Ninguém dá tréguas.
O tempo, principalmente, o tempo, o do relógio é que não dá tréguas mesmo. Na sua construção do passado, da história, da memória.

Da memória do que queríamos ter feito.

O livreiro livra-se, fecha a porta e vai bugiar.

Joaquim Gonçalves

quinta-feira, 20 de maio de 2010

«PROTESTO LIVREIRO»

Acabo de ler mais uma vez o «Protesto Livreiro» (Jaime Bulhosa, «livrariapodoslivros.blogspot.com», segunda-feira, Maio 17).
Diz muito e muito mais poderia ser dito pelo livreiro Jaime Bulhosa e por muitos outros.
Muitos outros? Se se deixassem de pequenices, era todos a uma só voz!
De qualquer modo, agora já tenho uma boa razão para suportar mais este abuso do prolongamento: fez aparecer este protesto livreiro.
Ainda bem, então, que os editores, para quem a sua feira não é um supermercado, mas um acontecimento cultural, se decidiram pelo prolongamento?
Até pode haver quem seja dessa opinião. Se nada há fazer, já tanto faz!
«Isto é que vai uma crise!»

M. Medeiros