«Ler é viajar para dentro. Ler é viajar por dentro.»
segunda-feira, 23 de abril de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
«... os livros e as livrarias têm futuro: então, os leitores deixaram de existir?»
Sandra Oliveira
Livreira, Fnac Chiado (Lisboa)
quinta-feira, 22 de março de 2012
Uma grande paixão
terça-feira, 20 de março de 2012
Os livros...
Alexandra Vieira - Arquivo (Leiria)
domingo, 11 de março de 2012
[NÃO] TENHO A OBSESSÃO DAS LIVRARIAS
[...]
É! É isso! No passado este país estava cheio de livrarias, apesar de mesmo em Lisboa escassearem à vista desarmada ao sair da Baixa. Quantas contei, em 1970, nas zonas de novas habitações? Lisboa crescera, o comércio livreiro não acompanhara.
[...]
Se ao menos… Mas não, não sentem falta. Pessoas tão conhecedoras de tudo e tão respeitadas pelos seus saberes, poderes e cultura!… Algumas até escrevem tanto e tão bem, que se vê à légua que deviam ler e ter lido um bocadinho mais.
Lê-se a crónica de Francisco Belard. Escreve-a sem que seja por «obsessão das livrarias», mas por ser um daqueles leitores que fazem renascer a esperança dos livreiros ao dizerem de si para si: «felizmente continua viva esta raça de leitores autênticos».
[...]
L. V.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
«Que ideia? O sector livreiro apanhado pela crise? Se já lá estava...»
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
«(...) este asséptico assalto digital só fará que daqui a uns tempos se assista a uma maior valorização do livro que se toca, cheira e que, no final de contas, se manteve igual a si próprio, ou seja, perfeito e insubstituível.»
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| Cláudia Lopes e Miguel Gouveia, os editores da Bruaá entrevistados por «Tantas Páginas» |
«[...]
[...]»
sábado, 21 de janeiro de 2012
«Parece-me que os leitores de poesia, como os espectadores de futebol gostam de ir aos estádios, terão sempre prazer em ter um livro, folheá-lo, marcá-lo, emprestá-lo.»
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| Mário Guerra, aka Changuito, da Poesia Incompleta, em Lisboa |
Será, parece-me que já o está a ser, uma realidade que alterará o comércio das bestas céleres (para usar um termo de Alexandre O´Neill). O livro passará a ter um trajecto diferente e que pode não passar sequer por livrarias em linha. Pode ir directo de editores a leitores. No entanto, acho que os livros como os de poesia, bem como as livrarias especializadas, sejam elas quais forem, terão vida longa. Mais rapidamente vejo os grandes retalhistas a sofrerem com as livrarias em linha, e a terem de modificar as suas estruturas, do que fechar uma grande livraria de viagens, de livros policiais, de arte ou de poesia. Vejo, por exemplo, o Rui Pedro Lérias, da Loja de História Natural, falar dos livros que vende com uma intimidade que não encontro paralelo em lado nenhum. Ouço qualquer das pessoas que compõem o magnífico trio da Letra Livre e penso que com eles posso ficar a saber alguma coisa do muito que eles sabem. Passa-se o mesmo com o Luís Gomes, da Artes & Letras, um navio ancorado no Largo Trindade Coelho, disfarçado de livraria.»
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
«Ando há dias a pensar nos livros que leio. No que é ser leitor, mas leitor a sério...»
«[...]
Cada vez tenho menos pessoas para falar de livros. Cada vez tenho mais livros. Cada vez leio mais e de forma mais dispersa. Os livros são grandes demais para os meus metros quadrados. Mas hão de caber todos cá dentro.
Rosa Azevedo, no «estórias com livros».
«A Vida Secreta dos Livros»
«Anda a circular pelo Facebook há tanto tempo que já era altura de o partilhar aqui também. “The Joy of Books” é um vídeo feito pela equipa da Type, uma livraria de Toronto, que confirma aquilo de que já se desconfiava: à noite, quando ninguém está a ver, os livros têm vida própria (e é por isso que mantenho autores ingleses e irlandeses em prateleiras separadas, assim como espanhóis e catalães, bascos ou galegos, já para não falar de teólogos e cientistas).»
Sara Figueiredo Costa, Cadeirão Voltaire.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Ler livros
Pedro Osório
[Ouvido esta tarde, no carro, e citado de memória - Luís Guerra]
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Leio porque... busco um sentido para a vida.
«Leio porque posso. Leio porque sou livreiro. Leio porque me dá prazer. Leio porque me enriquece. Leio porque a leitura me ajuda a passar os momentos de solidão. Mas leio sobretudo porque busco um sentido para a vida: (...)»
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
«Há uma luz, ao fundo do túnel! Estás a vê-la?»
- Há uma luz, ao fundo do túnel! Estás a vê-la? Parece que algo de bom a crise vai trazer: melhores leitores, melhores leituras.
- Bons conselhos, Livreiro Velho?
- Não será bem o que estás a pensar, julgo eu. Estás supondo que te venho com uma lista de títulos, como duas vezes por ano os jornalistas culturais gostam de fazer, uma no verão – as leituras de férias – outra no Natal – os livros que hás-de oferecer?
- Não me digas que desaprovas!
- Também não é bem isso… Deixemos as listas para tu as fazeres a teu gosto e discernimento.
- Então?
3.º – Vê se consegues dar uma volta por uma boa livraria que te ofereça diversidade e qualidade. Com calma.
Boas livrarias, essas? Oh! Por favor! Também tu, não! Seria de mais! Boas livrarias essas, onde há muito à vista e pouco para ver? Por favor!…
Uma hora tranquila numa boa livraria. E vais ver que, no que te digo, há uma forte razão a favor de quem sabe o que escolhe. Depois dizes-me se encontraste ou não um livro «mesmo, mesmo…»?
4.º – Já agora, para acabar: como vai a crise levar as pessoas a ler mais e a escolher melhor os seus livros?
Mais esta semana para vermos, nas livrarias também, como vai a crise dos bolsos, a real, e a outra, a crise das cabeças, a psicológica, aquela com que, para mais facilmente nos conformarmos com o jugo, políticos e financeiros nos atacam, a culpar-nos dos seus desmandos, guerras secretas e surdas, ambições desmedidas de poder e dinheiro, onde os crimes em águas turvas são dos tais que de vez em quando vêm ao de cima.
- E será que ler mais e melhor nos vai ajudar a resistir à crise?
- Há quem pense que…
Queres ver? Por acaso ou de propósito, guardei aqui sobre a mesa para te pedir que releias agora, nesta quadra, umas palavras que sublinhei.
Penso que também as leste na altura, mas nada se perde em as relermos por boa introdução a esta última semana do «Natal dos Livros».
Ora, o problema do colapso económico, da provável redução dos nossos luxos, pode ter consequências muito boas. Quando as coisas estão mal, muito mal, as pessoas começam a ler com seriedade, a ler melhor ( George Steiner, «A Necessidade de Ler», revista Ler, n.º 100, Março de 2011, pág. 31).
L. V.
sábado, 10 de dezembro de 2011
«Podemos, para este nosso convívio, pedir a Onésimo Teotónio Almeida, um pouco mais do seu observar e reflectir sobre estes nossos assuntos?»
LIVROS-EL: do princípio ao fim
Livro ELectrónico é bom para ler?
Quem diz que sim levanta o braço!
Agora quem diz que não!
Livro em papEL é bom para ler?
Quem diz que sim?
Quem diz que não?
«As vendas líquidas de e-books cresceram para cerca de 50 milhões de euros em Janeiro de 2011, face aos 23 milhões de euros do mesmo período de 2010. A venda de livros de capa dura caiu de cerca de 40 milhões de euros em Janeiro de 2010 para 35 milhões no mesmo período de 2011. Títulos de capa mole caíram 30% no mesmo período». http://oml.com.pt/blogs/category/e-book/
Fora do contexto, uma citação não vem servir de resposta, vem só trazer uma chave para…
De quantos milhões de livros com «el» de livro de papel ou de livro electrónico se alimentou a leitura de Janeiro de 2010 a Janeiro de 2011?
A meu ver, para um livreiro que, lendo esta citação e o mais do antes e depois dela, queira pôr-se a discutir, a sós com os seus botões, o futuro da sua profissão, é esta uma bem melhor pergunta.
E não há que discutir esse outro assunto: «livros em papel condenados a desaparecer»?
Os e-books a precipitarem-nos no puro passado em que eles, grande malvadez!, fizeram desaparecer os livros em pergaminho & c.ia.
Em boa hora uma crónica honrosa de um dos melhores cronistas portugueses actuais, Onésimo Teotónio Almeida, escrita e aqui lida entre nós em cima do acontecimento («Na primeira página do New York Times desta manhã»), traz o tema a um blogue como este do Encontro-Livreiro que por sinal até dá pelo nome de «ISTO NÃO FICA ASSIM!».
E não deixei de prestar atenção ao sentido dos comentários que suscitou.
Já noutros sítios e por várias vezes, tal como o do futuro das livrarias, este assunto do futuro do livro em papel surgira a meus olhos ou ouvidos no discurso de Onésimo Teotónio Almeida.
Futuros um e outro para nós muito importantes, sem dúvida, numa hierarquia dos muitos temas que têm de ocupar - e digamos que também preocupar - quem vive dedicado ao Mundo dos Livros e da Leitura.
Muito importantes!
E por isso é tão mais gratificante este vir ter connosco de Onésimo Teotónio Almeida quanto, sendo ele um intelectual de reconhecida autoridade, a sua reflexão nos parece e aparece como uma muita dedicada e até preocupada atenção.
Podemos, para este nosso convívio, pedir a Onésimo Teotónio Almeida, um pouco mais do seu observar e reflectir sobre estes nossos assuntos?
Sem querer dar trabalho, mas apenas numa hipótese de gosto de comunicar com quem tem prazer e interesse em debater estes temas.
M. Medeiros
domingo, 4 de dezembro de 2011
Os salvadores do livro?
Infelizmente isso fará subir o preço porque as capas de alguns vão ser quase objets d'art, no entanto as editoras prometem, na maioria dos casos, não exagerar. É só mesmo fazer com que o comprador goste de ter um livro que dê consolo ao manuseio e para que se olha com afecto.
O artigo continua numa página interior, tomando-a quase toda. Termina com uma citação de Julian Barnes que, ao aceitar em Londres o Man Booker Prize pelo seu livro mais recente The Sense of an Ending, já em português, O Sentido do Fim, que ainda não comprei mas vou mesmo comprar porque o homem lê-se com gosto, disse: Aqueles de vocês que já viram o meu livro, provavelmente concordarão que é um belo objecto. E se o livro físico, como se lhe tem agora chamado, vai resistir ao desafio do e-book, terá de ter um aspecto digno de se comprar e de se guardar.
Pois é isso aí. Quer dizer: agora é que vai fazer sentido aquele aviso da cultura anglo-americana: Don’t judge a book by its cover.
Eu, que continuo a resistir ao e-book, leio e rejubilo com esta notícia. No meio de tantas más, para além da descida da taxa de desemprego nos States, esta não pode deixar de me afagar pelo menos tanto como o sol que me entra pela janela nesta outonal e plácida manhã de domingo, de evocar aquele belo poema de Roberto de Mesquita, um dos únicos alegres dessa melancólica alma cativa.
4 do Dezembro de 2011
Onésimo Teotónio Almeida
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Chega de lamúrias

«Chega de lamúrias, pois aqueles que não gostam de cultura nem de livros, mas que governam o sector, até se riem da nossa postura. Por mim, tenho força para desmascarar em público essas empresas. Compro, vendo e pago, daí que nada temo. Na vida nada é eterno. Aguardar o futuro é o melhor. Grandes impérios também caem, a história prova isso.»
Antero Braga - Prólogo / Lello
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
«Devemos lembrar que a indústria do livro é feita de pessoas, que publicam e lêem, têm sentimentos e emoções.»
John McNamee, presidente da Federação Europeia de Livreiros.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
O presente e o futuro das livrarias
Antes de avançar para o tema específico deste texto, desejaria abrir um parêntesis, fazer uma breve distinção entre o que é uma livraria propriamente dita e o que é, por oposição, um espaço comercial que também vende livros.
As diferenças e desigualdades entre uma e outra são muitas e não importa aqui analisá-las topas em pormenor - elas são óbvias. Diria, de uma forma simples, que a principal diferença estará, provavelmente, na presença de um livreiro ou, pelo contrário, de um mero vendedor de livros. Tipicamente, o lema do vendedor de livros será «vender livros é como vender batatas». Um lema que se tornou anedota entre os livreiros: para vender batatas é preciso saber conseguir distinguir entre batatas para fritar, cozer ou assar; o que é quase a mesma coisa, como toda a gente sabe, de ambicionar a saber diferenciar entre, por exemplo, literatura surrealista, neo-realista e existencialista.
Ironia à parte, é exactamente por isso que se diz que já não há livreiros como antigamente. Que são uma espécie em vias de extinção. Que as grandes cadeias acabaram com eles. Que o funcionário que nos acolheu não sabia o que estava a fazer. De facto, tudo isso é verdade. Mas isso só acontece porque o livreiro é uma figura rara. Existiram e existem muito poucos, e sempre foi assim. Viver no meio de todo um universo de conhecimento humano, ainda que seja um privilégio, requer exigência e complexidade. E, como tal, não devemos pautar-nos pela mediocridade.
O livreiro é um autodidacta, não há nenhuma licenciatura que o possa formar. Claro que se pode e deve dar formação a quem queira trabalhar numa livraria, ou que, enquanto gestor e empresário, pretenda criar uma. Todavia, ser livreiro é outra coisa, é muito mais do que, simplesmente, vender livros. Tem de saber dignificá-los, amá-los, conhecer a sua história, lê-los, relê-los, entusiasmar-se por quem os escreve. Tem de compreender toda a cadeia do livro, desde que nasce, da mão do autor, até chegar ao leitor. Tem de conseguir vendê-los honestamente e incentivar o gosto pela leitura. E, se assim for, poderá reivindicar para si um papel importante como agente cultural.
Terminaria esta curta introdução, com uma afirmação que parece contraditória: Um livreiro não vende livros!
Um livreiro vende, antes de mais: aventuras, viagens e “Dom Quixote de La Mancha”; continentes, países, cidades e “Volta ao Mundo em Oitenta Dias”; romances, dramas, sexo e “Orgulho e Preconceito”; história, civilizações e “Odisseia”; batalhas, ódios e “Guerra e Paz”; reis, rainhas, “O Príncipe” e “ O conde de Monte Cristo”; música, versos, poemas e “Pessoa”; sonhos, auto-ajuda, artes divinatórias e outras mentiras. Tudo isto e muito mais, numa caixa chamada livro.
Passo agora para o tema aqui em questão.
Nos dias que correm parece ser uma fatalidade, em qualquer lado, em vez de ouvir falar, por exemplo, de livros, literatura e lazer, ser obrigado a ouvir falar de crise económica, política e mercado. A contragosto, também eu me vejo a isso forçado.
Começo com uma pergunta: será que as livrarias, tal como as conhecemos hoje, estarão a extinguir-se?
Eu responderia que sim. Porquê? Por causa da crise económica e financeira? Das políticas culturais e baixos índices de leitura? Das novas tecnologias e do livro digital ou, antes disso, uma causa interna ao próprio mercado do livro? Estas são algumas das possíveis questões, às quais vou tentar responder em traços largos.
Nos últimos meses têm-nos chegado notícias preocupantes sobre o encerramento contínuo de livrarias, tanto no estrangeiro como em Portugal. Para dar um exemplo, só nos últimos seis meses, encerraram mais de dez livrarias independentes, espalhadas pelo país. Infelizmente, é provável que fechem mais, não apenas entre as livrarias independentes, mas também entre as lojas das grandes cadeias - muito à semelhança do que está a acontecer por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.
Evidentemente, a crise económica, que teve o seu início em 2008, será a razão principal para o que está a acontecer, ou seja, o golpe que faltava para que as livrarias tradicionais definhassem de vez. Não podemos escamotear que esta é uma crise económica real, de dimensão inesperada e bem perceptível na degradação das condições de vida da maioria das pessoas. Mas não servirá esta crise, como bode expiatório perfeito para todos os males da cadeia do livro? Parece-me que sim.
Deixem-me colocar de lado a crise económica e financeira, para passar a abordar outro tema, outra crise, anterior à crise económica, e que vou apelidar de crise endógena.
Não poderemos compreender o presente, nem perspectivar melhor o futuro, se não olharmos primeiro para o passado. Neste sentido permitam-me partilhar a minha experiência, de 26 anos, a trabalhar com o livro e para o livro.
Quando comecei o ofício de livreiro, o mercado do livro generalista não era um mundo perfeito, nem idílico. Todavia, era mais homogéneo, simbiótico, bastante mais do que é hoje, no sentido em que todos dependiam de todos, como deve ser um mercado que pretende atingir a concorrência perfeita.
Os diversos agentes da cadeia do livro estavam razoavelmente equilibrados, tanto ao nível das dimensões quanto ao número de editoras, livrarias e outros agentes do livro. Era sobretudo composta por pequenas e média empresas. Havia diversidade cultural e partilhavam o mercado, com as suas especificidades, em concorrência saudável.
As regras tácitas estavam estabelecidas e eram quase sempre honradas. Particularmente no que se refere às margens comerciais e prazos de pagamento, concedidas pelos editores aos livreiros. As margens de pequenos, médios e grandes livreiros oscilavam entre 30% e 35% sobre o preço de venda ao público. Mas esta diferença podia facilmente ser anuladas através da diferenciação da qualidade do serviço. Actualmente, a discrepância da margem entre pequenos livreiros e grandes retalhistas varia entre 30% e 60%. O que é manifestamente injusto e incompatível para a manutenção de um mercado de concorrência equilibrada.
Evidentemente que a tiragem do número de livros e títulos editados também era muito menor, mas quantidade não significa qualidade e nem sempre melhores proveitos.
Uns anos mais tarde, por volta do ano de 1998, tudo mudou. Entram em cena os grandes grupos de retalho. Os livros passam a vender-se, um pouco por todo o lado, na FNAC, nos hipermercados, nos CTT, nas Bombas de gasolina, etc. As livrarias independentes, que representavam cerca 50% do mercado, diminuem rapidamente, para menos de 15%. Este factor fez com que estas passassem a ser, por comparação com o grande retalho, ostracizadas pelos editores. Simplesmente porque, individualmente, significavam uma pequeníssima parcela das suas vendas. Portanto, dispensáveis para a viabilidade económica de grande parte das editoras. – A meu ver, isto é incompreensível, tendo gerado grandes prejuízos no passado, e indo ainda gerar outros tantos no futuro, e não me refiro só aos livreiros, mas também a editores e leitores.
Neste novo ambiente, dá-se uma espécie de «bolha especulativa» da edição, do número de livros editados, sem correspondência proporcional com o aumento das vendas – «parece que as pessoas, com o aumento da escolaridade, em vez de quererem ler mais, passam a querer ser lidas» –.
É a chamada democratização do livro e, com ela, a uniformização, que tem infelizmente como resultado a tradução de edições pouco cuidadas e de qualidade literária duvidosa.
A dimensão de alguns retalhistas e a convergência da maioria das vendas em poucos operadores levaram à consequente diminuição das margens comerciais dos médios e pequenos editores. O sector editorial, sem capacidade negocial junto do grande retalho, vê-se em apuros. E procura uma saída para a crise nos novos grupos económicos, recentemente atraídos ao mercado do livro, que aparentemente consideraram ser um bom negócio. A seguir dá-se a concentração editorial, as pequenas e médias editoras passam de editoras independentes a meras chancelas, propriedade de investidores especulativos. Este novo cenário conduziu a que o mercado do livro se tenha transformado num oligopólio, tanto no sector editorial, como no sector do retalho. Com a especulação, as margens comerciais passam a ser ilógicas, totalmente desiguais, injustas. É como se tivéssemos colocado no mesmo ringue de boxe, sem árbitro, um peso pesado e um peso pluma e depois, de poltrona, ficarmos à espera de um final surpreendente.
A lei do preço fixo passa a não ser respeitada. A proliferação de feiras e campanhas, um pouco por todo o lado, cria no leitor a percepção de que o livro é barato, vulgar e que deve ser vendido com respectivo desconto e brinde a custo zero. E, no entanto, pura ilusão. Afinal de contas, não será que as coisas gratuitas nos podem trazer problemas, uma vez que objectos que nunca sonharíamos comprar se tornam tão apelativos, assim que são gratuitos? –
A lei da concorrência – não sendo eu jurista – parece não estar a ser aplicada, especificamente em algumas alíneas dos artigos n.º 4 e n.º 7. Na minha perspectiva, há controlo da distribuição, bem como privação temporária das fontes de abastecimento em prazo razoável de concorrência. Acontece, igualmente, fazerem-se edições de livros exclusivos, designadamente para a FNAC, privando o resto dos livreiros de acederem aos mesmos – não é ilegal, mas é no mínimo deselegante e pouco solidário entre parceiros. Para dar outro exemplo, os pequenos livreiros recebem, frequentemente, títulos que encomendaram ao mesmo tempo que os grandes retalhistas, e qual não é espanto quanto recebem os mesmos livros apenas um mês depois. Por vezes nem sequer recebem a primeira edição, mas as segundas ou terceiras edições. Será esta prática de abastecimento equitativa, adequada a uma concorrência saudável?
Depois da crise endógena e da crise económica, surge, quase ao mesmo tempo, a crise do livro impresso.
O livro, em forma de códice, tal como ainda o concebemos, vem sendo paulatinamente substituído pelo livro digital e pelo acesso fácil a conteúdos na Internet, particularmente no que diz respeito aos livros práticos e técnicos – alguém ainda se lembra da última vez que comprou uma enciclopédia em papel? Talvez sejam excepção os livros que se querem ler na íntegra, como os romances, a poesia, os livros infantis e similares. Todavia, temos recentemente o exemplo do último livro de José Saramago, que saiu primeiro em ebook e só depois em papel. Provavelmente, muitos mais se seguirão. Creio ainda que, através do livro electrónico, a leitura deixará de ser um acto individual, para passar a ser uma leitura social em rede. Não quer isto dizer, necessariamente, que seja uma má notícia para os leitores. No entanto, se o livro impresso deixar de ser financeiramente interessante para as grandes superfícies comerciais, serão estas, também, as primeiras, tão rapidamente como lhes deram importância, a retirar-lhes o espaço merecido.
A verdade é que há coisas, ou contrário de outras, que actualmente surgem muito depressa; absurdamente ou não, até a multinacional IKEA pretende lançar brevemente estantes para ebooks. Seja lá isso o que for, parece-me sintomático.
Quanto ao futuro das livrarias. A vantagem de se falar do futuro é de que ele ainda não aconteceu. E, como tal, tudo o que eu pudesse dizer não estaria errado. Se, por acaso, no futuro se verificasse o contrário, teria boas hipóteses de ninguém se lembrar do que eu disse. Por outro lado, se adivinhasse o futuro, seria considerado um visionário. Mas prefiro não arriscar vaticínios e deixar simplesmente algumas reflexões em jeito de perguntas:
- Será que um sector livreiro que assegure a pluralidade e a diversidade cultural, que divulgue o livro e a leitura, não deve ser protegido em caso de necessidade?
- Será que a variedade que caracteriza o mercado livreiro não é apenas a expressão do desenvolvimento cultural de um país, mas também a de todo um espaço linguístico?
- Por oposição aos supermercados de papel, não é verdade que os livreiros oferecem outros serviços, como o aconselhamento técnico, a selecção e a encomenda de outras obras que não só aquelas do êxito do momento?
- Não é verdade que, por cada livraria de bairro ou de província que tenha de fechar, por ser incapaz de acompanhar os baixos preços das grandes superfícies, representa uma perda para o abastecimento espiritual e cultural daquela zona?
Se o mercado do livro se mantiver como está, persistindo na prática de uma concorrência imperfeita, regulação e fiscalização estatal ineficazes, falta de ética, procura do lucro fácil e alimentando a perspectiva de que o livro é produto para consumidores e não para leitores (no sentido tradicional), correremos o risco de um dia, ao passearmos pelas ruas de algumas das nossas vilas e cidades, ao lado dos nossos já crescidinhos netos, sermos surpreendidos com a pergunta:
- Avô, o que é uma livraria?
Jaime Bulhosa – Pó dos Livros (Lisboa)
[Texto apresentado ao I Congresso do Livro, realizado nos dias 28 e 29 de Outubro de 2011 em Praia da Vitória, Açores e que o autor, a quem agradecemos, nos enviou para publicação no ISTO NÃO FICA ASSIM!, blogue do Encontro Livreiro. Um texto que, pensamos, deverá merecer a reflexão e os comentários de todos quantos desejem vir ao nosso encontro e a este espaço sempre aberto à participação das «gentes do livro»].








