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sexta-feira, 30 de março de 2012

«... os livros e as livrarias têm futuro: então, os leitores deixaram de existir?»


É verdade que trabalho numa grande loja onde há um espaço bem grande onde os livros se acotovelam uns aos outros na tentativa inglória de mais depressa seduzirem o incauto cliente do que o livro vizinho. E o stress é muito, os clientes são muitos mas nunca demasiados, as tarefas são muitas: descarregar paletes, atender, distribuir caixas por cada secção, atender, arrumar os excessos, voltar a atender, devolver livros parados há sabe-lá-o-diabo, destacar o que há para destacar e até aquilo que não devia ter saído de uma gaveta.

Sim, é verdade que há pessoas que trabalham em livrarias um pouco por todo o país - ou em sítios onde se vendem livros, que agora já os há em qualquer bomba - que arrumam livros como quem arruma croissants, que lê livros como quem lê marias e lux, porque a realidade, para estas pessoas, é bem mais necessária, impõe-se, acarreta peso e responsabilidade, é socialmente correcta. para estas pessoas, ler nunca equivale a viajar, nunca pode significar uma aprendizagem, nunca será o mesmo que sonhar. ler ficção - seja ela literatura ou bd, escrita na vertical ou na horizontal e em technicolor - pode constituir um escape, é verdade, mas é muito mais que isso: é quase sempre uma possibilidade de auto-descoberta ou até de epifania.

Às vezes penso que será disso que as pessoas que não lêem ou preferem não ler têm medo: de perceber quem são e o seu potencial e de ver a realidade como ela é, mutável pela nossa capacidade de agir com base no que ambicionamos e sonhamos e queremos fazer.
Ora, era eu cachopa e sonhava muito! Lia muito, conversava com os gatos e as galinhas e as personagens dos livros que tanto lia, eram os meus melhores amigos. Quando um professor me dizia para ler um livro da colecção Viagens no Tempo, eu lia vários. Quando uma professora me encorajou, aos 6 anos, a aprender inglês sozinha (na altura, só se tinha aulas de inglês a partir do 5º ano no ensino público), comprei a Essential Grammar in Use de Raymond Murphy da Cambridge e depois das férias do verão, já tinha feito todos os exercícios. A minha determinação e optimismo provinham do encorajamento que a leitura me dava, para além do prazer simples da história a desenhar-se diante dos meus dedos: se ao ler, eu aprendia coisas que me tornavam mais conhecedora do mundo e se revelavam úteis no meu dia-a-dia num bairro social quase ghetto dos anos 80, onde alcoolismo, drogas, abusos e violência eram diários, a solução era continuar a ler, ler muito e ainda mais.

Se, por um lado, cresci na cidade, foi no campo que aprendi mais sobre a delicadeza das relações humanas e a fragilidade do coração.
Lembro-me de um estio deslumbrante, tinha eu uns 8 anos, estava em casa dos meus avós a passar as férias grandes e tanto insisti com o meu avô que ele, finalmente, acedeu a dar-me um dos livros da sua biblioteca para ler. Empurrei lentamente a porta envidraçada, a porta do lado esquerdo a fingir que escondia uma teia de aranha, a luz a entrar pela janela a oeste e a esbarrar nela.
Tirei um livro ao acaso: Eurico, o presbítero. Alexandre Herculano era difícil com aquela idade. A minha mãe ensinara-me a ler aos 4 anos e era uma habilidade de cariz circense, quase, porque não conhecia ninguém que não convidasse moscas com seu espanto ao observar-me a ler em voz alta (algo que ainda hoje me dá gozo), mas Herculano era mesmo difícil. Infelizmente, o meu avô era muito perspicaz e se notasse em mim a mínima hesitação ou o esfriar do meu entusiasmo, certamente teria sido banida da biblioteca por algum tempo. A minha mãe chamava-me teimosa com frequência, e não larguei aquele livro o verão inteiro.

Com certeza que os livros e as livrarias têm futuro: então, os leitores deixaram de existir? Claro que não. A internet é um bicho? Não é nada, eu estou sempre a pesquisar milhares de livros aqui e depois compro-os onde? Na Fnac, no senhor André da Livraria Lácio (aprendi tanto com esse grande livreiro, desde 1994 a formar a livreira Sandra), na Antiga do Carmo onde ia com o meu avô quando ele vinha a Lisboa. Nada substitui essa experiência, quanto a mim, onde se inclui a conversa lúcida com o livreiro ou, quem sabe, com outros leitores.

É essa experiência que eu tento reproduzir há 12 anos, desde que trabalho com público e com livros, e é esse caminho que quero continuar a trilhar, bem-disposta e apaixonada. E um dia, quando tiver a minha livraria - onde o tempo não vai correr como corre numa fnac - também eu vou formar livreiros. Por enquanto, vou dar o meu melhor e estar consciente de que ainda não chega.


Sandra Oliveira
Livreira, Fnac Chiado (Lisboa)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Uma grande paixão

                                                                                         Acordo Fotográfico (pormenor)

«Por muito que eu fotografe gente a ler quase todos os dias, cada encontro é único e confirma que os livros lançam sobre nós uma espécie de feitiço bom. Aquele que 
leva perfeitos estranhos a falar sem reservas sobre uma grande paixão: ler.»

terça-feira, 20 de março de 2012

Os livros...


«Os livros não nos deixam dormir sozinhos.  Fazem parte de nós. Do nosso caminho. Das nossas opções.»

Alexandra Vieira - Arquivo (Leiria)

domingo, 11 de março de 2012

[NÃO] TENHO A OBSESSÃO DAS LIVRARIAS

Livrarias, assunto em Março.

[...]

É! É isso! No passado este país estava  cheio de livrarias, apesar de mesmo em Lisboa escassearem à vista desarmada ao sair da Baixa. Quantas contei, em 1970, nas zonas de novas habitações?  Lisboa crescera, o comércio livreiro não acompanhara.

[...]


Se ao menos… Mas não, não sentem falta. Pessoas tão conhecedoras de tudo e tão respeitadas pelos seus saberes, poderes e cultura!… Algumas até escrevem tanto e tão bem, que se vê à légua que deviam ler e ter lido um bocadinho mais.

Lê-se a crónica de Francisco Belard. Escreve-a sem que seja por «obsessão das livrarias», mas por ser um daqueles leitores que fazem renascer a esperança dos livreiros ao dizerem de si para si: «felizmente  continua viva esta raça de leitores autênticos».


[...]

L. V.
  
Um texto que deve ser lido da íntegra AQUI.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

«Que ideia? O sector livreiro apanhado pela crise? Se já lá estava...»


FEVEREIRO DE 2012: MAIS DESENCANTO?

Para muita gente o ritmo dos meses conta muito. Pode até dizer-se que para muita gente é o que mais conta. Mais do que o ritmo dos anos, das semanas, das estações. As contas ao mês, é o que é!
- Aonde vais querer chegar com essa conversa?
- Eu a querer chegar a algum lado? Sozinho? Eu? De modo algum!
- Mas alguma estás a querer dizer…
- O que mais me impele a abrir o postigo é perguntar, mais para mim do que para mais alguém:
Fevereiro: outro mês de desencanto?
Porque a andar de roda é como vejo andar as gentes que vão passando por estas encostas e pelos vales que daqui se avistam e se vê que não foram cultivados no tempo propício. Sobre os problemas que já havia, chovem de todos os lados problemas e mais problemas. Anda muita gente à roda deles, mas ninguém dispara o tiro que indique a direcção de um caminho para as soluções.
- Estás a falar do sector livreiro?
- Que ideia? O sector livreiro apanhado pela crise? Se já lá estava…
- Mas melhora ou piora?
- Steiner disse que... Disse até mais, na entrevista publicada na Ler n.º 100:
«Mas não se pode ter medo do futuro. Ter medo do futuro é suicida, uma espécie de suicídio intelectual».
Gostava de saber se muitos de nós damos algum crédito a estas palavras e também a estoutras que antes delas ia eu em citar:
«Quando as coisas estão mal, muito mal, as pessoas começam a ler com seriedade, a ler melhor».
- E tu acreditas nisso?
- Não digo que sim nem digo que não. Será que com a loucura provocada pelo ruído da crise muita gente vai ficar lúcida? Ao ponto de, para não enlouquecer ainda mais, se decidir a fechar os noticiários e a abrir um livro que encante, liberte, esclareça sobre como vamos sair desta, todos e cada um de nós?
Janeiro não deu para ver.
E Fevereiro?
Ter medo do futuro é suicídio:
Pode ser que este novo e segundo mês do ano comece com uma vaga de frio, mas acabe por escrever uma página que nos anime, se a procurarmos, encontrarmos e lermos.
Será que as pessoas irão andar menos às compras, ficando assim com algum tempo para passarem pelas nossas livrarias?
A descoberta dos livros que merecem ser lidos!
«Ler com seriedade»!
«Ler melhor»!

L. V.
«Disparar: "ler com seriedade" - "Ler melhor"», publicado hoje em Chapéu e Bengala.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

«(...) este asséptico assalto digital só fará que daqui a uns tempos se assista a uma maior valorização do livro que se toca, cheira e que, no final de contas, se manteve igual a si próprio, ou seja, perfeito e insubstituível.»

Cláudia Lopes e Miguel Gouveia, os editores da Bruaá entrevistados por «Tantas Páginas»

«[...]

TP. Têm iPad? E Kindle? Como vêem o futuro do livro infantil em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata? Estão preparados para o e-book?

B. Não temos. No entanto, estamos conscientes das suas potencialidades e temos estado atentos ao que se passa. Muita coisa vai mudar, é certo, mas nada nos faz temer pelo futuro do livro, muito menos pelo infantil. Pelo contrário, este asséptico assalto digital só fará que daqui a uns tempos se assista a uma maior valorização do livro que se toca, cheira e que, no final de contas, se manteve igual a si próprio, ou seja, perfeito e insubstituível.

[...]»

Cláudia Lopes e Miguel Gouveia [Bruaá Editora]
Ler entrevista completa no «Tantas Páginas»

sábado, 21 de janeiro de 2012

«Parece-me que os leitores de poesia, como os espectadores de futebol gostam de ir aos estádios, terão sempre prazer em ter um livro, folheá-lo, marcá-lo, emprestá-lo.»


Mário Guerra, aka Changuito, da Poesia Incompleta, em Lisboa

«PT. Tem um iPad? E Kindle? Como vê o futuro do livro de poesia em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata?
C. Nem um, nem outro. Tive cães e gatos a que podia ter chamado kindle ou ipad, mas agora acho que já vou tarde. Parece-me que os leitores de poesia, como os espectadores de futebol gostam de ir aos estádios, terão sempre prazer em ter um livro, folheá-lo, marcá-lo, emprestá-lo.

Será, parece-me que já o está a ser, uma realidade que alterará o comércio das bestas céleres (para usar um termo de Alexandre O´Neill). O livro passará a ter um trajecto diferente e que pode não passar sequer por livrarias em linha. Pode ir directo de editores a leitores. No entanto, acho que os livros como os de poesia, bem como as livrarias especializadas, sejam elas quais forem, terão vida longa. Mais rapidamente vejo os grandes retalhistas a sofrerem com as livrarias em linha, e a terem de modificar as suas estruturas, do que fechar uma grande livraria de viagens, de livros policiais, de arte ou de poesia. Vejo, por exemplo, o Rui Pedro Lérias, da Loja de História Natural, falar dos livros que vende com uma intimidade que não encontro paralelo em lado nenhum. Ouço qualquer das pessoas que compõem o magnífico trio da Letra Livre e penso que com eles posso ficar a saber alguma coisa do muito que eles sabem. Passa-se o mesmo com o Luís Gomes, da Artes & Letras, um navio ancorado no Largo Trindade Coelho, disfarçado de livraria.»

Changuito [Poesia Incompleta]
Ler entrevista completa no «Tantas Páginas»

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

«Ando há dias a pensar nos livros que leio. No que é ser leitor, mas leitor a sério...»


«[...]

Quanto mais o tempo passa, quanto mais leio, menos acho que sei. E mais me fascino com os leitores e quero ser como eles. Mas não quero mais ter conversas com quem sabe antes de saber. Porque a leitura é um acto de amor e o amor não se pode disfarçar de sabedoria. Porque a esses a rasteira vem rápida e certeira. E o que é aparentemente inteligência pode passar a pedantismo o que é uma pena.
Cada vez tenho menos pessoas para falar de livros. Cada vez tenho mais livros. Cada vez leio mais e de forma mais dispersa. Os livros são grandes demais para os meus metros quadrados. Mas hão de caber todos cá dentro.

Rosa Azevedo, no «estórias com livros».

«A Vida Secreta dos Livros»



«Anda a circular pelo Facebook há tanto tempo que já era altura de o partilhar aqui também. “The Joy of Books” é um vídeo feito pela equipa da Type, uma livraria de Toronto, que confirma aquilo de que já se desconfiava: à noite, quando ninguém está a ver, os livros têm vida própria (e é por isso que mantenho autores ingleses e irlandeses em prateleiras separadas, assim como espanhóis e catalães, bascos ou galegos, já para não falar de teólogos e cientistas).»

Sara Figueiredo Costa, Cadeirão Voltaire.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Ler livros


«A fazer música sou como a ler livros. Nunca leio só um livro. Leio quatro ou cinco livros ao mesmo tempo.»

Pedro Osório
Entrevista de Ana Sofia e Armando Carvalheda, da Antena 1.

  
[Ouvido esta tarde, no carro, e citado de memória - Luís Guerra]

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Leio porque... busco um sentido para a vida.


«Leio porque posso. Leio porque sou livreiro. Leio porque me dá prazer. Leio porque me enriquece. Leio porque a leitura me ajuda a passar os momentos de solidão. Mas leio sobretudo porque busco um sentido para a vida: (...)»



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

«Há uma luz, ao fundo do túnel! Estás a vê-la?»



{Sugerimos a leitura integral do texto «Natal dos Livros», do nosso Livreiro Velho, publicado hoje mesmo no Chapéu e Bengala}

 - Há uma luz, ao fundo do túnel! Estás a vê-la? Parece que algo de bom a crise vai trazer: melhores leitores, melhores leituras.
- Bons conselhos, Livreiro Velho?
- Não será bem o que estás a pensar, julgo eu. Estás supondo que te venho com uma lista de títulos, como duas vezes por ano os jornalistas culturais gostam de fazer, uma no verão – as leituras de férias – outra no Natal – os livros que hás-de oferecer?
- Não me digas que desaprovas!
- Também não é bem isso… Deixemos as listas para tu as fazeres a teu gosto e discernimento.
- Então?

 [...]

Mas deixa-me continuar:
3.º – Vê se consegues dar uma volta por uma boa livraria que te ofereça diversidade e qualidade. Com calma.
Boas livrarias, essas? Oh! Por favor! Também tu, não! Seria de mais! Boas livrarias essas, onde há muito à vista e pouco para ver? Por favor!…
Uma hora tranquila numa boa livraria. E vais ver que, no que te digo, há uma forte razão a favor de quem sabe o que escolhe. Depois dizes-me se encontraste ou não um livro «mesmo, mesmo…»?
4.º – Já agora, para acabar: como vai a crise levar as pessoas a ler mais e a escolher melhor os seus livros?
Mais esta semana para vermos, nas livrarias também,  como vai a crise dos bolsos, a real, e a outra, a crise das cabeças, a psicológica, aquela com que, para mais facilmente nos conformarmos com o jugo, políticos e financeiros nos atacam, a culpar-nos dos seus desmandos, guerras secretas e surdas, ambições desmedidas de poder e dinheiro, onde os crimes em águas turvas são dos tais que de vez em quando vêm ao de cima.

- E será que ler mais e melhor nos vai ajudar a resistir à crise?
- Há quem pense que…
Queres ver? Por acaso ou de propósito, guardei aqui sobre a mesa para te pedir que releias agora, nesta quadra, umas palavras que sublinhei.
Penso que também as leste na altura, mas nada se perde em  as relermos por boa introdução a esta última semana do «Natal dos Livros».

Ora, o problema do colapso económico, da provável redução dos nossos luxos, pode ter consequências muito boas. Quando as coisas estão mal, muito mal, as pessoas começam a ler com seriedade, a ler melhor ( George Steiner, «A Necessidade de Ler», revista Ler, n.º 100, Março de 2011, pág. 31).

L. V.


sábado, 10 de dezembro de 2011

«Podemos, para este nosso convívio, pedir a Onésimo Teotónio Almeida, um pouco mais do seu observar e reflectir sobre estes nossos assuntos?»


LIVROS-EL: do princípio ao fim



Livro ELectrónico é bom para ler?
Quem diz que sim levanta o braço!
Agora quem diz que não!

Livro em papEL é bom para ler?
Quem diz que sim?
Quem diz que não?

«As vendas líquidas de e-books cresceram para cerca de 50 milhões de euros em Janeiro de 2011, face aos 23 milhões de euros do mesmo período de 2010. A venda de livros de capa dura caiu de cerca de 40 milhões de euros em Janeiro de 2010 para 35 milhões no mesmo período de 2011. Títulos de capa mole caíram 30% no mesmo período». http://oml.com.pt/blogs/category/e-book/

Fora do contexto, uma citação não vem servir de resposta, vem só trazer uma chave para…
De quantos milhões de livros com «el» de livro de papel ou de livro electrónico se alimentou a leitura de Janeiro de 2010 a Janeiro de 2011?
A meu ver, para um livreiro que, lendo esta citação e o mais do antes e depois dela, queira pôr-se a discutir, a sós com os seus botões, o futuro da sua profissão, é esta uma bem melhor pergunta.

E não há que discutir esse outro assunto: «livros em papel condenados a desaparecer»?
Os e-books a precipitarem-nos no puro passado em que eles, grande malvadez!, fizeram desaparecer os livros em pergaminho & c.ia.

Em boa hora uma crónica honrosa de um dos melhores cronistas portugueses actuais, Onésimo Teotónio Almeida, escrita e aqui lida entre nós em cima do acontecimento 
(«Na primeira página do New York Times desta manhã»), traz o tema a um blogue como este do Encontro-Livreiro que por sinal até dá pelo nome de «ISTO NÃO FICA ASSIM!».
E não deixei de prestar atenção ao sentido dos comentários que suscitou.

Já noutros sítios e por várias vezes, tal como o do futuro das livrarias, este assunto do futuro do livro em papel surgira a meus olhos ou ouvidos no discurso de Onésimo Teotónio Almeida.
Futuros um e outro para nós muito importantes, sem dúvida, numa hierarquia dos muitos temas que têm de ocupar - e digamos que também preocupar - quem vive dedicado ao Mundo dos Livros e da Leitura.

Muito importantes!
E por isso é tão mais gratificante este vir ter connosco de Onésimo Teotónio Almeida quanto, sendo ele um intelectual de reconhecida autoridade, a sua reflexão nos parece e aparece como uma muita dedicada e até preocupada atenção.
Podemos, para este nosso convívio, pedir a Onésimo Teotónio Almeida, um pouco mais do seu observar e reflectir sobre estes nossos assuntos?
Sem querer dar trabalho, mas apenas numa hipótese de gosto de comunicar com quem tem prazer e interesse em debater estes temas.

M. Medeiros

domingo, 4 de dezembro de 2011

Os salvadores do livro?

Na primeira página do New York Times desta manhã um artigo sobre o backlash, espécie de contra-ataque reactivo das editoras a ver se conseguem deter o triunfo rompante e impante do e-book [‘Selling Old-Style books by Their Guilded Covers’]. Estão agora a esmerar-se no lado livro-objecto-de-estimação e as capas, bem como todo o aspecto estético, ganham importância fundamental, já que no conteúdo, mesmo sendo idêntico tanto na edição electrónica como na de papel, perdem para a competição, o cada vez mais apelativo e-book.

Infelizmente isso fará subir o preço porque as capas de alguns vão ser quase objets d'art, no entanto as editoras prometem, na maioria dos casos, não exagerar. É só mesmo fazer com que o comprador goste de ter um livro que dê consolo ao manuseio e para que se olha com afecto.

O artigo continua numa página interior, tomando-a quase toda. Termina com uma citação de Julian Barnes que, ao aceitar em Londres o Man Booker Prize pelo seu livro mais recente The Sense of an Ending, já em português, O Sentido do Fim, que ainda não comprei mas vou mesmo comprar porque o homem lê-se com gosto, disse: Aqueles de vocês que já viram o meu livro, provavelmente concordarão que é um belo objecto. E se o livro físico, como se lhe tem agora chamado, vai resistir ao desafio do e-book, terá de ter um aspecto digno de se comprar e de se guardar.

Pois é isso aí. Quer dizer: agora é que vai fazer sentido aquele aviso da cultura anglo-americana: Don’t judge a book by its cover.

Eu, que continuo a resistir ao e-book, leio e rejubilo com esta notícia. No meio de tantas más, para além da descida da taxa de desemprego nos States, esta não pode deixar de me afagar pelo menos tanto como o sol que me entra pela janela nesta outonal e plácida manhã de domingo, de evocar aquele belo poema de Roberto de Mesquita, um dos únicos alegres dessa melancólica alma cativa.

4 do Dezembro de 2011

Onésimo Teotónio Almeida


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Chega de lamúrias

«Chega de lamúrias, pois aqueles que não gostam de cultura nem de livros, mas que governam o sector, até se riem da nossa postura. Por mim, tenho força para desmascarar em público essas empresas. Compro, vendo e pago, daí que nada temo. Na vida nada é eterno. Aguardar o futuro é o melhor. Grandes impérios também caem, a história prova isso.»

Antero Braga - Prólogo / Lello

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

«Devemos lembrar que a indústria do livro é feita de pessoas, que publicam e lêem, têm sentimentos e emoções.»

«Penso ainda que os governos devem ver as livrarias como um ganho cultural para a comunidade. É essencial manter livrarias de portas abertas nas principais artérias das cidades. Fazem parte do tecido económico e social das principais zonas das cidades, tal como outras lojas.»

J
ohn McNamee, presidente da Federação Europeia de Livreiros.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O presente e o futuro das livrarias

Antes de avançar para o tema específico deste texto, desejaria abrir um parêntesis, fazer uma breve distinção entre o que é uma livraria propriamente dita e o que é, por oposição, um espaço comercial que também vende livros.

As diferenças e desigualdades entre uma e outra são muitas e não importa aqui analisá-las topas em pormenor - elas são óbvias. Diria, de uma forma simples, que a principal diferença estará, provavelmente, na presença de um livreiro ou, pelo contrário, de um mero vendedor de livros. Tipicamente, o lema do vendedor de livros será «vender livros é como vender batatas». Um lema que se tornou anedota entre os livreiros: para vender batatas é preciso saber conseguir distinguir entre batatas para fritar, cozer ou assar; o que é quase a mesma coisa, como toda a gente sabe, de ambicionar a saber diferenciar entre, por exemplo, literatura surrealista, neo-realista e existencialista.

Ironia à parte, é exactamente por isso que se diz que já não há livreiros como antigamente. Que são uma espécie em vias de extinção. Que as grandes cadeias acabaram com eles. Que o funcionário que nos acolheu não sabia o que estava a fazer. De facto, tudo isso é verdade. Mas isso só acontece porque o livreiro é uma figura rara. Existiram e existem muito poucos, e sempre foi assim. Viver no meio de todo um universo de conhecimento humano, ainda que seja um privilégio, requer exigência e complexidade. E, como tal, não devemos pautar-nos pela mediocridade.

O livreiro é um autodidacta, não há nenhuma licenciatura que o possa formar. Claro que se pode e deve dar formação a quem queira trabalhar numa livraria, ou que, enquanto gestor e empresário, pretenda criar uma. Todavia, ser livreiro é outra coisa, é muito mais do que, simplesmente, vender livros. Tem de saber dignificá-los, amá-los, conhecer a sua história, lê-los, relê-los, entusiasmar-se por quem os escreve. Tem de compreender toda a cadeia do livro, desde que nasce, da mão do autor, até chegar ao leitor. Tem de conseguir vendê-los honestamente e incentivar o gosto pela leitura. E, se assim for, poderá reivindicar para si um papel importante como agente cultural.

Terminaria esta curta introdução, com uma afirmação que parece contraditória: Um livreiro não vende livros!

Um livreiro vende, antes de mais: aventuras, viagens e “Dom Quixote de La Mancha”; continentes, países, cidades e “Volta ao Mundo em Oitenta Dias”; romances, dramas, sexo e “Orgulho e Preconceito”; história, civilizações e “Odisseia”; batalhas, ódios e “Guerra e Paz”; reis, rainhas, “O Príncipe” e “ O conde de Monte Cristo”; música, versos, poemas e “Pessoa”; sonhos, auto-ajuda, artes divinatórias e outras mentiras. Tudo isto e muito mais, numa caixa chamada livro.

Passo agora para o tema aqui em questão.

Nos dias que correm parece ser uma fatalidade, em qualquer lado, em vez de ouvir falar, por exemplo, de livros, literatura e lazer, ser obrigado a ouvir falar de crise económica, política e mercado. A contragosto, também eu me vejo a isso forçado.

Começo com uma pergunta: será que as livrarias, tal como as conhecemos hoje, estarão a extinguir-se?

Eu responderia que sim. Porquê? Por causa da crise económica e financeira? Das políticas culturais e baixos índices de leitura? Das novas tecnologias e do livro digital ou, antes disso, uma causa interna ao próprio mercado do livro? Estas são algumas das possíveis questões, às quais vou tentar responder em traços largos.

Nos últimos meses têm-nos chegado notícias preocupantes sobre o encerramento contínuo de livrarias, tanto no estrangeiro como em Portugal. Para dar um exemplo, só nos últimos seis meses, encerraram mais de dez livrarias independentes, espalhadas pelo país. Infelizmente, é provável que fechem mais, não apenas entre as livrarias independentes, mas também entre as lojas das grandes cadeias - muito à semelhança do que está a acontecer por todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.

Evidentemente, a crise económica, que teve o seu início em 2008, será a razão principal para o que está a acontecer, ou seja, o golpe que faltava para que as livrarias tradicionais definhassem de vez. Não podemos escamotear que esta é uma crise económica real, de dimensão inesperada e bem perceptível na degradação das condições de vida da maioria das pessoas. Mas não servirá esta crise, como bode expiatório perfeito para todos os males da cadeia do livro? Parece-me que sim.

Deixem-me colocar de lado a crise económica e financeira, para passar a abordar outro tema, outra crise, anterior à crise económica, e que vou apelidar de crise endógena.

Não poderemos compreender o presente, nem perspectivar melhor o futuro, se não olharmos primeiro para o passado. Neste sentido permitam-me partilhar a minha experiência, de 26 anos, a trabalhar com o livro e para o livro.

Quando comecei o ofício de livreiro, o mercado do livro generalista não era um mundo perfeito, nem idílico. Todavia, era mais homogéneo, simbiótico, bastante mais do que é hoje, no sentido em que todos dependiam de todos, como deve ser um mercado que pretende atingir a concorrência perfeita.

Os diversos agentes da cadeia do livro estavam razoavelmente equilibrados, tanto ao nível das dimensões quanto ao número de editoras, livrarias e outros agentes do livro. Era sobretudo composta por pequenas e média empresas. Havia diversidade cultural e partilhavam o mercado, com as suas especificidades, em concorrência saudável.

As regras tácitas estavam estabelecidas e eram quase sempre honradas. Particularmente no que se refere às margens comerciais e prazos de pagamento, concedidas pelos editores aos livreiros. As margens de pequenos, médios e grandes livreiros oscilavam entre 30% e 35% sobre o preço de venda ao público. Mas esta diferença podia facilmente ser anuladas através da diferenciação da qualidade do serviço. Actualmente, a discrepância da margem entre pequenos livreiros e grandes retalhistas varia entre 30% e 60%. O que é manifestamente injusto e incompatível para a manutenção de um mercado de concorrência equilibrada.

Evidentemente que a tiragem do número de livros e títulos editados também era muito menor, mas quantidade não significa qualidade e nem sempre melhores proveitos.

Uns anos mais tarde, por volta do ano de 1998, tudo mudou. Entram em cena os grandes grupos de retalho. Os livros passam a vender-se, um pouco por todo o lado, na FNAC, nos hipermercados, nos CTT, nas Bombas de gasolina, etc. As livrarias independentes, que representavam cerca 50% do mercado, diminuem rapidamente, para menos de 15%. Este factor fez com que estas passassem a ser, por comparação com o grande retalho, ostracizadas pelos editores. Simplesmente porque, individualmente, significavam uma pequeníssima parcela das suas vendas. Portanto, dispensáveis para a viabilidade económica de grande parte das editoras. – A meu ver, isto é incompreensível, tendo gerado grandes prejuízos no passado, e indo ainda gerar outros tantos no futuro, e não me refiro só aos livreiros, mas também a editores e leitores.

Neste novo ambiente, dá-se uma espécie de «bolha especulativa» da edição, do número de livros editados, sem correspondência proporcional com o aumento das vendas – «parece que as pessoas, com o aumento da escolaridade, em vez de quererem ler mais, passam a querer ser lidas» –.

É a chamada democratização do livro e, com ela, a uniformização, que tem infelizmente como resultado a tradução de edições pouco cuidadas e de qualidade literária duvidosa.

A dimensão de alguns retalhistas e a convergência da maioria das vendas em poucos operadores levaram à consequente diminuição das margens comerciais dos médios e pequenos editores. O sector editorial, sem capacidade negocial junto do grande retalho, vê-se em apuros. E procura uma saída para a crise nos novos grupos económicos, recentemente atraídos ao mercado do livro, que aparentemente consideraram ser um bom negócio. A seguir dá-se a concentração editorial, as pequenas e médias editoras passam de editoras independentes a meras chancelas, propriedade de investidores especulativos. Este novo cenário conduziu a que o mercado do livro se tenha transformado num oligopólio, tanto no sector editorial, como no sector do retalho. Com a especulação, as margens comerciais passam a ser ilógicas, totalmente desiguais, injustas. É como se tivéssemos colocado no mesmo ringue de boxe, sem árbitro, um peso pesado e um peso pluma e depois, de poltrona, ficarmos à espera de um final surpreendente.

A lei do preço fixo passa a não ser respeitada. A proliferação de feiras e campanhas, um pouco por todo o lado, cria no leitor a percepção de que o livro é barato, vulgar e que deve ser vendido com respectivo desconto e brinde a custo zero. E, no entanto, pura ilusão. Afinal de contas, não será que as coisas gratuitas nos podem trazer problemas, uma vez que objectos que nunca sonharíamos comprar se tornam tão apelativos, assim que são gratuitos? –

A lei da concorrência – não sendo eu jurista – parece não estar a ser aplicada, especificamente em algumas alíneas dos artigos n.º 4 e n.º 7. Na minha perspectiva, há controlo da distribuição, bem como privação temporária das fontes de abastecimento em prazo razoável de concorrência. Acontece, igualmente, fazerem-se edições de livros exclusivos, designadamente para a FNAC, privando o resto dos livreiros de acederem aos mesmos – não é ilegal, mas é no mínimo deselegante e pouco solidário entre parceiros. Para dar outro exemplo, os pequenos livreiros recebem, frequentemente, títulos que encomendaram ao mesmo tempo que os grandes retalhistas, e qual não é espanto quanto recebem os mesmos livros apenas um mês depois. Por vezes nem sequer recebem a primeira edição, mas as segundas ou terceiras edições. Será esta prática de abastecimento equitativa, adequada a uma concorrência saudável?

Depois da crise endógena e da crise económica, surge, quase ao mesmo tempo, a crise do livro impresso.

O livro, em forma de códice, tal como ainda o concebemos, vem sendo paulatinamente substituído pelo livro digital e pelo acesso fácil a conteúdos na Internet, particularmente no que diz respeito aos livros práticos e técnicos – alguém ainda se lembra da última vez que comprou uma enciclopédia em papel? Talvez sejam excepção os livros que se querem ler na íntegra, como os romances, a poesia, os livros infantis e similares. Todavia, temos recentemente o exemplo do último livro de José Saramago, que saiu primeiro em ebook e só depois em papel. Provavelmente, muitos mais se seguirão. Creio ainda que, através do livro electrónico, a leitura deixará de ser um acto individual, para passar a ser uma leitura social em rede. Não quer isto dizer, necessariamente, que seja uma má notícia para os leitores. No entanto, se o livro impresso deixar de ser financeiramente interessante para as grandes superfícies comerciais, serão estas, também, as primeiras, tão rapidamente como lhes deram importância, a retirar-lhes o espaço merecido.

A verdade é que há coisas, ou contrário de outras, que actualmente surgem muito depressa; absurdamente ou não, até a multinacional IKEA pretende lançar brevemente estantes para ebooks. Seja lá isso o que for, parece-me sintomático.

Quanto ao futuro das livrarias. A vantagem de se falar do futuro é de que ele ainda não aconteceu. E, como tal, tudo o que eu pudesse dizer não estaria errado. Se, por acaso, no futuro se verificasse o contrário, teria boas hipóteses de ninguém se lembrar do que eu disse. Por outro lado, se adivinhasse o futuro, seria considerado um visionário. Mas prefiro não arriscar vaticínios e deixar simplesmente algumas reflexões em jeito de perguntas:

- Será que um sector livreiro que assegure a pluralidade e a diversidade cultural, que divulgue o livro e a leitura, não deve ser protegido em caso de necessidade?

- Será que a variedade que caracteriza o mercado livreiro não é apenas a expressão do desenvolvimento cultural de um país, mas também a de todo um espaço linguístico?

- Por oposição aos supermercados de papel, não é verdade que os livreiros oferecem outros serviços, como o aconselhamento técnico, a selecção e a encomenda de outras obras que não só aquelas do êxito do momento?

- Não é verdade que, por cada livraria de bairro ou de província que tenha de fechar, por ser incapaz de acompanhar os baixos preços das grandes superfícies, representa uma perda para o abastecimento espiritual e cultural daquela zona?

Se o mercado do livro se mantiver como está, persistindo na prática de uma concorrência imperfeita, regulação e fiscalização estatal ineficazes, falta de ética, procura do lucro fácil e alimentando a perspectiva de que o livro é produto para consumidores e não para leitores (no sentido tradicional), correremos o risco de um dia, ao passearmos pelas ruas de algumas das nossas vilas e cidades, ao lado dos nossos já crescidinhos netos, sermos surpreendidos com a pergunta:

- Avô, o que é uma livraria?


Jaime Bulhosa – Pó dos Livros (Lisboa)

[Texto apresentado ao I Congresso do Livro, realizado nos dias 28 e 29 de Outubro de 2011 em Praia da Vitória, Açores e que o autor, a quem agradecemos, nos enviou para publicação no ISTO NÃO FICA ASSIM!, blogue do Encontro Livreiro. Um texto que, pensamos, deverá merecer a reflexão e os comentários de todos quantos desejem vir ao nosso encontro e a este espaço sempre aberto à participação das «gentes do livro»].