I
Antes de
mais, documentar fotograficamente. Aqui está ele, o mais novo livreiro do
mundo, fotografado em 24 de Março deste ano de 2012, dia em que fez dois anos.
Em 24 de Outubro, por conseguinte, passou a ter dois anos e sete meses. Dois
dias depois ingressou objectivamente na profissão de livreiro ao fazer uma
venda de sua inteira responsabilidade e tão bem sucedida como e quanto se verá
na história inteiramente verídica que se vai contar só por graça ou talvez nem
só.
II
O Livreiro
Velho que esta história vem lançar na blogosfera, sendo que se considera um
discípulo de Espinosa ainda que humílimo, não pode gostar de profecias. Não se
convence de que a profissão de livreiro esteja em extinção. Razões, isso sim,
apenas para ver a profissão em processo de mudança, quer por adaptação quer por
aperfeiçoamento. Do baixo estatuto a que tem estado votada, poderá passar a
profissão com exigências de alto nível. Isso acontecerá muito naturalmente logo
que chegue ao fim a era das tradicionais mercearias de livros, cujo
desaparecimento é indispensável para que tal se torne viável. Quando o
livreiro, numa das livrarias que serão as únicas livrarias de então, for um
perito indispensável, enquanto leitor preparado para o apoio ao público,
quantos livreiros haverá, que preparação lhes será própria e que reconhecimento
quer de autoridade quer de remuneração lhe virá da sociedade?
Não se está
falando de outro, mas do público que cultiva e mais terá de cultivar a leitura
em necessidade ou gosto de construir biblioteca própria.
Havendo cada
vez mais livros e sendo cada vez mais necessário escolher e sendo cada vez mais
necessário acertar e sendo muito bom não só encontrar como também
dar-uma-vista-de-olhos-antes-de…
Um cuidado
aqui se toma com não reduzir o conceito de apoio ao de aconselhamento. É muito
cativante o saber e arte do bom conselho e a sua aceitação. Apoiar leitores e
leitura, porém, é e deve ser muito mais.
Razões contra
as profecias? É que a inteligência nem está em perigo de se perder nos novos
suportes da escrita nem estão por perder-se as eternas e ricas vantagens da
leitura em suporte livro. E de qualquer modo a grande questão não é a do livro,
mas a da leitura. Também em crise?
O problema da
leitura, sendo o problema do livreiro, assegura-lhe um mais que duradouro
futuro, porque a expansão da Noosfera é irreversível e ler é-lhe intrínseco.
Também de Teillard de Chardin humílimo discípulo...
III
E então a
história do «livreiro mais novo»?
O Manuel
Henrique veio mais cedo do infantário porque apareceu com febre. Por um
bocadinho à espera da mãe teve de ficar na livraria com a avó que o sentou no
seu colo enquanto ia conversando com o Sr. Valério. Pedida que lhe foi a ela
uma ajuda para a escolha de um livro a oferecer a uma criança, o Manuel
Henrique, que desde sempre andou pelo cantinho dos livros infantis, seguiu-a.
Percebeu logo do que se tratava. Várias sugestões apresentando a avó e já o
Manuel Henrique a chamar a atenção para um dos livros da Série Madagáscar.
Deixar o cliente a apreciar e escolher, ir continuar a conversa interrompida.
No cantinho dos infantis, ficam cliente e «livreirinho», este insistindo na sua
sugestão com o argumento de que conhecia a história e era bonita. Depois também
se afastou, mas por pouco tempo. Voltando, ao ver que o cliente ainda não se
decidira, levantou o livro e exclamou: «Madagáscar! Madagáscar». Pronto,
cliente decidido! Ao vir para pagar, «levo este», um diálogo: «que idade tem
este menino?» «Dois anos e meio». «Se a história o encantou, vai também agradar
a outra criança». O Manuel Henrique estava tão consciente de que efectuara uma
venda que quis que fosse ele a receber o dinheiro. Sabia da profissão. Tinha
aprendido. Ele, a prima e o irmão – cinco e quatro anos - desde quando se
habituaram aos livros e quantos já «leram», tanto acompanhados como sozinhos? E
não só. De há uns tempos para cá, além de irem por hábito ver livros no
cantinho próprio, puxam cadeiras para junto do balcão, sobem e brincam a
vender. As pessoas acham muita graça. Desta vez aconteceu. As coisas foram mais
longe. Com dois anos e meio este mais novo livreiro do mundo demonstra que a
continuidade da «espécie» está assegurada!!!
L. V., «O mais novo livreiro do mundo», Chapéu e Bengala

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