quarta-feira, 21 de março de 2012

Sou filho da Mãe Terra e da Leitura / e enquanto passa a vida que me resta / agasalho quem sou / nesta manta que são os livros...

           
[No dia 21 de Março - Dia Mundial da Poesia] 

 

                                           Pedro Vieira


A LEITURA


                                                                       Poema escrito no último sábado
                                                                         da vida de meu irmão Aristides

I
A vida não se ganha. Perde-se.
Gostaria de saber
se construir um barco
ou desenvolver um novo raciocínio matemático
é mais difícil
do que escrever este poema.
Se eu fosse inteligente
compreenderia muito melhor
que a vida não se ganha, perde-se.
Estava escrito e diante dos olhos.
Revejo o meu avô cortando, quase junto à terra, 
a figueira doente.
Tempos depois, 
o velho tronco era em rebentos
a vida renovada.

II
Se eu fosse inteligente
não precisaria de escrever este poema dedicado
a saber que a vida não se ganha, perde-se.
Leria o mundo, os poetas, os sábios.
Em silêncio, ouviria música.
Se chegasse alguém,
partiríamos o pão como quem sente a vida
muito mais verdadeira entre nós
do que em cada um.
Se eu fosse inteligente
compreenderia a vida muito melhor,
seria simples
e um grande silêncio talvez fosse 
o meu poema necessário.

III
Vivo no meio dos livros. Alto preço 
paguei por esta escolha.
Ele há vidas assim. Há tantos modos
de se passar pelos destinos
em que está embarcada a vida humana.
Contas-me o teu? Ou preferes passar
em senhor de ti, mais um que crê na ilusão
do seu ontem, hoje e amanhã?
Por mim, preciso
de uma certa distância para ver 
que o tempo não me esconde, em quem sou, 
isto que sou tão simplesmente.
Por isso leio.
Quero ler e reler:
«Quando voltou a despertar,
interrogou-me sem descanso,
mas adiei as respostas
até ao dia seguinte»*.

IV
Não me interrogues mais, pois forçarias
que te citasse o sonho da noite anterior.
Dir-me-ias que também o leste e que é só literatura?
Em resposta não te esconderia
já ter passado muitas vezes
por essa confusão entre vida viva
e literatura oca.
Foi por isso que voltei
a ler peças de teatro.
Que bom terem-se escrito
peças de teatro!
Compões a cena e basta
uma palavra, ao gesto que se exige,
para ser dita a vida como a viste.
És tu, pois, que fazes o teatro.

V
Não posso ler apenas as palavras,
teria de saber todas as línguas.
Oh! quanto eu veria mundos novos
se ao menos de línguas eu soubesse!
Mas talvez nem assim me conformasse
com ler apenas as palavras.
Compreendo que leio
porque não sou inteligente. Pois se o fosse
não precisava de ler como preciso
para ver se não sou inteligente.
Se as palavras abrem
os meus olhos para ver o que sou e este mundo,
é arte ou fogo o que contêm?
É água, é ar ou luz?
Eu quero crer
que é pura inteligência.

VI
Como é que foi, em nossas mãos
de simples animais que a Terra fez,
este poder de escrita, este criar,
para o poder de ler, 
a fórmula perfeita de entender
que para ser inteligentes
nem a beleza do mundo nos bastava
ou a verdade dita de uma só vez?
Sou filho da Mãe Terra e da Leitura
e enquanto passa a vida que me resta
agasalho quem sou
nesta manta que são os livros dando
a luz e o calor da inteligência
com que vou em perder minha existência.

Resendes Ventura, Papel a Mais - Papéis de um livreiro com inéditos de escritores, Lisboa, Esfera do Caos, 2009.

* [H. Rider Haggard, She, trad. de Emanuel Lourenço Godinho, Estampa]

terça-feira, 20 de março de 2012

Os livros...


«Os livros não nos deixam dormir sozinhos.  Fazem parte de nós. Do nosso caminho. Das nossas opções.»

Alexandra Vieira - Arquivo (Leiria)

E eu, ainda aqui, quero acreditar que a senhora não se mudou, e pergunto-me: o que será feito da Dona Esperança?!...

                                         Fotografia de Joaquim Gonçalves


A casa da Dona Esperança

Tinha ido à papelaria comprar o JL cujo tema de capa era “Livrarias. Um mundo em mudança”.

Perto da ponte de onde se vê o porto de pesca, a anteceder o lençol azul do mar, reparei no local onde, ainda não há muito tempo, havia uma casa baixinha, daquelas antigas e modestas como as que saem dos primeiros desenhos da nossa infância: Por baixo do telhado apenas uma porta e duas janelas simétricas. Em frente e ligeiramente ao lado da casa, uma nespereira que ciclicamente se pintava de amarelo nêspera, como era de esperar. No chão, frente à porta, uns quantos recipientes – latas, caixas, objectos domésticos que perderam a utilização própria – adivinhavam-se por baixo de verdes, vermelhos, laranjas, rosas, de flores e plantas diversas - salsa, hortelã… - delimitando um pequeno terreiro. Era o quintal da casa. Ao quadro juntava-se, curiosamente quase sempre quando por ali passava, uma senhora de idade, literariamente uma velhinha, que estendia ou apanhava roupa de uma pessoa só, pendurada num arame
que, bamboleante, se tentava esticar entre a parede da casa e uma pernada da nespereira.

Passava por ali, não todos os dias, mas muitas vezes. O cenário mantinha-se. Fazia parte da paisagem aquele oásis encravado no meio dos prédios da cidade. Um dia passei e senti que qualquer coisa não estava bem no circuito rotineiro. Era o espaço. Havia espaço a mais. Via-se o bocado de campo baldio, lá atrás, até à avenida principal. Havia espaço a mais. E a casa que eu tinha como certa, porque fazia parte da paisagem; E o quintalinho, a nespereira, as flores, as plantas, que eu tinha como perenes, porque faziam parte da velhinha; E a velhinha que eu tinha como eterna, porque fazia parte da casa, nada lá estava. Nem vestígios. Tudo liso, terra lisa restolhada de uma ou outra pedra ou caliça mais teimosa que poderia ser resto de qualquer coisa.

Antes, quando ali passava, pensava na velhinha e no que seria a sua rotina: Tirar a remela dos olhos antes de dar água às plantas; dar água às plantas antes de comer uma côdea; comer uma côdea antes de se sentar num banquinho a cismar no que tinha sido e no que não iria ser; cismar no que poderia ter sido e não foi e repetir as atitudes e os gestos numa tentativa ingénua de enganar o tempo que é e o futuro que não é e o fim que é certo.

Nunca soube o nome da senhora mas, sei lá eu porquê, achei que só podia chamar-se Esperança.

Agora que aqui passo e vejo o que não é – o vazio, penso eu no descanso em que estará a velhinha. Finalmente sem ter de repetir a rotina dos enganos. Finalmente sem a sensibilidade que obriga. Finalmente, finalmente.

Passou-me tudo isto pela cabeça quando vinha da papelaria onde fora comprar o JL cujo tema de capa era “Livrarias. Um mundo em mudança”.

E eu, ainda aqui, quero acreditar que a senhora não se mudou, e pergunto-me: o que será feito da Dona Esperança?!...

Sines, 20 de Março de 2012  

Joaquim Gonçalves

segunda-feira, 19 de março de 2012

TAMBÉM EU ESTAREI PRESENTE NO III ENCONTRO LIVREIRO


No próximo domingo, 25 de Março, às 15.00 horas em ponto, estarei na Livraria Culsete (Avenida 22 de Dezembro, 23, Setúbal) para participar no III ENCONTRO LIVREIRO. Vou lá estar porque

quando vejo livros tenho um desejo incontido de os possuir

livros são o presente que mais gosto de receber

livros são o presente que mais gosto de oferecer

adoro o cheiro dos livros, quanto mais velhos melhor

livros são os meus companheiros de sempre

não consigo viver sem livros à minha volta

raramente saio de casa sem um livro

os livros nunca me deixam sentir só

não me imagino a viver sem livros

não consigo adormecer sem ler

adoro o toque dos livros

devoro livros

amo livros


Vou lá estar porque a Culsete é uma livraria e as livrarias são


caixas de surpresas cheias de pó de estrelas

rios de mil e uma experiências

árvores carregadas de frutos

ágoras a pulsar de ideias

jardins encantados


catedrais no caos

casas de histórias

Aí, nas livrarias

cruzo-me com toda a espécie de fauna e flora

encontro criaturas do reino animal

vegetal

mineral

e sinto que é essa a minha tribo


Por tudo isto vou estar na Culsete no próximo domingo, 25 de Março, no III ENCONTRO LIVREIRO.

Vem comigo!


F.R.M.

domingo, 18 de março de 2012

já sabe, é aparecer: ali, onde o mundo dos livros nos apela! Até lá!



«É já no domingo, 25, que tem lugar o III Encontro Livreiro, em Setúbal, reunindo livreiros, escritores, leitores e todos quantos se interessam pela vida do livro. A participação é livre... basta chegar lá, à livraria Culsete, na Av. 22 de Dezembro, pelas 15h00.
Se, entretanto, quiser saber mais coisas sobre o que tem sido o papel da Culsete, sobre as livrarias, sobre os Encontros Livreiros, pode visitar várias fontes: a última edição do JL - Jornal de Letras, por exemplo, trata as livrarias com destaque, tendo percorrido algumas delas, Culsete incluída; depois, tem dois blogues obrigatórios - o Chapéu e Bengala, do Livreiro Velho que é o Manuel Medeiros, e o Isto não fica assim!Outros há, com certeza; mas estes são indispensáveis.
Finalmente, já sabe, é aparecer: ali, onde o mundo dos livros nos apela! Até lá!»

João Reis Ribeiro, «Para a agenda - III Encontro Livreiro, em Setúbal - é no domingo!», Nesta hora

Obrigado, Amigo João Reis Ribeiro. Até lá!

«"A OBSESSÃO DAS LIVRARIAS" E "A DIFÍCIL ARTE DA IN(ter)DEPENDÊNCIA"»

[...]

«A difícil arte da independência». Com que então, uma arte! Assim considerados artistas, que esperança os livreiros independentes podem ter de que a sua arte será devidamente apreciada por uma sociedade que tão pouca atenção lhe tem dado, mas que afinal até a reconhece?
Deveras!
Será agora que o assunto «livrarias» vai a estudo, investigação e perspectivação?
Bom!, isto por hoje…
Mas é inevitável prometer que volto.
Por obsessão ou por amor à arte?
Talvez por uma coisa e outra!


L. V., em «Chapéu e Bengala», onde o texto pode (deve) ser lido na íntegra.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Partilhando conversas

«É uma espécie de milagre, mesmo para os não crentes, é um autêntico paraíso para os bibliófilos e é o resultado de três gerações de livreiros dedicados, com ideias inovadoras, capacidade de improviso e um enorme amor aos livros. [...]»



segunda-feira, 12 de março de 2012

Pessoas dos livros, e o mundo inteiro que isso significa


«[...] não é um encontro "de livreiros" e sim um encontro "livreiro" (não digo isto por acaso, os mal entendidos são muitos), encontro de gentes do livro. É um dia de encontros e conversas boas, intervenções e amizades. Pessoas dos livros, e o mundo inteiro que isso significa. A Culsete tem espaço para todos.
[...]
O mais bonito e, arrisco dizer, mais revolucionário deste encontro face a tudo o resto que existe por aí é que não tem mesas, nem convidados, nem palco. Tem pessoas e um microfone e uma livraria anfitriã.
[...]
Não posso deixar de relembrar a nossa homenagem ao querido livreiro Jorge Figueira de Sousa, que recebe neste Encontro o título de Livreiro da Esperança 2012 pelo trabalho único na divulgação dos livros e da leitura na sua livraria Esperança, no Funchal.  

Dia 25 de Março, a partir das 15h, todos a Setúbal. Já sabem que ofereço boleias!

Até lá!

Rosa Azevedo, «Estórias com Livros»

domingo, 11 de março de 2012

[NÃO] TENHO A OBSESSÃO DAS LIVRARIAS

Livrarias, assunto em Março.

[...]

É! É isso! No passado este país estava  cheio de livrarias, apesar de mesmo em Lisboa escassearem à vista desarmada ao sair da Baixa. Quantas contei, em 1970, nas zonas de novas habitações?  Lisboa crescera, o comércio livreiro não acompanhara.

[...]


Se ao menos… Mas não, não sentem falta. Pessoas tão conhecedoras de tudo e tão respeitadas pelos seus saberes, poderes e cultura!… Algumas até escrevem tanto e tão bem, que se vê à légua que deviam ler e ter lido um bocadinho mais.

Lê-se a crónica de Francisco Belard. Escreve-a sem que seja por «obsessão das livrarias», mas por ser um daqueles leitores que fazem renascer a esperança dos livreiros ao dizerem de si para si: «felizmente  continua viva esta raça de leitores autênticos».


[...]

L. V.
  
Um texto que deve ser lido da íntegra AQUI.


sábado, 10 de março de 2012

A IMENSA OPORTUNIDADE

«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»
(5)

As «nossas» (?!) profecias sobre a extinção das livrarias e também sobre a morte do livro não podem, nas suas projecções extensivamente fundamentadas, ser omissas sobre o que sucede/sucederá com a leitura. De outro modo fica-se com a sensação de que agora é que estamos a chegar ao mundo em que nascemos e por isso ainda só vemos em horizonte de berçário.
Livros, sim. Livrarias, sim; mas muito menos para imortalizar escritores ou eternizar editoras e livrarias do que para servir a causa da leitura. Há/houve/haverá Gentes do Livro vivendo do livro. Mas não é aceitável andarem em circuito fechado. Eficácia na defesa do livro ou da livraria exige a consciência de que o consumo do livro, o fundamental consumo, se chama LEITURA.
Uma percentagem muito pequena do nosso grande mundo é que já chegou ao livro ou o livro se lhe chegou. Sempre por sempre!
O nosso mundo-leitor é um mundinho! Nunca passou dum mundinho.
O mundo ou universo de leitores vai ampliar-se ou reduzir-se ainda mais na perspectiva do que vai sucedendo com as novas condições de difusão da obra escrita? Como se vai reflectir toda esta problemática quer no que diz respeito à edição do livro em papel quer à sua comercialização?
Porque se me disserem que estamos a perder leitores e não se quiser olhar para a imensa oportunidade que é a descoberta do benefício e do prazer da leitura por tão grande percentagem da população que nem por livrarias nem por supermercados nem por internet chegou ao livro, ficarei…
Não sei como ficarei!
Se me disserem…
Se não se quiser…
- Mas não é isso o que tem de ser feito pelo Plano Nacional de Leitura?
- Podemos voltar a falar disso, podemos!
Posso até adiantar, em cara e cruz, uma proposta de discussão:
- No Plano Nacional de Leitura como se entendeu/entende o papel do comércio livreiro numa política de desenvolvimento da leitura?
- O comércio livreiro como discutiu, desde 2006, o seu papel no Plano Nacional de Leitura, primeiro em sua própria casa e depois publicamente nos areópagos da política e da competência?
Ainda se vai a tempo de discutir? Ainda vai valer a pena?

Livreiro Velho
Setúbal, 4 de Março de 2012

terça-feira, 6 de março de 2012

«NÓS VAMOS LÁ ESTAR!»

Inspirados pelo
«NÓS VAMOS LÁ ESTAR!»
do livreiro Joaquim Gonçalves, vamos divulgando aqui, a partir de hoje e diariamente, as adesões ao III Encontro Livreiro que nos forem chegando [NB - Claro que quem quiser aparecer não precisa de se inscrever nem avisar. A porta está sempre aberta. Mas quem puder fazer o obséquio de nos ir dando conhecimento da sua adesão estará dando uma preciosa colaboração na preparação do nosso Encontro].

Manuel Medeiros
Livreiro, Livraria Culsete (Setúbal)
 Luís Guerra
Assírio & Alvim (Lisboa)
Fátima Ribeiro de Medeiros
Professora e Investigadora de Literatura (Setúbal) 
 Joaquim Gonçalves
Livreiro, Livraria A das Artes (Sines)
 Dina Silva
Professora do Ensino Secundário (Sines)
Fernando Bento Gomes
Escritor (Lisboa)
Sara Figueiredo Costa
Blogue «Cadeirão Voltaire», Jornalista e Crítica Literária (Lisboa)
Rosa Azevedo
Blogue «Estórias com Livros», (ex)Livreira, Produtora na Ordem dos Arquitectos (Lisboa)
Francisco Belard
Jornalista (Lisboa) 
Nuno Fonseca
Escritor, Blogue «Orgia Literária» (Lisboa)
 Isabel Ramalhete
Livreira, Leya na Buchholz (Lisboa)
Vanda Viveiros
(ex)Livreira, Desempregada (Lisboa)
Bruno Malheiro
Livreiro (Braga)
Paula Vieira
Livreira, Leya na Buchholz (Lisboa)
Sandra Oliveira
Livreira, Fnac Chiado (Lisboa) 
 João Frada 
Director Editorial Clinfontur (Lisboa) 
Sónia Jorgensen
Leitora (Lisboa) 
 Ricardo Pacheco 
Artista Plástico e Leitor (Lisboa) 
 Ricardo Duarte
Jornalista / JL (Lisboa)  
Nuno Seabra Lopes 
Consultor Editorial e Livreiro  (Lisboa) 
António Marrachinho
Advogado, Leitor renitente de livros, Membro do blogue «sYnapsis»
Nuno Medeiros 
Sociólogo e Investigador [do livro, da edição, da livraria, da leitura] (Setúbal)
António Alberto Alves
Traga-Mundos - Livraria, vinhos, coisas e loisas do Douro - Património Mundial (Vila Real)
Cristina Marques
Livreira, Leya na Buchholz (Lisboa)
Paulo Seara 
Animador e Produtor Artístico, Artista Plástico, Escritor e Poeta, 
Vilateca Livraria Galeria e Artesanato (Vila Real)
Gonçalo Mira
Crítico, Blogue «Orgia Literária» (Setúbal)
Pedro Vieira
(ex)Livreiro, Ilustrador residente da revista Ler, Blogger («Irmão Lúcia» e «Arrastão»), Autor do livro Última Paragem, Massamá, Criativo no Canal Q - Produções Fictícias («Ah, a Literatura» e «Inferno»)
Antero Braga
Livreiro, Prólogo / Lello (Porto)
Adelino Abrantes 
Vendedor de livros, Penguin Books (Lisboa)
António Figueira
Amigo dos livros (Lisboa)
José Gonçalves
Vendedor de livros e Leitor (Almada)
António Neves Berbém
Ex-Professor, Reformado,  Leitor  (Alandroal)
Artur Guerra
Professor Bibliotecário, Tradutor (Seixal)
Cristina Rodriguez
Tradutora (Seixal)
José Xavier Ezequiel
Leitor e Escritor (Seixal) 
Ana Wiesenberger
Poeta e Escritora


- em permanente actualização -

Envie a sua adesão para  
encontro.livreiro@gmail.com


Para além da indicação do nome, da profissão e/ou da empresa, apelamos ainda ao envio de textos que possam servir de ingrediente para a saborosa conversa que vamos ter no próximo dia 25, dia de Convívio e de Encontro que este ano se realiza sob o signo da

ESPERANÇA 
NO FUTURO DA LEITURA, DO LIVRO, DA LIVRARIA.


Tal como as adesões, também os textos, que publicaremos aqui no «Isto Não Fica Assim!», deverão ser enviados para encontro.livreiro@gmail.com.


Venha daí e traga outros amigos também!

segunda-feira, 5 de março de 2012

«E os amontoados de livros em supermercados e feiras não são livrarias, não tendo um elemento essencial - o livreiro.»


«Não tenho a obsessão das livrarias; também não gosto de ver desaparecer uma mercearia oitocentista, uma barbearia antiga, uma alfaiataria prestigiosa, um elegante salão de chá, uma loja de brinquedos por cuja montra passei em criança, um edifício que foi um grande e belo cinema. [...] Diz-se em geral que a evolução do mundo, da cidade e dos hábitos elimina formas de comércio inadequadas ao público actual e às necessidades "culturais" em sentido amplo. Mas, se o mundo e as vontades mudam, por que é que não desaparecem tantas coisas cuja eliminação tornaria melhor a vida diária?
A Livraria Portugal era diferente; livrarias "de fundo", como ela, são as que me interessam, com livros de todos os géneros e secções especializadas, em que tenho surpresas por encontrar obras que não vejo nas outras ou nem sabia que existiam. As livrarias correntes parecem-se demasiado entre si; vivem de novidades que envelhecem depressa e ali ficam umas semanas. E os amontoados de livros em supermercados e feiras não são livrarias, não tendo um elemento essencial - o livreiro.
[...]
Quando morre um café histórico, a sensação é parecida. Como muitos notaram (lembro George Steiner), cafés e livrarias são sinais desta civilização hoje declinante.
[...]»

Francisco Belard, «Portugal, livraria», LER, nº 111 - Março de 2012, onde este texto poderá (deverá) ser lido na íntegra.

domingo, 4 de março de 2012

«Já estamos em MARÇO?! NO ÚLTIMO DOMINGO...


Primeiro domingo deste mês de Março de 2012, estamos já em Março! No último domingo, dia 25, vai ser o III Encontro Livreiro. Que eu hoje tenha despertado a pensar nisso não admira, ninguém se admirará.

[foto]

A RITA NO II ENCONTRO LIVREIRO

Ao pai, Daniel Melo, bem como à Rita, encontrei-os de novo faz hoje um mês, 4 de Fevereiro. Não fiquei em certeza de que ela também voltasse . O pai, sim. De qualquer modo este olhar que a Rita há um ano nos deixou não me é, em seu contexto, apenas a ilustração de um post. Muito do que desejo e antevejo como futuro possível da leitura, do livro, da livraria, em resultado de uma conjugação de ideias, entendimentos e iniciativas que a partir da boa convivência possa resultar, a imagem deste olhar mo revela a mim próprio.

[foto]

Talvez me cumpra esta escrita em hoje, queria que fosse uma conversa simples, doméstica, própria para um «aqui entre nós», abrindo, se possível, um pouco mais ainda as portas da Culsete para que aconteça o que continua a pretender-se: uma tarde de boa convivência entre pessoas que se entendem como «Gentes do Livro».

[foto]

A RAFAELA EM 2011

No I Encontro Livreiro, a Rafaela esteve presente, portou-se muito bem, mas ainda não tinha nascido. O seu feliz nascimento trouxe-a ao nosso II Encontro, para nossa alegria.
A grande maneira de acreditar no futuro talvez seja viver um presente em que se acredita. Acreditando no presente, dele a nascer um melhor futuro.
É tardíssimo para mim, o futuro. Por três vezes, neste inverno, o fim da viagem por um triz o senti. Ninguém me dirá que a incerteza do futuro me pode afectar muito, pessoalmente. Mas o presente!… Isto de horizontes ao curto tem o seu lado de bom sabor! Por exemplo, estar a três semanas de viver um III Encontro Livreiro! Sabia lá se…, há um ano!
O presente que me resta é para este empenho em que o sentimento de impotência perante a avalanche de enganos e opressões do momento civilizacional nos desperte para a consciência de que a descrença uns nos outros é o maior erro que se nos pode apegar. Um movimento de aglutinação de pensamento e acção que levante a cabeça e cure da indiferença!

[foto]

JORGE FIGUEIRA DE SOUSA – LIVREIRO DA ESPERANÇA 2012

Para felicitar o livreiro Jorge Figueira de Sousa por lhe ter sido atribuído o «Prémio Ler/Booktailors 2011» estive de conversa com ele, durante uns minutos, por telefone. Um prazer! Gratíssimo por tudo, ele, e decidido a vir participar no nosso III Encontro Livreiro. Esperando confiante em que as melhorias de saúde já lho permitam.

Disse-lhe e sinto: «só por si, a sua presença bastará para fazer deste III Encontro uma festa». O nosso diplomado «Livreiro da Esperança 2012»!
Este entusiasmo decidido que senti no emérito livreiro da Livraria Esperança do Funchal é o que desejo/desejamos sentir em quantos decidirem vir até Setúbal no primeiro domingo de Primavera, dia 25 deste mês de Março.

Manuel Medeiros, esta noite no «Chapéu e Bengala», onde sugerimos que vá para que, vendo as fotos, complete a leitura.


Venham daí mais adesões ao III Encontro Livreiro.

«Só quem foi aos anteriores sabe o que perde quem falhar este!
Nós vamos lá estar!»

 Venham daí mais adesões ao III Encontro Livreiro. Nós divulgaremos aqui no blogue. Agradecemos envio de pequeno texto de adesão e imagem (logo ou fotografia)  que deve acompanhar essa mensagem.

ISTO NÃO FICA ASSIM!

Encontro-Livreiro 
encontro.livreiro [arroba] gmail.com

sábado, 3 de março de 2012

«Era uma loja e uma livraria»


«Continua a vender livros, mapas, guias, globos, sementes e algumas preciosidades em forma de réplica, mas deixamos de poder ver tudo isso aconchegado no espaço que habitava, ali tão perto do Museu de História Natural.»

Sara Figueiredo Costa, Cadeirão Voltaire. 

Vale a pena trazer para aqui um dos comentários de Pedro Lérias a um comentário sobre a notícia do encerramento da Loja de História Natural:

Viva, Obrigado pelo encorajamento. Eu vejo pelo lado positivo, foi possível estar aqui quase dois anos e conhecer muita gente que acredita nesta ideia e que faz parte de uma maioria silenciosa que está a crescer!
Estamos a tentar adaptar-nos à realidade para persistirmos!
Um abraço, obrigado.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Rua do Carmo, 70

                                                                                                           Foto: Luís Guerra
Fundada há 70 anos, a Livraria Portugal, no número 70 da Rua do Carmo, estava hoje, dia em que fechou portas às 7 da tarde, a praticar 70 por cento de desconto.

Conheci-a nos anos 70 do século passado, ainda apenas como leitor, quando vim morar em Lisboa. Nos anos oitenta passei a frequentá-la como profissional do livro. Recordo hoje, de forma muito especial, os livreiros que ali conheci e de quem me tornei, para sempre, amigo e admirador. E não digo aqui os nomes para não cometer a indelicadeza de algum esquecimento involuntário. Mas abraço-os a todos em mais um abraço que dou ao Machado e ao Joaquim.
Luís Guerra

O PÃO E O LIVRO


«ACHAS PARA UMA FOGUEIRA QUE ILUMINE E AQUEÇA A ESPERANÇA»
(4)

Faço uma breve analogia, aparentemente disparatada, entre o padeiro e o livreiro. Ofícios que se anunciam cada vez mais difíceis de conservar.
Em termos de matérias prontas para degustação, entenda-se consumo, o pão e o livro assemelham-se no intuito de alimentar, embora com naturezas diferentes.
O pão fresco do padeiro, acabado de sair do forno, tem um cheiro que em tudo me faz lembrar o odor das páginas de um livro. Acho delicioso. Devorar uma fatia de pão, alentejano por exemplo, besuntada de manteiga, soja para mim, se fizerem o favor, é como ler um livro inalando os cheiros agridoce ou bafiento de um clássico ou de um contemporâneo. Saboreio a massa muito ou mal cozida com a manteiga derretida.
O fazer fácil e a qualquer hora do dia ou da noite, sem sair de casa, tem arredado o padeiro do seu ofício madrugador ou de fim de tarde. As bimbys e outros tantos mini fornos elétricos domésticos que amassam e cozem o pão, acessíveis a preços cada vez mais baixos, trouxeram facilitismo ao consumidor que já não sai de casa para ir à padaria. Um gesto perdido do quotidiano que lembra a minha meninice.
Agora um simples bip avisa o iniciar do robótico padeiro, para que, um par de horas mais tarde, um bip contínuo indique que o pão já fumega. A farinha takeaway vem com todos os ingredientes, do sal ao fermento. Sem ciência nem engenho, basta acrescentar água, seja o pão tipo caseiro, de mistura, branco ou brioche.
Até pode cheirar bem, mas o sabor, e que ninguém me convença do contrário, não é a mesma coisa. E o padeiro? Vai dando menos utilidade às mãos enfarinhadas e ágeis no amasso, com cada vez menos pão no forno (de lenha) e com menos fregueses à porta.
Como apreciadora de um fumegante pão com manteiga, (e quem não o é?), preocupa-me que ser padeiro seja uma profissão em vias de extinção. Sendo o pão um bem essencial na nossa alimentação provavelmente o padeiro será um sobrevivente. E agora algumas linhas para uma breve conjetura sobre o livreiro. Tal pão saído do forno a lenha, preterido pela máquina elétrica doméstica, também as palavras saltam das folhas de celulose impressas para entrar numa galáxia que há muito deixou Guttenberg de lado. A digital, a era Steve Jobs, que, em jeito de morte anunciada, tem minado aqui e ali a profissão do livreiro. E é vê-las a fechar, as livrarias, como tem acontecido com as padarias. A facilidade com que tudo o que se escreve é publicado e lido na ‘e-esfera’ tem usurpado as particularidades do livro lido com todos os sentidos. O som do voltar a página, o cheiro bom do papel, o sabor de cada palavra, o desenho de cada letra, o toque na ponta dos dedos e a última passagem da palma da mão na capa quando se chega ao fim…
Sou apenas uma leitora que faz uso da palavra escrita um modo de vida e de estar. Resistam padeiros e as padarias, os livreiros e as livrarias deste país. Continuem a fazer o pão que nos alimenta o intelecto. Adaptem-se, porque é o ganha-pão de muitos profissionais, mas não abusem dos ‘e-’ para isto e ‘e-‘ para aquilo!
Enquanto houver pão e livros para consumo, padarias e livrarias de porta abertas, estou certa de que os apreciadores, sejamos um ou um milhão, se manterão fiéis.
E já agora, quando anunciaram o fecho da gigante Kodak por momentos o meu ínfimo mundo parou. A adaptação à tal era do digital não foi conseguida. Acabam-se as películas, os cheiros do revelador e fixador. As reflex analógicas passam a objetos decorativos e jovens casais não sabem o que são álbuns fotográficos monstruosos. Agora os retratos de uma vida, pixelizada, amontoam-se numa única moldura, com entrada USB. É isto fotografia?

Susana Manteigas
Técnica Superior de Comunicação Social

Fecha hoje as portas, na Rua do Carmo, em Lisboa, uma das mais importantes e históricas Faculdades da Universidade Livreira Portuguesa, a Livraria Portugal

                                                                               Foto: Luís Guerra
Fecha hoje as portas, na Rua do Carmo, em Lisboa, uma das mais importantes e históricas Faculdades da Universidade Livreira Portuguesa, a LIVRARIA PORTUGAL. Mando daqui um abraço aos amigos MACHADO e JOAQUIM - esperando fazê-lo, também pessoalmente, durante o dia de hoje - e, através deles, a todos quantos fizeram desta livraria uma referência para as «GENTES DO LIVRO», sobretudo para as livrarias e para os livreiros portugueses. Repito, e continuarei a repetir até à exaustão, uma ideia, felizmente partilhada por mais gente, que me tem acompanhado ao longo de muitos anos de convívio e de encontro livreiro: um país sem livreiros e sem livrarias é um país menos culto, menos justo, menos livre, menos feliz e com um futuro menos risonho. Depende de nós todos, profissionais do livro e leitores, EVITAR QUE AS LIVRARIAS SE TRANSFORMEM NUMA ESPÉCIE EM VIAS DE EXTINÇÃO. 
Luís Guerra