JÁ?
Sim... é possível.
Um lembrete [apenas para os mais distraídos]: é já no próximo domingo, dia 27 de Março de 2011, a partir das 15 horas, na Livraria Culsete (Setúbal).Sentado frente ao ecrã, com o frio da noite lá fora, longe deste ambiente vivo e agradável graças a um aquecedor a gás, recordo os lugares de ler da minha infância e juventude. Eram sítios e espaços maravilhosos, de regras claras e distintas, com um imperativo maravilhoso: fruir o livro. Eram lugares onde eu podia largar tudo e mergulhar num livro.
No meu caso, identifico-os bem. A livraria e a tabacaria do meu bairro e, como é natural, a casa de meus pais. Em casa havia livros de todos os tipos, temas e feitios. Não eram muitos mas supriam todas as minhas necessidades e prazeres. Quando descobri que não me chegavam e que lá fora havia um mundo imenso de livros, livrarias e bibliotecas, fiquei maravilhado. Iniciei então uma viagem sem regresso, do tipo que todos reconhecemos (mesmo os que não lêem).
O encontro com o livro e a leitura é por vezes o simples resultado da disponibilidade. De livros e de tempo. É espantosa a quantidade de tempo que existe quando somos mais novos. Todavia, acredito que o mais determinante nesse encontro não é nem o espaço, nem o tempo, nem sequer uma forte presença física de livros.
Por isso, ao desfiar a memória dos lugares onde li livros, reparo subitamente que o importante foram as pessoas que neles estavam.
As pessoas que faziam parte da minha paisagem em qualquer lado que eu estivesse ou fosse eram naturalmente os meus pais e os meus avós. Pessoas que para mim foram e são como lugares num sentido latino. Presenças fulcrais, centrípetas e aconchegantes. Pessoas que me deixaram sonhar e que me mostraram como fazê-lo. Vejo o meu avô sentado no sofá da sala embrenhado num jornal ou num romance. Sinto a minha avó perto de mim, ajudando-me a ler os livros de juventude da minha mãe. Aqueço-me nos serões de leitura dos Lusíadas à beira da cama de minha mãe. Descanso, mesmo nas noites em que acordei estremunhado com algo e dei com o meu pai lendo, sentado na cama.
Mais tarde, saía de casa para ir a lugares com pessoas. Com as senhoras simpáticas da livraria do bairro que não só me aturavam as perguntas, como o hábito de ler sentado no chão ou encostado aos escaparates. A da tabacaria que me deixava manusear dicionários ilustrados e Júlio Verne sem ter de os comprar. O alfarrabista que macambúzio não comentava se eu pegasse num volume de Spengler, noutro de Durrell e num Argonauta. Posso dizer que a primeira coisa que comprei para mim em toda a minha vida, foi um livro e que não me esqueço dos nervos que senti ou do sorriso de lábios cuidadosamente irreflectidos da empregada ao dar-me o troco.
Os livros, apesar de maravilhosos, nada são sem as gentes que o suportam, amam e acarinham, nada sem os que os lêem, que os promovem, que os ensinam e que os tornam, como se costuma dizer hoje, virais. Os livros possuem o péssimo hábito de não serem auto-suficientes. Precisam de pessoas como nós para terem vida, para serem vida.
E quantos mais formos, mais persistiremos contra o apagar da luz.
Nuno Fonseca
Orgia Literária / Fundador do Encontro Livreiro
A Livraria Letra Livre, que também está convidada e convida outras gentes do livro, divulga o II Encontro Livreiro. Obrigado e venham daí até Setúbal.
«Isabel Castanheira dedica-se aos livros desde 1976, altura em que abriu a sua livraria Loja 107. Hoje é um lugar de apreço do circuito livreiro português, onde se pode saber e conversar sobre tudo o que diz respeito ao mundo dos livros e de quem dele faz parte.»
Pedro Vieira, o Irmão Lúcia, o ilustrador (da Ler e não só), o apresentador (com Catarina Homem Marques) do Ah, a Literatura! (Canal Q), o escritor que acaba de lançar o seu primeiro livro, Última Paragem, Massamá (Quetzal) e que confessa, nesta entrevista, «gosto muito da vírgula, das quebras e das graças que se podem fazer, são infinitas, de facto», o livreiro (Bulhosa, Byblos, Almedina), mas sobretudo o amigo que quis mas não pôde, por motivos de força maior, participar no I Encontro Livreiro - fica aqui o convite público para participares no Encontro deste ano -, ofereceu-nos este «rabisco» que, a partir de hoje, passa a ser utilizado na divulgação deste convívio / encontro das «gentes do livro» que, no dizer da Sara do Cadeirão Voltaire, reunirá em Setúbal, no próximo dia 27, domingo a partir das 15 horas, «gente que lê, que escreve sobre o que lê, que frequenta as livrarias, que edita, que escreve para os outros lerem, que gosta de livros, em suma.»
