sexta-feira, 28 de outubro de 2011

28 DE OUTUBRO | 29 DE OUTUBRO * Congresso do Livro 2011 * O Presente e o Futuro das Livrarias: Jaime Bulhosa – Pó dos Livros

A comunicação de Jaime Bulhosa está aprazada para amanhã. Depois talvez tenhamos o privilégio de a ler.

E de véspera o que digo?…
Ou não digo?
Acho melhor não dizer e limitar-me a traduzir…
Como naquela arte curiosa que se chama «tradução de sentimentos».

Deixemo-nos de ser uns párias que nem se conformam com a sua condição nem se arriscam a sair dela.
Livreiros com o estatuto que merecermos e não com aquele que nos quiserem dar ou negar. Ou queremos ou não queremos. Ou somos capazes ou não somos. Ou temos e tomamos o nosso lugar ou ponhamo-nos na rua, não esperando que nos ponham. Este ponto é o essencial da Revolta das Fontes.
A falta de respeito dos outros pode acordar-nos como quem apanha uma canelada e fica auh! auh! auh!. E até podemos com isso despertar algumas consciências mais compassivas e bem intencionadas. Mas certamente que os condutores da carroça não vão sentir-se na obrigação de aliviar os burros. Que puxem! Sejam os burros que sempre e só souberam ser.
Não esperar que nos respeitem, respeitar-nos de tal modo que quem deve respeitar-nos se sinta levado a fazê-lo. Porque tudo gira à volta de sermos capazes de fazer o que é preciso e agora é inadiável: revermos a nossa confiança uns nos outros e perdermos essa ideia de que os pequeninos podem ir cada um fazendo o seu jogo e cada um irá conseguir o que vê que os outros não conseguem.
Como é que se diz? «Tá de caras».

L. V.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A REVOLTA DAS FONTES (IV)

«MORTE ÀS LIVRARIAS, JÁ!»
E O CORO REPETE: JÁ! JÁ! JÁ!
















AMIGO JOAQUIM GONÇALVES, que grito tão vibrante, este que nos chega pelo seu e pelo nosso blogue!
Tão afinado e de esplêndida coragem!

Aquelas pessoas «cultas e boas leitoras» que em qualquer sítio deviam ser dos visitantes mais constantes das livrarias e que mandam trazer para a aula seguinte livros que há anos e anos não estão disponíveis... Mesmo dos que estão disponíveis, quantos exemplares estão à venda nos cinquenta quilómetros mais próximos da escola de modo a que uma turma ou mais possa cumprir?

Aqueles que... Pois! Mas serão os mais responsáveis, esses educadores?
Responsáveis mais uns do que outros, concordo que haja quem... Gente da educação, certamente.
Mas a minha hipótese de melhor resposta é esta: todos somos responsáveis. Fora os outros que o foram e já cá não andam. Que não lhes aconteça mal nenhum...
Responsáveis todos, mesmo quando cada um possa estar e esteja inocente.
Queiramos ou não queiramos, nas cabeçadas colectivas toda a gente parte a cabeça, mesmo quem tinha a sua guardada na algibeira. Há quanto tempo se podia e devia ter ouvido este grito e os outros que já aqui vieram e os que, pois não é possível parar, estão por aí a chegar'?

Como? Ah, a raiva!
Qual? Esta minha?
Acha ou não que é justificada?
Naquele tempo o meu amigo e outros da sua «equipa», isto é, dos novos livreiros, não estavam lá.
Como é que se podia jogar com quem ainda não tinha chegado ao campo?
E agora?
Agora chegam vocês e já não tenho as canelas que o jogo precisa, nem a vossa capacidade e energia tão necessárias para atirar o barco para a frente em vez de para o fundo!...

Dá raiva!
Porque eu hei-de teimar em dizer isto: a derrota e o afundamento estão longe de ser uma fatalidade.
Se soubermos navegar à bolina, isto até pode ser agora...!
A necessária clarividência sobre o assunto livreiros, livrarias e seu futuro ainda está muito longe do eficaz.
Nem chegará sem que...

Unir os livreiros e as livrarias JÁ!
O que é isto que agora ouço? Parece-me que... Será?

Será o mesmo coro que agora está repetindo também este «já»?
Ora ouçam:
«JÁ! JÁ! JÁ!»

M. Medeiros

A REVOLTA DAS FONTES (III)


MORTE ÀS LIVRARIAS! JÁ!

Joaquim Gonçalves

Ler texto no blogue d'A das Artes

em matéria de livros tudo quanto sei só serve para mostrar o quanto ignoro

«Desde menino coleciono livros. Passei toda a minha vida no meio deles e grande parte de meus melhores anos dirigindo bibliotecas na minha terra e no estrangeiro.
Hoje, fora da vida ativa enfim, tentando gozar o otium cum dignitate apesar da inflação, cuido dos meus livros e nada mais.
Esse longo convívio com livros de toda sorte ensinou-me alguma coisa sobre eles, creio eu, mas ensinou-me, principalmente, que em matéria de livros tudo quanto sei só serve para mostrar o quanto ignoro.
Não há dia que não aprenda alguma coisa. É, talvez, por isso que não me canso de manuseá-los, de folheá-los, de lê-los e de falar deles.»

Bibliófilo Aprendiz. Rubens Borba de Moraes. Letra Livre, Lisboa, 2011.

sábado, 22 de outubro de 2011

ainda para mais tratando-se de uma livraria

«(...)

Eu entendo que uma empresa possa estar a passar dificuldades, ainda para mais tratando-se de uma livraria, no meio desta imensa crise económica. Já não entendo, tão facilmente, porque é que a situação não foi devida e atempadamente explicada aos funcionários da Bulhosa. Desejo, sinceramente, que a situação se resolva rapidamente e da melhor maneira possível, tanto para os funcionários como para os proprietários.»

Jaime Bulhosa, in blogue Pó dos Livros

A nossa Sara também fala sobre o assunto no seu Cadeirão Voltaire


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

vou contigo, Vida, como se fosses a minha namorada e eu te levasse inteira nos meus braços!

(auto-retrato, 1959)

Manuel da Fonseca
[Santiago do Cacém, 15/X/1911 - Lisboa, 11/III/1993]

Faz hoje 100 anos que nasceu Manuel da Fonseca e o nosso Livreiro Velho não se esqueceu, nem da data, nem de uma sua visita a Setúbal, nem do seu encontro e convívio com o Autor, noite dentro, na sua casa em Santiago do Cacém.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Um breve cartão aberto

«[...]

Mesmo que não chegue à Índia, direi daqui, a quem me quer morto, que prefiro a morte à Bartolomeu Dias. Não desembarco! Sepultura no mar, mas só depois de…

[...]»

L. V., in «Chapéu e Bengala» - 12-X-2011.

A REVOLTA DAS FONTES (II)

«Livreiro ressabiado»?

«[...]

Já me aconteceu ter de ir a um concorrente comprar um livro para servir um cliente. Porque esse livro foi traduzido e editado por um fornecedor meu mas vendido em exclusivo para esse meu concorrente. Que merda de lei de concorrência é esta?

E, desta vez, nem falo da defunta Lei do Preço Fixo do Livro! É que, se formos por aí, o papel não chega para crucificar – justamente – os impérios do consumo e quem lhes dá cobertura.

Se isto é ressabiamento, eu sou o primeiro dos ressabiados.

[...]»


{Excerto de um texto do livreiro Joaquim Gonçalves que deve ser lido na íntegra por todas as «gentes do livro» e não apenas pelos livreiros das livrarias. Este não é um problema exclusivo desses livreiros, nem sequer apenas dos pequenos livreiros}

Entra-se, olha-se em volta, pega-se na peça, revira-se, apalpa-se, cheira-se e...

Que a Leya eram pérolas a porcos, parece-me mais ou menos pacífico para a vox leitora, para a doutrina oficial da secretaria-destado-da-cultura e até mesmo para a jurisprudência desportiva.

“Cada um é pró que nasse” e Paes do Amaral deve ter nascido a pensar que os livros tinham quatro rodas e davam guito em 24 horas de Le Mans. Lá como cá, corre por desporto e por conta do "accionista". E sai sempre a ganhar. Os livros, os autores e os leitores “fuckim”, como diria outro grande mecenas da cultura pimba.

Afinal a culpa não é bem dele, mas muito mais de quem se lhe vendeu assim tão mal, tão sem defender os autores que tinha no portfólio.

Isto do lado do fornecedor. Do lado do consumidor, este devia saber que, dar o cartão de crédito à morte e pagar à cabeça, não augura nunca nada de bom. Nem podia. E-books e “mp3zes” compram-se automaticamente na net, os livros em papel compram-se calmamente nas livrarias. Com prateleiras e pessoas por trás delas. Em dias de sorte, algumas até sabem ler, sorriem ao passarmos e conhecem mesmo os autores mais obscuros.

Entra-se, olha-se em volta, pega-se na peça, revira-se, apalpa-se, cheira-se e, em certos casos, crava-se o desconto. Não tem nada que enganar. E só se paga à saída.

José Xavier Ezequiel, 11/outubro/2011

[Texto que nos foi enviado pelo amigo José Xavier Ezequiel, a quem agradecemos, como comentário à situação descrita AQUI.]

E voltamos ao mesmo...

«(...) E voltamos ao mesmo, pensarão os leitores. O problema é que o mesmo acontece diariamente nas livrarias (...)»

terça-feira, 11 de outubro de 2011

sábado, 8 de outubro de 2011

O mar de Outubro brilha frio / com sua barbatana de miragens.

QUADRO DO TEMPO

O mar de Outubro brilha frio
com sua barbatana de miragens.

Nada fica que recorde
a alucinação branca dos regatos.

Luz de âmbar sobre a aldeia
e todos os sons em voo lento.

O hieróglifo de um ladrilho
pintado no ar sobre o jardim

onde a fruta amarela engana
a árvore e se deixa cair

TOMAS TRANSTRÖMER

In Poetas Suecos, Antologia em versão directa de Silva Duarte (Inédita)

Ler também a nota final, pela pena do nosso Livreiro Velho, in «Chapéu e Bengala».

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

- Avô, o que é uma livraria?


Um texto do livreiro Jaime Bulhosa, da Pó dos Livros, que recomendamos.

E aproveitamos para acrescentar uma frase que lançámos num dos nossos Encontros e que, se quiser, nos pode ajudar a divulgar:
Todos os dias são bons para visitar uma livraria.
Não permita que as livrarias se transformem numa «espécie em vias de extinção»!
OBRIGADO.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Um bom livro é...


«Um bom livro é como um jardim que se leva no bolso.» (provérbio árabe)


Lido e recolhido por João Reis Ribeiro em: José H. Barros de Oliveira. Sabedoria Popular - Provérbios Portugueses e Estrangeiros. Prior Velho: Paulinas, 2004.
Publicado em «Nesta Hora» e enviado para o «Isto Não Fica Assim!». Obrigado.

domingo, 2 de outubro de 2011

Gosto de ver as estantes atulhadas


«Gosto de ver as estantes atulhadas, cheias de nomes mais ou menos familiares. Deleita-me saber que estou rodeado por uma espécie de inventário da minha vida, com prenúncios do futuro. Gosto de descobrir, em volumes quase esquecidos, traços do leitor que fui em tempos - apontamentos, bilhetes de autocarro, pedaços de papel com nomes e números misteriosos, uma data e um lugar ocasionais na guarda do livro que me transportam a um certo café, a um quarto de um hotel distante, a um Verão longínquo.»

Alberto Manguel, Uma História da Leitura.


Livraria Letra Livre
www.letralivre.com

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

«os escritores fazem as literaturas nacionais e os tradutores fazem a literatura universal.»

Hoje, Dia Mundial do Tradutor, publicamos o discurso de agradecimento pelo Prémio de Tradução Casa da América Latina /Banif 2011 - atribuído a Cristina Rodriguez e Artur Guerra pela tradução de 2666, de Roberto Bolaño - proferido no dia 13 de Setembro de 2011 por ocasião da cerimónia oficial. Aos tradutores, membros fundadores do Encontro Livreiro, os nossos parabéns.


Este momento que vivemos aqui hoje em conjunto oferece-nos acima de tudo a oportunidade de agradecer e de celebrar. Vamos saboreá-lo porque os dias como os de hoje costumam ser contados e recordados para a vida. Receber este prémio é uma honra e gostaríamos de partilhá-la com algumas pessoas que a tornaram possível. Agradecemos em primeiro lugar a todos os membros do júri que nos distinguiram com o prémio de tradução literária da Casa da América Latina/Banif de 2011. É para nós imprescindível agradecer à Quetzal e em especial ao Francisco José Viegas, seu director na época e que nos confiou esta tarefa a contra-relógio. Tivemos meia dúzia de meses para traduzir perto de mil páginas em que só a revisão nos levou um mês, com fins de semana incluídos. Decidimos dividir entre nós as cinco partes que compõem o livro de modo a poder responder à urgência da sua publicação. Sabíamos pela nossa longa experiência de trabalho a dois que essa divisão não iria prejudicar o conjunto da obra, mas para evitar qualquer disparidade de critérios combinámos que a revisão seria feita de modo diferente: um de nós ia lendo a versão portuguesa por si traduzida e o outro ia seguindo o texto original para não deixar passar uma palavra sem sentido, um salto de linha, uma referência inadvertida, fazendo sugestões ou propondo alterações. O nosso trabalho em conjunto permite-nos a entreajuda, ultrapassando a dificuldade que a tradução como acto solitário implica. O texto de Bolaño exprime as multifacetadas dimensões de uma prática de comunicação que exige constantemente prévia interpretação hermenêutica e atenção aos diversos níveis do texto. Texto este que se descobre num labirinto de relações sistémicas que vai abrindo passagens para novas interpretações cujos limites não são apenas do domínio linguístico, mas também estético. Tivemos muitas dúvidas, expressões chilenas e mexicanas que não conseguíamos identificar, entrámos em contacto com outros colegas, trocámos impressões, procurámos na tradução inglesa soluções milagrosas para as últimas indecisões. Sim, porque sabíamos que a tradutora norte-americana viajara até ao México durante o seu trabalho para melhor absorver a atmosfera de grande parte da acção. Luxos vedados aos tradutores literários portugueses, já se sabe, que dificilmente vivem em exclusivo da tradução. Com ou sem crises.

Quem melhor que Roberto Bolaño para entender as vicissitudes económicas de quem se dedica à arte de escrever? Durante toda a sua vida fez de tudo um pouco para não abdicar do seu sonho, trabalhava de dia para escrever à noite, nenhuma tarefa lhe pareceu menor para a sua subsistência e dos seus se ela lhe permitisse continuar a construir o universo literário que nos foi oferecendo em cada livro. Esta dedicação e amor à escrita, descoberta à medida que íamos traduzindo e conhecendo Roberto Bolaño, tornou-se para nós numa fonte de inspiração e admiração. Estamos desconfiados que o fabuloso autor de 2666, “lá do seu assento etéreo” provavelmente velou para que a sua obra fosse tratada com amor. E isso podemos garantir que foi. Amor esse que tem continuado fiel e mais alicerçado nos livros que posteriormente temos vindo a traduzir: O Terceiro Reich, A Literatura Nazi nas Américas, Os Dissabores do Verdadeiro Polícia, A Pista de Gelo.

Soubemos, entretanto, que o tradutor alemão de 2666 também recebeu um prémio pelo seu trabalho. Embora já fosse um autor consagrado e premiado, Bolaño ficou mais conhecido no mundo inteiro graças à brilhante tradução norte-americana que ajudou a colocá-lo, já depois da sua morte, no topo de vendas nos Estados Unidos. Coincidência ou não, a verdade é que como nos disse pessoalmente José Saramago e mais tarde escreveu: “os escritores fazem as literaturas nacionais e os tradutores fazem a literatura universal. Sem os tradutores, nós os escritores (…) estaríamos condenados a viver fechados na nossa língua.”

Obrigado Roberto Bolaño, obrigado José Saramago. E a todos vós por estardes aqui connosco.

Cristina Rodriguez e Artur Guerra

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

«um encontro amigável»

«[...]
Há tanto que fazer e tanta gente paralisada como se nada se pudesse fazer… Por favor, abram caminho! Quando eu fechar ou morrer, daqui a muuuuuuiiiiiiiiiito tempo, por favor, não se calem! Discutam sempre! Abram caminho!
L. V.»

Estamos aqui, no avesso do «avesso do BI»

«[...]
3

«Se se continua a editar é porque vale a pena».

Mais uma, e com esta me fico: também estou a concordar.

Quanto mais se editar, melhor. Quanto mais palha, mais grão. É preciso mais cuidado para encontrar o grão? Responder com uma melhor crítica e melhores livreiros. Acima de tudo com os melhores leitores, os que sabem o que querem.

O meu cumprimento:

Passar bem, mesmo aí, no avesso do seu B. I.!
Só esse avesso me impede, depois deste encontro no meu, de lhe propor um encontro amigável no seu campo.

L. V.»

Parte final de um texto do «Livreiro Velho», o nosso Manuel Medeiros da Culsete, que vale a pena ler e reler na íntegra, bem como o texto imediatamente anterior, assim como um comentário, o primeiro e para já único, assinado pelo «Anónimo». Bem vindo(a) à conversa! E já sabe: o próximo Encontro é no dia 25 de Março de 2012 e, aqui, sempre que quiser(mos).

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Aplaudir, sim! Por favor…


«(...)
Como é possível criar um equilíbrio entre editores e livrarias independentes que torne casos destes ou impossíveis ou determinantes de limpeza geral de confusões?
Se os editores se permitem abusar dos livreiros é porque estão convencidos de que estes não se safam sem eles. Os livreiros têm é que aguentar e engolir. Não têm peso.
Será mesmo que não têm? Ou não são capazes de dar um impulso colectivo ao seu lugar no Mundo do Livro?
(...)


L.V., Chapéu e Bengala

terça-feira, 20 de setembro de 2011

«Uma notícia destas logo de manhã acaba com o dia de um livreiro.»

«[...]
Não se trata de números, nem de vendas, nem de milhões de euros (esses estão só no título do livro!), mas de uma missão: a de pôr pessoas a ler para que um dia este país possa ser diferente, e melhor.
[...]»



«Um dia de fúria»Link

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

o cheiro do papel invade os sentidos e mostra que tudo valeu a pena


«A livreira desconhecida já tem o cheiro dos livros tristes na pele.

E o coração, como é feito de papel, não pode deixar de bater.»

Marta Peixoto, «Os Livros Tristes»

enquanto o último livro não cair da prateleira, estaremos aqui


«Hoje fazemos DOIS anos de existência! Obrigada a todos os que sempre nos acompanharam. Foram vinte e quatro meses de luta árdua que promete continuar sem dar tréguas, mas enquanto houver AMOR aos livros, enquanto o último livro não cair da prateleira, estaremos aqui.»

Capítulos Soltos
, 19-IX-2011.


PARABÉNS!

«Dançamos todos, uns com os outros»

(clicar na imagem para ler texto completo)

«[...]

7
Em PAPEL A MAIS, na pág. 227, Francisco José Viegas pode já não se lembrar, mas estou em crer que não passou por cima destas linhas:

"Posso pedir a alguém, quer do Ministério da Cultura quer do Ministério da Educação, que preste a devida atenção ao que Niels Fischer fez e continua a fazer por todo o nosso país pela divulgação da vida e da obra de Hans Christian Andersen?".

L. V.»

sábado, 17 de setembro de 2011

Com votos de futuro aberto ao melhor

Daqui
http://encontrolivreiro.blogspot.com/,

vim até aqui:
http://fontedeletras.blogspot.com/2011/09/fonte-de-letras-established-since.html

Fiquei emocionado, ilustrado e deliciado. Congratulemo-nos todos, com esta página, este poema, este retrato. Mote para um conto-canto-investigação que muito mais mostraria do muito que neste belo texto vai contido, no não-contado, apenas sugerido.
Com licença, vou calar-me e ouçam, melhor dito, leiam, p. f.

Fonte de Letras ESTABLISHED SINCE 16.09.2000 numa pequena cidade do interior.
Numa terra pequena há “capelinhas” - os da rua de cima que não gostam dos do clube do amarelo inimigos dos do partido preto e os que sempre tiveram o sonho de ter uma livraria – só um equilibrista se aguenta sem mossas.
Numa terra pequena as pessoas acabam por ser sempre as mesmas e, se às vezes lhes apetece tagarelar e até fazer confidências, noutros dias é preciso adivinhar que é "dia não”. Um livreiro é um bartender.
Numa terra pequena se o livreiro vai ao ginásio ou à piscina pública tem que se despir e tomar duche ao lado dos seus clientes. No dia seguinte voltamos a dizer “bom dia” com cerimónia.
Numa terra pequena ter uma porta aberta e opinião cívica é estar sujeito a perder clientes, às vezes aqueles que compram mais.
Numa terra pequena um livreiro escolhe a escola dos filhos pelo professor que conhece os melhores livros infantis. Que sorte!
Numa terra pequena conhecem-se as pessoas pelos livros que lêem e sabe-se quem são as pessoas que não lêem.
Numa terra pequena os clientes batem-nos à porta de casa mesmo ao dia de folga, informados pelos vizinhos a quem nunca demos a nossa morada. E é preciso sorrir sempre.
Numa terra pequena o livreiro conhece o amor da sua vida discutindo livros e autores. É romance mas não é ficção.
Helena Girão Santos, 11 anos de livreiro em Montemor-o-Novo.
Fonte de Letras, desde 16.09.2011.


Que me dizem?
Valeu a pena?
Os meus parabéns a Helena Girão Santos por estes 11 anos e mais que parabéns os meus respeitos, com votos de futuro aberto ao melhor.
Podia ter-me contentado com remeter para o respectivo endereço do blogue, como até remeti, mas quis assim, por…

L. V.


[Publicado hoje em «Chapéu e Bengala» com o título «Uma página de antologia sobre a nossa profissão de livreiros»]

Helena Girão Santos, 11 anos de livreiro em Montemor-o-Novo - Fonte de Letras, desde 16.09.2011.

«[...]

Numa terra pequena conhecem-se as pessoas pelos livros que lêem e sabe-se quem são as pessoas que não lêem.

[...]»

Helena Girão Santos

Ler texto completo na Fonte

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Loja 107

«É tarde. Vamos sentir a imensa falta. Obrigado Isabel.»

[Carlos Querido]

«Livros, livros e mais livros ao meu redor é como o Tio Patinhas na sua piscina de dinheiro. Enquanto vivi nas Caldas, a Livraria 107 era o meu espaço privilegiado, particularmente as visitas e compras aos sábados de manhã. Uma segunda casa.»

[Victor Barreiras]

«Gente de todas as idades ali entrou para procurar uma pista para um livro, uma sugestão para uma oferta, uma leitura surpreendente para partilhar – um gesto de amor, de amizade, de respeito, de consideração, uma evocação grata, um agradecimento singular mediado por um livro. Miúdos, crianças contactaram ali com os primeiros livros, de histórias infantis ou de banda desenhada, sempre sob conselho e vigilância da Isabel.»

[João B. Serra]

«Isabel Castanheira é a imagem da paixão pelos livros, pela leitura, pelos autores. Vai fazer muita falta.»

[Paulo Ferreira]

domingo, 11 de setembro de 2011

Ler... Ler... Ler... "alguém que ousou meter-se dentro de si, e a sós consigo, para sentir muito para além de nós"


Antero de Quental nasceu a 18 de Abril de 1842, na cidade de Ponta Delgada, S. Miguel (Açores) e foi ali que pôs termo à sua vida inquieta, em 1891, provavelmente em busca do sossego e da unção, que enunciou assim: «Na mão de Deus, na sua mão direita, / Descansou afinal meu coração.// Dorme o teu sono, coração liberto, / Dorme na mão de Deus eternamente!».

Figura emblemática da Geração de 70, promotor da Nova Ideia de um Portugal evoluído, Antero, que sonhava ser «um cavaleiro andante», que escreveu o «Causa da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos três Séculos», pronunciado no Casino Lisbonense em 1871, registava nas «Odes Modernas»: «O Evangelho novo é a bíblia da Igualdade: /Justiça, é esse o tema imenso do sermão: /A missa nova, essa é a missa da Liberdade: E órgão acompanhar … a voz da Revolução!».

A par do postulado social e ideias revolucionárias, Antero cinzelou uma poética de espiritualidade e assombro que marcaria as gerações vindouras, não de forma quieta, mas inquieta e magistralmente pungente. Que força anteriana é esta que nos sacode e sobressalta a cada verso, inesgotável em cada leitura, é o mistério e a razão do assombro. Lermo-lo é não só homenageá-lo, mas também permitirmo-nos o sopro divino de alguém que ousou meter-se dentro de si, e a sós consigo, para sentir muito para além de nós.

Definir Antero de Quental é intenção irrealizável. Diz sobre essa inexequibilidade, Oliveira Martins: «Eu não conheço fisionomia mais difícil de desenhar, porque nunca vi natureza mais complexamente bem dotada. (…) Sabe chorar, como todo o homem digno da humanidade. É destas crises que nasceram os seus versos, porque Antero de Quental não faz versos à maneira dos literatos: nascem-lhe, brotam-lhe da alma como soluços e agonias. Mas, apesar disso, é requintado e exigente como um artista: as suas lágrimas hão-de ter o encontro de pérolas, os seus gemidos hão-de ser musicais. (…) A sua poesia é escultural e hierática, e por isso fantástica.».

Miguel de Unamuno diz que «Antero de Quental foi uma das almas mais atormentadas pela sede de infinito, pela fome de eternidade. Há sonetos seus que viverão enquanto viver a memória dos homens, porque serão traduzidos, mais tarde ou mais cedo, em todas as línguas dos homens atormentados pelo olhar da Esfinge». Também José Calvet de Magalhães fala da vida angustiada do poeta. Antero «é um poeta que sente, mas é um raciocínio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa». Esta síntese entre a razão e a emoção irrompe singularmente na arte literária anteriana. Enquanto poeta, é místico, enquanto crítico, um filósofo: «O sentimento e a razão, a sensibilidade e a vontade, o temperamento e a inteligência, combatem-se às vezes dilacerando-se.».

A síntese entre a razão e a emoção

Devido ao seu temperamento, Antero não se deixou levar pelas correntes optimistas e explorou, com sentido de vivência inigualável, o cerne da fragilidade humana, a decepção e o pessimismo, dando lugar a um Eu marcadamente nocturno e niilista: «Aqueles que eu amei, não sei que vento / Os dispersou no mundo, que os não vejo.../ Estendo os braços e nas trevas beijo / Visões que à noite evoca o sentimento.../ Outros me causam mais cruel tormento / Que a saudade dos mortos...que eu invejo.../Passam por mim...mas como que têm pejo / Da minha soledade e abatimento! /Daquela primavera venturosa / Não resta uma flor só, uma só rosa.../ Tudo o vento varreu, queimou o gelo!».

Desde o início, revela-se a caminhada de busca da felicidade, de «Um palácio da Ventura» que concretize um sonho. O caminhar é, porém, inglório e só traz adversidade e desilusão: «Sonho que sou um cavaleiro andante. /Por desertos, por sóis, por noite escura, /Paladino do amor, busco anelante /O palácio encantado da Ventura! //Com grandes golpes bato à porta e brado: /Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…/Abri-vos, portas d´ouro, ante meus ais! / Abrem-se as portas d´ouro, com fragor… /Mas dentro encontro só, cheio de dor,/ Silêncio e escuridão – e nada mais!».

A relação conturbada do Eu com o mundo irrompe, não raras vezes, em fúrias de desespero reveladoras da sua tragédia mental: «Se nada há que aqueça esta frieza / Se estou cheio de fel e de tristeza, / É de crer que só eu seja o culpado.». Amadurecida a vida, a relação com Deus surge como uma procura racional de um ideal transcendente.

O descanso merecido, o apaziguamento, que Antero nos mostra assim: «Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram /Ninho e filhos e tudo, sem piedade…/Que a leve o ar sem fim da soledade /Onde as asas partidas a levaram…/ Deixá-la ir, a vela, que arrojaram /Os tufões pelo mar, na escuridade, /Quando a noite surgiu da imensidade, /Quando os ventos do Sul se levantaram…/Deixá-la ir, a alma lastimosa, /Que perdeu fé e paz e confiança, /A morte queda, à morte silenciosa…/Deixá-la ir, a nota desprendida /Dum canto extremo…e a última esperança…/E a vida…e o amor…deixá-la ir, a vida!».


© Teresa Sá Couto

[Texto editado no site "Orgia Literária" a
17 de Abril de 2009, com o título «Os 167 anos de Antero»]